Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 67

Verme (Parahumanos #1)

Estava nervoso, voltando ao lugar da Bitch com o almoço na mão. Não era só por tê-la deixado sozinha com uma fera descontrolada, composta quase que inteiramente por presas, unhas, osso e músculo. Era que era hora do almoço.

Entre inúmeros encontros com os valentões, o contato com os Undersiders e o roubo no banco, parecia que as coisas sempre aconteciam por volta do meio-dia.

Fiquei aliviado ao chegar de volta e ver que não havia carnificina. Uma dúzia de cachorro me recebeu, muitos colocando o focinho na sacola de papel que eu segurava. Naveguei entre eles até a Bitch, que estava sentada sobre um pallet de blocos de concreto perto da parede de trás aberta. Sirius jazia ao lado dela, com a cabeça sobre seu colo.

“Comida?” ofereci.

Ela abaixou a mão, então peguei um wrap de souvlaki de frango e uma Coca-Cola da sacola e entreguei a ela.

Enquanto ela desenrolava o papel de um dos extremos do wrap, procurei um lugar na parede, onde tinha uma parte incompleta ou danificada. O tempo tinha desgastado os blocos de concreto, e algumas plantas tinham conseguido crescer entre as fissuras, tornando o assento nem tão desconfortável assim. Lá fora, atrás do prédio, havia um campo de grama não cortada cercado por uma cerca de malha de arame. Conforme os cachorros perdiam o interesse na comida, eles passeavam lá, correndo uns atrás dos outros ou provocando uns aos outros pra brincar, pisoteando a grama até ficar achatada o suficiente para que pudéssemos vê-los. A visão deles brincando vinha acompanhada por um som de latidos e rosnados intermináveis.

Um cachorro branco, com uma cauda emendada e manchas de castanho na pelagem e sobre as orelhas, se aproximou de mim, sentou-se e me encarou enquanto eu mordia meu primeiro pedaço do wrap.

Engoli, e disse ao cachorro, “Não. Isso é bom demais pra dividir, e provavelmente não seria bom pra você também.”

O cachorro inclinou a cabeça de forma curiosa.

“Você é bem bonito, apesar disso,” disparei para ele.

Ouvi um som de escarnecimento vindo na direção da Bitch. Girei na direção dela justo a tempo de vê-la desviar o olhar.

“O quê?”

“Você nunca deveria ter um cachorro.”

Era bastante rude, especialmente vindo dela. “Com base em quê você faz essa afirmação?”

“A maioria dos donos de cachorro é retardada, e os **muito** retardados são aqueles que escolhem um cão só porque ele é fofo, ou porque é **bonito**, sem saber nada sobre a raça, o temperamento, as necessidades do cão.”

Suspirei: “Vai se foder, Rache. Posso dizer que é um cachorro lindo sem necessariamente dizer que vou levar ele pra casa.”

“Tanto faz,” ela não desviou o olhar dos cachorros no campo ao fundo.

“Não, não me ignora. Quer começar uma confusão? Beleza. Mas se fizer isso, precisa ouvir o que tenho a dizer. Ouça o que tenho a dizer. Reconheça minha existência, porra.”

Ela virou o rosto na minha direção. Não estava franzindo a testa nem me encarando com raiva, mas o olhar dela era tão frio que me deixou desconfortável.

“Vamos lá, você me conhece bem. Os outros me descrevem como cuidadosa e cautelosa, embora eu não saiba exatamente por quê. Você realmente acha que eu escolheria algo tão importante quanto um cachorro, uma nova adição à minha família, sem pesquisar antes?”

Ela não respondeu. Em vez disso, voltou sua atenção para os cachorros do lado de fora.

“Certo,” eu falei. “Eu também não faria isso.”

Não quis insistir mais. Terminamos nossos wraps, peguei um pedaço de baklava embalado em papel alumínio, coloquei-o na folha de papel do meu wrap e enrolei o resto no papel alumínio para jogar para a Bitch. Quando acabei de comer minha sobremesa e limpei os dedos, desci do sítio no muro, peguei uma bola e comecei a jogar para os cachorros.

“Aqui,” ela disse, me dando o bastão azul que tinha saído do zíper da mochila. Era de plástico, moldado para ter uma alça com presilhas para os dedos de um lado e uma taça do outro. Quando um cachorro trouxe a bola até mim, experimentei pressionar a extremidade com a taça na bola, e ela se encaixou perfeitamente.

Quando a joguei para frente, ela voou a cinco vezes a distância que atingiria com a mão. A maioria dos cachorros saiu correndo atrás, tentando ser o primeiro a pegá-la ou perseguindo os que estavam na frente.

Era bom, aproveitar o sol, brincar com os cachorros, sem responsabilidades ou pressões por enquanto.

Olhei por cima do ombro. “Você consegue me falar um pouco deles? Dos cachorros?”

A Bitch franziu a testa, mas não me negou. “Este aqui é o Sirius. Ele foi comprado como filhote pra um garoto de uns doze anos, mas cresceu demais e virou uma fera de parar o trânsito, incapaz de ficar dentro de casa. Ficou preso do lado de fora, ignorado, as unhas ficaram muito compridas, e ele acabou ficando com uma infecção no pé. Decidiram que era mais fácil deixá-lo num abrigo do que pagar tratamento médico. Como ele não foi treinado nem socializado, saiu como selvagem e muito agitado pra ser adotado. Peguei ele na semana que estavam para abatê-lo.”

“Que merda,” olhei para Sirius, que dormia. “Como você sabe essa história?”

“Conheço algumas pessoas que fazem trabalho voluntário em abrigos, desde que eu tinha. Elas me avisam se há algum cachorro que merece uma segunda chance. Nem todos, mas a maioria, sim.”

“Entendi.”

“A que você tava conversando há alguns minutos é a Bullet. Ela é a mais inteligente do grupo. Sua raça adora exercício, foram criados pra correr o dia inteiro com caçadores… mas ela foi usada como beta pra aquecer os cães de uma das rinhas daqui, e chegou a levar uma mordida feia no ombro. Mesmo com o ombro curado, dá pra ver que ela sente dor demais pra correr tanto quanto precisa.”

Percebi Bullet entre eles. De fato, ela tava meio retardatária, ficando pra trás. Acho que tava apoiando uma perna.

“Se o seu poder cura, por que não ajuda ela? Ou a Angelica, no olho e na orelha?”

A Bitch deu de ombros. “A Lisa falou que tem a ver com eu fazer uma ‘planta’ dessas. É papo que só eu entendo. O que sei é que não ajuda problemas de saúde mais avançados. Elimina doenças, câncer, parasitas e a maior parte dos danos que eles recebem quando crescem. É só isso.”

“Acho que entendi,” disse a ela. Olhei para Bullet, que tinha parado de correr e estava sentada no meio do campo, assistindo o restante correr. “Todos eles têm histórias assim?”

“A maioria.”

“Caraca,” senti uma pontada de empatia pelos animais.

O grupo de cachorros voltou pra mim, e um vira-lata peludo largou a bola aos meus pés.

“Bom garoto,” disse a ele. Joguei a bola tentando chegar perto da Bullet, e o grupo de cachorros saiu novamente correndo, com muitos latidos animados.

Embora Bitch e eu não conversássemos, nenhum dos dois era de falar muito. Eu era socialmente desajeitado demais pra manter uma conversa por muito tempo, e ela… bem, ela era a Bitch. Então, ficamos lá, minutos passando entre uma troca de palavras, e de alguma forma isso não me incomodava. Assim, podia escolher com muito cuidado sobre o que falar.

“Que pena que cachorros não têm eventos desencadantes,” ela refletiu em voz alta. “Se tivessem, algumas pessoas pensariam duas vezes.”

Poderia ter argumentado a respeito, apontado que a maioria das pessoas não conhece os detalhes dos eventos desencadeantes, que algumas coisas poderiam piorar se cachorro tivesse poderes. Mas não parecia necessário.

“É,” eu concordei.

Esse foi o ápice da nossa conversa. Aproveitamos mais um longo silêncio, enquanto os cachorros competiam pra ver quem pegava a bola primeiro.

O som de uma garrafa quebrando e gritos muito humanos interrompeu nossa paz.

“Esses caras de novo,” ela rosnou, movendo a cabeça de Sirius do colo e pulando do monte de blocos de concreto. Sirius virou a cabeça para assistir enquanto ela se aproximava do começo do prédio. Bitch assobiou pros cachorros e Brutus, Judas e Angelica correrem pro lado dela.

“O que tá acontecendo?” chamei, tentando seguir atrás.

“Fica dentro,” ela ordenou.

Fiz o que ela pediu, mas não significa que não tentei chegar mais perto, pra ter uma ideia melhor. Me aproximei de uma das janelas tapadas na frente do prédio e espiei através de uma fresta no contraplacado.

A Bitch tinha os cachorros ao redor dela, e ela ficava de frente pra um grupo de umas sete pessoas. Variavam de uns trinta e poucos a uns doze anos. Não era difícil sacar quem eles apoiavam. Metade dos caras eram loiros ou loiros tingidos, e os outros tinham a cabeça raspada. A mais nova era uma garota de uns doze anos que também tinha raspado o cabelo com uma navalha, deixando só a franja e os fios ao redor das orelhas e na nuca. A pista que confirmava minha suspeita de que eles eram da mesma turma era o número oitenta e três que eu vi desenhado na camiseta de um dos caras, com caneta permanente.

Os supremacistas brancos adoram códigos com números. Se você desconfiar se um número é um deles, o oito é uma dica boa, já que aparece bastante. O oito se refere à oitava letra do alfabeto, H; oitenta e oito significa H.H. ou “Heil Hitler”, enquanto dezoito remete a Adolf Hitler, do mesmo jeito. O oitenta e três era um que eu não tinha visto antes, mas sabia que devia significar H.C… Heil alguma coisa. Heil Cristo?

De qualquer modo, esses números eram uma forma de manter seus sentimentos racistas escondidos, na roda de conhecidos, até o prévio de Kaiser aqui em Brockton Bay formar a Empire Eighty-Eight. A saída foi uma espécie de ultimato: ou eles entravam no grupo ativo e agressivo, ou se escondiam mais ainda. Também trouxe uma reunião de supremacistas brancos mais radicais das regiões ao redor pra dentro de Brockton Bay. Quando pessoas com poderes, incluindo Kaiser, começaram a se juntar ao grupo, Brockton Bay virou um ímã para esses tipos. Uma das maiores concentrações de racistas acima da linha do cinturão bíblico. Provavelmente a maior reunião de supervilões racistas.

O dia em que a Empire Eighty-Eight ganhou esse nome não foi um dia bom pra nossa cidade.

Um cara, com uns trinta anos, segurava uma caixa de garrafas vazias de cerveja. Ele segurava uma pelo gargalo, jogava no ar e pegava de novo, e então arremessou na minha direção. Dei um pulo mais forte do que ela, quando ela quebrou de forma explosiva na porta da frente.

“Falamos pra vocês saírem daqui,” ele zombou dela.

“Eu já tava aqui primeiro.”

“Não importa. Essa rua agora é nossa, e esse latido todo me deixa louco da cabeça.”

“Você já falou isso antes. Tenta com protetor auricular.”

Ele pegou outra garrafa e jogou forte. A Bitch teve que se desviar desta vez, pra evitar que atingisse o ombro.

“Não dá pra fazer negócios de earplug, sua vadia de merda,” ele colocou a mão na cabeça da garota quase calva, que fez cara feia pra ela.

“Então não faça negócios. Não tô nem aí.”

Ele tentou pegar mais uma garrafa, mas parou. Um sorriso lentamente surgiu em seu rosto enquanto olhava para um garoto adolescente que estava ao lado da garota calva. “Sabe, o negócio de um barulho tão irritante como esse, é que acaba fazendo a gente pensar em como resolver o problema. O Tom aqui tinha minha sugestão favorita. Ele falou que a gente podia mergulhar cachorro-quente em anticongelante e jogar naqueles campos lá atrás. O que acha?”

Foda-se. Olhei ao redor do interior do prédio procurando algo que pudesse usar como máscara, mas não tinha nada. Por que não tinha trazido minha fantasia? A situação tava a um passo de virar uma carnificina, e minha identidade era totalmente visível. Eu nem podia me esconder lá dentro, sem correr o risco de alguém ter ouvido falar dos meus poderes ou da minha forma de agir, e vir atrás de mim.

Só via a Bitch de costas, mas também a vi virar a cabeça pra avaliar o grupo. Talvez calculando quanto tempo levariam suas cachorras pra acabar com todos eles.

“Se fosse pra fazer isso,” ela disse, “Você já teria feito antes, e eu te mataria por isso. Ou você tá com medo de realmente fazer alguma coisa, o que deveria, ou Kaiser mandou ficar na sua.”

Era a última atitude que eu esperava dela. Bitch, com a cabeça fria?

O cara com as garrafas zombou, “Não. Ouvi o uivo mais cedo. Algumas vizinhas também ouviram. Kaiser disse pra gente se comportar, mas, pelo que eu acho, se a gente falar que foi você que começou essa merda e ele fizer perguntas, vai escutar que tinha uivo antes de última briga.”

“Você sabe quem eu sou,” ela ameaçou, “Sabe do que sou capaz. Vai mesmo mexer comigo assim? Com minhas cachorras por perto? Sério?”

Ouvi, mais do que vi, o som de uma arma tendo o cão engatilhado. O garoto, que identifiquei como o Tom, levantou uma arma na direção da Bitch.

“Ainda acha que é durão?” o homem zombou da Bitch, “Armas são o grande nivelador, sabia? Meu filho aqui quer um lugar na Empire, e, pra isso, tem que conquistar seus espinhos. Matar você seria uma ótima maneira de começar, acho eu.”

Não esperei ouvir o restante do diálogo. Não tinha mais como isso não acabar em violência. Tirei meus sapatos, corri descalço pelo chão de concreto, mantendo-me o mais baixo possível. Encontrei a faca que a Bitch usou pra abrir as sacolas de ração e a guardei no bolso de trás. Ainda não tinha nada que pudesse usar como máscara. Tava quente demais pra isso.

Isso me deixou com uma opção bastante desagradável.

Usando meu poder, fiquei feliz ao descobrir que o campo de grama e o prédio semiacabad0 tinham uma boa quantidade de insetos disponíveis. Saltavam gafanhotos na minha direção, abri um ninho de vespas escondido na parede acima do segundo andar inacabado. Moscas pretas, que estavam gostando do tanto de lixo de cachorro, voaram na minha direção, assim como formigas e aranhas formando a maior parte do enxame.

Todos eles se dirigiram rapidamente a mim, formando um monte na minha pele, rastejando pelas minhas pernas, torso, alguns descendo para cobrir meus braços. Em um só movimento, cobriram toda a minha pele, criando uma massa na minha boca e óculos que ocultava tudo. Não coçava tanto quanto eu imaginava, mas deu um arrepio.

Precisaria de um banho depois disso. Dez banhos. Pagaria pra usar uma academia ou piscina, pra não ter que aguentar o banho horrível do loft enquanto esfregava minha pele até ficar vermelha. Noventa por cento da minha razão pra fazer uma fantasia que cobrisse meu corpo inteiro era por causa disso, damn it.

Por quê não tinha trazido minha fantasia? Por quê?

Virei de susto com o estrondo alto de um tiro. Fiquei ali, respirando com dificuldade, até ouvir o murmúrio de conversa na porta de novo, a voz da Bitch. Um tiro de aviso?

Puxei o celular do bolso e enviei uma mensagem para Brian, Lisa e Alec: “Aqui tem skinhead, pelo menos um com arma. Preciso de reforço.”

Meu telefone vibrou com uma resposta poucos segundos depois. Brian:

Vou já. Tô indo pra casa. Demora um pouco.

Não recebi resposta imediata dos outros dois. No visor, marcava 13h38. Era perto do horário do almoço, pra eu interpretar como mais uma tendência. Ia ficar nervoso demais com isso. Enviei para ele as coordenadas, pedindo pra procurar o prédio com a grua.

Suficiente de insetos se acumulou pra me cobrir, com bastante sobra. Eu queria ter certeza absoluta, então empilhei os insetos em camadas, várias camadas. Tava sufocante. Precisava respirar pelo nariz, e minha visão ficava turva pelos insetos presos nos óculos. Mais do que isso, tava quente pra caramba no meio da matilha densa. Ainda assim, era melhor aguentar do que correr o risco de ser identificado.

Olhei pela janela tapada mais próxima que consegui enxergar e vi que o grupo ainda não tinha se mexido. O cara com as garrafas falou alguma coisa, mas não consegui ouvir. Eu tinha saído pra pegar a faca e mandar as mensagens, e isso tinha me tirado do alcance do som.

Corri de volta pra porta da frente, mantendo aquela meia-agachada de antes, pra garantir que ninguém me visse pelos espaços entre as tábuas na janela. Coloquei meus sapatos de novo, me endireitei, respirei fundo e abri a porta.

“Porra, Jesus!” um skinhead na casa dos vinte e poucos anos amaldiçoou quando me aproximei da Bitch. Tive uma ideia vaga do que devia parecer minha aparência – uma torre de insetos aglomerados, com forma humanóide vaga, formando a silhueta de uma cabeça, com indentações confusas onde seriam os olhos.

Até os olhos da própria Bitch se arregalaram um pouco ao me ver.

“Que diabo?” ela murmurou.

Fiquei quieto, focando na turma deles.

O homem com as garrafas me observou, depois falou em tom baixo, “Tom, foi? Pode fazer a sua parte e cuidar desse circo de horrores de amador?”

O garoto apontou a arma na minha direção, na altura do peito. Sorriu de canto e disse, “Com prazer.”

A cena com Bakuda e os capangas dela não tinha sido muito diferente. A única diferença era que, quando chegou a hora do Tom apertar o gatilho, ele não hesitou um segundo.

O impacto do tiro me deixou tonto, e nem tinha atingido ainda.

Tomei uma postura agachada ao sair do prédio, deixando grande parte dos insetos lá em cima. Alguns caíram ao chão, mas a estrutura geral permaneceu mais ou menos firme, cada inseto agarrado ao outro, espalhando-se o suficiente pra preencher o espaço vazio da cabeça e do peito.

Pel importante que meus insetos tivessem sentido, sabia que o tiro passou a poucos centímetros acima da minha cabeça, na altura do centro do meu peito. O enxame embaixo de mim era mais denso, pra sustentar a estrutura acima, então não conseguia enxergar por entre eles facilmente. Só podia esperar, respirando com dificuldade, na esperança de que os insetos me forneceriam cobertura suficiente pra esconder minha verdadeira identidade.

“Que porra...” o Tom falou. Mandei os insetos na minha frente, pra ter uma visão parcial dele, e o vi recuando, com a arma ainda levantada.

Tinha pego um truque do Grue, e achei que fazia sentido pegar um também da Tattletale.

Quando falei, sussurrei as palavras, ao mesmo tempo fazendo com que todos os insetos no enxame fizessem barulho: zumbindo, piando e vibrando junto com minhas palavras, tentando parecer menos humano. “Armas não vão funcionar assim que meu corpo estiver assim.”

Colocando as mãos no chão e juntando os insetos que ainda estavam comigo, avancei uma etapa de rastejamento. Quase todos no grupo recuaram. Só o homem com as garrafas permaneceu ali, usando um braço estendido pra impedir que o Tom recuasse também.

A minha tática tava funcionando. Assim como a Tattletale havia feito com a Glory Girl, a Panacea e depois a Bakuda, eu podia passar a ideia de que tinha poderes que não tinha, pra enganar e despistar.

“Atira, garotão!” O homem apertou o ombro do Tom.

O garoto obedeceu, disparando mais três tiros na direção do enxame, mirando alto demais pra me atingir. Mais dois tiros acertaram onde teria sido meu peito. O terceiro passou através da minha ‘cabeça’ falsa.

Com os olhos arregalados de susto, o Tom decidiu mudar de alvo, balançando o braço para a minha direita e apontando a arma contra a Bitch.

Avancei rapidamente, puxando a faca e girando-a de um movimento só. Cortei a coxa do Tom, enquanto a Bitch se esquivava para um lado ao mesmo tempo. Com a combinação do meu ataque, ele tendo que ajustar a mira e ela se movimentando, o disparo saiu errado.

Quando ele caiu, eu montei novamente o enxame sobre ele. Sem tocar diretamente, tirei a arma da mão dele, recuperei minha faca e pontuei a lâmina na palma da mão dele, pra eliminar qualquer chance dele reagir ou tentar pegar a arma.

Impulsivamente, arranquei a faca na testa dele. Segundo o Brian, cortes na testa raramente eram graves, mas sangravam o suficiente pra parecerem assustadores. Era uma tática que os lutadores costumavam usar pra cegar o adversário com sangue nos olhos, ou mesmo uma técnica usada por boxeadores pra bancar uma luta com sangue na visão do oponente.

Deixei alguns dos meus insetos em cima e ao redor do Tom enquanto me afastava dele. Ele gritava desesperado, tentando se arrastar pra longe.

Foi uma abordagem mais violenta do que gostaria, mas, pelo que interpretei, qualquer efeito que esse ferimento causasse nele, deveria impedir que outros se juntassem à luta, levando a menos feridos no final das contas. Não gostava dos seguidores do Kaiser, não tinha respeito nenhum por eles, mas não queria vê-los sendo dilacerados pelas cachorras da Bitch.

“Essa área é nossa,” a Bitch rosnou pra eles, enquanto todos recuavam. Brutus, Judas e Angelica estavam maiores agora, com a pele aberta em espículas de osso vermelho saindo dos buracos. “Saiam.”

“Kaiser vai ficar sabendo disso!” o cara com as garrafas gritou.

“Saiam!” a Bitch ordenou.

Tom, ainda perdido de dor e medo, saltou ao ouvir isso. Tentou se levantar e caiu de novo, deixando um grito rasgado. Quando tentou pedir ajuda aos amigos, a pele das mãos e do rosto dele estava quase toda coberta de insetos e sangue. Isso ajudou bastante a assustar o resto, que fugiu na hora. A maioria deles saiu correndo.

De modo cauteloso, o cara com as garrafas se aproximou do Tom, e eu não me mexi de onde estava, até ele ajudar o Tom a se levantar e sair mancando.

“Porra,” a Bitch murmurou.

“Desculpe,” eu disse, “espero não ter feito merda em tentar ajudar.”

Ela balançou a cabeça.

“Quer dizer, talvez se eu não tivesse saído, não teria ficado tão violento.”

“Ele tava ganhando coragem pra atirar em mim,” ela falou. “Tudo bem.”

“O que você vai fazer?”

“O quê?”

“Quer dizer, eles vão voltar. Talvez em breve. Dependendo do que dizem ou pra quem reclamam, podem ter gente com poderes na próxima.”

“Eu dou conta,” ela respondeu.

“Sei que esse é seu espaço, acho perfeito, mas talvez devesse pensar em mudar pra algum lugar—”

Ela me lançou um olhar sério. “Quer mesmo levar pancada hoje?”

Senti minha boca se fechar.

“Vou entrar aí pra pegar o beco. Você pode ajudar, ou pode voltar. Não me incomoda.”

Olhei na direção que os skinheads tinham recuado.

“Vou ajudar,” decidi em voz alta. “Disse que ajudaria, e você pode precisar de reforço se eles decidirem voltar com tudo.” Além disso, enviei uma mensagem pro Brian vir também, e ele precisaria de um resumo do que tinha acontecido.

Ela só assobiou duas vezes pra chamar os cachorros pra entrar junto com ela, e olhou pra trás pra ver se eles ainda estavam seguindo. Ela olhou pra mim, e eu não tinha certeza, mas achei que talvez ela não estivesse tão brava quanto costuma,

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