Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 70

Verme (Parahumanos #1)

“Então, sobre aquele ‘favor’ que acabei de te fazer...” Brian começou.

Olhei ao redor para as outras pessoas que estavam se despedindo do ônibus, ainda havia mais esperando na parada. “Podemos conversar sobre isso mais tarde? Em particular?”

Ele me olhou com curiosidade, mas respondeu: “Claro.”

Sabia que estava piorando as coisas ao procrastinar, que ficaria mais constrangedor se insistisse nisso. Se eu admitisse meus sentimentos ou contasse sobre Sophia, ambos eram tópicos muito pessoais para conversar na frente daquela multidão de desconhecidos que ia descendo do ônibus atrás de nós.

A gente saiu do ônibus em direção a um shopping que eu nunca tinha visitado. Não era um daqueles com várias lojas de grandes redes, mas também não era pequeno demais para merecer o rótulo de ‘galpão comercial’. Havia mais gente circulando do que eu imaginava, considerando que ainda era meados da tarde; estudantes do ensino médio e trabalhadores das nove às cinco ainda não tinham saído. Percebi que havia mais de alguns jovens na faixa dos seus dezoito ou vinte anos com mochilas e bolsas. Estudantes universitários.

“O próximo ônibus que passar na minha rua deve chegar em meia hora, mas podemos ficar mais tempo, se quiser,” Brian me informou.

“O que você queria pegar?” perguntei.

“Passagens de ônibus e algumas coisas pra café da manhã. Esse é o lugar mais perto da minha casa que tem os dois.”

“Beleza.”

“Precisa de alguma coisa?”

“Escova de dentes, creme dental, e tava pensando em pegar um livro.”

“Não se preocupa com a escova ou o creme dental, deixei umas coisas extras separadas pra Aisha quando ela vier, e trocar isso antes é fácil. Quer ir na livraria, e eu te encontro lá quando tiver resolvido o que preciso?”

“Claro.”

Poderíamos ter ido cada um para um lado naquele momento, mas as lojas de produtos alimentícios e as livrarias ficavam na mesma direção. Caminhamos juntos, em silêncio constrangedor, até vermos uma multidão do lado de fora de uma loja.

Era uma loja de eletrônicos, com computadores e TVs na vitrine. A quantidade de gente tinha chegado ao ponto de saturação, atraindo mais espectadores, tamanha era a aglomeração, que era difícil encontrar um ângulo onde pudéssemos ver as telas. Pelo menos, onde eu conseguisse enxergar as telas – Brian era alto o bastante para ver por cima da média das pessoas.

As imagens exibidas na tela eram as mesmas que tinha visto no e-mail, antes. Max Anders e Kaiser. Kayden Anders e Purity. As branquelas como Fenja e Menja. A transmissão passava por todas elas: Hookwolf, Krieg, Night, Fog, Stormtiger, Othala, Cricket, Rune, Victor, Alabaster, o Cruzado… a lista era longa. A tela então mudou para dois apresentadores de notícias. No canto superior direito, sempre aparece um logo com a história do momento, mostrando Max Anders sentado à mesa em algum evento, com uma suástica e uma interrogação pairando acima dele.

“Tá na boca do povo,” Brian falou comigo, em voz baixa. “Se eles ainda não tinham ficado sabendo disso, agora sabem.”

Assenti sem desviar o olhar da tela. A transmissão mudou para mostrar Armsmaster e Miss Militia com um homem de terno e gravata, falando para uma multidão de repórteres.

“Provavelmente não vamos ver nada de novo aqui,” Brian sussurrou. “E não dá pra ouvir nada pelo vidro. Vamos mandar uma mensagem pra Lisa, avisar que tá na TV, ela cuida do lado das informações.”

Assenti e seguimos andando com ele.

“É inteligente,” murmurei, olhando ao redor pra garantir que ninguém estivesse perto o bastante pra ouvir, “Não sei se concordo com a forma como o chefe fez isso, acho que ultrapassa um limite, mas entendo o raciocínio. Uma confusão controlada, mantendo todo mundo importante ocupado e desorientado, pra ele poder avançar com a própria agenda.”

“Realmente ultrapassa o limite, sim. Vamos ver como isso se desenrola.”

Vi a livraria à minha esquerda. “Acho que é aí que a gente vai se separar?”

“Pode ser. Te encontro daqui a uns minutos.”

Estar com Brian era meio tenso, de um jeito. Eu achava a maioria das situações sociais desconfortáveis, e a única maneira que encontrava de lidar era planejando o que ia dizer, pensando e antecipando tudo. Mas com Brian, eu ficava tão confuso e distraído que não conseguia fazer isso. Isso só aumentava a sensação de que eu tava parecendo bobo, criava pausas constrangedoras. E ficava pior, quanto mais consciente eu ficava disso. Foi ali que o beijo foi tão bom, acalmou meus pensamentos e me deu um momento de paz, por mais breve que fosse.

Só que agora tinha piorado, e uma conversa com ele me esperava. Pior ainda, eu tinha ficado tão focado em não errar na conversa agora, no presente, que não tive tempo de pensar no que dizer na sequência, no que viria a seguir.

Resumindo, por mais que gostasse da companhia dele, gostasse dele, eu agradecia pelo descanso, pela chance de me acalmar e organizar meus pensamentos, pra poder lidar bem quando a conversa acontecesse.

Aquela livraria de usados nem era organizada de jeito nenhum. Cheirava a mofo, e as estantes estavam dispostas de forma caótica. Havia livros de fantasia e ficção científica sob a mesma classificação, o que me irritava, e a categoria de não ficção ocupava uma parede inteira. Se havia algum sistema de organização, eu não via, e muitas estantes tinham livros deitados, empilhados um sobre o outro, às vezes duas ou três camadas de altura. Algumas estantes mais cheias tinham livros no chão na frente, exigindo passos cuidadosos pra não derrubar nada ou pisar em algum livro solto.

O único funcionário da loja era um senhor idoso, negro, sentado atrás do balcão, reclinado na cadeira com as mãos cruzadas sobre o estômago. A televisão estava um pouco alta demais pro clima antigo do lugar. Era um programa de tribunal.

Depois de conferir a seção de fantasia no meio do local, me virei para o fundo, mantendo um olho nas placas de identificação de cada seção. A de romances tinha livros demais, na minha opinião. A mesma coisa na de mistérios. Ambos os gêneros costumam ser repetitivos e iguais, não curto muito.

Ao passar por uma fileira de estantes, o homem do balcão gritou, de forma rude, “Não vá roubando achando que eu não tô vendo!”

“Beleza!” respondi, me sentindo bobo ao falar isso. Não sabia bem o que mais dizer.

Cheguei na seção de instruções e avistei o livro que tinha vindo procurar, numa das pilhas na prateleira de baixo. Psicologia Canina: A Base do Treinamento de Cães.

Com pouco de experiência na convivência com cães, precisava de mais informação, se quisesse continuar me relacionando com a Bitch. Já sabia que queria um livro sobre como os cães pensam e se relacionam com os outros, e fiquei feliz por ter encontrado.

Deixei o livro sob um braço, peguei outro sobre alfaiataria, como possível referência para futuros projetos de fantasia. Folheando-o, achei que não tinha me impressionado muito. Peguei outro.

Minhas ideias congelaram quando uma mão tocou meu cabelo. Lembrei-me tardiamente de Brian. Tentei e não consegui organizar meus pensamentos. Esqueci de planejar o que ia dizer pra ele, e por que ela tava tocando meu cabelo?

Comecei a me virar, mas a mão agarrou minha orelha e puxou com força, fazendo minhas pernas fraquejarem de dor. Fui empurrado e meu peso e impulso não foram o suficiente pra soltar minha orelha das mãos do agressor, que prejudicou a pele que a conecta ao crânio. Senti minha pele rasgando, e nem consegui gritar, o ar ficou preso na garganta.

Caí sobre uma pilha de livros, e a dor ardente ao redor da meu ouvido era tão intensa que não tinha certeza se ainda tava sendo segurada ou não. Um joelho pressionava meu lado com força suficiente pra eu duvidar que não estivesse sendo esmagado pelo corpo de quem me atacou. Unhas longas cavaram minha bochecha, forçando a pele a se abrir, contra meus dentes, enquanto minha agressora apertava minha mandíbula pelo lado. Ela não só obrigou minha boca a se abrir com força, pressionando minha bochecha contra meus dentes, como empurrou meu rosto contra a pilha de livros embaixo de mim. Meu grito de protesto virou um ruído incompreensível, abafado, que se tornou um gemido primal quando minha orelha foi torcida novamente, na direção oposta à anterior.

“Uma coisa que você devia saber sobre mim,” a voz de Sophia era melosa, “a razão de eu ser tão rápida? Não é porque quero ganhar. É que eu odeio perder de verdade.”

Ela puxou minha orelha de novo, mudando a direção, e eu gritei. Se ela continuasse, tinha certeza que minha pele rasgaria e minha orelha soltaria de uma vez. Lutei, mas os livros escorriam pelas minhas mãos e joelhos, dando pouco de tração.

“E eu odeio perder, especialmente pra uma decepção como você,” ela balançou a mão direita contra minha bochecha como se quisesse rasgar minha pele com as unhas. A unha do seu dedinho roçou a parte de baixo do meu maxilar.

Sinto insetos dentro da minha calça e mochila. Posso acabar com isso.

Com as duas mãos, usando a força dela na minha orelha e queixo, ela levantou minha cabeça e a jogou com força contra a pilha de livros. Não foi o golpe mais forte que já tomei, mas ainda assim me deixou zonza.

Não podia me dar o luxo de apanhar demais na cabeça. Mesmo minha concussão mais ou menos curada, ainda podia voltar a sentir sintomas ou sofrer novas concussões por um tempo. Eu precisava usar meus insetos pra afastá-la, ganhar tempo pra pegar minha faca e minha cassetete e…

…e aí eu já tava ferrado. Acabaria me machucando mais no longo prazo, expondo minhas habilidades com insetos. Nunca mais poderia voltar pra casa do meu pai.

Sophia soltou minha bochecha e cobriu minha boca com a mão. Aproveitando essa posição, puxou minha cabeça o máximo pro lado direito, pra que eu pudesse vê-la sobre mim, com o cabelo caindo ao redor do rosto. Ela parecia uma pantera, pele negra, selvagem, com dentes levemente à mostra, enquanto respirava ofegante.

Ela soltou minha orelha e bateu forte contra a lente dos meus óculos, continuando: “Lembre-se, todo mundo tem seu lugar na vida, Hebert, e você devia seguir o seu. Tentar agir melhor do que realmente é só te envergonha e me irrita, entendeu?”

Ela puxou minha orelha de novo, pra deixar claro o recado.

“Assente se você entende, e eu te deixo correr pra casa.”

Olhei pra ela com raiva.

Meus dedos tocaram nas capas duras na prateleira de baixo até encontrar uma. Agarreia uma, puxei pra fora e, numa mesma movimentação, enfiei um dos cantos do livro na lateral de Sophia.

Ela caiu, e eu me virei de costas pra dar mais um golpe, mudando para uma pegada com as duas mãos pra aumentar a força. O tempo que levei pra ficar na posição de novo na tentativa de bater nela, no entanto, deu a ela tempo de se afastar. Eu tinha em mente as dicas do Brian, de manter o ataque, e a única maneira de fazer isso era arremessar o livro de capa dura na cabeça dela. Ela usou os braços pra desviá-lo, escorregou, e fez uma careta, massageando o braço.

“Que porra é sua, com o que você acha que tá brincando?!” gritei com ela. “De que perspectiva doente é que tudo bem perseguir e atacar alguém só porque beijou um garoto?”

“Não é só isso,” Sophia começou a vir na minha direção, parando quando larguei a mochila no chão e me preparei pra outra luta. “Você conseguiu me suspender. Não tô nem aí de faltar às aulas, mas tô fora do time de atletismo até avisar o contrário. E tudo isso porque você saiu correndo pra chorar pros adultos. Preciso dessa merda.”

“Que pena. Se eu soubesse que importava tanto, já tinha escrito uma carta pro seu treinador dias atrás, só pra deixar claro e garantir que você nunca voltasse pro time.”

Sophia me olhou com um desprezo puro. “Você é um covarde, Hebert. Uma rata. Você sabe que é nerd, tem o peito raso, é magro. Ninguém gosta de você, ninguém quer você como amigo, você não é bom em nada. Então você corre, se esconde, falta aula, fica quieto, não faz nada com sua vida desperdçada. E, se as coisas ficarem difíceis, se alguém decidir se divertir às suas custas, você vai lá e chora pros responsáveis, porque não aguenta.”

Minha orelha doía. Coloquei a mão lentamente pra tocar na ponta dela, e tirei quando senti uma dor ardente e amarga. Minhas pontas dos dedos estavam vermelhas de sangue quando as abaixei.

“Só pra esclarecer, foi o pai da Emma quem chamou a reunião na escola, não fui eu,” respondi, sem raiva na voz. Fiquei assustado ao ver meu próprio sangue. Por mais que fosse estranho, senti que me sentia mais confortável com a situação. Já tinha passado por brigas mais sérias, e tinha a sensação de que ia conseguir lidar melhor, vendo o sangue, sabendo que o jogo tinha aumentado.

“Você ainda contou para alguém.”

“E daí? Esperava que eu fosse fechar a boca, suportar tudo?”

“Exatamente, era isso que eu imaginava. Acho que não captei bem sua leitura sobre onde você deve ficar.” Seus olhos se moveram para o local onde ela tinha me segurado. “Talvez você entenda na segunda rodada.”

Ela começou a se aproximar, e eu tinha uma boa ideia de como ia acabar. Ela tinha a minha altura, mas era mais forte que eu, com mais músculos. Não que fosse gorda ou pesada, mas tinha uma estrutura atlética, magra. Eu tinha corpo de espantalho – só magro mesmo.

Além disso, tinha o contexto maior — eu já tava machucado, e ela era pra lá de pirada. Se fosse pra brigar, eu suspeitava que ia apanhar pior, a menos que conseguisse pegar minhas armas na mochila ou usar meus poderes. Mas isso não queria dizer que eu não pudesse machucá-la no processo, só que ela ia me derrotar também.

Se fosse assim, tava de boa com isso.

“Chega,” a voz masculina interveio.

Sophia parou na hora. Ela virou uma expressão impassível para Brian, que ficava ao lado dela. Ele colocou sacolas de plástico com comida no chão, enquanto ela o observava. “O namorado.”

Brian olhou pra mim, com um pouco de preocupação no rosto.

Voltei minha atenção pra ela. “Conheça Sophia. Uma das garotas que tem me zoado na escola.”

A expressão de preocupação desapareceu do rosto dele num pulo. Foi substituída por raiva.

“Ela tá mentindo,” Sophia disse a ele, sem a menor hesitação. “Ela copiou minha resposta na prova, e nós duas fomos suspensas — e-”

“ Cala a boca,” a voz de Brian foi baixa, quase no tom de sempre, mas Sophia entendeu a mensagem. Ela fechou a boca. Ele virou pra mim: “Tá bem?”

“Minha orelha dói pra caramba, e nem sei o que ela fez do meu lado, mas tô vivo.”

“Ótimo.”

Sophia deu o fora, e só tinha dois caminhos — por mim ou passando pelo Brian. Ela escolheu o caminho fácil, correndo pra mim, e eu me joguei pra pegá-la, tentando segurá-la, pra atrasar o suficiente pra ele poder agir.

Só que ela foi mais rápida do que imaginei, mostrando que o lugar dela na equipe de atletismo não era só pra enfeite, e minha última tentativa de agarrar o pulso dela falhou.

Brian e eu corremos atrás, e paramos quando o cara do balcão saiu e se colocou entre nós e Sophia.

“O que é isso?” ele olhou entre a gente. Atrás dele, Sophia virou pra encarar, avaliou a situação e recuou alguns passos, com o velho de costas pra ela.

“Ela me atacou,” eu expliquei.

“Parece mesmo, mas a garota disse que foi justificável, que você roubou alguma coisa dela no ônibus. Pediu pra eu ficar aqui no balcão, aumentar o volume da TV enquanto ela recuperava o que era dela.”

“É mentira,” eu afirmei.

O velho me ignorou. Olhou pra Brian: “Achava que você ia ficar do lado da outra garota, nem sei se teria deixado você passar se soubesse que era diferente.”

Por que foi chegar a essa conclusão? Porque Brian e Sophia eram negros? Não gostava daquela ideia de assumir que eu era automaticamente o vilão aqui.

“Não,” foi a resposta curta de Brian. “Minha amiga tá certa. A garota atacou ela.”

Sophia deu mais alguns passos pra trás, atrás do velho. Quando Brian avançou, o velho bloqueou o caminho, bravo. “Ei, agora, não vou tolerar mais brigas na minha livraria.”

Sophia viu a oportunidade e saiu correndo. Levantei a mão, como se pudesse alcançar e pará-la, mas desisti.

Mais dois minutos e tudo tava resolvido com o velhinho. Ele me acusou mais duas vezes de roubo e deu uma bronca por causa da confusão e da violência na loja. Quando começou a exigir que fossemos pra trás, falar sobre os prejuízos e a bagunça, Brian pegou meu braço, me escoltou pra fora do lugar, ignorando os insultos e gritos do velho. Pegamos a saída mais rápida do shopping e começamos a caminhar pela rua.

Percebi que tinha deixado o livro de Psicologia Canina na loja, o que me deixou tão frustrado quanto qualquer outra coisa. Não tinha ganhado nem perdido de verdade, na minha avaliação. As feridas que tinha, eram equilibradas pelo fato de ter reagido, e de o Brian estar lá pra me apoiar.

Era minha sensação mesmo. Talvez mudasse de opinião se visse o dano real ao meu rosto e à minha orelha.

Era melhor saber logo, antes que piorasse. Apontando pro lado da cabeça, perguntei a Brian: “Tá ruim?”

“Acho que essa orelha vai precisar de pontos,” ele me respondeu. “Tem um rasgo na pele perto do lóbulo.”

Assenti, sem falar nada.

“Quer fazeras uma acusação de agressão?”

Neguei com a cabeça. Não tinha dinheiro pra processar, nem sentido. Ela tinha o pai da Emma apoiando ela, e a única testemunha era o velhinho da livraria, que parecia alvo de Sofia, não de mim.

“Então é isso que você tá lidando na escola?” ele perguntou.

Neguei de novo. Quando tentei falar, uma onda de emoção deixou minha voz rouca. Demorei um segundo pra organizar as ideias e consegui quase uma voz robótica e sem vida: “Foi a pior coisa que ela tentou fazer comigo fisicamente. Acho que fora da escola é diferente. Posso me defender melhor, mas ela tem menos motivos pra se segurar.”

“Então, o beijo no ônibus? Foi pra ela se aproveitar?”

Engoli em seco, tentando normalizar a voz. Provavelmente, não teria outra chance. “Foi um pouco, sim. Mas também tinha um pouco pra mim.”

Ele virou na minha direção, levantando uma sobrancelha só.

Assumi com um encolher de ombros, tentando parecer mais tranquilo do que realmente estava. Não tinha certeza se tinha conseguido. “Eu, hum, gosto de você. Você não precisa fazer dessa coisa maior do que ela é, eu só—” comecei a enrolar, me arrependendo de ter aberto a boca.

Ele não falou, me dando uma chance de continuar: “Acho que você é bonito, gosto de você como pessoa. Te respeito, mais do que qualquer um dos outros, porque você é inteligente no que faz, na parte da carreira. Sabe? E porque você é tão confortável na sua própria pele, tão confiante. Isso admiro chiar.”

“Você fala de uma forma tão analítica,” Brian comentou com um sorriso leve, mas parecia meio incomodado, “Como se estivesse marcando ponto, passo a passo, como verificando uma lista.”

“Isso não—não tô tentando.”

“Não tô te criticando. Tô dizendo que parece alguém bem você.”

“Não. Só que, hum, acho que você saiu do seu caminho pra passar tempo comigo, vinha me buscar nas corridas, convidou pra ficar sozinho na sua casa. Percebi que tinha um pouco mais de contato casual, e achei que podia ser intencional, um sinal, paquera, sei lá. O presente, a âmbar...” me calei. Parecia uma justificativa mais convincente na minha cabeça do que saiu da boca. Mas… o que eu tava tentando convencer mesmo? Tentando fazer ele gostar de mim?

“Ah, céus. Desculpa se dei sinais errados.”

Meu coração caiu.

“Você tem que entender, as únicas garotas com quem convivo são a Aisha e a Lisa… A vadia nem conta, sabe?”

Assenti com firmeza.

“Mesmo quando tava no ensino médio, eu sempre saía na hora que acabava a aula. Encontrava meu pai na academia, trabalhava, ou voltava pra casa pra planejar alguma invasão disfarçada ou sei lá. Sabe? Não tenho muita experiência com garotas. Não fico pensando nisso, além de reparar quando vejo uma garota bonita. É uma coisa que achava que ia chegar mais tarde, quando estivesse menos ocupado.”

Assenti de novo, sem confiança pra falar.

“Então, se passei a impressão errada, é porque eu não faço ideia do que tô fazendo, e sou um idiota nessas coisas. Não vejo você assim. É mais como se você fosse minha irmã, alguém que quero proteger, ajudar e apoiar. Gosto de você como amiga, até consigo imaginar a gente como melhores amigas, qualquer hora dessas.”

Como irmã dele. Uma amiga.

“Se tivesse mais contato físico ou se eu passasse mais tempo com você, ou qualquer outra dessas coisas que você mencionou, prometo que não tava querendo brincar ou algo assim. Se alguma dessas coisas fosse consciente da minha parte, era pra te fazer se sentir mais acolhida, pra você saber que eu tô por perto, porque sabia que você tava passando por uma fase difícil na escola.”

E pena. Tá aí a tríplice. “Tudo bem. Pode parar agora.”

Andamos em silêncio opressor por alguns segundos.

“Desculpa. Me sinto um idiota. Como se estivesse chutando você pra baixo.”

Neguei com a cabeça. “Tudo bem. Não é nada demais. Só podemos mudar de assunto?”

“Pode sim.”

Assenti, engolindo o nó na garganta. Em outro lugar ou situação, se o Brian não estivesse ali, se tivesse privacidade, talvez eu chorasse. Mas não tinha essa condição, então foquei em dar um passo atrás do outro, controlar minha respiração, ler as placas de rua e os nomes das lojas, e centralizar minha atenção em qualquer coisa que não fosse o Brian ou a conversa que acabara de acontecer.

A caminhada até o apartamento dele foi longa, talvez meia hora, com só pequenas conversas sem importância e pausas longas, sem palavras. Chegamos lá, e ele começou a arrumar as coisas, pegando o kit de primeiros socorros. Liguei a TV pra tentar animar o silêncio constrangedor.

Não precisei esperar muito até que algo chamou minha atenção. Era no canal 4, uma atualização ao vivo sobre a situação da Empire Eighty Eight. E, pelo que parecia, não restava dúvida na minha cabeça de que o pessoal do Kaiser tava respondendo a Brockton Bay ao e-mail.

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