Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 122

Verme (Parahumanos #1)

“Isso aqui não é uma saída. Parabéns pela referência”, disse Tattletale.

“Eu tento”, respondeu Jack. Ele não acrescentou mais nada, nos avaliando de longe. Senti um arrepio ao ter o olhar dele parado em mim antes de passar para Regent e os Viajantes.

Merda, merda, merda, merda. Quais opções tínhamos? Fugir? Siberian certamente era mais rápida que os cães, e nenhum deles era grande. Estaríamos mortos antes que Bitch os fizesse crescer. Isso sem contar a habilidade do Jack de nos cortar de onde estivesse.

Discutir? Novamente, Siberian era o maior problema. Ela poderia enfrentar todos nós e sair vitoriosa. Suspeitava que as únicas capazes de realmente lutar de igual para igual com ela seriam Skitter, Eidolon e as Endbringers, e mesmo assim, não tinha certeza se poderiam realmente pará-la. Na melhor hipótese, Skitter e Eidolon sobreviveriam e impediriam que ela matasse civis. As Endbringers resistiriam, mas civis claramente não seriam preocupação para elas.

Podíamos escapar sob cobertura dos meus insetos e da escuridão do Grue? Não achava que Siberian conseguiria nos enxergar, e se déssemos o susto nelas e voltássemos pelo caminho que viemos—

“O que é isso?” perguntou Cherish, interrompendo meus pensamentos. “Alguém acha que ela teve uma ideia inteligente? Uma esperança... uma inspiração.”

“Quem?” perguntou Jack.

“Quando olhei pra ela com meu poder, antes, chamei ela de a Minhoca. Ela passou um tempo na parte mais baixa da cadeia alimentar, ainda capaz de se mover por conta própria. Tão baixa quanto alguém pode chegar, ainda mantendo uma identidade própria. Mas ela percebeu que é venenosa, perigosa à sua maneira. Ela útil, como um bicho-da-seda que colhemos ou uma minhoca que trabalha nossos jardins. Ela até percebeu que não está sozinha, desde que procure amigos entre outras criaturas imundas... desprezíveis. Falando nisso, esqueci de dar um oi, mano.”

“Vai se ferrar, Cherie.”

Cherish sorriu e me encarou, “A pequena minhoca achou uma pepita de autoestima, ela só não quer olhar de perto pro que essa pepita é feita. Se tiver sorte, é uma das minhocas sem olhos. Elas podem estar bem conscientes do ambiente, mas são mais felizes cegas.”

“Poético,” disse Jack. “Quer dizer que Skitter é essa minhoca inteligente?”

“Sim.”

“Skitter.” Jack me olhou. “Você faz qualquer coisa e Siberian ataca. Eu também vou atacar. Seja qual for o plano que você esteja pensando, aposto que nós dois podemos te cortar antes que consiga.”

Engoli em seco, respirei fundo para limpar a garganta e garantir que não tropeçasse nas palavras ou soasse pouco claro. “Beleza.”

Plano ruim de qualquer jeito. Se tentássemos escapar na cobertura da escuridão, Siberian provavelmente nos alcançaria e cortaria pelo menos alguns de nós antes de chegarmos lá, atacando de forma indiscriminada.

“O mesmo vale pra vocês, mas acho que vocês sabem disso. Um ou dois podem me matar agora, tenho certeza, mas vão morrer horrivelmente por isso, e duvido que algum de vocês seja tão suicida assim.”

Será que ele sabia qual papel teria no fim do mundo? Isso talvez mudasse sua postura e autoconfiança.

Jack olhou para Cherish e ela deu uma pequena assentida com a cabeça. Ele virou um sorriso vitorioso para nós. “Como estão nossos possíveis recrutas?”

Recrutas? Plural? Ele incluía Noelle? Não. Ele saberia que ela não estava por perto, graças à Cherish.

Bonesaw falou primeiro, “Queria dar um oi e conhecer as pessoas que podem se juntar à nossa equipe. Jack disse que, se eu estiver pronta, posso contar qual é meu teste. Mas ainda não decidi.”

“Sério?” Jack olhou pra ela, “Não sabia que tinha alguma ideia já.”

“Ainda não decidi”, ela respondeu, visivelmente irritada por precisar repetir. “O teste pode ser sobre desafiar eles, mas também estou desafiando a mim mesma. Não quero ser monótona, então estou me obrigando a inventar algo original toda vez.”

“Que admiração,” Jack comentou.

“E tem que ser justo. O que tenho em mente não é, e estou preocupada que seja muito parecido com o teste que dei pra Burnscar. Preciso que seja justo.”

“Por que precisa ser justo?” perguntou Cherish, “Mundo injusto, teste injusto.”

“Porque eu gosto de ambos! Que melhor jeito de fortalecer nossa família do que ter dois irmãos de verdade na equipe? Eles brigariam o tempo todo, mas se amariam no fundo.”

“Ha,” Regent fez mais do que uma risada, mais um som do que uma risada de verdade, “Você realmente não conhece a família Vasil, criançona.”

“E a cadelinha! Eu adoro cachorros! Vi as fotos e são lindos.”

Senti um calafrio. De repente, a presença da Bitch atrás de mim parecia ameaçadora. Ela tinha sido escolhida pelos Dez, e mesmo quando questionada, não tinha dito uma palavra sobre isso. Por quê? E quem a escolheu? Os membros dos Dez que ainda não conseguimos identificar como candidatos eram Jack, Bonesaw e Siberian.

Siberian, eu percebi, estava encarando a Bitch. Quando olhei de relance pra ela, vi que ela encarava Siberian de volta, sem pestanejar, segurando o filhote adormecido nos braços.

“Se eu não tornar isso justo, é como se estivesse escolhendo uma acima da outra, e não quero fazer isso”, disse Bonesaw.

“Você é inteligente. Vai descobrir uma solução.” Jack se virou para nosso grupo, onde aguardávamos em silêncio tenso. “Tem muita coisa acontecendo hoje à noite. Essas reuniões, e nem nos convidaram. Quase dá pra levar na esportiva.”

“Pode até culpar a gente?” Tattletale deu de ombros. “Estávamos pensando em como matar vocês.”

Não fui o único da nossa turma a encará-la com horror.

Jack riu. Uma risada um pouco forçada, demais, considerando o que ele tinha achado de graça na fala dela. “Claro, eu já sabia que vocês estavam tramando contra nós, e vocês sabiam que eu sabia.”

“Claro.”

“Olha só, vocês precisam saber, Regent, Bitch. Cada um dos membros dos Dez pode propor um teste aos nossos recrutas. Alguns sempre fazem o mesmo teste, independentemente do candidato. Mannequin sempre pede que os candidatos se alterem de alguma forma, custe o que custar. Siberian espera até metade dos candidatos serem descartados e então caça os restantes.”

“Espero que ela não te pegue,” Bonesaw falou com uma seriedade perturbadora, “Não sobrou carne pra mim depois que ela termina.”

“Quanto a mim,” disse Jack, “costumo ser o último, depois que todos os outros já fizeram seus testes. Gosto de variar, e diferente da nossa querida Bonesaw, não tenho interesse em jogar limpo.”

“E se nós falharmos?” perguntou Regent, “Morremos?”

“Não, não,” Jack sorriu. “Ninguém passa todos os testes, e a punição por não passar depende de quem o impôs. Às vezes, morte, sim. Outras vezes, algo diferente. Mas sempre pior.”

“O que minha irmã fez nos testes dela?” perguntou Regent.

“Ei!” Bonesaw levantou a voz, apontando o dedo pra ele, “Sem trapaças!”

Bonesaw não era a única irritada com ele. Cherish olhou pra ele de cara feia.

“Não é trapaça”, disse Regent. “Chame de curiosidade mesmo. Minha irmã me meteu nessa confusão, acho que é justo saber o que ela teve que passar. Nem preciso estragar as respostas, prometo que não vou copiar nada do que ela fizer.”

Jack riu. “Ah, aumentando o desafio? Justo. Ela matou Hatchet Face. Crawler considerou isso como seu teste concluído de antemão, achou que ela não valia seu tempo. A pequena Bonesaw, por seu teste, criou um parasita que ficaria no corpo dela por quarenta e oito horas, roubando seus poderes enquanto estivesse ativo.”

“Porque não é justo que Hatchet Face não pudesse fazer seu teste. E eu queria tirá-la da rotina, então fiz com que os efeitos do parasita fossem permanentes se ela não bebesse bastante sangue.”

“Claro,” Jack tocou a testa com a palma da mão, “Foi uma reviravolta interessante. Mas você não contou ela quanto precisava beber, se uma espécie específica contava… Bem. Quebrou o ritmo dela, não foi? Siberian foi atrás dela, no segundo dia de infecção parasitária da Bonesaw. Três dias e três noites de caça e caça. Ela se saiu muito bem, na minha opinião. Seis minutos a mais e Siberian poderia tê-la pego pela terceira vez.”

Um olhar sombrio passou por Cherish.

“Shatterbird gosta de testes psicológicos, e ela estava monstrualmente mal humorada depois que Cherish se ofereceu para a equipe. Nossa Cherie nem teve tempo de descansar antes que Shatterbird a levasse pra uma sala e a trancasse lá. Sem comida, sem luz, quase sem água. O cômodo estava vazio, só tinha uma lasca de vidro. Sempre perto dela, pronta pra espetar, cortar, rasgar e ferir a qualquer momento que ela tentasse descansar.”

Senti um calafrio. Jack não tinha dito quanto tempo aquilo durou, mas depois de três dias e noites sem dormir, até algumas horas assim já seriam um pesadelo.

Havia uma pista ali também. Crédito para Regent por fazer Jack deixar escapar. Shatterbird tinha alcance ofensivo maior que Cherish, se fosse capaz de prender a garota e usar a lasca sem se afetar na retaliação. Não era muito, mas era uma pista, uma peça pro quebra-cabeça.

“O teste da Burnscar, ela não passou. Acho que não vou estragar essa. Não faz o mesmo impacto se você souber que vai acontecer. Assim, só sobraram dois testes pra ela passar. Mostre pra eles.”

Cherish olhou feio pra Jack.

“Mostre,” ele ordenou. Não havia ameaças ou raiva na voz dele, mas ela obedeceu mesmo assim. Virou as costas pra gente e puxou a bainha da blusa.

“Mannequin exige que o candidato se transforme, e que seja difícil. Depois de enfrentar a punição que a Burnscar deu por falhar no dela, Cherish não ia pagar a dele.”

A tatuagem se estendia debaixo da cintura da calça de cintura baixa até subir pela costa. O centro dela era um grande coração apodrecido, feito com o nível de realismo que já tinha visto numa tatuagem. Tudo em tons de verde, coberto de úlceras, feridas, manchas de podridão e vermes vivos. Os tatuagens ao redor davam a impressão de pele rasgada, expondo os ossos e órgãos debaixo, ratos e baratas escondidos atrás das costelas e sobre os rins. Enquadrando tudo, letras, não feitas em um estilo elaborado, mas em rabiscos que pareciam ter sido esculpidos na superfície com facas: epítetos e insultos.

“Ela mandou os artistas fazerem tão feio que ela quisesse matá-los. Se não, prometeu matar seus entes queridos e depois matá-los também. Foram seis artistas ao todo. Inspirador.”

Cherish olhou por cima do ombro, fixando Jack com um olhar de choque. Foi então que percebi duas coisas. A primeira ficou clara quando sua pele se esticou. Havia profundidade nas tatuagens que não se consegue numa imagem bidimensional. Sua pele tinha sido cicatrizada e rasgada para criar bordas elevadas e dar às imagens e palavras uma permanência que a tinta simples não conseguiria.

A segunda coisa que notei foram seus olhos. Era como se uma luz tivesse se apagado lá dentro, só de ficar ali, com a tatuagem exposta.

“Aquela foi a mais difícil pra você, não foi?” disse Jack, sorrindo. “Mesmo cansada, assustada, ferida e desesperada depois dos outros cinco testes, foi quando você decidiu danificar aquela jovem e pura pele sua que uma coisa dentro de você quebrou, e você começou a se enxergar como uma de nós. Liminaridade.”

“Qual foi seu teste, Jack?” perguntou Regent. Não consegui saber se ele estava feliz em saber que a irmã tinha sofrido ou triste por ela.

“Ah, eu sabia que seria quase impossível superar o teste do Mannequin. Ele a pegou no momento exato, bateu na corda certa e a empurrou até seus limites. Ainda assim, acho que consegui superar. Pode virar, Cherish.”

Ela fez como uma automática. Mais tatuagens e cicatrizes cobriam seu peito, tão extensas e tão assustadoras quanto antes. Duas mulheres despidas, com os corpos entrelaçados como patas quebradas de um inseto esmagado, nenhuma delas atraente. Uma era magérrima, a outra obesa mórbida, e ambas eram velhas. Mais tatuagens de carne apodrecida e rasgada cercavam a cena, e as palavras na borda das tatuagens na frente tinham um contraste oposto ao das anteriores, quase mais irônicas e desesperadas: ‘Leve-me’. ‘Por favor, Deseje-me’. ‘Quer-me’, e outras variações mais vulgares do mesmo, na mesma linguagem.

“Fiz ela refazer os outros seis testes tudo de novo.”

“Até trouxe de volta o Hatchet Face pra fazer o teste do Crawler de novo!” Bonesaw sorriu. “Nada de ataque surpresa dessa vez. Era um dos três testes que ela falhou na segunda rodada; tinha tanta orgulho dele!”

Vendo os ombros de Cherish se encolherem, seu rosto escurecer com lembranças, aquelas tatuagens feias que garantiam que ela nunca mais conseguiria fugir daquele passado e recomeçar do zero, nunca mais fazer um menino olhar pra ela e sentir fome… tive que olhar pra longe. Eu sabia que ela era do pior tipo de pessoa, só não tinha como saber o quanto aquilo tudo tinha acontecido antes dos testes.

“Bom, irmã,” disse Regent, “pensei que você estivesse se jogando de cabeça num destino pior que a morte. Corrigi minha impressão. Você já está lá, e fez isso sozinha.”

Ela puxou a camiseta e rosnou: “Essa é a hora em que eu ameaçaria te matar, se eles não fossem fazer isso muito melhor que eu.”

“Não consegue fazer sozinha?” interrompeu Tattletale. “Por que acha que precisa deles?”

Os olhos de Cherish se estreitaram. “Você está tentando alguma coisa. Sinto um ar de superioridade sua, confiança demais pra sua posição.”

Jack sorriu, segurando os pelos da barba entre o polegar e o indicador. “Ah? Ainda quero ouvir sua resposta à pergunta dela.”

“Vai se ferrar. Você já virou uma rotina previsível, velhote. Quer se divertir mais, sabe que é inteligente como qualquer um aqui, então escolhe o caminho mais difícil pra não ficar fácil demais. Por que não manda a Siberian comer ela? Não consegue imaginar a cara das amigas dela quando não puderem fazer nada pra salvar? Aposto que isso iria acender uma chama nelas, animá-las pros testes. Talvez elas até se atirem de cabeça, pra poupar as demais.”

“E quem tenta manipular agora?” perguntou Tattletale. “Ela está jogando você contra ela.”

Jack franziu a testa e puxou os fios da barba que segurava. Espetou-os no ar, “Sei bem que ela está tentando me manipular.”

“Ok, só que acabei de perceber uma coisa enquanto falava: você sabe que ela está jogando um jogo de longo prazo? Ela está armando pra vocês, usando seu poder pra puxar as suas cordas e fazer vocês ficarem grudados nela. Seis meses a um ano, ela provavelmente vai ter vocês completamente sob seu feitiço”, um sorriso lento se espalhou pelo rosto de Tattletale.

Percebi a expressão de Cherish mudar de raiva e irritação para um horror de olhos arregalados.

Jack pinçou a ponte do nariz, olhando pra baixo, e eu mal consegui ouvir ele murmurar “Decepcionante.”

“Provavelmente era o plano dela desde o começo”, disse Tattletale. “Ela—”

De repente, Tattletale parou de falar, e me cega. Na mesma hora, algo bateu contra o tecido da minha máscara. Molhado. Eu senti o gosto dele na superfície do meu rosto. Salgado e doce, com um leve gosto metálico.

“Seu filho da mãe!” gritou Grue, com a voz distorcida por seu poder.

Sangue.

Corri para limpar o sangue da lente da máscara. Tudo que via ficava obscurecido pelas marcas, quase preto na luz.

Tattletale estava caída um pouco na minha frente, com Regent e Sundancer agachados ao lado dela. Tanto sangue, cobrindo o rosto dela e as mãos de Regent e Sundancer.

Jack brincava com a faca na mão, enquanto Siberian ficava entre ele e o restante do grupo, com os olhos principalmente em Ballistic.

Jack andava de um lado pro outro, alguns passos de cada vez, gesticulando com a faca. “Tava ansioso pra ver a tentativa da Cherish. Bonesaw e eu até tínhamos um plano. Queria ver o que ela fazia, como contornava a imunidade da Siberian ao poder dela… aí, as salvaguardas que a Bonesaw tinha implantado em nós se ativariam e nos libertariam do controle dela, e, ah, que expressão ela ia fazer. Ver aquilo valeria todo o esforço. E aquela garota acabou com tudo.”

“Você sabe,” disse Cherish, em choque.

“Claramente.”

“Mas meu poder—não percebi nada nos seus planos, na sua rede emocional ou—”

Caí de joelhos tão rápido que até doeu, e comecei a ajudar Tattletale imediatamente. Regent me deu espaço, deixando que eu assumisse a situação. Jack tinha cortado ela da boca até a lateral do maxilar. Abrira a pele no canto da boca. Eu devia estar bem na linha de fogo da espirrada de sangue que saiu. Como fazer pressão numa ferida assim?”

Jack tava ficando nervoso, falando quase consigo mesmo. “Era exatamente esse o objetivo! Ver quanto tempo podíamos passar sem ela perceber. Bonesaw ajudou na cirurgia, até com conexões neurais artificiais que a Cherish não podia ver. Tanto trabalho e preparação destruídos.”

“Eu—” Cherish começou, mas parou antes de completar. Tentando de novo, perguntou, “O que você vai fazer comigo?”

“Não é uma preocupação urgente,” respondeu Jack, como se ela nem estivesse ali.

Minha habilidade chisporroteava na beira da consciência. Tive que reprimi-la antes que déssemos outro motivo pra eles atacarem. A maior parte da minha atenção estava na Tattletale, na Lisa. Usei meus dedos pra tirar o máximo de sangue possível da boca e da garganta dela, depois ajuste o ângulo da cabeça pra qualquer sangue extra escorrer pelo rosto ou sair da boca.

O tecido das minhas luvas oferecia mais tração do que as pontas dos dedos, mas a quantidade de sangue deixava tudo escorregadio demais, e não tinha certeza do que segurava. Uma das mãos dentro da boca dela, com os dentes pressionados contra meus nós, a outra segurando de cima, pra esmagar tudo e pressionar ao máximo. Ela se mexeu o suficiente pra se afastar, sem dúvida porque eu abria o rasgo no canto da boca dela.

“Segure a cabeça, Regent, não deixe ela puxar. E um pano,” eu falei, minha voz baixa, “Preciso de algum pano pra absorver o sangue.”

As aulas de primeiros socorros não me prepararam pra isso.

Um som de rasgo, e Regent me entregou um pedaço de pano. Faguei pra colocá-lo no canto da boca dela, onde o sangramento estava pior, e depois espalhei o restante ao longo do corte. A peça branca virou completamente vermelha em um segundo.

“Mais,” eu disse, mantendo a voz baixa pra não alertar os membros dos Dez que estavam por perto.

“Melhor nem se incomodar,” disse Jack. “Uma ferida dessa, ela morre de hemorragia antes que você consiga fazer algo.”

“Seu filho da mãe,” grunhiu Grue.

“Você realmente não devia xingar assim!” Bonesaw falou. “É grossura! Se você concordar em se comportar, talvez eu possa consertar ela pra você. Ah, já que a bochecha dela está cortada, posso trocar pra os dentes dela ficarem do lado de fora, assim ela não vai mais precisar daquela pele e carne pra atrapalhar. E, e, posso fazer de um jeito bem artístico e bonito, e trocar a língua dela pra ela conseguir fazer todos os sons que normalmente precisaríamos de lábios — como puf, buf, mua, ua, vuh...”

Regent me entregou mais pano, e eu enrolei com força. Tattletale não se mexia muito, e não tinha certeza se era por causa da perda de sangue ou se doía demais para qualquer movimento.

Percebi uma faísca de luz quando Jack estalou a faca, jogou no ar e alcançou a lâmina com o dedo médio e a unha do indicador. Ele virou a lâmina na mão, segurando no cabo. “Acho que já posso entrar na parte importante do nosso encontro, Regent e Bitch. A não ser que vocês queiram propor o teste a eles, Bonesaw?”

“Não, deixe eu pensar um pouco.”

“Beleza. Não adianta nossos candidatos morrerem antes das provas, então vim avisar vocês sobre dois perigos, na verdade, para cada um de vocês.”

Por que ele não parava de falar, pra gente poder levar a Tattletale pra um lugar onde ela pudesse receber ajuda? Minhas mãos já começavam a doer de tanto tentar manter a pressão, com o ângulo torto que tinham por causa da inclinação da cabeça dela.

“Dois dos candidatos que escolhemos são heróis, por assim dizer, e Cherish disse que talvez nem dê pra trazer eles perto pra fazer os testes. Nossa querida Bonesaw elaborou uma incentivo pra estimular a cooperação deles.”

Bonesaw pegar uma pequena ampola do bolso.

Senti Tattletale ficar tensa, e olhei pra baixo. Ela fixava a ampola.

“Guerra biológica?” perguntou Grue.

“Naturalmente.”

“Pra que serve?”

“Caso todos os nossos candidatos falhem em cooperar, recomendo que usem só água engarrafada. Sem água filtrada, sem água da chuva, nada disso. A não ser que estejam bem corajosos. E, pra não correr risco, evitem molhar as feridas também.”

“E o segundo aviso?” perguntei. Queria que ele terminasse.

“Em…” Jack puxou uma relíquia de pulso com corrente. “T-34 minutos, Shatterbird vai cantar alto o suficiente pra que boa parte da cidade ouça. Ela quer deixar claro pra todo mundo em Brockton Bay que estamos aqui. E, já que não há necessidade de manter o elemento surpresa com nossos possíveis membros, ela pediu pra fazer isso. Com isso, vocês fariam bem em ficar longe de tudo que seja de vidro ou de praias, e guardem no bolso qualquer coisa com tela.”

Pai. As pessoas da minha área. Preciso avisá-las, mas…

Olhei pra Tattletale e me senti paralisado.

“Esse é o essencial”, disse Jack, sorrindo. “Foi um prazer conhecê-los.”

Senti Tattletale se mover. Sua mão tentava achar a arma na bolsa maior do cinto. Não. Uma bolsa ali perto, do mesmo tamanho, mas mais fina.

“Sundancer,” sussurrei, “Ajude ela.”

Sundancer ajudou. Havia canetas na bolsa.

“Ajude ela a achar o papel,” eu mandei. Jack e sua equipe tinham partido e estavam se afastando.

Era um bloco de notas quase do tamanho de um bloco de Post-its. Tattletale pegou a caneta que Sundancer segurou pra ela, apertando-a na mão fechada. Ela escreveu uma palavra: ‘Acordo’.

Depois olhou pra mim, com os olhos arregalados.

“Não,” eu sussurrei. “Precisamos levá-la pra receber ajuda, e eu tenho que ir avisar—”

Ela me furou com a caneta e mordeu o dedo de trás da minha mão, causando uma dor enorme. Não tinha certeza se era mais dor dela ou minha, mas Cherish se virou e fez sinal pra Jack, que já estava se afastando, parar.

“Um acordo,” eu gritei, “Eu não—”

Sundancer rasgou a primeira folha, e Tattletale começou a escrever na próxima mensagem.

Engoli em seco. “Ela quer saber o que acontece se… se mais de uma pessoa sobrar no final.”

“Vamos fazê-los disputar entre si,” disse Jack.

A próxima palavra—mal consegui entender. ‘Jogo’.

“Ela, hum, acho que quer jogar um jogo?”

Tattletale piscou lentamente, confirmando. Ela escrevia mais.

“Um jogo?” perguntou Jack.

Não consegui entender. ‘Se houver mais da metade no final’.

“Um segundo.” Eu falei. Sundancer rasgou mais uma folha. Aquilo tava levando uma eternidade, tentando interpretar o jeito abreviado dela e seguir a linha de raciocínio. “Testes. Se sobrar mais da metade dos candidatos no final, ganhamos. Você sai com alguém voluntário? Pode sair com quem quiser se querer se juntar. Mas sai.”

“Você acha que mais da metade dos candidatos consegue passar nos testes? Estou intrigado. Acho difícil, mas quero ver.”

“Brockton Bay tem seu quinhão de patotas, Jack,” falei, com a voz dura de tanta raiva reprimida.

“Não vejo o que nós ganhamos com isso.”

Tattletale tinha largado a caneta. Sobrou pra mim dar conta do recado.

“É um desafio. Um jogo. Uma mudança na rotina. Podemos fazer o que for preciso pra manter o máximo de candidatos vivo. Vocês… fazem o que sabem. Assim as coisas ficam mais interessantes.” Meus olhos caíram sobre Bonesaw, “E talvez assim as coisas sejam justas?”

Os segundos passavam. Cada batida do meu coração elevava ainda mais a tensão. Cada instante que passava era mais um passo perto de Tattletale sangrar demais ou a Shatterbird usar seu poder.

“Gosto dessa ideia. Pode até ser uma solução pro teste que quero aplicar. Vamos fazer assim,” Bonesaw disse, olhando pra Jack.

Ele franziu a testa. “Vamos discutir na nossa equipe. Suspeito que vamos ter nossas próprias condições pra esse jogo. Entre outras coisas, uma penalidade pesada se nós ganharmos.”

Depois virou-se pra ir embora.

Olhei pra Tattletale. Seus olhos estavam fechados. Minhas mãos se sentiam como dois blocos de pedra onde estavam pressionadas contra ela—afoitas, pesadas, imóveis.

“Não sei o que fazer,” eu disse, quase num sussurro. Levantei a cabeça e, mais alto, falei: “Não sei o que fazer.”

Ele não tinha uma resposta, mas se abaixou pra ver como ela tava.

Foi Tattletale quem me deu minhas ordens.

“Guh,” ela tossiu a palavra. Quando Grue puxou minhas mãos com cuidado pra assumir o controle, ela repetiu, só um pouco mais clara, “Goh.”

Vai.

Fiquei de pé, cambaleando um pouco ao me afastar dela. Ela parecia tão frágil, deitada de lado, com sangue acumulado sob a cabeça, ao redor do cabelo loiro sujo. E eu a deixava ali.

“Podemos chamar o Coil,” disse Ballistic. “Ele manda uma carruagem pra te pegar onde for necessário.”

Balancei a cabeça. Não podia esperar e confiar que a carruagem chegaria a tempo, ou que ela me levaria ao lugar certo. Haveriam desvios, áreas por onde um carro não conseguiria passar.

Virei e comecei a correr. Sai do estacionamento, passando por Cherish, Bonesaw e Jack. Eles não disseram nada, nem tentaram me impedir.

Estava a um quarteirão deles quando peguei o celular e disquei pra casa, mas já sabia qual resposta receberia. A mensagem automática saiu do telefone enquanto eu o segurava com uma mão, indo em direção ao norte.

Número de telefone desligado. Se desejar deixar uma mensagem…

Não era minha força forte calcular distâncias. Quantos quarteirões, quão longe eu precisava correr pra chegar no meu pai? Cinco milhas? Seis? Sou um corredor treinado, mas as ruas aqui estavam em más condições. Algumas estavam inundadas, outras cheias de detritos, várias sofrendo nos dois sentidos. Algumas estavam bloqueadas.

E eu tinha menos de trinta minutos.

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