Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 110

Verme (Parahumanos #1)

Um uivo rasgou o ar. Não era o uivo que se esperaria de um cachorro. Era arrastado, com uma entonação gutural que sugeria o tamanho de quem o emitia.

Antes mesmo do uivo acabar, mais se juntaram respondendo ao chamamento. Um segundo uivo, depois um terceiro. Outros se uniram, todos ao mesmo tempo. Sete ou oito.

Bentley levantou a cabeça e se juntou a eles, seu rabo balançando na traseira pequena, quase saltitante de excitação. Água espirrava ao redor das patas—grossas como pneus de bicicleta—quando ele aterrissou, molhando a cadela.

Seu entusiasmo era contagiante. Ela exibia os dentes num sorriso largo, depois gritou, aumentando a cacofonia. Pulou ao lado dele, agarrando-se às dobras de músculo duro e às projeções ósseas para conseguir colocar uma perna sobre o ombro dele. Uma ponta de osso arranhou sua parte superior da coxa, por baixo da saia, mas ela não se importou. Não era nada.

“Vai, Bentley!” Ela o incentivou. Ele avançou como uma flecha disparada de um arco.

Ela podia sentir o calor do corpo dele por baixo dela, os movimentos ondulantes dos músculos enquanto corria. Podia cheirá-lo, como hálito de cachorro e o leve aroma metálico de sangue, aquele cheiro doce de carne prestes a apodrecer. Podia cheirar ela mesma, o odor do seu corpo. Ela não se lavara há dois dias, mas gostava do próprio cheiro. Gostava que suas coisas e seu espaço cheirassem como ela.

Não que ela fosse descuidada. Cuidava de si mesma, assim como cuidava de seus cães. Assim como arrumava cada um duas vezes por semana ou mais, ela também se cuidaria. Mas o que importava um pouco de pelos nas pernas — quando ela pisava em ruas alagadas ou estava coberta de lama até os joelhos metade do tempo assim mesmo? Que significava um pouco de odor corporal se ela nem mesmo gostava das pessoas ao redor para se importar com isso?

Barker, Biter e os outros estariam nos locais que ela tinha designado. Ela tinha dado a eles as tarefas mais triviais: cuidar dos cães, alimentá-los, recolher fezes, verificar se tinham feridas, cortes, infecções de ouvido e carrapatos, como tinha aprendido. Agora ela tinha vários cães sob seus cuidados. A maioria fora tirada de canis que estavam há tempos incapazes de cuidar dos animais desde que Leviatã atacou. Estava ansiosa para ouvir alguém reclamar.

Barker ou Biter seriam os primeiros a reclamar da tarefa. Eles tinham poderes, e esperavam estar no comando, serem seus tenentes. As caras deles quando ela lhes entregou as tarefas tinha feito o dia dela. Nada como colocar alguém no seu lugar.

Se não reclamassem até terminarem de verificar e cuidar de todos os cães dela, talvez começassem quando chegasse a próxima leva dos abrigos, e fossem informados de que teriam que fazer todos aqueles cães além de começarem de novo com os que já tinham feito antes.

Se alguém realmente reclamasse? Ou se deixassem passar uma carrapato, uma assadura ou uma infecção de ouvido? Ela poderia fazer um exemplo deles. Humilhá-los, assustá-los, insultá-los. Se fizesse bem feito, eles iremiam embora.

Se ela fosse excelente, todos iriam embora.

Então poderia ficar sozinha por um tempo, só com seus cães. Ninguém iria reclamar por ela não ter tentado o negócio de capanga. Que se dane. Ela já tinha toda a ajuda de que precisava. A melhor, mais leal que existe.

Lucy apareceu de uma rua próxima, mostrando sua empolgação com um som que era metade latido, metade outra coisa. Corria ao lado de Bentley.

“Boa garota!” Bitch riu, “Vamos!”

Lucy respondeu soltando um resmungo que talvez fosse um latido. Sua corrida espirrava fora de sincronia com a de Bentley, logo sendo reforçada por outras. Ink, Magic, Roxy, Buddy, Bruno e Socks. Nenhum deles alcançava o tamanho de Lucy ou Bentley. Seria a primeira corrida deles, uma amostra do seu poder. Ela daria um pouco mais a cada vez, observando quem obedecia, treinando mais quem precisava ser controlado pelos maiores e mais obedientes cães.

Mas esse era o território dela. Seu espaço. Finalmente um lugar onde podia fazer o que quisesse. Aqui, era livre, e isso significava que podia se sujar. Podia ir onde quisesse, ferir quem se metesse na sua cara. Podia circular livre com seus cães e experimentar seu poder neles sem se preocupar com pessoas se machucando.

Claro que isso não significava que ninguém se machucaria. Só que era território dela, e ela podia decidir quem ficava ou saia. Quem não tivesse entendido a mensagem já merecia o que recebia.

Bentley e o resto do seu bando se aproximaram da origem do uivo. Sirius estava do lado de fora de um prédio, enchendo a noite daquele som lamentoso e assombroso que reverberava pelo ar.

Ela desceu das costas de Bentley e usou a parte de trás da mão para enxugar um pouco do suor, do muco e do sangue que tinham transferido das costas dele para sua parte interna da coxa. “Sirius! Bom garoto!”

Ele balançou o rabo, e a ponta dele deixou rastros na água.

“Sirius, guarda!” ela apontou para a porta da frente do prédio. “Bentley! Guarda!” Ela apontou para a saída de emergência ao lado. Os dois cães se posicionaram em seus respectivos locais.

“Senta!” Todos os cães sentaram. Ela percebeu que Magic demorou um pouco mais para obedecer. Magic teria ouvido se os outros cães não estivessem aqui? Se ela não estivesse acompanhando? Bitch fez uma anotação mental.

“Fica…” ela ordenou, prolongando a palavra. Era possível ver os cães congelarem.

Ela tinha uma rotina com eles. A prioridade era garantir que estavam saudáveis. Isso incluía cuidar, aparar, atualizar os registros e vacinas se eles não vierem do abrigo, limpar os ouvidos, e manter distantes dos outros cães para poder verificar a cor e a consistência das fezes, perceber mudanças. As fezes diziam muito sobre o cachorro: dieta, saúde geral, humor. Um cachorro infeliz tinha fezes doentias.

O segundo passo era o treino. Cada um recebia atenção dedicada. ‘Senta’ era o primeiro comando; depois vinham ‘fica’, ‘não’, ‘busca’ e ‘vem’. Dependendo do cão, podia levar dias até aprender direito. Essas ordens eram absolutas. Se um cachorro não obedecesse, não podia sair, nem usar seu poder.

Com o domínio desses comandos, abria-se a oportunidade para outros. Um cão que ficava na posição enquanto ela demonstrava com outro tinha mais propensão a seguir o exemplo.

Se só os humanos fossem tão fiéis, tão fáceis de treinar.

“Cães, ataquem.” A palavra veio silenciosa, mas todos os cães presentes estavam esperando por ela. Bentley e Sirius permaneceram nos seus postos, mas os demais avançaram para dentro do prédio, os maiores pulando pelas janelas tampadas, os menores entrando pela porta da frente. Rosnados e latidos, distorcidos pelas formas não naturais de suas gargantas, se misturaram em um só barulho.

Ela ficou do lado de fora, com uma mão no pescoço de Bentley. Ele queria ir, ela percebia, pelo tensionamento, mas era obediente. Bom. Para ele, isso era um teste.

Outro uivo soou, bem ao longe, e ela se assustou. Se os cães dela estavam ali com ela… ah. Só um estaria distante. Ela escutou o uivo repetir. Sim. O uivo de Angelica refletia seu tamanho e até onde Bitch tinha usado seu poder nela. Mais que Bentley, Sirius e Lucy.

Ela assobiou para que voltassem, grave e forte, e seus cães correram de volta pelo prédio. Ela verificou e não conseguiu distinguir sangue que não fosse deles. Bom. Melhor assustar e ferir levemente do que mutilar ou matar. Se as pessoas naquele prédio permanecessem na sua área, ela se surpreenderia.

Ela subiu nas costas de Bentley, então assobiou duas vezes. Vem.

Um puxão na coleira de corrente do pescoço de Bentley e um chute nos flancos dele o impulsionaram. Os outros seguiram, alguns latindo ou ui-ui com empolgação.

Outras pessoas já tinham tido algo parecido? Taylor, Brian, Lisa ou Alec? Ela se sentia uma com Bentley enquanto respirava profundamente entre seus passos bruscos. Água espirrava na sua pele e na dele. Suas pernas pressionavam contra o corpo dele, e ela sentia a expansão e contração enquanto ele exalava. Confiava nele, e ele confiava nela, completamente. A experiência variava de um cão para outro, mas o mesmo valia para os demais que seguiam na esteira de Bentley. Eles acreditavam nela, e se ainda não a amavam, ela tinha certeza de que isso viria com o tempo, com sua paciência e cuidado contínuo. O que Lisa tinha, que pudesse se comparar a essa adrenalina, a essa segurança? E o que tinham os outros?

Por quê, ela se perguntava, estão mais felizes que eu?

Involuntariamente, as respostas vinham à mente.

Ela se lembrava de morar com a mãe. Não se lembrava nem do rosto dela, o que não era surpresa. A mãe trabalhava de três ou zero empregos, pouco tempo no apartamento. Quando estava em casa, ou bebia no quarto ou saia para festas com os amigos. As perguntas ou tentativas de atenção de Little Rachel eram desfechadas com raiva e rejeição. Ela era afastada ou trancada no quarto. Melhor ficar na defensiva, procurar oportunidade. Quando a mãe desmaiava bêbada, as contas podiam ser roubadas do bolso, escondidas para compras posteriores de pão, manteiga de amendoim, geleia, leite, cereal ou suco de laranja na mercearia da esquina. Se houvesse uma festa, e ela conseguisse evitar ser notada, muitas vezes pegava um saco de batatas ou uma caixa de costelas ou asas de frango para comer debaixo da cama ou no telhado.

Então ela se virava. Até o dia em que a mãe não voltou mais. As comidas nas gavetas tinham sumido, até os pêssegos, peras e nozes ensopadas em calda de gosto ruim, deixadas pelos residentes anteriores. Desesperada, com medo de sair do apartamento, na esperança de que os quinze minutos que gastou procurando comida fossem os mesmos quinze que a mãe passaria na rua, tentou cozinhar o arroz, subindo numa cadeira para alcançar a pia e o fogão. Ao colocar o arroz na água quente, acidentalmente deixou escorrer um braço sobre a panela, que virou por cima de si própria. Em retrospecto, foi uma benção não saber que a água tinha que estar fervendo. Ainda assim, a água era quente o suficiente para deixar sua pele rosada e fazê-la gritar, o bastante para fazer os vizinhos chamarem o 190.

Depois, os lares adotivos. Primeira casa: pais gentis, mas sem paciência para uma menina que o departamento de proteção à criança rotulava de quase selvagem. Sua irmã adotiva lá era uma mongoloide que roubava coisas, quebrando ou destruindo o que não levava para si. Rachel reagiu da única forma que conseguiu pensar, atacando a garota, três anos mais velha e cinquenta quilos mais pesada, deixando a outra toda ensanguentada e chorando.

Depois disso, encontraram uma nova família para ela rapidamente.

Segunda casa: pais não tão gentis, com quatro irmãos adotivos em vez de um. Três anos ali, uma longa série de lições sobre o que ela tinha feito com a irmã idiota da primeira casa, invertendo os papéis. Uma educação na violência de todos os tipos.

Incapaz de segurar as emoções dentro de si, berrava até não conseguir mais respirar. Depois, respirava fundo e berrava de novo. Mesmo assim, por menores que fossem suas vozes, nada se comparava ao que ela queria transmitir.

A terceira casa foi o ponto de ruptura. Dois irmãos adotivos, uma mãe adotiva única. Ela ouviu seu assistente social dizendo que a nova mãe seria severa, a única capaz de transformar Rachel em um ser humano civilizado. Opinião de Bitch, anos depois, era que aquilo era uma retaliação, uma punição que ela achava que tinha sido infligida por causa das inúmeras visitas à escola e à casa para cuidar dela.

Ela não acreditava que a madrasta fosse mais rígida do que seus demais tutores. Perceber a real situação dela tinha sido desagradável. A madrasta não tacava conversa fiada, tinha um olhar atento a cada erro, pronta para punir ou corrigir. Se uma criança falasse com a boca cheia, ela tirava o prato e jogava o conteúdo no lixo. Nunca a recompensa, sempre a punição. Rachel tinha que freqüentar a escola e ainda aulas extras, com piano a cada dois dias, como se ela não pudesse ser má se não tivesse tempo.

Porém, Rachel não tinha preparo nem para aquilo. Lutava, desafiava a autoridade da madrasta, e quando era punida, reagia ainda mais forte.

Ela poderia ter enlouquecido se não fosse por Rollo. Ela encontrou o filhote de cachorro feio e hostil numa viela entre as aulas e a casa. Depois de conquistar sua confiança com pedaços de almoço por semanas, ela o trouxe para casa e o amarrou na parte mais distante do quintal, fora do alcance da vista da casa.

Ela ficava quieta enquanto a madrasta reclamava do latido do cachorro vizinho, sentindo uma mistura confusa de orgulho e medo toda vez que isso acontecia. Seu dinheiro de almoço era usado para comprar restos de comida para o cachorro, adivinhando suas necessidades. Sacrificando seus próprios almoços, ela passava a ter dores de cabeça e barriga roncando o tempo todo na escola. Acordava às quatro da manhã para cuidar dele e brincar, e a falta de sono a deixava tão cansada que chegava a dormir no meio da aula.

Mas um cachorro não poderia ficar preso a uma árvore vinte e duas horas por dia. Ela via sua agitação e infelicidade aumentando, a ponto de não poder brincar com ele sem se machucar. Então ela o soltava para passear. Ele escapou e correu em direção à casa. O coração apertado, ela saiu atrás dele.

Quando o alcançou, encontrou-o na piscina; ela não sabia nadar, e ele não conseguia sair. Ela implorou para Rollo sair da piscina, tentou correr ao redor da borda para alcançá-lo e puxá-lo para fora, mas ele estava assustado e nadou para longe.

Então a capa de plástico da piscina começou a deslizar para fechar. Quando Rachel olhou para a casa, viu sua madrasta do lado de fora da porta de vidro deslizante que dava para o quintal, com o dedo no interruptor. Lentamente, apesar dos gritos e batidas na porta trancada, a tampa desceu sobre a cabeça de Rollo, aprisionando-o. Por quase um minuto, ela viu uma protuberância sob a capa, enquanto ele nadava em círculos apertados, seus sons de angústia abafados.

As punições da madrasta sempre corresponderam aos crimes. Não tinha dúvida de que Rachel conhecia o cachorro pelos seus pedidos e gritos, e ter um cachorro ali contra as regras. Ou talvez nem fosse isso. Talvez fosse o fato de ela estar fazendo barulho às cinco da manhã, ou a sensação de que o latido que atormentava a madrasta há tanto tempo era culpa dela. Seja qual fosse a causa, o cachorro tinha que ser descartado — assim como um prato de jantar que se joga fora porque se segurou a garfo ao contrário ou sentou à mesa com as pernas demasiadamente abertas.

Ela despertou com seu poder naquele momento de pânico. Alimentada por ele, Rollo cresceu o suficiente para rasgar a capa. Depois, rasgou a madrasta. O grito agudo dos irmãos dentro de casa chamou atenção dele, e ele partiu para cima deles também, pulando como qualquer cão excitado que tenta pegar um rato ou um coelho. Rasgou portas, paredes, uma seção inteira da casa, caindo sobre sua família adotiva. Num só golpe, ela perdeu o que tinha de mais próximo de lar e família. Não tinha sido perfeito, às vezes foi um pesadelo, mas ela tinha tão pouco há tanto tempo que se segurou nas migalhas que tinha. Então, fugiu — e continuou fugindo por muito tempo.

Sua respiração falhou enquanto inspirava. Ela balançou a cabeça violentamente, tentando afastar as lágrimas. Parou de gritar, mas seus cães compensavam, suas vozes unidas às dela, continuando por longos momentos depois que ela deixou de gritar, quase abafando os uivos de Angelica.

Tantas memórias ruins. Memórias que ela desejava poder apagar, lavar da cabeça com fogo, água sanitária e escovas de aço.

Ela estava infeliz porque humanos eram animais de matilha, decidiu. Taylor, Lisa e Brian podiam sorrir e rir porque tinham sua matilha, seus familiares, um ao outro. Alec era mais um solitário, mas ainda podia brincar e rir com Brian. Eles tinham sua matilha, sua dinâmica. Ela não fazia parte dela de verdade.

Sabia que não era uma loba por escolha, como Alec. Havia um vazio, uma parte dela que ansiava por conexão humana porque era humana, e era isso que os humanos precisavam. Pelo que tinha acontecido, por tudo que não controlava, ela nunca aprendera a lidar com as pessoas, a convidá-las a preencher aquele vazio. Amizades, família, conversas, piadas, estar perto de outros e saber quando falar ou ficar em silêncio? Coisas traiçoeiras, cheias de nuances complicadas, más associações, memórias piores ainda. Mesmo que ela acertasse alguma coisa, sempre estragava mais cedo ou mais tarde. Mais fácil deixar como está, não tentar, ficar na sua. E se elas a confrontassem, desafiando sua autoridade, e não a deixassem manter distância? Era mais fácil confiar no que já conhecia do que tentar adivinhar como reagir. Violência. Ameaças. Assim conquistava respeito, pelo menos.

Até que Taylor fez gestos de amizade. Taylor se intrometendo naquele vazio e ficando mesmo quando ela, Bitch, estragava tudo. A garotinha magricela ficou firme, não saiu correndo quando ela a chamou na frente dos outros. E, talvez, só um pouco, ela teve um vislumbre do que tinha perdido.

Apenas para descobrir que aquilo era uma armação. Uma encenação, para ganhar a confiança do grupo.

E agora os outros a tinham perdoado? Tão facilmente? Ela via eles se babando pelo traidorzinho. E nada podia fazer a respeito. Gostavam mais da Taylor. Iriam manter Taylor na equipe e fazer ela sair, se fosse preciso. Ela sabia, lá no fundo.

Então ela fez uma besteira. Tentou se livrar da companheira, e fez isso de uma maneira que a assombraria. Mais do que tudo, mais do que todas as pessoas que tinha machucado, matado por acidente, ou os dias que passou vasculhando a lixeira por comida enquanto era mendiga, vagando sozinha pelas cidades, ela se odiava pelo que tinha feito com a Taylor. Agiu como as pessoas que a assombravam nos seus pesadelos, usando a confiança que tinha para ferir alguém.

E ela não sabia o que fazer com isso.

Um disparo a assustou, tirando-a dos pensamentos.

“Vai!” ela gritou. “Vai!”

Mais estalos de tiros ecoaram na noite enquanto seu bando chegava ao local. Angelica estava lá, sua silhueta musculosa e pulsante de força a ponto de mal conseguir se mover rápido. Tudo bem. Angelica não conseguia se mover rápido daquele jeito desde que Fog a feriu. Ela preferia assim; era forte, grande, capaz de se mover sem dor.

Angelica recuou e hesitou quando os tiros a atingiram, causando cortes na carne.

Outro tiro. Bitch viu um clarão pela janela, um vislumbre de um rosto. Seu rosto torceu de raiva. “Ataquem!” sua voz foi aguda. Ela pulou de cima de Bentley para que ele pudesse ir também. “Busquem! Venham! Vá, vá!”

Como fizeram na localização anterior, seus cães rasgaram o prédio. Desta vez, voltaram com pessoas nas mandíbulas. Braços, pernas e torsos presos com presas. Homens, mulheres e crianças. Alguns gritavam, embora os cães às vezes mordessem forte demais, sem saber sua força.

Ela buscou o homem que tinha visto na janela e se aproximou dele.

“Porra, porra, porra,” repetia ele.

“Me insultando? Tentando parecer maior?”

“O quê?” Os olhos dele se arregalaram. Estava desafiando ela, de alguma forma? Estava com medo, se preparando para lutar, tentando perceber o que havia ao redor? Ela só podia adivinhar.

“Não,” ele disse, procurando ajuda com o olhar.

Desafiante? Sarcástico? Mentira?

“Acho que você nem percebeu o porquê de ter se ferido tanto. Você. Matou. Meu. cachorro.” Ela olhou para Angelica. Ela não parecia muito ferida, mas tinha sido atacada. Poderia tê-la matado, se a bala tivesse atingido o lugar certo.

Ela chutou o rosto dele, e a cabeça dele balançou para trás. Sangue jorrando do nariz.

“Eu não sabia,” ele conseguiu dizer, ofegando, sangue voando ao falar, escorrendo pelos lábios. “Não sabia que ela era sua. Ela era assustadora, eu — reagi.”

Ele estava mentindo? Ela não tinha como saber. Cresceu junto com tantos bons mentirosos que parecia que tudo o que soava honesto era mentira. Se ele estivesse mentindo — e fosse óbvio — ela pareceria fraca se caísse nisso. Outros poderiam não entender que aquele era seu território, que seus cães eram intocáveis. Se ele não estivesse mentindo… bem, ele tinha atirado em Angelica.

Ninguém machuca meus cães.”

“Por favor. Tenho esposa e filhos.”

Como se família de alguma forma fizesse alguém melhor que outro? A ideia a irritou. A experiência de vida mostrou que, com frequência, era exatamente o oposto. Pessoas são idiotas, pessoas são monstros. As exceções raramente acontecem. Muitos começam uma família pensando que é o que devem fazer, e acabam sendo idiotas e monstros com uma audiência cativa.

Ela voltou a chutá-lo, agora no estômago. Ele gritou enquanto a chuteia, fazendo sua mão, ainda presa na mandíbula de Ink, torcer de forma errada.

“Angelica,” ela ordenou. “Pata!”

Angelica avançou, colocando uma pata do tamanho de um pneu de caminhão na pelve do homem. Ele berrou de dor, suas palavras rápidas, desesperadas e carregadas de respiração: “Pesado, meu Deus, por favor, pare, por favor, deixe eu ir, faça isso parar, está me esmagando!”

Ela olhou para ele com desprezo. Era desconfortável só pensar que, naquelas circunstâncias, ela tinha certeza absoluta do que alguém queria dizer, do que queria.

“Angelica,” ela ordenou, abaixando-se por baixo do braço estendido da cadela, chutando o joelho do homem, “Tome.”

Angelica se ajoelhou, usando dentes para segurar as pernas do homem, torcendo seu corpo ainda mais. O corpo dele foi prensado no chão pela pata dela, seus braços e pernas puxados para cima e afastados dele.

Ela se aproximou de Angelica, enterrando o rosto na musculatura molhada e nos tecidos duros que cobriam a cadela, envolvendo-se nela o máximo que podia, até suas mãos alcançarem os ombros e o pescoço de Angelica. Assim como seus cães aprendiam a confiar nela quando ela cuidava, alimentava e nutria eles, ela se aproximava deles ao compartilhar suas experiências, ao aprender e aceitar seu treinamento. Angelica era uma das cadelas com as quais tinha maior ligação. A única que ela conhecia tão de perto. Brutus e Judas já tinham partido, eram os únicos cães com quem ela estivera por anos.

Seu coração se partia um pouco toda vez que pensava nisso.

E aquele homem? Aquele família? Achou que poderia tirar Angelica dela?

Sem olhar para ele, com a cabeça ainda encostada ao pescoço de Angelica, ela deu a ordem: “Machuce ele.”

Ela sentiu a vibração tremer na cabeça e no pescoço de Angelica enquanto o osso rebelava, fazendo estalar e rangir entre os dentes. O homem gritou, não havia outro jeito de descrever, e os demais ao redor ecoaram seus gritos.

Ela fez um sinal com a mão e deu outro comando: “Soltem-no. Cães, soltem eles!”

Angelica deixou o homem cair. Seus canhotos estavam rachados, as pontas das pernas dobradas de modo estranho. Um a um, os demais capturados também foram soltos no chão. Cada som de dor deles ficava menor e mais rápido que o anterior.

“Por que vocês não entendem isso?” ela gritou. “É meu território!”

“Não sabíamos,” disse alguém. Uma mulher segurando um braço ensanguentado contra o peito, com a filha ao lado.

“Vocês estão mesmo me desafiando?”

“Não! Não. Só… como poderíamos saber?”

“São retardados ou quê? É óbvio,” ela não podia acreditar na estupidez daquela mulher.

“Como poderíamos saber!?” A mulher elevou a voz, parecendo uma queixa.

“O uivo. Se você consegue ouvir o uivo, está perto demais. Sai fora.”

“Mas dá pra ouvir quase do outro lado da cidade!”

“Que droga!” respondeu Bitch. A mulher queria desafiar sua autoridade. Ela tinha que reagir, ou ela continuaria falando, ela faria ou diria algo que a faria parecer uma tola, e outros se revelariam contra ela. Melhor acabar logo com isso. “Socks! Venha!”

A mulher recuou, agarrada à filha, enquanto Socks se aproximava de Bitch.

“Pare,” uma voz ordenou.

Bitch se virou e viu duas figuras encapuzadas. Não eram do New Wave? Brandish e Glory Girl.

Brandish falou: “Glory Girl, chama sua irmã. Pelo menos uma dessas pessoas precisa de atendimento médico, ta-”

Ela parou quando Bitch assobiou intensamente. Seus cães, emunidos, avançaram contra as heroínas.

Depois de serem emboscados e capturados pelo ABB, ela tinha aprendido a lição. Atacar primeiro, avaliar depois. Além do mais, o que ela ia fazer? Conversar com elas?

Brandish estalou as mãos, e feixes de luz se transformaram em formas de espadas vagas. Quando os cães correram em direção a ela, ela os fez se estenderem, dobrando o comprimento. Eles se aproximaram quase a tocá-la, e ela reconsiderou, banindo as armas para se transformar numa bola de luz laranja-amarelada do tamanho de uma bola de praia. Os cães a acertaram, faíscas voaram, e a bola foi lançada às pressas pela rua, atravessando a parede de um prédio.

Glory Girl sobrevoava os cães em fúria, com um celular na orelha, apontado na direção de Bitch. Ink e Bruno saltaram para o lado de um prédio e, dali, se lançaram na direção de Glory Girl. Ela deu um tapa em Socks, jogando-o ao chão, e Bruno a acertou, tirando o telefone de sua mão. Ela levantou o joelho na lateral do cão e se afastou antes que ele pudesse derrubá-la.

A heroína partiu para cima de Bitch, que estava só com Angelica ao seu lado. Angelica se colocou entre ela e a inimiga, e Glory Girl atingiu a cadela com força lateral. Angelica quase não reagiu, virou-se para tentar morder Glory Girl. Os dentes dela bateram na braçadeira estendida da heroína, e Glory Girl recuou, pairando no ar. Tomando fôlego? Observando a situação?

Não era assim que se lutava. Bitch assobiou com força, e then gritou, “Magic, Lucy, Roxy! Venham!”

Quando os três cães avançaram na sua direção, ela usou seu poder. Sentiu-o se estender, como uma vibração de dentro para fora. Percebeu que seu poder trepidava e reverberava, como se pedisse que ela soubesse que tinha feito contato. Viu o efeito. Eles cresceram, os ossos e músculos se expandiram e mudaram.

“Ataquem!”

Em poucos momentos, Glory Girl lutava contra quatro cães. Angelica avançava implacavelmente, e Bitch seguia devagar, em passos tranquilos. Os outros três atacavam vindo de todos os lados, cortando rotas de fuga, pulando na parede do prédio, descendo, seguindo atrás dela ou se escondendo pelos lados.

“Mãe!” Glory Girl gritou, com tom de pavor.

“Foge!” Brandish respondeu. Ela também enfrentava a mesma situação, incapaz de atacar com a pressão incessante dos cães. Então, transformou-se na bola, na forma que não podia ser tocada ou ferida, voando com cada golpe, ou controlando sua direção para escapar. Aproveitou um momento para se lançar contra um cão e gritar: “Peguem os feridos!”

Glory Girl agarrou Roxy pelo focinho enquanto o cachorro avançava, e o lançou contra Lucy. Aproveitou a pausa para voar em direção ao homem que atirara em Angelica, ao chão, num monte.

Ela parou no ar.

Uma mulher ficava de pé sobre o corpo mutilado do homem, com cabelo comprido ao vento. O que parecia errado. Com a chuva leve, o cabelo deveria estar molhado.

Glory Girl olhou por cima do ombro e viu os cães, olhou de volta para o homem ferido e para a mulher, e então voou direto para cima, desaparecendo no céu da noite. Ela tinha deixado ele para trás.

O silêncio de latidos e rosnados terminou quando a luta acabou. Cada cão voltou, e Bitch notou algumas feridas. Um osso se espatifou aqui, uma ranhura ali, onde as lâminas de Brandish tinham feito cortes — danos superficiais. Só o dano profundo, passa as camadas que seu poder aplica, que poderia machucar os cães ou causar danos permanentes. Nada tão sério. Bitch suspirou aliviada.

Ela avançou, seus cães formando um círculo frouxo ao redor da mulher. A louca estava nua, da cabeça aos pés, com a pele e o cabelo pintados em listras alternadas de branco e preto, como uma zebra… não, a tinta teria saído, e o corante não teria bordas tão nítidas. Era uma coloração natural.

Quando a mulher olhou para ela, os olhos eram amarelos e brilhantes, refletindo a luz ambiente como os de um cachorro ou gato. Ela sorriu, sem nenhum resquício de tensão, como se tivesse acabado de acordar em um lugar seguro.

“Quem diabos você é?”

A mulher não respondeu. Se agachou ao lado do homem, depois mudou de postura para sentar de lado, com as pernas esticadas. Seus dedos desenhavam mimosas ao redor das feridas do homem, quase como um carinho.

“Responda,” ordenou Bitch.

A mulher se inclinou, pressionando os dedos indicador e médio nas pálpebras do homem. Com força, penetrou nas órbitas, deslizando os dedos até ficarem a dois nós de profundidade.

“Ei! Vai embora!”

A mulher retirou os dedos, e fluids e sangue escorreram das cavidades de seus olhos.

A mulher virou-se para ela. Não olhou nos olhos de Bitch, mas para os seus pés. Surpreendentemente, ela parecia se encolher, fazendo-se de inofensiva. Por alguma razão, isso a tranquilizou, de modo estranho.

Mais calma, com voz medida, ela falou: “Vou te perguntar de novo. Quem diabos você é?”

“Siberian,” a mulher falou, quase um sussurro. Quase inaudível.

“O que você está fazendo aqui? Este é meu território.”

“Vou embora logo. Só queria conversar.” Outra vez, o sussurro.

Conversando. Sempre conversando. “Não tô interessada. Vá embora.”

Siberian olhou para o homem, que ainda se contorcia e estremecia, fazendo pequenos sons de dor.

“Vai!” ela gritou. A mulher não se mexeu. Bitch olhou para seus cães, procurando quem fosse o maior, o menos ferido. Lucy. “Lucy! Ataque!”

Lucy pulou contra Siberian. Bitch viu Siberian esticar o braço, viu as mandíbulas de Lucy fecharem na perna dela.

Não houve reação. Lucy puxou, com força total, e a mulher nem se mexeu um pouco.

Com cuidado, Siberian se levantou. Olhou para Lucy, com olhos brilhantes, percorrendo o rosto e o corpo da cadela.

“Linda,” ela sussurrou. Abaixou os lábios na ponta do focinho de Lucy num beijo, como se não se importasse que a cadela tivesse segurado seu braço entre presas capazes de esmagar uma moto. Lucy bufou em resposta.

Depois, olhou para Bitch. Desta vez, fez contato visual, e mesmo com o sussurro, sua voz era direta. “Sua cadela solta de mim agora, ou ela vai se machucar.”

A confiança na voz, a autoridade, o olhar firme da mulher, deixaram bem claro para Bitch que ela dizia a verdade. Estava suficientemente segura para enfraquecer sua posição aqui. “Lucy, fora. Venha.”

Lucy soltou e se afastou, indo ao lado de Bitch.

“São lindas,” Siberian sussurrou, observando os cães.

Bitch respondeu com um aceno silencioso.

Siberian se aproximou dela com passos cuidadosos. Havia graça em seu movimento, ela caminhava na ponta dos pés, cada passo cuidadosamente colocado a uma distância medida à frente do outro. Seus olhos brilhavam através do véu de seu cabelo branco e preto.

Bitch sentiu um arrepio de apreensão.

“O que…” Ela se arrependeu de ter falado assim no instante em que abriu a boca, mas já era tarde. “você quer?”

Você.”

“Não entendo,” tentou falar com mais confiança.

“Disseram que eu devia escolher alguém. Alguém que eles pudessem testar. Li sobre você, ouvi falar de você. Quero você na nossa equipe.”

“Equipe?” Ela detestava aquelas respostas curtas, a hesitação que as tornava frágeis.

A resposta da mulher ecoou pela rua alagada, passando pelos rosnados que iam crescendo dos cães enquanto a estranha se aproximava da dona, “The Nine. Só temos oito, não é suficiente. Então alguns de nós escolhem pessoas. Depois as testamos. Escolhi você, e gostei do que vi. Venho te observando há semanas.” Ela sorriu novamente.

Tem que ser mentira, pensou Bitch. Os cães dela perceberiam alguém a seguindo, não perceberiam?

A mulher estava a poucos passos. A dúvida era: ela recuaria, se colocaria numa posição ainda mais fraca, ou ficaria firme?

Ela decidiu ficar. A mulher se aproximou, a um braço de distância, depois mais dois passos, até encostar o peito no dela. Ela olhou fixamente, sem medo, até que Siberian a envolveu com os braços, segurando-a perto, apoiando a queixada no ombro de Bitch.

“Você não está cansada de fingir?” a mulher sussurrou no ouvido dela.

“O quê?” Bitch tentou afastar-se, para poder confrontar a mulher pessoalmente, mas seus membros não respondiam, mais resistentes que grades de aço.

“Fazer papel de uma delas. Brincar e perder o jogo, se vestir com as roupas e símbolos delas, seguir as regras?”

“Eu-” Bitch parou, “Não sei do que está falando.”

A pausa foi reveladora. Ela sabia que era. A mulher a compreendia, ela tinha certeza.

A mulher a compreendia. O pensamento veio de repente. Da maneira como a mulher se movia, sua linguagem corporal, tudo, fazia sentido para Bitch de uma forma que poucos conseguiam entender.

A ideia a abalou. Como? Por quê? Seria algum poder? Desde o começo, ela tinha uma sensação de que sabia exatamente o que a mulher queria expressar, tão bem quanto com seus cães.

“Você é um animal, Bitch.” A mulher deu ênfase àquela última palavra. Bitch se enrijeziu. A mulher se afastou, uma mão ainda tocando seu rosto, seus olhos baixos, um sorriso leve, os lábios fechados, dentes escondidos. Brincalhona, gentil. Bitch se permitiu relaxar. Não foi uma ofensa. O contato foi invasivo, mas ela podia roer os dentes e aguentar, pelo menos até descobrir quem era aquela pessoa e como poderia se defender.

“Nós somos todos animais,” murmurou Siberian. Ela se dirigiu a Bentley, e Bitch rapidamente fez o sinal de ‘ficar’, depois ‘não’ antes que a mulher tentasse tocá-lo. “Alguns mais do que outros. Você e eu, mais do que os demais.”

“Papo de filosofia?”

Siberian sorriu, passando as mãos pelo focinho de Bentley, pelos músculos expostos e chifres. “Papo de filosofia. Sim. Touché. Uma ideia que só ganha sentido porque as pessoas acham que deve ter. Mas nada passa de palavras, não é?”

“Claro.”

“Me acompanha. Chega de fingir que é como eles. Você sabe que não é bom nisso.”

“Estou bem aqui.”

“Hum,” ela sorriu, olhos baixos. Juntou as mãos, apoiando-as no queixo, e empurrou as mamas contra o peito. Virou-se para olhar a vizinhança, avaliando o território de Bitch. “Talvez, por enquanto. Você tem liberdade para correr, fazer o que quiser. É bom. Mas logo ou mais cedo vai enjoar. Vai perceber que ainda está numa jaula que eles fizeram. Ainda está seguindo as regras deles, no final das contas.”

Bitch olhou as ruas vazias e alagadas, enquanto Siberian fazia o mesmo. Ela não respondeu.

“Talvez você possa ser feliz assim. Um cachorro, coleira no pescoço, território cercado. Nunca vai entender realmente do que eles estão falando. O melhor que pode esperar é uma palmada na cabeça quando estiver bem, quando fizer o que deve, talvez uma companhia de vez em quando, se for uma garra boa. Mas talvez seja isso que você queira.“

“E o que é que você acha que significa isso?”

“Ser selvagem. Ser livre. Sinha liberdade. É empolgante,” ela respirou.

Bitch franziu a testa. Palavras bonitas, mas que não passavam de palavras. Só isso.

“Vou te dar dois presentes, Bitch,” Siberian sussurrou. “Um estará esperando por você quando voltar para o seu… como chama isso?”

Bitch não respondeu.

“Vamos chamá-lo de seu covil. Gosto disso.”

Siberian se aproximou dela com uma velocidade surpreendente, passos menos controlados, avançando de forma zig-zag pelo rua alagada. Antes que Bitch pudesse reagir, ou que os cães tentassem intervir, ela estava ao lado dela, parando. Pôs uma mão no osso do colo. Bitch foi levantada do chão e empurrada para dentro d’água, encharcada, caindo com força suficiente para escapar do ar nos pulmões.

Enquanto lutava para respirar, Siberian sussurrou: “O segundo presente é especial, uma joia para uma alma irmã.”

Bitch tossiu, lutou, mas não conseguiu mover a mão.

“A partir de agora, você é a única que vai me ouvir falar e sobreviver depois.”

Ela beijou a testa de Bitch, como uma mãe faria com uma criança. Bitch tentou se virar, só conseguiu fazer água entrar em seus olhos e no nariz. Ela ofegou enquanto tentava puxar ar para os pulmões vazios.

Quando conseguiu enxergar, Siberian havia desaparecido. Seus cães olhavam para um telhado próximo.

Abalada, ela gesticulou para Bentley vir até ela, e subiu em seus ombros.

Tossindo, arremessando água do nariz, ela deu a ordem: “Casa.”

Seus pensamentos estavam caóticos ao descer as ruas no Bentley, uma barulheira silenciosa de tantas coisas ao mesmo tempo, todas importantes demais para ignorar. Ao mesmo tempo, ela não queria pensar nelas, não queria juntar as peças, porque não tinha certeza de gostar do que elas mostrariam.

O presente que Siberian deixou. Algumas de suas gêmeas estavam na sua covil. Mais importante, alguns de seus cães estavam lá. Cada minuto da viagem a deixava mais preocupada.

Ela saiu do Bentley assim que chegaram ao prédio, empurrando as portas.

Sangue. Trilhas levando a Barker e Biter, que estavam no térreo, inconscientes, respirando ainda. Uma das meninas, com treinamento veterinário que Coil tinha enviado, sentado num canto, cuidando de um braço pendurado no ângulo errado, chorando.

Era coisa recente. Siberian tinha feito isso enquanto ela ainda não tinha chegado.

Mais sangue, um dos meninos, um groomer com anos de experiência, deitado perto do balcão da cozinha, com a camisa enrolada e puxada contra o rosto. Ao redor, as quatro marcas paralelas feitas pelas unhas de Siberian, cavando seu rosto.

Nenhum dos cães estava machucado. Ela tinha que conferir se estavam bem. A maioria se escondia nos cantos. Alguns haviam subido as escadas.

O sangue tinha um padrão, como se Siberian tivesse pintado um quadro com o spray. Uma linha de cada ferido até o centro da sala, onde havia uma caixa coberta de poeira de sangue, bem levemente.

Ela ficou nervosa ao abrir a caixa, mas não conseguiu resistir.

Um pacote peludo tentou escapar, ela parou, segurou e fez força para manter sob controle. Picou seus dedos, mas ela enrijeceu a mão, segurando pelo pescoço e forçando-o a ficar no chão, deixando sua dominação clara.

Um filhote de husky? Não. A constituição física estava errada. Orelhas menores, membros mais longos, manchas ao redor do queixo e do focinho.

Um filhote de lobo. Onde Siberian tinha achado isso?

Havia um cartão no fundo da caixa, manchado de urina. Bitch o pegou com a ponta dos dedos. Ela nunca tinha aprendido direito a ler, então tinha que confiar nos sons, movendo os lábios para decifrar.

“Ah… ar yoh… você. Ar você um…” Ela não reconhecia aquela letra. Depois de… “oll… lobo.”

Desistiu. Até poderia imaginar.

Você é um lobo, ou é um cão?

A regra era ligar para Coil nessa hora. Avisar o que tinha acontecido. Ela achou o telefone no bolso da jaqueta, fez força nos dedos para encontrá-lo na lista. Ficou na dúvida se devia ou não fazer a ligação.

Por que ela se segurava? Por quem? Pelos amigos? Será que eram realmente amigos? Não era que ela quisesse traí-los, ela não ia repetir o erro, mas…

Ela não conseguiu expressar o pensamento, mas veio na cabeça a imagem da Taylor ao guardar o telefone.

Quem sabe ela entenderia o que o teste era. Ela não ia desistir. Mas, no final das contas, ela decidiria para onde ia e o que fazia.

“Vai,” ela falou para o homem com a face arranhada, “Procure um médico. Leve quem precisar. Mas não diga nada ao Coil. Não quero que use os médicos dele. Entendeu?”

O homem olhou para ela, encarando por longos segundos. Finalmente, assentiu. Ela não tinha certeza se ele faria ou se conseguiria esconder, mas, se dissesse a Coil, ao menos teria um pretexto para se livrar dele e dos outros.

Ela olhou para o filhote de lobo, ainda lutando para morder seus dedos. Deixou escapar e esperou até ele tentar atacar novamente, então empurrou-o de lado mais uma vez.

“Maldito.” ela sorriu.

Quase que sem pensar, usou seu poder. Só um pouco. Sentiu quase nenhuma vibração ou tremor que tinha com os outros cães. Só percebeu que funcionava mesmo quando sua pele começou a se abrir, movendo-se mais rápido, com menos cansaço temporário do que geralmente sentia.

Foi mais fácil com ele? O que isso significava?

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