Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 174

Verme (Parahumanos #1)

“Deveríamos fazer uma festa,” disse Imp. “Celebrar. Dar uma provocada um pouco.”

“Provocar?” questionou Grue.

“Sim. Festa na rua, talvez uns foguetes. Mostrar aos heróis que sabemos que vencemos e que estamos bem.”

Houve algumas risadas entre os outros. Principalmente Regent e os Viajantes.

“De que adianta isso, de verdade, ser uma ideia *sensata*?” perguntou Grue.

“Eu não disse que era sensata. Mas é divertido, e é por isso que nos metemos nisso, certo?”

“Não. Não é. Talvez fosse um bônus colateral quando eu entrei para o grupo, se for o caso, mas as coisas mudaram desde então. Eu avisei que isso seria trabalho duro, que não seria diversão e brincadeiras. E fazer uma festa para comemorar uma vitória é uma ideia monumentalmente ruim, ainda mais quando nem queremos que os heróis saibam que consideramos essa vitória algo fora do comum.”

“Na verdade, é fora do comum. Não estamos entregando nada se estamos comemorando ter assustado o Dragão.”

“Eu meio que tenho que concordar,” completou Regent. Grue se virou para mim, e eu pude imaginar o olhar de ódio que estava por trás da máscara dele. Provavelmente mais assustador do que a máscara em si.

“Talvez você esteja certo,” disse Grue, “Talvez, eu não vou dizer que você está absolutamente certo —”

“Claro que não,” suspirou Imp.

“- Mas definitivamente não precisamos esfregar na cara dos heróis. Nem se isso der uma desculpa e motivação para tentarem de novo, *logo*.”

“Se você tem medo disso, nunca vamos conseguir comemorar uma vitória.”

“Estou de boa com isso,” disse Grue.

“Podem falar também?” perguntou Trickster. “Porque eu tô do lado do Imp aqui. O moral pode ficar bem importante se a gente for criar gangues individuais e grupos de capangas.”

Grue suspirou. “Sentindo que estou em menos número aqui. Skitter?”

“O quê?” pisquei. “Desculpa, não estou acompanhando a conversa.”

“Ela está fora disso. Tattletale quebrou a Skitter quando ela disse que ganhamos,” falou Regent.

“Tô… tô bem. Perdida em pensamentos.”

Grue colocou uma mão no meu ombro. Eu não consegui ler a expressão dele por causa da máscara.

Senti uma leve saudade, bem que eu queria falar alguma coisa, mas acabei soltando um suspiro e confessei: “Acho que estou esperando o outro sapato cair. Não é assim que costuma acontecer? Logo que as coisas começam a dar certo, vem o próximo desastre? Imperial 88, Leviathan, As Nove, Dragão...”

“Isso é uma visão bem derrotista,” comentou Trickster. “A Tattletale praticamente disse que não tinha mais ninguém pra nos causar problema?”

“Sempre tem alguma coisa,” respondi. “Prefiro antecipar e estar preparada.”

“Olhe por esse lado,” falou Genesis, que estava numa forma humanóide, nada diferente de seu eu real, embora sem a cadeira de rodas. “Se for mais perigoso que Leviathan, As Nove ou a armadura do Dragão, não tem como fazermos um plano para lidar com eles até que eles dêem o primeiro passo. Se forem *menos* perigosos, dá para lidar. Relaxe, estamos em boa fase.”

Eu Dei de ombros.

“Então,” Imp esticou a palavra, “Festa?”

“Não,” eu e Grue falamos ao mesmo tempo. Imp resmungou.

“O Coil mandou a gente verificar nossas áreas. A gente devia fazer isso,” eu disse. “Tire suas fantasias, relaxe. Vou ver se a comida e a bebida que preparei pra galera da minha área ainda estão boas, e garantir que todo mundo se alimente e não tenha motivos para me linchar. Depois, provavelmente, vou dormir doze horas seguidas.”

“Espera, você acabou de dizer que não ia fazer festa?” perguntou Imp.

“Não é uma festa. Era algo que eu fazia antes das armaduras do Dragão chegarem.”

“Os heróis sabem disso?”

“A Dragão pode confirmar, ela atrapalhou os preparativos,” respondi.

“Hum, parece bastante frágil essa história,” Imp disse, claramente satisfeita demais consigo mesma. “Melhor cancelar, só por segurança.”

“Imp,” grunhiu Grue.

Imp riu, “Vou patrulhar nossa área. Vou usar meu poder, então não se preocupe em ser vista de fantasia.”

“O Coil disse que a gente não devia sair de fantasia *de jeito nenhum*,” eu disse. “Achei essa parte da mensagem bem clara.”

“Tudo bem,” ela respondeu. “Se eu não posso fazer *nada*, vou pra nossa base, vou relaxar e assistir umas porcarias de reality shows.”

“Sem TV,” disse Grue.

“Nem pensar. Se vocês querem ser os pais chatos, tudo bem, mas você não vai me impedir de assistir televisão.”

“Vai, você não vai pegar nenhum canal. Sem cabo, sem conexão digital, sem satélite. Só estática.”

Imp soltou um resmungo de dor, como alguém que acabou de levar uma flechada no estômago.

O que isso dizia sobre mim, que minhas metáforas estavam tendendo a imagens tão violentas?

“Por que você não vem aqui?” perguntou Regent, “Jogar videogame? Tenho shows em DVD. Sem porcarias de reality, mas tem umas coisinhas.”

Olhei na direção do Grue, para avaliar a reação dele ao ver Imp e Regent juntos, mas nossos olhos se encontraram, como se compartilhassemos o mesmo pensamento.

“Acho que…” Grue começou a falar.

Imp virou-se pra ele, apontando um dedo, “Chega! Você não manda na minha vida!”

“Nada de brigas, por favor,” disse Sundancer, de lado, “Já passamos de tudo.”

Grue avançou, levantando uma mão, mas Imp não lhe deu chance, recuou, balançando a mão no ar, como se fosse varrê-lo embora. “Falei o suficiente! Você não quer que eu comemore minha primeira vitória legítima, em que fui útil de verdade? Beleza! Não quero que eu saia de patrulha? Beleza! Aceito, porque sigo ordens do cara que realmente me paga. Mas se você vai reclamando porque quero jogar videogame com um colega, eu não vou ficar aqui ouvindo! Fechado?”

“Se você tivesse…” Grue começou, parou e suspirou.

“O quê?” perguntei.

“Ia dizer algo,” ele respondeu, se virando. “Mas não lembro o quê.”

Passamos por um momento de silêncio, onde ninguém sabia o que falar, e ninguém conseguiu retomar um tema anterior ou continuar de onde tinha parado.

“Fizemos o que era nossa obrigação,” finalmente disse Trickster. “Bom trabalho. Skitter está certa. Vamos recuar, cuidar de possíveis ferimentos, e tirar uma folga.”

Todos presentes, inclusive eu, assentiram ou murmurejaram de concordância.

Mais próximo da sua equipe do que do resto, Trickster explicou: “Sou o mais próximo do Coil, então vou dar uma passada, verificar a Noelle, ver se a Tattletale precisa de ajuda para libertar nosso Diretor capurado, e depois conversar com o Coil sobre o progresso nos nossos problemas.”

“Não encha o saco dele,” disse Genesis. “Qualquer que seja o plano, ele está sob muita pressão agora. Prefiro esperar alguns dias, conversar com ele depois, do que forçar a barra agora e correr o risco de deixá-lo irritado.”

“A diferença entre a gente,” disse Trickster, de forma seca, “é que eu não quero esperar.”

Com isso, ele tirou o chapéu, acenou pra mim e foi embora. Não deu nem três passos pela porta antes de trocar de coisa, deixando uma caixa de correio na entrada do shopping. Os outros começaram a se dispersar.

“Eu também vou,” disse Regent, oferecendo uma saudação imitando uma força desleixada. “Bom trabalho, chefe.”

Eu senti um calafrio. Não queria ter que puxar o assunto de assumir a liderança na conversa anterior. Olhei para o Grue, que também me encarava de volta.

“Podemos conversar?” ele perguntou. Valeu, Regent.

“Sim,” respondi.

“De fato, fizemos planos.”

“Você está namorando?” perguntou Bitch.

“Eu não disse isso,” garantiu Grue.

“Mas está namorando.”

“Sim,” admitiu. Bitch olhou pra mim pra confirmar, e eu assenti.

“Hm.” Ela, de alguma forma, transpareceu uma certa superioridade na resposta monosilábica.

“Quer vir?” perguntei a ela. “Dar um tempo com a gente?”

“Não, obrigado.”

“Tem certeza?” perguntei. “Ficando com a gente, relaxando, assistindo alguma coisa, comendo uma comida boa?”

“Cansativo demais ficar com as pessoas. Uma noite quente como essa, tempo bom, vou brincar com meus cães. Garantir que eles não estejam muito machucados, jogar umas bolas na luz do luar, comer quando quiser, dormir quando der vontade, sem me preocupar em atrapalhar alguém.”

“Você não estaria atrapalhando,” garantei.

“Tudo tranquilo. É o que me faz feliz.”

“Fica em contato. Se quiser uma companhia, passa aqui de novo, ok?”

Ela deu de ombros e virou para sair, Bentley à direita e Bastard à esquerda. Com cada passo que Bentley dava, ele parecia maior. Quando ela quase saiu de vista, Bentley já tinha tamanho suficiente para ela subir nele.

Deixando Grue e eu sozinhos no shopping.

“Quase acho que você não quer passar um tempo comigo sozinho,” comentou.

Ele olhava para mim. Senti aquela sensação de estar sendo observado, como se cada movimento meu estivesse sob a luz, qualquer coisa que eu fizesse sendo interpretada como tendo algum significado.

“Não,” disse, com muita calma. Não exatamente. Eu só não queria magoá-lo tirando seu papel na equipe, e eu sabia que isso ia surgir. Enfiei o cabelo atrás da orelha coberta pela máscara. “Não. Estar juntos assim, sozinhos, é bom.”

“Na sua casa?”

“Sim.”

Meus reforços estavam ativamente na minha área, mas estavam mais ocupados limpando a bagunça do que realmente produzindo algo. Isso irritava bastante. Nós tínhamos *alcançado algo*, e a Dragão tinha interrompido. Estamos no mundo do outro lado do espelho, pensei, onde os heróis atrapalham o progresso e a recuperação.

Entendia por que a Dragão fazia isso. Não estava dizendo que fosse culpa dela, exatamente. Ainda mais que talvez ela não estivesse mesmo comandando os armaduras. Mas ainda assim, era irritante.

O silêncio entre nós era carregado. Queria que a Bitch tivesse vindo também. Não porque fosse gerar conversa, mas porque evitaria falar de liderança do time, e a presença de uma terceira pessoa justificaria o silêncio. Era errado pensar em usá-la assim? Ou era só aceitar que ela deixa o silêncio constrangedor mais confortável, por sua própria natureza?

Usei meu poder para fazer reconhecimento do movimento das pessoas enquanto íamos até a praia. Não devíamos estar de fantasias, mas, aos aventureiros, só restava seguir em frente. Acho que o Coil entenderia, pelo menos por esse dia. Entramos na tubulação de água e seguimos até a minha base.

Charlotte e Sierra pareciam surpresas ao verem a gente, enquanto eu abria a porta. Charlotte tinha três crianças sentadas ao lado dela, e Sierra se reclinava. Ela se levantou para sentar-se.

“O que aconteceu?” perguntou Sierra, lançando um olhar nervoso para Grue.

Vi Charlotte e as crianças com pratos no colo, restos de porco que havíamos cozinhar na manhã. Fui até o refrigerador e encontrei um pedaço envolto em filme plástico. “A equipe do PRT não gostou nada de termos tomado o controle de Brockton Bay, então mandaram sete armaduras do Dragão para nos expulsar.”

“O que querem que façamos?” ela perguntou.

“Nada. Está tudo bem. Mantenha o andamento normal. Fico feliz em saber que conseguiram voltar a tempo de garantir que o alimento estivesse pronto. Algum outro problema?”

“Não conseguimos fazer muito hoje,” Charlotte disse.

“A gente também não ia fazer muita coisa,” respondi. “Tudo bem. Vou pegar um pouco de comida. Grue, quer alguma?”

“Sim. Por favor.”

“Sete armaduras do Dragão?” Sierra perguntou. “Se eles voltarem—”

“Já resolvemos isso,” disse Grue. A surpresa no rosto de Sierra e Charlotte era por causa do que ele tinha dito ou pelo jeito dele falar com tanta confiança na voz meio grave?

Coloquei duas porções de porco num prato e esperei o micro-ondas aquecer. “Podem até voltar, mas vai demorar um pouco. O que mais me preocupa é minha área. As pessoas ficaram chateadas?”

“Sim,” Sierra respondeu. “Algumas ficaram assustadas com aquelas coisas que parecem discos voadores.”

“Os drones,” eu disse, com o coração afundando um pouco. Minha promessa de proteger meu povo tinha sido mais uma vez quebrada.

“Pois é. Os drones. A galera ficou brava. Tentaram pegar os drones, enfiá-los em lixeiras, mas as asas atrapalharam, então começaram a usar lonas. Conseguiram pegar alguns antes que os drones começassem a reagir.”

Grue me olhou com uma expressão que não consegui interpretar. Maskara besta.

“Alguém se machucou de verdade?”

Sierra balançou a cabeça.

“Ok, que bom. Escuta, nos próximos dias vou trabalhar nos bastidores. Não vou aparecer de fantasia nem usar meus poderes de forma evidente. Você consegue manter tudo sob controle? Vou estar disponível pelo telefone, se precisar de alguma coisa.”

“Eu, hum, não sei,” ela respondeu.

Abri o micro-ondas e retirei o prato de porco com cheiro de ervas, fumegando. “Qual é o problema?”

“Tô preocupada que as pessoas possam me reconhecer, e isso se espalhe para quem eu conheço.”

“Não estou pedindo que faça algo ilegal. Só quero alguém de confiança, para cuidar da gestão. Garantir que tudo fique limpo, que ninguém desande. É algo que você faria se estivesse numa equipe de limpeza na cidade.”

“Exceto que estou fazendo isso por você. Tô trabalhando pra um criminoso. Mesmo fazendo o que estou fazendo, não me sinto totalmente bem. Nada contra, é claro.”

“Tudo bem,” eu pausei. Estava devagar demais, porque o Grue começou a fazer a comida pra mim, cortando a carne em duas partes e arrumando os pratos. Como é que eu ia gerenciar isso? “Olha, vou tirar cinco mil dólares do cofre lá em cima, umas horinhas tarde hoje ou amanhã cedo.”

“Não é questão de dinheiro, ou falta dele, ou qualquer coisa assim—” ela protestou.

“Sei. Não quero te comprar, não exatamente. Acho que, hum…” minhas palavras ficaram na garganta. Tava cansada, pensando demais o dia todo. “Quero dizer… Confio em você, e valorizo o trabalho que faz. Então, pegue esse dinheiro. E, se souber de alguém que possa fazer o que estou pedindo, alguém como Charlotte ou alguém que você ache que podemos confiar, dá pra essa pessoa uma quantia que achar adequada. Se sobrar, talvez vocês duas dividam, ou dividam com quem enfrentou os drones. Mas diga a eles que, mesmo que eu agradeça por enfrentarem a Dragão, NÃO quero que façam isso novamente.”

“Você não?”

“Minha maior preocupação é que alguém que vive na minha área se machuque por minha causa. E também não quero que você se coloque em risco.”

“Pense no que vai fazer com esse dinheiro hoje à noite. Mas não complique muito. É um presente, um agradecimento.”

“Não posso aceitar seu dinheiro,” Sierra disse.

“Então, nem precisa,” eu respondi, tentando parecer mais focada na comida do que em qualquer outra coisa. Não devia mostrar o quanto isso estava me destruindo por dentro, e tampouco queria que ela se sentisse culpada. Peguei uma Coca na geladeira, acenei para o Grue, que assentiu, e peguei outra pra ele. Tive que engolir em seco e limpar a garganta antes de falar: “Espero que fique. Quero dizer, sério mesmo. Mas se você não se sentir bem fazendo isso, tudo bem também. Pode assumir uma função secundária ou sair fora. Fico triste, mas não vou ficar bravo.”

“Tudo bem.”

Olhei para Charlotte e as crianças, com o prato fumegante na minha mão, uma Coca na outra, o pé direito apoiado no degrau mais baixo da escada. Perguntei a Charlotte, “Você está de acordo com o jeito que as coisas estão?”

“Sim. Mas estou cuidando das crianças e garantindo que todos se alimentem. Estou fora de cena, não pareço uma segunda ao comando ou algo assim. Já conversei com a Sierra antes, ela fica desconfortável com isso. Mas estou bem porque funciona assim por enquanto, e entendo o que ela quer dizer?” A voz dela tremeu de incerteza ao terminar de falar, como se estivesse perguntando ou pedindo permissão para ter aquela opinião.

“Eu também entendo,” suspirei. “Desculpa não estar mais por perto pra você falar comigo sobre isso, Sierra.”

“Você tinha coisas maiores pra se preocupar.”

“E não devia ter esquecido dessas coisas enquanto fazia outra coisa. Desculpa. Faça o que for preciso, decida se quer alguma mudança ou alguma coisa que queira pedir. Acho que vou entender, seja lá o que fizer.”

Ela assentiu.

O Grue tinha avançado na escada e parou na metade do caminho. Fui atrás dele, deixando minha babá-cozinheira e o relutante tenente para trás.

Droga, droga, droga.

“Vai resolver isso?” perguntou Grue. Ele parou no segundo andar. Depois de pensar um pouco, ergui a cabeça em direção às escadas seguintes.

“Não sei. Espero conseguir segurá-la. Não teria chegado até aqui sem ela segurando as pontas quando eu tava fora. Se pudesse fazer algo por ela, talvez faria. Não sei.

Entramos no meu quarto. Fiquei feliz por tê-lo deixado mais ou menos arrumado, mas tive que tirar um instante pra fazer a cama às pressas e jogar umas roupas no cesto. Mudei umas roupas dobradas de uma cadeira de madeira e deixei o Grue sentar. Peguei o controle remoto e liguei a TV, só pra lembrar que não tinha nada pra assistir. Deixei na tela do reprodutor de DVDs.

Cheio de energia nervosa, tirei a máscara e busquei uns óculos na mesa de cabeceira, pra depois me sentar na borda do colchão, com a Coca aos meus pés.

Grue tinha tirado o capacete enquanto comia, e eu vi seu rosto pela primeira vez desde que saímos do apartamento dele rumo ao do Coil. As olheiras evidenciavam que provavelmente ele não dormia bem na noite passada. Ele não tinha melhorado, mas não era razoável esperar que estivesse.

Brian engoliu em seco, “Gostaria de poder te aconselhar, mas o Imp e eu estamos numa situação em que seria — *bacana* — se pudéssemos nos preocupar só em manter… como você chamou, né, aqueles ‘empregados’ lá atrás?”

“Funcionários.”

“Exato. Se fosse pra nos preocupar em manter nossos empregados, seria ótimo, porque significaria que temos algum. Não sei como começar a abordar isso. Somos ameaçadores.”

“Eu sou ameaçadora,” falei, defensiva.

“Você é. Mas acho que você é mais ameaçadora como uma *ideia* do que na prática.”

“Nossa, obrigado.”

“Não, não é ruim. Você é mais ameaçadora de uma forma geral do que eu, e ainda assim, é mais acessível do que eu. Sou alto, tenho ombros largos, tenho a máscara, tenho a sombra que se espalha de mim. As pessoas correm quando me veem chegando.”

“Minha fantasia também não é exatamente amiga, né? Tem os insetos rastejando em mim. É menor, mais estreita, mas…”

“A ideia de ser atacado por você pode ser assustadora, mas mesmo que você se defenda bem na maior parte das vezes, as pessoas não imaginam que, na luta corpo a corpo, vão ficar com medo. É seu *poder* que dá medo. Eu? Acho que as pessoas olham pra mim e imaginam que podem me esmaga-las numa merda de sanguinolento e pior que isso. Meu poder é incômodo, é assustador, mas não é o que dá medo.”

“Você não consegue realmente ver sua escuridão, né?”

Ele balançou a cabeça, “Sei onde ela está, mas não a vejo de verdade.”

“Acho que você subestima como é isso.”

“Talvez. Mas meu ponto é que as pessoas provavelmente vão fugir mais do que ficar, quando eu estou chegando. Você pode tirar seus insetos da mesa, deixar claro que eles não representam ameaça, e as pessoas se sentiriam menos assustadas, mais dispostas a te ouvir.”

“Talvez. Mas, se for assim, não dê chance pra elas fugirem.”

“O quê? Sair de trás de um canto, assustar elas até não poder mais e oferecer um emprego?”

“Claro. Por que não? Ou fazer a Imp invadir os apartamentos e deixar um cartão.”

“Acho que isso não passaria a mensagem certa. É meio ameaçador.”

Você é passível de ameaça. Se quem for te contratar mal lidar com isso tudo, também não vai dar conta do recado. Se você não conseguir achar alguém, talvez eu envie alguns dos meus pra te ajudar a começar, ou você pode pagar por alguns mercenários decentes.”

“Talvez.”

“Tem opções. Não se estresse. O que for acontecer, temos uns dias antes de decidir o próximo passo do plano. Vamos relaxar. Que tal um filme?”

“Claro.”

Levantei da cama e comecei a olhar as caixas de DVD que o Coil tinha dado junto com a TV. A maioria ainda estava envolta na película, na embalagem original. Passei a mão, entreguei alguns pro Brian e voltei a procurar na sacola.

Que diabos a gente ia assistir? Não queria algo que estragasse o humor do Brian ou que o lembrasse do que aconteceu, então terror tava fora de questão. Tava cansada de coisas de alta intensidade, mas romance ou comédias ruins não eram minha praia.

“Voltando ao tema anterior,” disse Brian, “Sobre liderança, estar no comando…”

Eu encolhi os ombros.

“Você assumiu hoje. Quer que isso seja pra sempre?”

Virei-me. “Não. Não pra sempre. Só até—” Parei sem terminar. Como dizer?

“Até?”

“Quando eu ficava realmente obsessiva com o que fazia, quando eu perdia sono e cometia erros, eu deixava o controle comigo.”

“Para o Trickster,” disse Brian. Vi uma sombra passar pelo rosto dele.

“Sim. E esse foi um mau exemplo, porque não deu certo. É só que os dois sabem que você não tem descansado o suficiente. Então, talvez eu possa pegar o trabalho por um tempo.”

Brian suspirou. Ele não parecia mais feliz.

“Não quero te deixar triste,” falei. “Não quero te tirar do comando, ou assumir seu papel de uma hora pra outra. Você foi o líder, mesmo que não tenhamos oficializado o cargo. Mas podemos dividir as tarefas por enquanto. Tattletale cuida do lado da informação, talvez eu mantenha a Bitch um pouco mais sob controle e tomo as decisões na hora, enquanto você cuida do Regent, do Imp e do resto.”

“O que é menos do que parece, especialmente quando você e a Tattletale contribuem de formas pequenas em ‘o resto’.”

“Não—” comecei, e suspirei. “Talvez, sim. Não quero parecer manipuladora ou algo assim. Como disse, não quero que você esteja infeliz, mas também quero que toda a equipe vá levando enquanto isso.”

“Você não parece manipuladora,” ele disse. O garfo dele bateu no prato com um barulho. “Jesus, isso é uma droga. Eu sei que você está certa. Eu sei que isso é para o bem do time, e se eu conseguisse superar essa merda—”

“Não é tão simples assim. Não se subestime nem espere demais.”

“Na minha vida toda, fui maior que os outros, mais forte que a maioria. Sempre rodeado por gente forte. Boxeadores, artistas marciais, criminosos. Não tinha muitos amigos, mas eram as pessoas ao meu redor, sabe? E eram os tipos que iam atrás de você se mostrasse alguma vulnerabilidade.”

“Se você levarem um tiro, ninguém vai te chamar de covarde. Não vejo por que seria diferente se o dano fosse psicológico ou emocional, e não físico.”

“Eu também sei disso, mas você não entendeu. Eu era do tipo que ia atrás de alguém se ela mostrasse uma vulnerabilidade. Só depois de um ano de ter meus poderes, a Aisha me disse que eu tava sendo um babaca, igual um dos padrastos dela costumava ser. Então tentei ser melhor, mas sempre quis proteger ela, sempre quis ajudar os outros. Ensinar o Bruce e o Alec a lutar, tomar iniciativa e mandar na situação quando fosse preciso. Às vezes, até quando não era.”

“Pois é.”

“Então, não é só sobre eu me adaptar. Cara, é meu mundo virado de cabeça pra baixo. É os outros me protegendo, me ajudando, me cobrindo na briga, assumindo o controle. Aisha é quem resolve as coisas por mim. E você—”

“Eu?”

“Essa coisa com o Coil. Não acha que tô tão obsessiva com tudo que acontece comigo que não consigo perceber isso. É como se um peso tivesse sido tirado dos seus ombros. Você tem preocupações, mas tá mais relaxado. Você tem esperança que estava ausente há doze horas atrás, e é tão dramático que sua postura está mudando. Desde que saímos do shopping, parece que você tá se convencendo de que tudo acabou, que o Coil vai fazer o que prometeu, que vamos cuidar das nossas áreas e tudo vai se resolver no final.”

Fechei os braços. “Eu não acho isso. Como disse, estou esperando o outro sapato cair.”

“Você fala isso, diz que sente isso, mas não sei se realmente está sentindo. Tenho medo de você estar se preparando pra uma decepção gigante, e que isso te afete tanto que não vai conseguir lidar quando acontecer. Mas, na maior parte, tenho medo que tudo isso aconteça e eu não possa ajudar, porque estou distraída com as minhas próprias merdas.”

“Você não precisa pegar toda a carga nas costas. Temos outros companheiros de equipe.”

“A Lisa não é exatamente uma peso pesado, e nem vamos acreditar que o Alec, a Rachel ou a Aisha vão oferecer algum apoio emocional relevante.”

“Vamos conseguir,” respondi. “Estamos indo até aqui.”

“Mais ou menos. O problema é que ‘conseguir administrar’ funciona até o dia que a gente não conseguir, se fizer sentido. Aí, acabou.”

Sorri com desânimo. “Como a Genesis colocou, não adianta se desesperar, se não dá pra planejar ou fazer alguma coisa a respeito. Então, cada um vai fazer o seu melhor, cuidando de si mesmo e do time, e se preparar para o que vier.”

Suspirou também.

“Não somos perfeitos. Somos pessoas falhas, e, por mais que eu queira te ajudar de todas as formas possíveis, sei que não posso. Não—não sou boa nisso. Não sei atuar, nem o que dizer. Mas eu gosto de você. Cuido de você. Vou fazer o meu melhor, mesmo sabendo que não é o bastante. E não vou esperar mais de você do que é justo.”

Ele assentiu, com um semblante preocupado.

“Sem ressentimentos?”

Ele balançou a cabeça. Não parecia feliz.

“Não serei líder pra sempre.”

“Não sei,” ele disse. “Talvez seja melhor você seguir com o cargo, mesmo que eu volte a assumir isso mais tarde.”

“Só que eu não quero isso.”

“Talvez seja por isso que você devia ficar com ele. Não sei. Podemos deixar pra lá esse assunto?”

“Desculpa.”

“Tudo bem. São temas pesados, com muitas implicações. E dá trabalho botar os pensamentos negativos pra fora. Prefiro a gente conversar mais sobre o que você falou antes, sobre cuidar um do outro.”

“E cuidar também de si mesmo,” eu disse. “Dormir direito, comer bem.”

“Ok,” ele respondeu. Houve uma pausa. “Na outra noite, eu dormi bem.”

“Então fica aqui. Não tem nada urgente vindo aí, vamos assistir filmes até pegar no sono.”

Ele sorriu um pouco, pela primeira vez em muito tempo, um sorriso que tinha me chamado atenção no começo.

Coloquei três DVDs na caixa para poder usar o controle remoto e passar ao próximo filme sem precisar levantar. Depois, tirei as partes de armadura do meu uniforme e me deitei na cama. Meu corpo encostado nas costas dele, e eu podia sentir a respiração dele contra meu cabelo.

Estava tão nervosa que mal conseguia acompanhar o que estava acontecendo. Pensava em tudo que não tinha romance, tudo que tinha de preocupações: se tinha cheiro estranho por estar de fantasia o dia inteiro, se devia levantar pra ir ao banheiro agora, pra não precisar ir com tanta urgência como na manhã anterior.

Senti a mão dele no zíper das costas do meu traje, abaixando-o um pouco, e parando. Uma ponta de dedo traçou desde o ‘v’ onde a fantasia se abria, até a nuca, e voltou. Podia sentir os dedos dele no zíper, cada fio de cabelo do meu corpo eriçando.

Mil pensamentos passaram pela minha cabeça ao mesmo tempo. Todos eles, juntos, formando um “Hum.” abafado.

Não tinha resposta atrás de mim. Ouvi a respiração dele, senti o calor do hálito, o sobe e desce lento do peito contra minhas costas. Ele esperava que eu tomasse uma decisão, e a maior sensação que tinha na cabeça era a de seus dedos no pequenino puxador do zíper — forte, insistente, ali exatamente.

Qualquer confiança que eu tinha adquirido nas semanas ou meses anteriores desapareceu. Tive a sensação de vulnerabilidade igual à que tinha na fase inicial de abril, quando chorei na frente dos meus piores inimigos. Mas isso… não era totalmente ruim. Não totalmente: ainda tinha consciência aguda de cada vulnerabilidade, de cada parte de mim que tentava ignorar ao me olhar no espelho, como se minha vida estivesse passando em câmera lenta diante dos olhos antes de morrer.

De novo, assim. Por que não conseguia pensar de uma forma mais romântica numa hora dessas? Seria eu toda partida de algum jeito?

“Deixa eu levantar e apagar as luzes?” perguntei.

O poder dele preencheu a sala. Podia sentir os toques dele, fantasmas, na fina camada do meu traje e no meu rosto desnudo, deixando-me cega e surda enquanto nos mergulhávamos na escuridão.

Enquanto eu era puxada pra ela, ele podia ver tão bem quanto. Era exatamente aquilo que eu não queria.

“Não é justo,” murmurei.

Ele colocou uma mão na lateral da minha cabeça pra me fazer virar pra ele, e então beijou meus lábios.

Eu não protestei mais.

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