
Capítulo 69
Verme (Parahumanos #1)
“É muito perigoso ficar aqui,” falou Brian.
“O quê?” Lisa e eu perguntamos quase ao mesmo tempo.
“Eles têm muitos figurões de peso e não têm mais motivo para segurar nada. Depois da confusão com a ABB e o problema com a Bitch mais cedo hoje, com o número de pessoas com poderes que eles têm, provavelmente conseguem descobrir nossa localização geral e podem partir para o ataque. Não podemos ficar aqui se decidirem nos caçar ou se sitiarem os Docks.”
“Então, o que, a gente foge?” perguntou Alec.
“Retirada tática. Só por segurança,” afirmou Brian com voz firme, “Caso a Empire Eighty Eight decida se organizar e vir atrás de nós em força.”
Eu me manifestei: “Mesmo que eles não nos culpem por este e-mail que está entregando a identidade deles, na questão da identidade secreta, aposto que vão aparecer alguns que só querem machucar alguém e desabafar a raiva… e a gente acabou de brigar com os deles. Isso faz de nós um alvo fácil. Concordo com o Brian. Acho melhor a gente ficar na moita, pelo menos por enquanto.”
“Ok,” disse Lisa, “Não tenho certeza se concordo, mas não vejo mal nenhum nisso. Vocês acham que conseguem convencer a Rachel?”
“Já contei com isso,” disse Brian, “Mais ou menos. Ela está arrumando as coisas no abrigo de cachorros dela, e estará pronta para sair assim que o transporte chegar. Lisa, a primeira coisa é você ligar para o Coil. Pega o transporte – eu te mando as coordenadas – e faz ele emitir uma declaração, que deixe bem claro para a Empire Eighty Eight que ele é responsável por esse e-mail.”
“Acho difícil ele querer assumir, no que diz respeito a ‘confessar’.”
“Diga a ele que não vou fazer nenhum acordo se ele não assumir essa responsabilidade e tirar a pressão de nós, já que não fomos informados nem concordamos com esse tipo de ação.”
Lisa franziu a testa, “Ok.”
“Se ele for tão inteligente quanto finge, vai arrumar um jeito de fazer isso funcionar.”
“Certo. Vou tentar. Mais alguma coisa?”
“Leve Alec e encontre um lugar para ficar com a Rachel e os cães. Acho que a Bitch tem mais de um abrigo como o que vi hoje. Se nenhum deles for viável, peça ao Coil um lugar.”
Lisa assentiu, “Ok, o que mais você vai fazer?”
“O Taylor e eu vamos ficar no meu apartamento. É fora do caminho, e enquanto a gente não sair pra se mostrar de fantasia, não devíamos ter problemas.”
Eu ia ficar no apartamento dele? Recordei da tensão da última vez que fiquei lá sozinha com ele, o quanto eu estava atenta à presença dele. A ideia de passar a noite lá me fez concentrar em manter minha expressão impassível e minhas mãos sem jeito. Fiquei feliz por me distrair com a resposta do Alec.
“Que porra?” disse Alec, “Você está mandando a gente sair daqui, ficar num lugar aleatório com um monte de cães vadios, enquanto você vai pra casa relaxar?”
“Não me venha com esse papo agora, Alec,” apontou Brian com o dedo, “Como membro do grupo, você concordou em atender seu telefone quando ele tocar. Não estou muito melhor com a Lisa, por ela não ter o telefone na mão, mas a verdadeira bronca é com você. Pelo que ouvi, se as coisas tivessem sido um pouco diferentes, um ou mais dos seus colegas poderiam estar mortos. Porque vocês não conseguiram ajudá-los quando o Taylor pediu ajuda.”
Os olhos de Alec se estreitaram, mas ele não respondeu.
O tom de Brian estava controlado, sombrio. “Estou com tanta raiva que o melhor pra você é não estar na minha casa e ter que aturar minha presença. Por isso, você não vai comigo. Preciso de uma cabeça fria com você e a Rachel, e isso significa que a Lisa vai com vocês dois. Eu até preferiria deixar o Taylor, mas quero distribuir melhor o poder de fogo entre nossas duas equipes.”
“Tanto faz,” Alec voltou a olhar para a TV. “Esquece o que eu disse.”
Antes que Brian pudesse insistir mais, cortei para perguntar: “Não seria melhor a gente ficar todo mundo junto?”
“Não,” respondeu Lisa, “O Brian tá certo. Estar junto, num grupo de cinco, pode chamar atenção de quem estiver de olho na nossa equipe. Principalmente se tiver cães por perto. Ter duas equipes significa que podemos fazer um resgate ou criar uma distração se uma delas entrar numa roubada.”
“Deixem os celulares ligados e atendam se alguém ligar. Vamos fazer turnos de meia hora para checar todo mundo, usando as mesmas senhas de antes,” orientou Brian.
“Entendido,” respondeu Lisa.
“Se vocês *realmente* não encontrarem um lugar pra ficar, e os cães estiverem acomodados em outro lugar seguro, podem ficar na minha casa. Mas vão dormir no sofá ou no chão, ok?”
Lisa assentiu.
“Ei,” falei hesitante, “Posso tirar cinco minutos pra tomar banho, trocar de roupa enquanto vocês resolvem o resto?”
Brian fez uma cara de dor, mas assentiu, “Vai lá.”
Agradecida, corri pro banheiro, passando na porta do meu quarto pra pegar o traje, uma roupa limpa e minha toalha.
O chuveiro tava mais preguiçoso do que o normal, e eu não tinha tempo de esperar pra ele aquecer a água, então entrei e aguentei a água fria só o tempo de me enxaguar, esfregar as partes prioritárias e molhar o cabelo.
Desliguei o chuveiro, escorrevi a água do corpo com o indicador e o polegar, e saí do banho pra secar com a toalha e passar a escova no cabelo.
Quando fiquei mais seca, vesti um short de stretch e comecei a colocar o traje. Como era tudo de uma peça, exceto pela máscara, cinto e as placas de armadura, não dava pra usar por baixo de roupas comuns sem colocar luvas e mangas longas. E isso não era uma opção à medida que o clima esquentava.
Uma solução que tinha em mente era usar só parcialmente. Quando a metade de baixo estivesse no lugar, eu dobrava a parte superior em volta da cintura, amarrando os braços ao redor, tipo um cinto. Depois, colocava uma calça jeans, uma blusa preta e vermelha de alça fina que deixava um pouco da minha barriga à mostra. Pra completar, amarrava um moletom na cintura, sobre a parte que tinha amarrado a parte de cima do traje.
Me olhei no espelho. O tecido era bem fininho e tinha elasticidade, então não pareceria que eu tava mais gordinha. Precisaria testar como ficavam as solas que tinha colocado na parte do pé, dentro dos sapatos, mas dava pra ajustar depois. Tendo a maior parte do corpo escondida atrás do moletom, conseguia camuflar a parte mais volumosa. Contanto que eu não desamarrasse o moletom na frente de alguém, tava de boa.
Saí correndo do banheiro, empacotei umas roupas extras, calcinha, meia, tudo compacto, e arrumei na mochila junto com o equipamento de armadura, minhas armas, o resto dos itens do compartimento utilitário, dois livros e seiscentos reais em papel-moeda. Carreguei a mochila no ombro. Pesada, mas suportável.
Saí do quarto, voltando a encontrar o Brian, enquanto amarrava o cabelo úmido numa coleta frouxa com um elástico. Parei por um instante para estender uma perna, tocar com a ponta do dedo no chão, enquanto uma fila de besouros, baratas e aranhas subia na minha perna. Elas ficaram entre o traje e minhas roupas.
Não me incomodava com insetos na mim, desde que não tocassem minha pele.
“Pronta?” perguntei ao Brian.
Ele assentiu. Tirou a jaqueta de couro, que tava na mochila com o capacete. Estava usando uma regata bege, deixando braços e ombros à mostra. Sua pele brilhava com gotículas de suor, por causa da jaqueta no clima quente.
Desviei o olhar antes que me traísse, e falei pra Lisa, “A gente se vê mais tarde.”
“Divirtam-se,” ela sorriu.
Brian liderou o caminho até a rua, e eu pausei na porta para recolocar alguns insetos sob minhas roupas e na minha mochila enquanto pudesse disfarçar. Não era muito, mas ajudava.
Ele parecia estar no mundo dele, pensativo, e achei melhor não incomodá-lo enquanto caminhávamos até o ponto de ônibus.
“Tô sendo paranoica?” ele perguntou, quando chegamos.
“Não sou quem pra responder isso. Pra mim, quando se trata de capas, não dá pra tomar cuidado demais. Ainda mais com um grupo tão influente quanto a Empire Eighty Eight.”
“Vou reformular a pergunta então. Você acha que os outros vão achar que tô paranoico?”
“Honestamente? Provavelmente.”
“Droga.”
Nossa conversa parou quando mais gente veio ao nosso lado na parada de ônibus.
“Acabei de perceber,” falou Brian, “Que nunca perguntei se você queria ficar lá em casa.”
Olhei pra ele. Não sabia bem como dizer, sem mostrar tudo que sentia. Simplifique. “Quero. Não tem problema.”
“Depois que conheci os outros, fiz isso bastante. Os caras reclamaram, minha irmã também. Eu tomo a frente, tomo decisão.”
“Sério, é de boa. Faz sentido, dado...” pausei, lembrando das pessoas próximas, “...a situação, e gosto do seu apartamento, então não me importo de ficar lá.”
“Sério?”
“Com certeza. Aliás, podia decorar meu apartamento quando eu arrumar um próprio.”
Ele deu uma risadinha, “Faço isso pra você se fizer aquela roupa que a gente conversou antes.”
A roupa. Quase tinha esquecido dela.
“Obrigada por lembrar, deu um branco na minha cabeça.”
“Tá pensando nisso?”
“É. Talvez. É um trabalho grande, mas acho que tenho mais tempo livre agora, e, né, é isso aí. Posso até topar fazer, sim.” Obviamente, não podia e não iria falar que minha decisão de me aliançar de verdade com as Undersiders tinha pesado nisso.
“Pois é? Ainda te devo uma.”
“Nos dá assunto pra conversar enquanto fico lá.”
“Acho que não teremos falta de papo,” ele sorriu pra mim. O sorriso menino que tinha notado no dia um. Se fosse pra ser honesta, diria que era tão atraente quanto a voz dele, um dos traços que mais gostava nele, esteticamente. Talvez injusto pensar assim, mas geralmente via a maioria dos adolescentes como pessoas desajeitadas, que misturam as características de criança e adulto de um jeito bem infeliz. Brian era o oposto, e era a voz e o sorriso dele que realmente criavam o efeito.
Senti minhas orelhas esquentarem, sinal de que ia ficar com vergonha, e desvie o olhar, distraindo-me olhando uma sacola de papel pardo ao lado da rua. Se continuasse pensando nisso, ia acabar dizendo ou fazendo algo pra me envergonhar.
O ônibus chegou, subi nele. Mostrei minha identidade escolar, enquanto o Brian pagou com passagens. Achei um assento vazio, e Brian ficou ao meu lado, segurando no vareto. Estava perto o suficiente que sua perna encostou na minha. Apesar de poder tirar minha perna, deixei como tava.
Não era garota do tipo que atrairia Brian. Eu sabia. Podia me contentar com a presença e a amizade dele. Podia gostar do contato casual, mesmo que fosse um pouco perverso.
Nosso papo curto tinha me deixado relaxar e aproveitar a possibilidade de passar a noite na companhia do Brian, mas o que vi a seguir foi uma ducha de água fria.
O ônibus tinha parado pra pegar passageiros, e Sophia Hess estava entre eles. Sua blusa polo sem mangas ia até a cintura, justa ao corpo magro, com curvas e um peito que eu nunca teria. A saia de tênis que usava mal passava de um comprimento decente. Mais de um par de olhos virou pra ela enquanto ela entrava, inclusive o do Brian.
Ela não percebia a atenção nem a minha presença, distraída no telefone. Parecia irritada, entediada, e desconectada, enquanto quem estivesse do outro lado falava a maior parte do tempo. Provavelmente um pai ou mãe.
O ônibus seguiu seu percurso, mais gente entrou, e quem estava na frente foi se afastando. Eu a observei, esperando ela me ver e fazer contato visual. Não tinha certeza do que ela faria ou do que eu faria, mas aquele momento era toda minha atenção.
Ela era melhor amiga da Emma. A mesma que até empurrou eu na mochila, no dia que ganhei meus poderes. Várias vezes ela me empurrou, me fez tropeçar, muitas vezes ao dia. Tinha me derrubado escada abaixo, quando eu tava perto do final, e incentivado outros a fazerem o mesmo. Como ela tinha sido suspensa depois do nosso último encontro, achava que ela não ia evitar uma confrontação se me visse ali.
Minha perna ficava inquieta, inquieta, enquanto me preparava para pular, defender ou sair do caminho. Repetia na cabeça todas as possibilidades do que ela poderia fazer, ou de que eu poderia fazer ou dizer em resposta.
Sophia guardou o telefone, olhou pela janela por um instante. Quando viu tudo o que tinha pra ver na ponte entre os Docks e o Centro, tentou olhar pra dentro do ônibus, seguindo o interior. Seus olhos pararam na altura da parte superior do ônibus, depois se fixaram no Brian.
O olhar de avaliação que ela deu a ele era inconfundível. Ficou tempo suficiente que, se ele tivesse percebido, teria sido desconfortável.
Ou talvez não. Talvez ele tivesse gostado da atenção de uma garota que parecia ela.
Que grosseria.
Ela ainda não tinha me visto. Eu entendia por quê – eu tava sentada, ela e o Brian estavam em pé, e tinham outras pessoas entre a gente, escondendo sua visão de mim.
Eu me assustei quando algo se mexeu à minha esquerda. Era só a pessoa ao meu lado se levantando na próxima parada, mas me lembrou o quanto eu tava tensa. Toquei no cotovelo do Brian. Quando ele olhou pra baixo, me mudei pra uma cadeira vaga, apontando pro lugar que tinha ficado livre.
Ele sorriu e sentou ao meu lado.
Meu coração acelerava no peito, e eu não sabia explicar por quê, nem aqui. Esperei, tentando organizar meus pensamentos, enquanto as pessoas à frente do ônibus se moviam pra trás. Foi difícil, mas consegui não olhar pra Sophia.
Levei a mão ao ombro dele, usei pra me levantar um pouco e sussurrar no ouvido dele: “Faça um favor enorme pra mim? Depois eu explico.”
“Claro,” falou ele, quase sem ouvir, enquanto girava a cabeça na minha direção, quase me encarando, e meu coração pulou uma batida.
“Só finge que tá tudo bem.” Coloquei dois dedos na bochecha dele, virei a cabeça, e me levantei o suficiente pra tocar meus lábios nos dele.
Esperei sentir eletricidade, fogos, tudo que se ouve falar. Pensei que meu coração pudesse disparar, ou que meus pensamentos dissolveriam naquele caos que senti algumas vezes recentemente.
O que eu não esperava era a calma. A tensão se esvaía de mim, e todas as preocupações, ansiedades e pensamentos conflitantes desapareciam no background. Era como a paz que sentia ao acordar na cobertura, multiplicada por dez. Só pensava no contato, no quanto era bom, na sensação dos lábios dele nos meus.
Quebrei o beijo e olhei nos olhos dele enquanto voltava pra minha cadeira. Antes mesmo de ele falar alguma coisa, dei um leve movimento de cabeça, sinalizando que não queria continuar, e ele fechou a boca.
Quando desvie o olhar, senti seu braço pousar ao meu ombro.
Olhei pra frente, mas não vi Sophia na parte da frente do ônibus. Quando olhei por cima do ombro, a encontrei perto da parte de trás, me encarando.
Imaginei que ela não era muito diferente daquele sentimento primal de satisfação que a Bitch tinha quando soltou os cães contra mim. Mas, enquanto ela se gabava com um sorriso convencido, eu mantive minha expressão na leve sombra de sorriso que já tava no rosto. Olhei pra Sophia por um momento, sem mais, e voltei a olhar pra frente. Ela não valia a pena, não valia estragar isso.
Evitei olhar pra trás pra ver o que ela tava fazendo ou se ainda tava lá. Quando Brian me perguntou se eu me importava de parar pra fazer uma feira antes de irmos pro apartamento dele, eu assenti.
Aproveitei o conselho da Lisa, tentando improvisar, ser mais impulsiva. Também segui a sugestão da Bitch, deixando o Brian saber que eu tava interessada, mais ou menos. Não tanto quanto ela sugeriu, mas enfim, era alguma coisa. Com certeza, alguma coisa.
Só que acabei mexendo com o Brian, e agora tinha que explicar, além de passar uma noite estranha com ele, ainda tinha a ameaça da Empire Eighty Eight no ar.