
Capítulo 167
Verme (Parahumanos #1)
“Toc! Toc!”
Triumph virou-se. “Sam.”
Ela escapou a cabeça pela fresta da porta, com a mão sobre os olhos. Deslumbrante. Era loira, vestido com seu traje justo. tinha a silhueta para usar aquilo com tanta classe que poucos realmente conseguiam. Um tipo de corpo pelo qual alguém se dedicou. Ela estava sem máscara, guardando-a na cintura.
“Você está de boa?” Prism perguntou, sem mover a mão.
“Sim.” Ele terminou de dobrar a bata do hospital e colocou-a aos pés da cama. Não estava perfeito, mas era melhor do que deixar tudo bagunçado.
“Você está bem para ficar em pé e se movimentar?”
“Sim,” ele respondeu. Ele não queria repetir aquela resposta de uma sílaba, então virou-se para ela. Sorriu levemente. “Sou durão.”
“Não se gabe. Eu estive com sua família enquanto assistíamos os paramédicos te levarem embora.”
“Consegui. Não me recupero tão rápido, mas sarar mais rápido, não fico com cicatrizes e geralmente não fico com ferimentos de longo prazo.”
“Mas você quase morreu. Não esqueça disso.”
“Com toda certeza não vou esquecer, acredita em mim,” ele disse. Ele reuniu seu roupão de banho e colocou na sacola de academia que já estava na cama. “Estou surpreso por você ter vindo.”
“Estamos namorando,” ela disse.
“Três encontros, e ambos concordamos que não vai virar coisa séria.”
“Você fala isso e depois me convida para conhecer seus pais.”
“Porque a comida lá em casa é melhor do que as rações que você encontraria em qualquer outro lugar desta cidade.” Ele levantou uma sobrancelha, “Mas você foi a primeira a verificar como eu estou hoje de manhã. Não tinha um voo agendado?”
“Um voo é fácil de adiar quando o Protetorado está organizando. Decidi que precisava dormir mais, pois fiquei acordada a noite toda fazendo raio-X, e a Ursa disse que tava de boa com isso.”
“Só estou dizendo, você não precisava passar aqui.”
“Não precisa se achar a pessoa mais especial do mundo. Eu quis saber como o Cache estava. É só caminhar pelo corredor para te ver.”
“Nossa, aliantes antes de homens?”
“Deve ter uma forma melhor de dizer isso.”
“Provavelmente. Como ele está?”
“Queimado, mas está em fase de recuperação. Vamos ver o quanto aquilo vai afetar a saúde a longo prazo.”
“E você, como está?”
“ Com hematomas, uma mancada e umas dores, mas no geral, bem.”
“Ótimo,” ele sorriu. “Quer passar no café? Tô tão ligado em cafeína que acho que vou desmaiar se não tomar minha dose matinal. Vou te dar meu ombro para você não precisar colocar muito peso nessa perna.”
“Café é ótimo. Mas tem algum lugar aberto?”
“Tem um lugar no prédio.”
Prism fez uma careta.
“Nada de café de cadeia. É uma cafeteria de verdade, integrada na cantina.” Ele jogou a mochila de um ombro e ofereceu o braço para ela.
“Não precisa de cadeira de rodas? Pensei que fosse política do hospital te levar na cadeira até a porta.”
“Tudo bem. Vantagem de ser um hospital pequeno, que faz parte do prédio do PRT. É comum a gente ir direto do hospital para nossos escritórios, e aparentemente havia problemas com fotógrafos tirando fotos de heróis saindo de cadeira de rodas. A diretora Piggot arranjou tudo assim exatamente por isso.”
“Droga. Preciso cobrar algo assim em NYC. Nosso hospital fica fora do local.” Ela colocou a mão no ombro dele, e ambos começaram a caminhar pelo corredor.
Ursa Aurora virou a esquina e os avistou. Triumph pôde ver as linhas de expressão acima da máscara de urso negro brilhante, sua evidente sensação de alívio e o aumento no ritmo da caminhada ao vê-lo. O coração dele afundou. Algo aconteceu. Ou está acontecendo.
“Pessoal!”
“O que foi?” ele perguntou.
“Tem um problema. Divisão entre os nossos. Tá feio.”
“O inimigo?”
Ela sacudiu a cabeça. “Nossos caras. E o negócio é com você.”
Isso o surpreendeu. Ele balançou a cabeça um pouco; não tinha tempo para detalhes. Ia resolver a situação sozinho. “Mostre o caminho.”
Apesar da aparente urgência, eles não podiam correr. Prism estava machucada e o elevador era o jeito mais rápido até lá. Ursa foi na frente para apertar o botão, enquanto Triumph ajudava Prism a caminhar mancando até o elevador.
“Mais devagar,” ela sussurrou, após colocar peso demais na perna machucada.
“Desculpe.”
“Detesto estar assim, machucada,” Prism murmurou.
“Não é tão grave?”
“Não. Skitter me prendeu ao teto, então escorrei na metade, parei, cortei a corda pra cair o restante. Cai de costas. Mas estar nesse estado, me traz más lembranças.”
Ele virou-se para Ursa quando se aproximaram do elevador. “Aperte as duas batentes ao mesmo tempo, três vezes seguidas, para uso de emergência.”
Ursa fez exatamente como ele mandou, e as luzes dos botões começaram a piscar alternadamente em amarelo e vermelho. As portas se abriram quase imediatamente e eles entraram. Ursa pressionou o botão para o subsolo: o quartel dos Vargos.
Ele olhou para a companheira. Era estranho perguntar, mas parecia que Prism dava sinal para a pergunta. “Ficaria feio eu perguntar? Sobre as más memórias?”
Prism sacudiu a cabeça. “A Ursa sabe, e tenho trabalhado para superar isso. Já falei do meu passado na ginástica. Meu pai é treinador, passou a vida toda incentivando eu e meus irmãos a chegar no nível olímpico. Às vezes achei que era a única razão dele ter tido filhos. Quase consegui me classificar quando rasguei o ligamento do joelho.”
“Dói. Você não se lesionou de novo na noite passada?”
Ela balançou a cabeça, “Quadril, não joelho. Agora que olho pra trás, acho que estraguei meu joelho na época porque meu pai me pressionou demais, rápido demais. Mas achei que a culpa era minha. Fiquei deprimida, fiquei em casa ao invés de treinar. Quando meu pai e irmãos perceberam que eu não ia mais acompanhar, comecei a ficar de fora das reuniões, a ficar pra trás na hora de comer depois do treino. Parece pouca coisa, mas a ginástica tinha se tornado uma parte essencial da minha vida, e ela desapareceu. Tudo desmoronou.”
“Sinto muito. Sei que é difícil dizer que isso não é importante. Acredite, eu já passei por isso.”
Ela deu de ombros. “Acho que criei minha própria família. Encontrei outro pilar pra construir minha vida. Mas mesmo com alta tolerância à dor, um ferimento como esse me faz lembrar daqueles dias. Fico de mau humor por um tempo. Então, peço desculpas se estiver irritada.”
“Eu aguanto.”
Eles tinham ido como amigos, inicialmente, porque ambos tinham um passado parecido, e depois avançaram para um relacionamento casual. Ambos já foram atletas, um dia. Ela era ex-ginasta; ele foi jogador de baseball. Ela entrou por causa das consequências de uma lesão que terminou com sua carreira. Ele conquistou seus poderes porque ficou sempre no segundo lugar, condenado a perder a chance, a um passo de uma carreira na Major League.
Ele sabia o quanto isso podia ser devastador, quando você fazia sacrifícios, entregava a maior parte da adolescência para alcançar algo, só para ficar pelo caminho.
Ele pediu ajuda ao pai, que entregou um pequeno frasco, aparentemente feito para induzir um estado semelhante ao evento desencadeador, sem o trauma necessário. A ironia apareceu quando as ligas profissionais obrigaram a realizar ressonâncias magnéticas para verificar poderes e manter a integridade do jogo, poucos meses após ele adquirir habilidades atléticas que lhe permitiriam competir.
De certa forma, ele ficou aliviado. Não naquela época, claro. Ele tinha se sentido mimado, um mimado, com sentimento de direito. Ficou feliz por não ter continuado por esse caminho, por ter encontrado uma carreira onde tinha uma espécie de igualdade com seus colegas.
Mas nem tudo era perfeito.
Ele ouviu a discussão assim que as portas do elevador se abriram.
A Srta. Milícia, Weld e Kid Win estavam de um lado da sala. Assault do outro, sentado na beira do terminal, com Clockblocker, Chariot e Vista ao seu lado.
“-vigilantismo!” A voz de Srta. Milícia tinha um tom tenso, quase controlando a raiva.
“Tem que haver uma autoridade que devamos ignorar para sermos vigilantes,” disse Assault. A voz dele estava mais calma, mas a linguagem corporal não. Ele estava tenso, com a mão que não segurava a borda do console fechada em punho. “Não há. Ninguém se apresentou para reforçar alguma coisa.”
“O PRT segue firme. Todos os guardiões estão no lugar,” falou Srta. Milícia. “Se você sair por aí sem autorização oficial, vão perceber que estamos agindo fora dos princípios e regras do Protetorado.”
“Como assim?” questionou Assault. “Mídia? Se você não percebeu, um terço da cidade ainda está sem energia. Os repórteres que ficaram até agora estão cansados demais e sem recursos para acompanhar.”
“Câmeras de celular,” disse Srta. Milícia. “As pessoas estão observando e gravando cada passo nosso.”
“Vamos agir de forma discreta. Falo de um ataque rápido, preciso. Ataque sempre é melhor que defesa.
“Você chama de vingança,” falou Triumph. Ele deixou Ursa apoiar Prism e avançou para participar da ‘discussão’.
“Vingança, justiça, é uma linha bem tênue. Mas tudo bem. Pode chamá-la assim,” disse Assault, recuando um pouco. Ele sorriu para Srta. Milícia; agora mais uma pessoa do lado dele na discussão.
Triumph olhou ao redor. Flechette, Ursa e Prism não estavam tomando partido. Não eram locais, e a política aqui podia ser intimidante.
Mesmo assim, Triumph deu uma olhada para Flechette. Ela está aqui faz poucas semanas. Deveria se sentir segura para dar opinião.
Ela era neutra ou indecisa? Ou havia outro fator em jogo?
Ele se sentia tão desconectado dos Vargos, esses dias. Mal reconhecia sua antiga equipe. Vista, Kid Win, Clockblocker… ele tinha sido o capitão deles, não faz muito tempo.
Srta. Milícia e Assault olhavam para ele, esperando que ele falasse. Pela confiança de Assault, não havia dúvida que ele esperava que Triumph apoiasse seu lado.
Ao invés disso, ele comentou: “Pelo que eu ouvi, o Assault tá defendendo que devemos levar a luta para o inimigo? Sem a autorização da Piggot?”
“A Piggot nos mandou recuar,” falou Srta. Milícia. “Então iríamoscontra a orientação dela.”
“Eles atacaram um dos nossos. De novo,” disse Assault. “E eles quebraram uma regra sagrada. Atacaram a família. Você não mostra sua identidade secreta, e se por acaso descobre quem a pessoa é, você não ataca a família dela.”
“O testemunho da família sugere que isso não foi intencional. Skitter avisou ao Trickster no meio do caminho,” disse Weld.
Clockblocker interrompeu: “Mas dá para supor que ela descobriu antes. A não ser que você queira sugerir que ela descobriu sozinha?”
“Não,” respondeu Weld. “Faz sentido. Suspeito que a Tattletale já descobriu tudo. Eu até acreditaria se ela soubesse os nossos nomes. Mas estou dizendo que o Trickster não tinha essa informação, e ele que decidiu atacar a irmã do Triumph.”
“Eles quebraram outras regras não escritas,” disse Assault, olhando para Triumph e Srta. Milícia, e não para os membros mais jovens. “Shatterbird? Será que vamos deixar passar essa?”
“Tudo vale na luta contra os Nove,” afirmou Srta. Milícia.
“Os Nove já se foram. Ele continua quebrando regras. Raptou e controlou a Shadow Stalker. Está prejudicando civis. Criminosos, é verdade, mas civis ao fim e ao cabo.”
“E quem manda sabe disso,” disse Srta. Milícia. “Se acharem que aí cruzou a linha, podemos agir com decisão.”
“Pessoas de terno,” disse Assault. “Sentados em escritórios com cadeiras acolchoadas, vendo tudo pelo filtro da papelada clínica e organizada. Eles não sabem o que é estar no campo de batalha, enfrentar risco de morte ou de destinos piores que a morte pelo bem desta cidade.”
Se Srta. Milícia tinha se preparado para responder, hesitou ao ouvir Assault falar “destinos piores que a morte”, a voz dele revelando uma tremedeira emocional.
Triumph tentou imaginar a cena como tinha visto: Battery na cama de morte, definhando por um veneno feito para ser cruel, não eficiente. Mas, por mais lenta que fosse, tinha se mostrado incurável.
Assault continuou, e não havia vestígio da emoção de antes na voz. Mais parecia um líder perigoso: “Se nós não agirmos, se não avançarmos contra os Undersiders e os Viajantes, estaremos dizendo que tudo bem. Que é normal fazer o mesmo com nós.”
“Você estaria violando seu status de probationário na equipe,” disse Srta. Milícia, em tom calmo. “Desobedecendo às ordens.”
“Minha entrada no Protetorado dependia de estar na mesma equipe do Battery,” respondeu Assault. Ele olhou nos olhos de Srta. Milícia, como se desafiasse ela a contestar.
Não havia dúvida do que alimentava a raiva de Assault. Srta. Milícia, por outro lado, era líder do Protetorado por sua lealdade inabalável e disposição de não apenas seguir as regras, mas lutar por elas. Triumph entendia por que tinham os posicionamentos que tinham.
Ele olhou para os outros. Weld era um homem alinhado à corporação, por assim dizer, e o PRT era sua família, de certa forma. Faz sentido ele seguir as regras impostas pelo PRT, pelo Protetorado e pelos Vargos. Clockblocker sempre se incomodou com a autoridade da instituição, e Chariot poderia ser igual. A maioria dos Vargos passou por uma fase assim, sentindo a pressão, as regras rígidas, percebendo que os Vargos existiam em parte para mantê-los distantes do pior das coisas, enquanto desejavam ir lá fora e ser heróis. Clockblocker nunca saiu totalmente disso.
Talvez a postura de Chariot aqui fosse o que o Coil desejava. Triumph não conseguia esquecer que Chariot era um agente disfarçado, infiltrado pelo vilão para coletar informações.
Não, nada daquilo o surpreendia. Os fora da linha, os que o surpreenderam…
“Vista, eu não achei que você fosse quebrar as regras assim,” comentou. Antes que ela pudesse responder, ele completou: “E Kid Win, achei que fosse mais rebelde.”
“Estou cansada de perder pessoas,” disse Vista. “Perdemos Gallant. Aegis também, e Velocity, Dauntless, Battery…”
“É, e Shadow Stalker,” Triumph completou.
“Ela foi embora,” disse Clockblocker.
“Ainda considero ela uma vítima,” disse Triumph. “Pode não termos gostado dela, mas ela era uma de nós, e o inimigo basicamente a tirou de nós.”
“Não quero esquecer a Glory Girl e a Panacea,” disse Clockblocker. “Ela e a irmã fizeram um favor que mudou minha vida. Não sabemos toda a história, mas os Undersiders ou os Nove tiveram participação nisso. Mas essa é uma lista enorme de nomes. Somos menos e estamos perdendo. Não são só as batalhas, estamos perdendo essa guerra. Você não percebe isso?”
“Percebo,” respondeu Srta. Milícia, com voz bem mais baixa que antes. “Mas é exatamente por isso que estou dizendo para vocês não fazerem isso. Assim que transformamos isso numa guerra de verdade, mudamos de uma luta perdida para uma derrota definitiva. No melhor dos casos, todos sairiam prejudicados, incluindo nossos inimigos. Não quero que chegue a esse ponto.”
“Você está complicando demais,” disse Assault. “Estou propondo um ataque rápido e certeiro contra uma área deles. Uma classificação superior seria uma boa aposta. Eu sugeriria o Regent, mas a Shatterbird é grande demais, melhor atacar o Hellhound ou a Skitter. Fazer isso reduziria as opções táticas deles em um terço, e ainda daria uma possível refém para usar contra os outros.”
“Não a Tattletale?” perguntou Clockblocker.
Assault balançou a cabeça. “Ela iria perceber que estamos vindo. Está nos registros do Armsmaster, do primeiro encontro dele com a Skitter. É por isso que eles são tão difíceis de pegar em grupo, e é por isso que é tão importante que a gente ataque primeiro, enquanto estão dispersos pelos territórios. Grue, Trickster, Genesis ou Imp escapariam facilmente, e enfrentar o Ballistic ou o Sundancer colocaria todos nós numa situação de risco demais.”
“Podem retaliar,” disse Srta. Milícia. “E quase com certeza perderíamos. Estamos aproximadamente iguais em número, somos inferiores em poder de fogo bruto, e eles têm vantagem no conhecimento tático.”
“Então, temos que ficar aqui e aceitar?” perguntou Clockblocker. “Se minha família for atacada na próxima vez, acho que meu pai nem vai pegar a espingarda para se defender.”
“Não foi bem assim,” disse Triumph. “Mas, não, acho que não devemos atacar ou fazer algo arriscado. A Srta. Milícia tem razão.”
As sobrancelhas de Assault levantaram-se surpresamente.
“Obrigadão,” disse Srta. Milícia. “Entendo que vocês estão chateados. Nós todos estamos. Todos preocupados com nossos entes queridos, com o que está acontecendo na cidade, e com a possibilidade de sermos capturados e controlados pelo Regent. Mas só vamos conseguir dar um passo avante se todo o Protetorado estiver conosco, e só assim teremos isso.”
“Bem colocado,” falou a diretora Piggot.
Todos se viraram. A diretora Piggot estava na porta do degrau que levava às escadas.
“Diretora,” disse Assault. Ela parecia calmada, sem se incomodar com a aparência dela.
“Espero que me ouça antes de decidir uma ação,” ela pediu.
“Claro.” Assault recostou-se, cruzando os braços.
“Então, deixe-me apresentar nossos visitantes.” Piggot passou para um lado, movendo seu peso imenso para liberar a porta.
Havia dois deles, cada um vestido de cabeça aos pés com armadura de poder, semelhantes em tema, se não em design. Era equipamento de alta resistência, e mesmo sem habilidades de tinkering, Triumph admirava a qualidade do trabalho, tão bem feito.
Eram iguais em altura, um homem e uma mulher. O homem segurava uma lança de nada menos que quinze pés, com ponta bipartida. A mulher usava algo que parecia uma especie de jetpack modificado, dividido em duas partes, cada uma pesando tanto quanto ela. Os jatos de escape se espalhavam para os lados, como as penas das asas de uma ave estendida.
A mulher tirou o capacete e balançou a cabeça, deixando os fios escuros caírem ao redor da armadura do ombro e do pescoço. Ela não era bonita, mas também não era feia. Nem ‘ordinária’ cabe direito na descrição. Era extremamente comum na aparência, a ponto de parecer até assustadora. Ele não conseguia identificar uma etnia exata, nem excluí-la de alguma.
Mesmo assim, é estranhamente familiar, Triumph notou.
Ele olhou para o homem, esperando que ele também tirasse o capacete, mas ele não fez isso. Em vez disso, cruzou os braços, mantendo a lança na mão.
A linguagem corporal. Os olhos de Triumph se arregalaram sob o visor. Não. Não pode ser. Não mesmo, ele não voltaria aqui.
Mas se ele estivesse aqui, então a mulher provavelmente estaria—
“Dragão,” disse Srta. Milícia. “É um prazer finalmente te conhecer.”
Dragão estendeu a mão, e Srta. Milícia a apertou. “Igualmente. Deixe-me apresentar o Defiant.”
Triumph olhou ao redor para os demais. Ninguém ali era tão idiota a ponto de não perceber o que estava acontecendo. Mesmo os heróis que não eram daqui de Brockton Bay entenderiam rapidinho.
“Dragão e Defiant vieram buscar recursos e coletar informações antes de partir para uma missão de longo prazo,” explicou a diretora. “Querem explicar?”
“Os Nove,” explicou Dragão. “Sabemos o comportamento deles, mais ou menos. Depois de uma série de ataques como esta aqui em Brockton Bay, eles vão recuar. Ficaremos nas estradas secundárias e em pequenas cidades isoladas, usando o tempo e a distância para dissipar o calor. Jack mantém seu pessoal ocupado com jogos como o que tentou montar aqui. Vai crescendo lentamente em uma área remota, assustando a população local ao máximo, e termina com um grande climax antes de partir. Também vão procurar recrutar e substituir membros desaparecidos, e acho que vão ser mais brandes na hora de testar os recrutados até preencherem o time.”
“E o que vocês vão fazer então?” Assault perguntou.
“Vamos atrás deles,” respondeu Defiant. Sua voz era parcialmente alterada pelo capacete, mas ainda reconhecível.
Por que todo mundo finge que não sabe que esse aí é o Armsmaster?
Continuou: “E não vamos parar. A perseguição vai ser 24/7, o ano todo. Vamos mantê-los na corda até eles ficarem cansados e com fome o suficiente para cometerem um erro, e aí aproveitamos.”
“Já tentamos isso antes,” respondeu Srta. Milícia. “Não estou dizendo que não gosto da ideia, mas o Assault acabou de discutir que atacar é mais fácil do que se defender, e concordo. Vocês não vão impedir todas as vítimas.”
“O principal problema anterior,” disse Dragão, “é que os grupos eram formações móveis, em turnos, sempre se deslocando. Inevitavelmente, os Nove iam perceber o que estava acontecendo, destruíam a equipe de plantão e sumiam antes que pudessem reagir. Ou então davam a volta e matavam quem estivesse de folga. Nosso problema agora é outro.”
“Não entendo,” disse Assault.
“Dragão me contou que ela não precisa dormir. É uma consequência das habilidades dela,” disse Srta. Milícia.
Dragão fez uma leve cabeça, concordando. “Já tentei ir atrás do Slaughterhouse Nine antes, mas as habilidades da Shatterbird eram muito difíceis de contornar, e eu era uma só. Agora tenho uma parceira.”
“Defiant?” perguntou Srta. Milícia.
Ele pressionou o peito. “Com o auxílio da Dragão, substituí meus órgãos internos e partes do cérebro por equivalents artificiais. Meu tempo de inatividade atual é de uns quinze minutos por dia, incluindo descanso, sono e alimentação. E nas próximas duas semanas, quero reduzir para apenas doze minutos.”
As mãos de Vista foram aos lábios, chocada.
Ele se transformou num monstro. E a Dragão nem se mexe ao ouvir isso. Os próprios olhos de Triumph abrem-se de espanto.
Srta. Milícia pareceu recuperar-se mais rápido que os demais. “Não é só isso. Tem o peso psicológico. Caçar uma presa por dias, semanas, meses? Ainda mais se ela cometer atrocidades se você bobear um instante? Isso afeta a gente.”
“Acho,” Defiant fez uma pausa, procurando as palavras corretas, “que minha obsessão pode ser uma vantagem nesse aspecto.”
“Vale a tentativa,” disse Dragão. “Entre nós, eu e o Defiant podemos personalizar nossos equipamentos e estratégias para combater efetivamente os poderes dos Nove. Quando descobrirmos um rastro, manteremos pressão constante até conseguir capturá-los. Mesmo que não consigamos salvar todo mundo, mesmo que não consigamos pará-los de cara com Siberian tornando outros invencíveis, acho que podemos evitar que eles organizem outro grande ataque como aqui em Brockton Bay, e provavelmente impedir que recrutem mais gente.”
“O PRT está esperançoso,” disse a diretora. “Concederam aval. Mas vocês precisam explicar como tudo isso se relaciona com a situação atual.”
“Com certeza. Se todos puderem dar atenção aos monitores?”
Assault teve que descer da mesa onde estava sentado, na ponta do computador, para ver melhor. Todos os outros se viraram assim que as imagens começaram a aparecer na tela. Uma armadura após a outra.
“Marca três da Cawthorne.”
Um modelo elegante, que parecia uma mistura entre dragão e jato de guerra, equipado com quatro motores ao redor dos ‘ombros’.
“A híbrida Astaroth-Nidhug, que usa o design Nidhug, parcialmente danificado em confrontos anteriores.”
Não parecia uma malha. Era um design coeso, um cano de arma gigante com dentes na extremidade, equipado, ao invés de um punho, com três pós-combustores na traseira e três na seção central. O trenó de aterrissagem parecia fino. Além disso, Triumph notou, muito grande. Não menor que uma aeronave comercial, se a maquinaria abaixo fosse uma empilhadeira.
“Ladon-Two.”
Ele não parecia tão elegante ou pronto para combate quanto os outros, menor, quase esférico na forma.
“Design de utilidade,” falou Chariot. “Qual é a ideia?”
“Gerador de campo de força,” respondeu Dragão. “Uso ofensivo e defensivo. Tenho também o Glaurung Zero, o Pythios-Two, a Melusine-Six e o Azazel prontos para uso no campo.”
A câmera focou uma montanha cortada, com essas sete armaduras e um hangar ou fábrica ao fundo.
“Graças à ajuda do Defiant, posso agora fazer isso.”
De repente, cada armadura ganhou vida e decolou, desaparecendo da visão da câmera. Uma nuvem de poeira e neve se espalhou na direção do decolagem, bloqueando a imagem. Tudo ficou escuro.
“Tenho nove modelos no total que posso manter ativos ao mesmo tempo. Mais estão em desenvolvimento. É caro e ineficiente manter todos ligados se ainda não conseguimos rastrear os Sequenciadores do Slaughterhouse. Com a autorização do Diretor, deixaremos os sete que não usamos aqui em Brockton Bay. O PRT continuará em contato comigo para que eu possa ativá-los remotamente. Ou seja, aqueles que não estiverem em uso contra os Nove ou um Endbringer.”
Não só um, mas sete armaduras criadas pelo melhor tinkerer do mundo.
Triumph olhou para Chariot. O garoto parecia pensativo, mas isso podia ser apenas admiração por um experiente tinkerer pelo trabalho do outro.
“Difícil acreditar que você precisa do Defiant junto nessa, com esse poder todo,” comentou Assault.
“Dois pares de olhos são melhores que um, e podemos manter a sanidade um do outro. O Defiant vai pilotar o Uther quando não estiver no chão.”
“Bom, Defiant, seu esforço foi recompensado. Boa sorte pra vocês. E a vocês, Dragão,” disse Srta. Milícia.
Eles certamente não estão acreditando nisso tudo.
“Ninguém vai dizer nada?” Triumph perguntou, antes que pudesse se censurar.
Todos os olhos se voltaram para ele. Ele só podia seguir em frente.
“Vocês… realmente acreditam nisso? Nesse negócio do Defiant? Ele nem tenta esconder.”
A tensão na sala era tão densa que dava pra cortar com uma faca.
“Se você tem alguma preocupação válida com o Defiant,” falou a diretora Piggot, “acho que seria bom que todos ouvissem ela.”
Ele abriu a boca para falar, mas ela já levantou a mão para interrompê-lo. “Fique tranquilo, Triumph, se você alegar atividade criminosa, nós o prenderemos e manteremos até que haja uma investigação. Vamos tirá-lo dessa tarefa totalmente voluntária e, se suas acusações forem sérias, enviá-lo para a Birdcage. Acho que teríamos que reavaliar o plano de batalha contra os Nove da Dragão, ela provavelmente teria que repensar a ideia de manter as armaduras aqui em Brockton Bay, para se proteger melhor.”
“Entendo o que você quer dizer.”
“Não estou dizendo nada, Triumph, só que você é livre para falar.”
Ele olhou ao redor, para os outros. Clockblocker olhava para os monitores, Assault ajustava a luva, Vista encarava o chão fixamente. Ninguém olhou nos olhos dele.
Exceto a diretora Piggot. Dar atenção a ela seria mais fácil do que encarar os olhos cinzentos de aço dela.
Há uma diferença entre servir o sistema e permitir que ele exista.
“Só quis dizer que o cara tem coragem,” Triumph falou, sem emoção ou tom. “Enfrentar os Nove do Slaughterhouse desse jeito, sendo tão novo no jogo.”
“Exatamente,” respondeu a diretora. “Você ficará de plantão duplo até as eleições terminarem, mas o seu esquadrão terá as armaduras chegando num minuto após qualquer confronto. O cronograma já está no sistema. Eu e meus subordinados diretos estaremos disponíveis 24 horas por dia, para aprovar remotamente o uso dos modelos de dragão.”
Ele não conseguiu dizer nada. Sabia que o Armsmaster estava ali, fingindo ser um herói novo. Triumph entendia que ele estava alimentando o sistema, permitindo que algo errado acontecesse, mas derrotar os Nove era mais importante. Ter as armaduras disponível para virar o jogo contra os vilões que tentavam dominar a cidade? Muita coisa dependia disso.
“Ei,” Prism cochichou no ouvido dele. Ela criou uma réplica, em vez de se arrastar até ele. “Tá bem?”
Ele balançou a cabeça.
“Ainda quer aquele café?”
“Não. Não, obrigado.” Ele tinha dificuldade de olhar para ela. Ela não tinha dito nada, não tinha tentado falar. Sim, era a melhor escolha no longo prazo, colocar o Armsmaster para lutar contra os Nove. Mas isso não deixava de ser errado.
Ele ainda era relativamente novo nisso. Três anos de dever, a maior parte no grupo dos Vargos. Será que era o único velho o suficiente para se posicionar, mas ainda não tão calejado a ponto de aceitar coisas que não fossem as autoridades de sempre?
Ou era o oposto? Ainda tinha a ingenuidade da juventude, mas também a arrogância da idade adulta?
Por mais que achasse ela a garota ideal antes, por mais que compartilhasse seu histórico de uma carreira esportiva frustrada, mal a reconhecia.
“Preciso sair. Preciso caminhar.”
“Meu voo–”
“Claro. Aproveite bem. Talvez nos cruzemos futuramente?”
A decepção apareceu no rosto dela. “Quem sabe.”
Ele entrou no elevador, apertou o botão. As portas se fecharam de repente.
Sua cabeça ficava pesada enquanto caminhava. Antes, tinha olhado para o Armsmaster com admiração. Entendia o homem. Sua experiência de sempre estar em segundo lugar no beisebol tinha paralelo com os sentimentos que o próprio Armsmaster insinuiu, mas não declarou abertamente; o capitão do Protetorado tinha guardado ressentimento pela rápida ascensão de Dauntless, pelo momento inevitável em que ele tomaria a liderança da equipe com facilidade.
Por mais que odiava admitir, Triumph compreendia de onde Armsmaster vinha. Imaginava a alegria egoísta que aquele devia ter sentido quando Dauntless caiu. Deve ter sido horrível, sem dúvida, mas essa horror era temperada pelo pragmatismo. A morte era parte natural de um ataque de um Endbringer. Era a realidade. Talvez o Armsmaster tivesse dito a si mesmo que era OK sentir alívio por um rival ter caído.
Ele entendia bem o motivo pelo qual Armsmaster tinha agido assim na batalha real. Enfrentar Leviathan um a um tinha sido a única forma de o programa prever o combate, e ele tinha uma arma eficaz. Caso os vilões morressem nesse processo, tudo bem, ele só tinha que recorrer ao pragmatismo mais uma vez. Triumph não concordava com esse raciocínio, mas via como tinha ocorrido.
Armsmaster tinha se machucado com Leviathan e Mannequin, e substituído partes de si por componentes mecânicos. Percebeu os benefícios, trabalhou com a Dragão para melhorar ainda mais. Não conseguiu derrotar Leviathan, ficou machucado demais para enfrentar os Nove diretamente. Então, ampliou suas melhorias, eliminou a necessidade de dormir, de comer e de evacuar.
Armsmaster, Defiant, buscaria conquistar a admiração que tanto desejava matando os Nove, ou embolando-se ao lado da Dragão para deter um Endbringer.
Isso assustou Triumph, porque ele podia imaginar facilmente toda a cena: seu time sem entender nada, completamente pasmo. Era tudo tão lógico que podia se imaginar fazendo algo semelhante se estivesse no lugar do Armsmaster.
Ele não faria isso; essa era a forma que ele encontrava de se convencer. Já não era mais aquele adolescente egoísta que recebeu seus poderes do pai, como seus colegas com carros no aniversário de dezesseis anos. Ele queria uma vantagem invisível e inegável, e ficou furioso quando essa vantagem lhe foi negada. Mudou, obrigou-se a mudar; seria um bom aluno, ajudaria os cidadãos, faria a coisa certa.
Mas não tinha feito isso de verdade. Ficou calado. O Armsmaster poderia se safar impune com o que tinha feito. Talvez até conseguisse parar os Nove, vê-los mortos ou enjaulados na Birdcage. O mundo seria melhor por isso, e um homem corrompido que mecânica sua humanidade por um “plus” a mais seria considerado um herói. E ele não podia deixar de sentir que tinha feito um passo pequeno na mesma estrada que o Armsmaster tinha trilhado antes dele.
A caminhada levou Triumph ao local da cicatriz. Assim como Leviathan transformou uma parte do Centro em um buraco gigante, a diretora tinha jogado várias bombas de tinkering sobre o centro da cidade. Houve radiação, mas os níveis reportados não eram perigosos. Ainda assim, o fogo continuava aceso em uma área dias depois, e ele teve que desviar de uma nuvem de vapores brancos perigosos para chegar ao seu destino.
Sentando num pedaço de escombros que parecia seguro, Triumph apoiou os cotovelos no joelho e ficou olhando as figuras. Crawler e Mannequin, transformados em silício pela detonação de uma bomba da Bakuda. Crawler parecia quase feliz, com os membros abertos e flexionados, boca escancarada como se estivesse rugindo. Mannequin estava no meio de uma corrida, baixo ao chão.
Ele os olhava, como se pudesse gravá-los na memória. Não sabia exatamente por quê, mas sentiu que precisava ver os verdadeiros monstros fora do calor da batalha, fora da luta desesperada pela sobrevivência.
Talvez fosse uma tentativa de encontrar algum sinal, um indício que pudesse alertá-lo, que o ajudasse a distinguir os monstros dos humanos.
Ele prometeu ficar no máximo cinco minutos, dizia a si mesmo. Seja o que fosse que os registros dissessem, melhor prevenir do que remediar com a radiação. Cinco minutos, e se não visse nada até lá, não valia a pena ficar mais tempo.
Ficou quinze minutos.