Verme (Parahumanos #1)

Capítulo 54

Verme (Parahumanos #1)

“Isso é o que você queria?” o adolescente com barba rala no queixo e capuz na cabeça entregou o saco de papel.

Mãos largas, com unhas degeneradas, marrom e podre, remexeram o conteúdo. “É. Aqui.” A voz tinha um sotaque levemente estrangeiro, as palavras e sons muito cuidadosos, como se ele não estivesse confortável com o inglês.

O jovem estendeu a mão e seus olhos se arregalaram ao sentir uma pilha de dinheiro sendo pressionada em suas mãos.

“Isso é… mais do que eu esperava.”

“Tá reclamando?”

O rapaz balançou a cabeça.

Gregor, o Caracol, colocou as mãos nos bolsos, como se quisesse esconder as unhas e as formações que cicatrizavam a parte de trás das mãos. Cada uma dessas formaações duras, que poderiam ser concha ou escama, nenhuma maior que um dólar de prata, tinha uma espiral bem marcada. Por mais que ele tentasse enfiar as mãos nos bolsos, não conseguia esconder o rosto. Ele não tinha cabelo na cabeça, nem sobrancelhas ou cílios, e as formações duras cobriam seu rosto como um caso avançado de acne. O mais estranho e perturbador de tudo era o fato de que sua pele pálida era translúcida o suficiente para revelar sombras do esqueleto, dos dentes e da língua na boca.

“Como dá pra ver,” disse Gregor, sem qualquer afetação, “Seria difícil pra mim entrar numa loja e fazer compras simples. Não gosto de depender dos meus amigos pra isso. Me faz me sentir em dívida com eles, e isso não é bom pra amizade. Se você tiver interesse em repetir esse tipo de negócio, estando disponível pra fazer minhas tarefas por um tempo, dá pra organizar.”

“Sério?” o rapaz coçou o queixo. “Por quanto tempo?”

“Até eu ligar e você não puder ou não quiser fazer o recado. Se isso acontecer mais de uma vez, ou se o motivo não for válido, eu procurarei outra pessoa, como fiz com o último.”

“Você não machucou ele, né?”

“Não. Não fiz isso. Ele decidiu passar a noite com a namorada. Não liguei pra ele de novo.”

“Isso não vai envolver coisa ilegal?”

“Não. Nem drogas, nem prostitutas, nem armas.”

“Então você me chama, eu corro na loja, pego mantimentos, roupas, comida pra viagem, xampu, seja lá o que for, e você me paga três—”

“Quatro. E como não tenho cabelo, não vai precisar de xampu.”

“Certo. Desculpa. Então, quatrocentos dólares toda vez? Qual é a pegadinha?”

“Não tem pegadinha. Eu tenho dinheiro, gosto de praticidade. Só há uma pequena chance de problema. Minha primeira assistente saiu porque achava que meus inimigos poderiam usá-la pra chegar até mim. Não nego que isso é possível.”

“Você tem inimigos?”

“Sim. Mas ainda não aconteceu de alguma das minhas assistentes ter problemas com eles.”

“Alguma delas já enfrentou dificuldades?”

“A última, o garoto com a namorada. Achava que conseguiria mais dinheiro, porque poderia procurar a polícia e contar o que sabia de mim. Foi sortudo, pois tentou isso numa fase em que estava de bom humor. Desanimei ele. Depois disso, trabalhou pra mim sem reclamar por dois meses. Não éramos amigos, era só negócio. Recomendo, de leve, que você não tente a mesma coisa.”

“Ei. Vida que segue, né?”

“Essa é uma boa frase.”

“Tudo bem. Quero entrar na faculdade esse semestre, e isso parece muito melhor do que trabalhar no salário mínimo cinquenta horas por semana. Aqui, meu número de celular,” ele entregou o telefone.

Gregor, o Caracol, tirou um instante pra colocar o número no próprio celular. “Já tenho. Vou ligar.”

Eles se despediram.

Gregor caminhou pelas ruas secundárias do centro de Brockton Bay, com o capuz do moletom lançando sombra no rosto. Quem cruzasse seu caminho e olhasse por baixo do capuz rapidamente se desviava, envergonhado ou assustado. Os que o viam de longe reconheciam-no como monstruoso, mas de uma forma diferente. Para eles, era apenas mais um dos mórbidos obesos. Um homem na casa dos vinte ou trinta, quase três vezes o peso que deveria ter pelos seus aproximadamente um metro e oitenta. Sabia que seu peso era uma das poucas coisas neste mundo moderno que podia ser motivo de zombaria aberta.

Levaram anos pra ele aceitar isso. Para aceitar que era um dos monstros.

Ao chegar ao destino, ouvia-se o pulsar vibrante de música. O clube ficava a duas quadras da Lord Street, com uma fila ao redor do lado do edifício. Letras amarelas brilhantes, em uma fonte quase deliberadamente simples, diziam ‘Palanquim’.

Ele pulou a fila e seguiu direto em direção à porta principal. Um porteiro forte, hispânico, com barba ao redor do queixo, destravou a cerca de correntes para deixá-lo passar.

“Que diabos?” reclamou uma das garotas perto da fila, “A gente espera há quarenta e cinco minutos e você deixa aquele gordo passar assim?”

“Fora da fila,” disse o porteiro, com voz entediada.

“Por quê?”

“Você acabou de desrespeitar o irmão do dono, idiota,” respondeu o porteiro, “Fora da fila. Você e suas amigas estão banidos.”

Gregor sorriu e balançou a cabeça. A fila que o porteiro puxou era uma besteira, claro, ele não era irmão do dono. Mas era bom ver um idiota levando o troco.

Ele já foi segurança de clubes que queriam alguém mais exótico e chamativo, bem no começo, então sabia que a fila na porta não era um reflexo real de quantas pessoas estavam lá dentro. Um clube vazio podia ter fila de gente querendo entrar só pra passar a impressão certa. Mesmo numa terça à noite, o Palanquim não precisava dessas ilusões. Estava cheio de gente. Gregor se movimentou com cuidado entre a multidão de dançarinos e pessoas segurando copos, até chegar a uma escada vigiada por um segurança. Como na entrada, sua entrada na escadaria era automática, sem contestação.

O balcão do andar de cima não estava cheio, e as poucas pessoas presentes — umas doze, mais ou menos — estavam quase sem energia, deitadas ou reclinadas nos sofás e cabines. Quase todas eram garotas, deitadas de bruços nos móveis. Apenas três pessoas estavam mais ou menos alertas ao seu redor.

“Gregor, meu garoto!” Novas, sorrindo de orelha a orelha. Gregor percebeu um brilho de nojo na expressão de uma das garotas sentadas com Novas, enquanto ela olhava pra ele. Era uma loira de batom azul e luzes cor-de-rosa no cabelo. Se Gregor fosse o segurança, já teria checado a identidade dela, conferido duas vezes, e mesmo que parecesse genuína, teria mandado ela embora por ser jovem demais. Não devia ter mais de dezesseis anos.

De toda forma, era mais ou menos a idade do próprio Novas, então não dava pra culpá-lo por se interessar por alguém de sua faixa etária.

A outra garota, de cabelo escuro, tinha traços europeus. Ela não demonstrava desgosto. Quando sorriu pra ele, não parecia forçado. Isso era raro e interessante.

“Trouxe seu lanche,” disse Gregor.

“Boa! Sente aí!”

“Os outros também vão querer.”

“Senta aí, vem. Tenho duas garotas incríveis aqui, e elas não acreditam quando conto das aventuras maneiras que já puxamos. Preciso de reforço aqui, mano.”

“Acho melhor não falar dessas coisas,” afirmou Gregor, permanecendo de pé.

Novas pegou a sacola e tirou um sanduíche de dentro. “Relax. Faultline entrou na conversa há um tempo, então, claramente, ela topa. Vocês não vão contar, né, Laura? Maria?”

Cada garota balançou a cabeça quando Novas perguntou pelos nomes. Assim, Gregor pôde identificar a garota de cabelo escuro como Laura e a de batom azul como Maria.

“Se a Faultline disse que tudo bem.” Gregor afirmou, pegando a sacola de novo e achando seu próprio sanduíche. “Laura e Maria, desculpem, os outros sanduíches aqui estão reservados. Posso oferecer o meu, se quiserem.”

“Não precisa, não estou com fome,” respondeu Laura. “Gosto do seu sotaque. É norueguês?”

Gregor deu sua primeira mordida, engoliu e balançou a cabeça. “Não tenho certeza. Conversei com um especialista e ele disse que a outra língua que falo é islandês.”

“Você não sabe?”

“Não,” respondeu Gregor.

Sua resposta ríspida só atrasou a conversa por um momento antes de Novas retomar o papo, “Então, mano, conta pras garotas quem a gente enfrentou mês passado.”

“O trabalho da caixa de brinquedos?” Gregor perguntou. “Com o mercado negro dos Engenheiros? Não tinha ninguém—”

“Outro caso. O trabalho lá em Filadélfia.”

“Ah. Chevalier e Myrddin.”

Novas bateu palmas, recostando-se no assento, “Sabia que ia dar nisso!”

“E vocês ganharam deles,” disse a garota de cabelo escuro, descrente.

“Não perdemos!” exclamou Novas.

“Foi por pouco,” acrescentou Gregor, dando sua opinião. “Chevalier lidera a Proteção na Filadélfia. Myrddin comanda a Proteção de Chicago. São nomes que o mundo reconhece. Conquistaram posições de proteção em grandes cidades americanas por serem fortes, inteligentes e talentosos. Concluímos o serviço, como sempre fazemos, e saímos de lá.”

Novas riu, “Pagou aí!”

Nem Laura nem Maria pareceram incomodadas enquanto pegavam dinheiro de suas bolsas e bolsos.

“Qual foi a aposta?” Gregor perguntou.

“Disse que não precisavam pagar se eu estivesse mentindo.”

“E se não estivesse?”

“Sem penalidade. Ganhei companhia e papo por um tempo,” Novas sorriu. Ele puxou a parte de trás da cabine, pegou uma sacola com um par de colheres de plástico e uma garrafa de água. Com uma gota que tirou do bolso, chafurdou na garrafa e deixou algumas gotas em cada colher. O passo final foi mergulhar a ponta da língua em cada gota.

“Lamba aí,” disse às garotas.

“Só isso?” Laura perguntou.

“É o suficiente. Mais do que isso, você pode ficar fora por um tempo inconvenientemente longo. Isso aqui,” apontando com a ponta do rabo para a colher, “é quase uma hora de viagem psicodélica. Sem ressaca, sem efeitos colaterais, não vicia, e você não pode overdose. Confie em mim, já tentei fazer alguém passar mal com isso, em uma missão, e não consegui.”

Maria foi a primeira a pegar a colher e enfiá-la na boca. Em poucos segundos, os olhos se arregalaram, e ela ficou imóvel, encostada no assento da cabine.

“Ei,” disse Laura, virando-se pra Gregor. Ela procurou na bolsa um recibo e uma caneta, e escreveu no verso em branco do papel. Entregou a ele. “Meu número. Se quiser conversar ou, sei lá, qualquer coisa.”

Ela piscou pra ele, então colocou a colher na boca.

Gregor piscou, meio confuso, enquanto ela jogava a cabeça pra trás.

“Parece que você causou uma boa impressão, Gregster,” riu Novas.

“Talvez,” respondeu Gregor. Ele colocou o meio sanduíche de volta na sacola de papel, amassou o papel de embrulho, e, após hesitar um pouco, atirou o recibo com o número da Laura na lixeira do outro lado da sala.

“Ei! O que foi isso?”

“Acho que ela não gostou de mim porque sou eu,” disse Gregor, “acho que ela gostou porque eu sou um monstro.”

“Acho que você está se sabotando, rapaz. Ela é gostosa. Olha pra ela.”

Gregor olhou. Ela era atraente. Suspirou.

“Novas, você sabe o que é um devoto?”

Novas balançou a cabeça.

“É uma expressão pra alguém atraído por pessoas com deficiência, por causa da deficiência. Acho que é sobre poder, atração por alguém por ser fraco de alguma forma. Acho que essa Laura vê em mim uma fraqueza por causa do meu jeito, das dificuldades que tenho no dia a dia, e isso é atraente pra ela, como um aleijado ou um cego para um devoto. Não me atrai isso.”

“De jeito nenhum. Talvez ela goste de você pelo que tem por baixo.”

“Ela não viu o suficiente pra saber quem eu poderia ser,” respondeu Gregor.

“Acho que está se prejudicando. Eu aproveitaria essa oportunidade.”

“Você é uma pessoa mais forte do que eu em muitos aspectos, Novas. Eu devo levar o jantar dos outros.” Gregor virou-se para sair.

“Ei, avisa o Pierce lá embaixo pra mandar mais umas garotas, hein?”

Gregor fez o que foi pedido, chamando atenção do segurança na base da escada. Este, por sua vez, chamou atenção de um grupo de garotas na pista de dança.

Enquanto as garotas subiam, Gregor virou-se para Novas, “Você está feliz?”

“Ah, meu irmão. Você não vai ficar na fase filosófica de novo, né?”

“Vou te poupar disso. Você está?”

“Mano. Olha pra mim. Tenho dinheiro pra gastar, tenho as garotas mais gostosas da cidade implorando pra ficar comigo. Literalmente querendo provar de mim! O que acha?”

“Então você está feliz, né?”

“Melhor momento da minha vida, mano.” Novas abriu os braços para cumprimentar uma trinca de garotas que chegavam ao topo da escada.

“Fico feliz.” Gregor virou-se e entrou no corredor nos fundos do balcão. Quando a porta se fechou atrás dele, o som forte da música diminuiu.

Seu próximo destino era a primeira porta à esquerda. Bateu.

“Entre.”

O quarto tinha uma cama em cada canto oposto. Um lado da sala tinha pôsteres, fotos, uma estante cheia de livros, um computador Apple com duas prateleiras de CDs acima dele, e dois sistemas de som. A música dos alto-falantes mal superava o som do clube lá embaixo. A garota deitada na cama tinha uma pele cheia de sardas no rosto e mãos, e cabelo cacheado castanho. Pilhas de revistas ao redor dela ameaçavam tombar ao menor movimento.

Do outro lado, o ambiente era minimalista. Sem nada nas paredes, sem livros ou eletrônicos. Tinha apenas uma cama, uma mesa de cabeceira e um guarda-roupa. A única coisa vibrante era uma colcha colorida e um travesseiro. Gregor sabia que tinha sido um presente da Faultline. A dona não deveria ter saído pra comprar, certamente.

Ela estava sentada em um canto, olhando para a parede. Era loira, com cabelo quase platinado, que raramente passava da puberdade. Sua blusa roxa carregava uma tonalidade real, um pouco grande demais, caindo sobre as mãos, e as calças claras pareciam mais confortáveis que na moda.

“Trouxe seu jantar, Emily.”

“Obrigado,” respondeu ela, pegando o sanduíche que ele jogou e começando a abrir o pacote.

“Ela tá bem?” perguntou, apontando para a garota no canto.

“Não foi um dos melhores dias dela.”

Ele assentiu.

“Elle,” falou suavemente, “Posso chegar mais perto?”

Aprenderam da pior forma que quanto mais distante a garota estivesse, mais forte seu poder era. Isso a tornava especialmente perigosa quando ela estava tão perdida que mal reconheceria alguém. Uma ironia cruel, pensou Gregor, que ela quase não tivesse poder algum quando mais ela é ela mesma. Essa era uma questão que esperavam resolver algum dia.

A garota virou-se para encarar seus olhos. Ele interpretou aquilo como consentimento, aproximou-se e empurrou um sanduíche em suas mãos.

“Coma,” instruiu.

Ela fez, quase que mecânica.

Depois que Faultline lhe encomendou e Novas, uma missão os levou a um hospital de alta segurança. Foram lá investigar alguém relacionado aos Dragonslayers, um grupo de vilões que usava tecnologia roubada de um dos engenheiros mais poderosos e famosos do mundo para pequenos roubos e trabalhos de mercenário. O ataque ao hospital não saiu como planejado, resultando em um bloqueio de alta tecnologia na instalação. Isso prolongou a missão por horas e criou problemas com uma residente, uma parahumana que tinha que ser transferida frequentemente, para evitar que sua influência se espalhasse além da cela, tornando-se um problema sério para os funcionários, outros internos e testemunhas involuntárias.

No fim, depois de lidar com o esquadrão do Proteção de Boston e pegar a informação que precisava sobre os Dragonslayers, recrutaram a garota.

Assistindo e esperando ela acabar o sanduíche, virou-se para sair. Emily deu-lhe uma pequena saudação de despedida, e ele respondeu com um aceno de cabeça.

Seu último destino era o escritório no final do corredor do segundo andar. Espiou pela janela, entrou silenciosamente, e fechou a porta atrás de si.

Faultline, dona do Palanquin e de diversos outros negócios em Brockton Bay, estava sentada em uma grande mesa de carvalho. Na frente dela, entre os registros, cadernos e livros universitários, havia algo semelhante a um xilofone — uma série de hastes alinhadas, presas a uma tábua.

Faultline vestia roupas profissionais: uma camisa branca de mangas arregaçadas e calças pretas dentro de botas de couro com bicos de aço. Seus cabelos ondulados, presos em um coque, estavam soltos. Não usava máscara — aquelas funcionárias do Palanquin que se arriscavam até ali eram bem pagas para não confrontá-la. Seu rosto tinha traços talvez demasiado agudos para serem considerados atraentes, mas Gregor sabia que ela era, certamente, mais bonita que Novas ou ele mesmo.

Enquanto observava, ela fechou os olhos, passou a mão sobre as hastes e, de repente, rajadas de energia vermelha e azul crepitavam, e pedaços de madeira, metal, pedra e plástico caíram na mesa. Outras hastes, algumas verdes, permaneciam inteiras.

“Porra,” murmurou. Ela juntou as partes de madeira, metal, pedra e plástico no lixo ao lado da mesa. Olhou para a porta e levantou uma sobrancelha.

“Não quis te interromper.”

“Relax, talvez me distraia e ajude.”

“Se você tiver certeza.” Aproximou-se do balcão, colocando a sacola na mesa. “Era sete horas, ninguém tinha comido ainda. Trouxe uns sanduíches pra gente.”

“Obrigado. E a Elle?”

“A Spitfire disse que ela tava mal, mas já comeu. Talvez amanhã seja melhor.”

Faultline suspirou. “Que assim seja. É fácil criar apego pelaquela garota, sabe o que quero dizer?”

“Sim.”

“Porra!” ela amaldiçoou, passando a mão sobre as hastes novamente, e, de novo, a madeira verde não se cortava.

“O que você tá fazendo?”

“Falamos sobre o efeito Manton.”

“A regra que impede alguns poderes de afetar seres vivos. Você tem tentado remover essas restrições de si mesma.”

“Sem sucesso. É só uma questão de tempo até que, numa missão, as coisas fiquem críticas, e eu fique fraca, por causa dessa limitação arbitrária.”

“Tenho dificuldade em acreditar que alguém que virou um prédio em cima de alguém possa se considerar fraco.”

“Isso foi mais sorte do que qualquer outra coisa,” ela suspirou, ajustando as hastes.

“Se você diz.”

“Não é como se não houvesse precedentes. Sabemos que algumas capes que antes eram limitadas pelo efeito Manton descobriram uma maneira de driblá-lo, ou superá-lo. Narval, por exemplo, é o caso mais evidente.”

“Sim.”

“Tem uma teoria de que o efeito Manton é uma barreira psicológica. Que, por nossa empatia com seres vivos, acabamos segurando nossos poderes por instinto. Ou, talvez, seguramos por medo de nos machucar com nossos próprios poderes, uma limitação subconsciente que nos impede de ferir a nós mesmos, mas que acaba afetando seres vivos ao nosso redor também.”

“Entendo.”

“Então estou tentando enganar meu cérebro. Com essa configuração, meus passos são de material inorgânico, depois de tecido morto, e, por fim, de tecido vivo. Madeira verde, no caso. Ou alterno entre esses, sem padrão fixo, pra tentar enganar minha mente. Se conseguir furar essa barreira mental uma vez, fica mais fácil nas próximas tentativas. Essa é a teoria, pelo menos.”

Ela tentou de novo. “Porra!”

“Parece que não tá funcionando.”

“Não mesmo. Faz um favor pra mim, reorganize esses hastes, sem eu poder ver.”

Ele se aproximou da mesa, destravou as hastes, mexeu nelas e depois as prendeu de novo, enquanto ela, com os olhos fechados, aguardava.

“Vai lá.”

Ela tentou de novo, olhos ainda fechados. Quando abriu, começou a xingar várias vezes seguidas.

Gregor foi até ela, segurou firme pelo pescoço com a mão esquerda e a puxou da cadeira. Empurrou-a no chão e subiu por cima, sentando-se com as pernas abertas, pressionando os braços dela com os joelhos. Segurou-a com firmeza, com força crescente.

Os olhos de Faultline se arregalaram e seu rosto começou a trocar de cores enquanto ela lutava. Levou os joelhos às costas dele, mas parecia mais fácil acertar uma cama de água. O efeito era o mesmo. Por baixo da pele, que era mais resistente do que parecia, seu esqueleto, músculos e órgãos estavam imersos em uma mistura viscosa. Seu esqueleto, aprendeu Gregor, era mais de tubarão que de humano. Era cartilagem flexível que dobrava onde o osso quebraria, e se curava mais rápido. Já tinha sido atropelado por um carro, e logo saiu de lá andando. Seus chutes, portanto, pouco tinham efeito.

“Desculpe,” disse Gregor.

Progressivamente, os espasmos de Faultline foram se enfraquecendo. Demorou um pouco até ela ficar mais ou menos inerte.

Ele aguardou um segundo, soltou ela, que tossiu e expulsou ar dos pulmões.

Esperou paciente até ela se recuperar, e, vendo que controlava sua respiração, falou: “Há meses, conversávamos sobre esse assunto, o efeito Manton. Você falou que era possível alguém como a gente ter um segundo evento de ativação. Uma mudança radical ou aprimoramento nas habilidades em uma situação de vida ou morte. Isso poderia explicar como alguém quebrou a regra do Manton.”

Ela assentiu, tossindo de novo.

“Não teria funcionado se eu tivesse te avisado antes. Desculpe.”

Ela balançou a cabeça, tossiu uma vez e respondeu com voz rouca: “Não funcionou mesmo.”

“Sinto muito.”

“E se tivesse funcionado, seu louco? O que você achou que eu ia fazer com você? Cortar sua mão? Matar você?”

“Achava que, no máximo, minha mão ou braço, nada além disso. Não acho que você me mataria, mesmo num momento assim. Você fez muita coisa por mim. Mesmo se fosse impossível recolocá-la, não acho que essa mão seja muito atraente,” examinou a mão que acabara de usar para estrangular Faultline, “Perdê-la por algo que você trabalha há muito tempo nem é uma tragédia.”

“Idiota,” ela se levantou, tossindo de novo, “Como é que eu posso ficar brava com você dizendo uma coisa dessas?”

Ele ficou em silêncio.

“Ou isso não vai dar, ou preciso de algo que me leve quase à morte… aí, já desisti, de qualquer jeito.” Ela puxou a cadeira, sentou-se na mesa e empurrou o aparelho com as hastes pra dentro do lixo. “Gosto demais de estar viva pra brincar na beira do fio da navalha.”

“Sim,” sua voz tava baixa.

“Obrigado, aliás, por tentar isso,” ela disse enquanto esvaziava a sacola com um e meio de sanduíches. Ela devolveu o meio sanduíche pro saco de papel e deixou o restante fechado. Após um instante de hesitação, enfiou o recibo com o número da Laura na bola de papel. Jogou na lixeira do outro lado do cômodo.

“Ei! O que foi isso?”

“Acho que ela não gostou de mim porque sou eu,” disse Gregor, “acho que ela gostou porque eu sou um monstro.”

“Acho que você se sabotando, cara. Ela é gostosa. Olha pra ela.”

Gregor olhou. Ela era atraente. Suspirou.

“Novas, você sabe o que é um devoto?”

Novas balançou a cabeça.

“É uma expressão pra alguém atraído por pessoas com deficiência, por causa da deficiência. Acho que é sobre poder, atração por alguém por ser fraco de alguma forma. Acho que essa Laura vê em mim uma fraqueza por causa do meu jeito, das dificuldades que tenho no dia a dia, e isso a atrai, de uma forma parecida com um inválido ou cego pra um devoto. Isso não me interessa.”

“De jeito nenhum. Talvez ela goste de você pelo que tem por baixo.”

“Ela não viu o suficiente pra saber quem eu poderia ser,” respondeu Gregor.

“Acho que você está se prejudicando. Aproveitaria essa oportunidade.”

“Você é uma pessoa mais forte do que eu em muitos aspectos, Novas. Preciso levar o jantar dos outros.” Gregor virou-se para sair.

“Ei, avisa o Pierce lá embaixo pra mandar mais umas garotas, hein?”

Gregor fez o que foi pedido, chamando a atenção do segurança na base da escada. Este, por sua vez, chamou uma turma de garotas na pista de dança.

Enquanto elas subiam, Gregor virou-se pra Novas, “Você está feliz?”

“Ah, mano. Você não vai ficar na fase filosófica de novo, né?”

“Vou te poupar disso. Você tá?”

“Amigo. Olha pra mim. Tenho grana pra gastar, as garotas mais gostosas da cidade implorando pra ficar comigo. Literalmente querendo provar de mim! O que acha?”

“Então tá feliz, né?”

“Melhor momento da minha vida, mano.” Novas abriu os braços para cumprimentar as garotas que chegavam ao topo da escada.

“Fico feliz.” Gregor virou-se e entrou pelo corredor nos fundos do balcão. Quando a porta se fechou, o som forte da música diminuiu.

Seu próximo destino era a primeira porta à esquerda. Bateu.

“Entre.”

O quarto tinha uma cama em cada canto oposto. De um lado, tinha pôsteres, fotos, uma estante cheia de livros, um computador Apple com duas prateleiras de CDs acima dele, e dois sistemas de som. A música do computador quase não cobria o som do clube lá embaixo. A garota deitada na cama tinha uma pele cheia de sardas no rosto e nas mãos, e cabelo cacheado castanho. Pilhas de revistas ao redor dela quase caíam ao menor toque.

Do outro lado, era bem simples. Nada nas paredes, nem livros, nem eletrônicos. Tinha apenas uma cama, uma mesa de cabeceira e um guarda-roupa. A única decoração era uma colcha colorida e uma fronha. Gregor sabia que tinha sido um presente da Faultline. A dona provavelmente não tinha ido comprar. A residente naquele lado do cômodo estava num canto, olhando pra parede. Era loira, com cabelo quase prateado, que raramente passava da puberdade. Sua blusa roxa tinha a cor de um rei, um pouco larga, caindo sobre as mãos, e as calças claras pareciam mais confortáveis do que na moda.

“Trouxe seu jantar, Emily.”

“Obrigado,” respondeu a garota com sardas, pegando o sanduíche e começando a abrir o pacote.

“Ela tá bem?” perguntou, apontando para a garota no canto.

“Não foi um bom dia pra ela.”

Ele assentiu.

“Elle,” falou suavemente, “Posso chegar mais perto?”

Aprenderam à força que quanto mais longe ela estivesse, mais forte seu poder. Isso tornava ela especialmente perigosa quando estava tão perdida que nem reconheceria alguém. Uma ironia cruel, pensou Gregor, que ela quase não tivesse poder algum quando era ela mesma. Era um problema que ainda esperavam resolver algum dia.

A garota virou-se pra encarar seus olhos. Ele interpretou aquilo como consentimento, aproximou-se e deu um sanduíche a ela.

“Come,” ordenou.

Ela comeu, quase que mecanicamente.

Depois que Faultline a encomendou e uma missão levou Gregor e Novas a um hospital de alta segurança, tiveram que confrontar alguém ligado aos Dragonslayers — um grupo de vilões que usava tecnologia roubada de um dos engenheiros mais poderosos do mundo pra pequenos crimes e trabalho de mercenário. O ataque ao hospital não saiu como planejado, resultando em um bloqueio de alta tecnologia. Isso atrasou a missão por horas e criou problemas com uma residente, uma parahumana que tinha que ser transferida frequentemente, para evitar que sua influência se espalhasse além da cela, tornando-se uma ameaça para os funcionários, outros internos e pessoas às cegas.

No fim, após lidar com o esquadrão do Proteção de Boston e pegar as informações necessárias, recrutaram a garota.

Ele ficou lá, assistindo até ela acabar o sanduíche, e então foi embora. Emily deu uma pequena saudação de despedida, e ele respondeu com um aceno de cabeça.

Seu último destino era o escritório no final do corredor do segundo andar. Espiou pela janela, entrou silenciosamente e fechou a porta atrás de si.

Faultline, dona do Palanquin e de outros negócios na cidade, estava sentada numa grande mesa de carvalho. Em cima dela, entre registros, cadernos e livros, havia algo que parecia um xilofone — uma série de hastes alinhadas, presas a uma tábua.

Faultline vestia roupas de trabalho: uma camisa branca de mangas arregaçadas, calças pretas dentro de botas de couro pretas brilhantes, com bico de aço. Seus cabelos ondulados, presos em um coque, estavam soltos. Não usava máscara — quem trabalhava ali no escritório era bem pago demais para se arriscar. O rosto dela tinha traços agudos, talvez não convencionais, mas ela era mais bonita que Novas ou Gregor, certamente.

Enquanto assistia, ela fechou os olhos, passou a mão sobre as hastes, e rajadas de energia vermelha e azul crepitavam. pedaços de madeira, metal, pedra e plástico caíram na mesa. Outras hastes, algumas de cor verde, ficaram intactas.

“Porra,” ela murmurou. Jogou os pedaços no lixo ao lado. Levantou uma sobrancelha pra Gregor, que estava na porta.

“Não quis te interromper.”

“Relax, quem sabe me distraindo eu ajudo.”

“Se tiver certeza.” Aproximou-se, colocando a sacola na mesa. “Era sete horas, ninguém tinha comido ainda. Trouxe uns sanduíches pra gente.”

“Obrigado. E a Elle?”

“A Spitfire disse que ela tava tendo um dia ruim, mas já comeu. Talvez amanhã melhore.”

Faultline suspirou. “Tomara. É fácil criar apego, sabe? Do jeito que ela é.”

“Sim.”

“Porra!” ela amaldiçoou, passando a mão sobre os tubos novamente, e o verde se recusou a cortar.

“O que você tenta fazer?”

“Falamos do efeito Manton.”

“A regra que impede alguns poderes de afetar seres vivos. Você tenta remover essas limitações de si mesma.”

“Sem sucesso. É só questão de tempo, em uma missão importante, as coisas ficarem críticas e eu ficar fraca por causa dessa limitação arbitrária.”

“Dificil acreditar que alguém que virou um prédio em cima de alguém possa ser fraco.”

“Foi mais sorte do que qualquer outra coisa,” suspirou ela, ajustando as hastes.

“Se você diz.”

“Desde que veio essa ideia, fiquei pensando… Sabemos que algumas capes que eram limitadas pelo efeito Manton descobriram maneiras de superá-lo, ou driblá-lo. Narval é o caso mais comum.”

“Sim.”

“Existe uma teoria de que o efeito Manton é uma barreira psicológica. Que, por nossa empatia com outros seres humanos, seguramos nossos poderes por instinto. Ou, talvez, por medo de nos machucar com nossos próprios poderes, uma limitação subconsciente que nos impede de nos ferir, e ela acaba afetando os seres ao nosso redor também.”

“Entendo.”

“Por isso estou tentando enganar meu cérebro. Com essa configuração, passo de material inorgânico a tecido morto, e depois a tecido vivo, de forma aleatória ou alternando. Se conseguir enganar minha mente, antecipando o material errado, talvez eu consiga furar esse bloqueio mental. Uma tentativa uma vez, e fica mais fácil nas próximas. Essa é a ideia, pelo menos.”

Ela tentou novamente. “Porra!”

“Parece que não funciona.”

“Nem um pouco. Faz um favor, reorganize esses tubos, sem eu ver.”

Ele foi até a mesa, destravou os tubos, mexeu neles, e voltou a prende-los enquanto ela, de olhos fechados, esperava.

“Vai lá.”

Ela tentou de novo, olhos fechados, e xingou várias vezes ao abrir os olhos.

Gregor passou por ela, agarrou seu pescoço com a mão esquerda, puxou-a da cadeira, empurrou ao chão e montou por cima, com os joelhos pressionando os braços dela. Apertou devagar, cada vez mais firme.

Os olhos de Faultline se arregalaram, e seu rosto começou a trocar de cores enquanto ela lutava. Levou os joelhos às costas dele, mas parecia mais fácil acertar uma cama de água. O efeito foi o mesmo. Por baixo da pele, que era mais resistente do que pareciam, estavam o esqueleto, músculos e órgãos imersos em uma mistura viscosa. O esqueleto dela, descobriu Gregor, era mais parecido com de tubarão do que de humano. Era cartilagem flexível que dobrava onde o osso quebraria, e se curava mais rápido. Já tinha sido atropelado por um carro, e logo saiu andando. Seus chutes, portanto, pouco afetariam.

“Desculpe,” disse Gregor.

Sua força foi fazendo Faultline fraquejar, até parar de resistir.

Ele esperou um pouco, soltou-a, e ela tossiu, expulsando ar.

Foi paciente, para ela se recuperar. Quando ela mais ou menos controlou a respiração, falou: “Há meses, ainda conversávamos sobre o efeito Manton. Você falou que poderia existir um segundo gatilho. Uma mudança grande ou melhora nas habilidades, por causa de uma situação de vida ou morte. Isso explica alguém quebrando a regra.”

Ela assentiu, tossindo de novo.

“Não daria certo se eu tivesse te avisado antes. Sinto muito.”

Ela balançou a cabeça, tossiu, e respondeu rouca: “Não funcionou mesmo.”

“Sinto muito…”

“E se tivesse funcionado, seu louco? O que você achou que ia fazer comigo? Cortar minha mão? Matar?”

“Achava que, no máximo, minha mão ou braço, nada além disso. Não acho que você me mataria, nem num momento como aquele. Você fez muita coisa por mim. Mesmo que não dê pra recolocar, não acho que essa mão seja tão atraente,” observou a mão que usou pra estrangular Faultline, “Perdê-la por algo que você dedica tanto tempo nem é uma tragédia.”

“Idiota,” ela se levantou, tossindo mais uma vez, “Como é que eu vou ficar brava com você dizendo uma coisa dessas?”

Ele permaneceu em silêncio.

“Ou não funciona, ou tenho que passar perto da morte… de qualquer jeito, desisto. Prefiro não brincar na beira do fio,” ela puxou a cadeira, sentou-se na mesa e jogou o aparelho com as hastes no lixo. “Gosto de estar vivo demais pra isso.”

“Sim,” disse ele, baixinho.

“Obrigada, aliás, por tentar,” ela comentou, enquanto terminava os sandwiches. Devolveu o de meio sanduíche ao saco de papel e deixou o restante fechado. Após hesitar, enfiou o recibo com o número da Laura na bola de papel e jogou na lixeira.

“Ei! O que foi isso?”

“Acho que ela não gostou de mim porque sou eu,” Gregor comentou. “Acho que ela gostou porque sou um monstro.”

“Aí, rapaz, você se sabotando. Ela é gata. Olha pra ela.”

Gregor olhou. Ela era bonita. Suspirou.

“Novas, você sabe o que é um devoto?”

Novas balançou a cabeça.

“É uma expressão pra alguém que gosta de pessoas com deficiência, por causa da deficiência. Acho que tem a ver com poder, a atração por alguém fraco de algum modo. Acho que essa Laura enxerga em mim uma fraqueza, pelo jeito que eu sou, pelas dificuldades que tenho, e isso é atraente pra ela — como um inválido ou cego pra um devoto. Não é minha praia.”

“De jeito nenhum. Talvez ela goste de você pelo que há por dentro.”

“Ela não viu o suficiente pra saber quem eu posso ser,” respondeu Gregor.

“Aí, cara, você tá se prejudicando. Essa é uma oportunidade que não dá pra perder.”

“Você é mais forte que eu em muitas áreas, Novas. Tenho que ir levar a janta dos outros.” Gregor virou-se para sair.

“Ei, avisa o Pierce lá embaixo pra mandar mais umas garotas, vale?”

Gregor confirmou, chamando a atenção do segurança na base das escadas. Ele, por sua vez, chamou as garotas na pista.

Enquanto elas subiam, Gregor virou-se para Novas, “Você tá feliz?”

“Ah, cara. Você não vai ficar na fase filosófica de novo, né?”

“Vou te poupar disso. Você tá?”

“Mano, olha pra mim. Tenho dinheiro de sobra, as gostosas da cidade querendo ficar comigo. Literalmente querendo provar, até gostarem de mim! O que acha?”

“Então está feliz, né?”

“Melhor momento da minha vida, mano.” Novas abriu os braços, cumprimentando as garotas que chegavam ao topo da escada.

“Fico feliz.” Gregor virou-se e entrou no corredor nos fundos do balcão. Quando a porta fechou, a música ficou mais tênue.

O próximo destino era a primeira porta à esquerda. Bateu.

“Entre.”

O quarto tinha uma cama em cada canto oposto. De um lado, pôsteres, fotos, uma estante cheia de livros, um computador Apple com duas prateleiras de CD acima, e dois sistemas de som. A música do computador quase não cobria o som do clube lá embaixo. A garota na cama tinha sardas no rosto e nas mãos, e cabelo cacheado castanho. Pilhas de revistas empilhadas ao seu redor quase caíam ao menor movimento.

Do outro lado, era bem minimalista. Nada na parede, nenhum livro ou eletrônico. Tinha uma cama, uma mesa de cabeceira e um guarda-roupa. A única decoração era uma colcha colorida e uma fronha. Gregor sabia que tinha sido um presente da Faultline. A dona provavelmente não tinha saído pra comprar sozinha. A residente ali era uma loira, com cabelo quase branco, que dificilmente passava da puberdade. Sua blusa roxa, como a de uma rainha, era um pouco grande demais, caindo sobre as mãos. As calças claras pareciam mais confortáveis do que a moda.

“Trouxe seu jantar, Emily.”

“Obrigada,” ela respondeu, pegando o sanduíche e começando a abrir o pacote.

“Ela tá bem?”

“Não foi um dia fácil pra ela.”

Ele assentiu.

“Elle,” falou calmo, “Posso chegar mais perto?”

Sabiam, na prática, que quanto mais afastada ela estivesse, mais forte seu poder era. Isso a tornava ainda mais perigosa quando ela estava tão perdida que não reconheceria ninguém. Uma ironia cruel, pensou Gregor, que ela quase não tinha poder algum no auge de sua essência. Era um problema que esperavam solucionar algum dia.

A garota virou-se pra encarar seus olhos. Ele interpretou isso como consentimento; chegou perto e entregou o sanduíche.

“Coma,” ordenou.

Ela fez, quase mecanicamente.

Depois, Faultline a encomendou e uma missão levou Gregor e Novas a um hospital de alta segurança. Foram lá entrevistar alguém do Dragonslayers, um grupo de vilões que usava tecnologia roubada de um dos engenheiros mais poderosos do mundo para crimes pequenos e mercenário. A invasão ao local não foi bem, e resultou em um bloqueio de alta tecnologia. Disso, atrasou a missão por horas e criou problemas com uma residente, que tinha que ser transferida frequentemente para evitar que sua influência se espalhasse além da cela, tornando-se uma ameaça aos funcionários, outros internos e pessoas inocentes.

No fim, após lidar com o esquadrão do Proteção de Boston e obter as informações necessárias, recrutaram a garota.

Ele ficou lá, assistindo até ela terminar o sanduíche, e foi embora. Emily acenou de despedida, e ele respondeu com um sinal de cabeça.

Seu último destino era o escritório no final do corredor do segundo andar. Espiou pela janela, entrou silenciosamente e fechou a porta.

Faultline estava sentada numa grande mesa de carvalho. Diante dela, entre registros, cadernos e livros universitários, tinha algo parecido com um xilofone — hastes de diferentes materiais presas a uma tábua.

Ela vestia roupa de trabalho: uma camisa branca com mangas arregaçadas e calças pretas, 'vestidas' em botas de couro preto com bico de aço. Seu cabelo ondas, preso em um coque, estava solto. Não usava máscara — só as funcionárias mais bem pagas se arriscavam tanto. Seu rosto tinha traços um pouco fortes demais, não assim convidativos, mas ela era consideravelmente mais bonita que Novas ou Gregor.

Enquanto observava, fechou os olhos, passou a mão pelas hastes, e uma faísca de energia vermelha e azul passou, fazendo pedaços de madeira, metal, pedra e plástico caírem na mesa. Outras hastes, verdes, permaneciam intactas.

“Droga,” ela murmurou. Jogou as peças no lixo, levantou uma sobrancelha pra Gregor na porta.

“Não quis te interromper.”

“Relaxa. Talvez me distraindo eu ajude.”

“Se tiver certeza,” disse ele, aproximando-se, colocando a sacola na mesa. “Era sete horas. Ninguém tinha comido ainda. Trouxe uns sanduíches.”

“Obrigado. E a Elle?”

“A Spitfire disse que ela tava mal, mas já comeu. Talvez amanhã melhore.”

Faultline suspirou. “Que assim seja. Se apegar a ela é fácil, sabe? Do jeito que ela é.”

“Sim.”

“Porra,” ela amaldiçoou, passando a mão sobre os tubos, e o verde se recusou a ser cortado novamente.

“O que tenta fazer?”

“Falamos do efeito Manton.”

“A regra que impede alguns poderes de afetar seres vivos. Você tenta tirar essas limitações de si mesma.”

“Sem sucesso. É só uma questão de tempo até uma missão importante, e eu ficar fraca por causa dessa limitação.”

“Difícil imaginar que alguém que virou um prédio em cima de alguém se considere fraco.”

“Foi mais sorte que qualquer coisa,” ela suspirou, ajustando as hastes.

“Se diz,”

“Tem uma teoria de que o efeito Manton é uma barreira da mente. Que, por nossa empatia, seguramos nossos poderes instintivamente. Ou por medo de nos machucar usando eles, uma limitação subconsciente que também impede que nos machuquemos. Essa limitação se estende aos outros, na verdade.”

“Compreendo.”

“Então, tento enganar meu cérebro. Com esse arranjo, faço ele passar do material inorgânico pra tecido morto, e depois pra tecido vivo, às vezes numa sequência sem padrão. Se conseguir enganar minha mente, antecipando o material errado, talvez eu toque o bloqueio. Uma tentativa, e torna mais fácil na próxima. Essa é a ideia, pelo menos.”

Ela tentou novamente. “Porra!”

“Parece que não adianta.”

“Nem um pouco. Faz um favor: reorganize esses tubos, sem eu ver.”

Ele veio, destravou, mexeu nas hastes e as deixou no lugar. Ela, de olhos fechados, esperou.

“Vai lá.”

Ela tentou de novo, olhos fechados. Ao abrir, começou a xingar várias vezes.

Gregor passou por ela, segurou seu pescoço com a mão esquerda, puxou-a da cadeira, empurrou no chão e montou por cima, com os joelhos pressionando seus braços. Apertando, devagar. Cada vez mais firme.

Os olhos de Faultline arregalaram, a pele dela começou a variar de cor enquanto ela lutava. Levou os joelhos às costas dele, mas parecia mais fácil acertar uma cama d’água. O efeito era o mesmo. Por baixo da pele, mais resistente do que parecia, seu esqueleto, músculos e órgãos estavam imersos numa mistura viscosa. Seu esqueleto, descobriu Gregor, era mais parecido com de tubarão do que humano. Era cartilagem flexível que dobrava onde o osso quebraria, e se curava mais rápido. Já tinha sido atropelada por carro e saiu andando. Seus chutes, portanto, pouco valiam.

“Desculpe,” falou Gregor.

Sua força fez Faultline fraquejar e ela ficou mais fraca, até ficar quase inerte.

Esperou mais um pouco, soltou-a, e assim ela tossiu para expulsar o ar.

Esperou que ela se recuperasse, e, vendo que respirava mais ou menos normal, falou: “Meses atrás, a gente conversou sobre esse efeito, a possibilidade de ter um segundo gatilho, uma mudança nas habilidades, após um momento de vida ou morte. Talvez, alguém tenha quebrado a regra do Manton com isso.”

Ela assentiu, tossindo de novo.

“Não teria funcionado se eu tivesse te avisado antes, desculpe.”

Ela balançou a cabeça, tossiu uma vez, e respondeu rouca: “Não deu, mesmo.”

“Desculpe.”

“E se tivesse funcionado, seu louco? O que você queria que eu fizesse comigo? Cortasse minha mão? Matar você?”

“Achava que, no máximo, minha mão ou braço, nada além disso. Acho que você não ia me matar, nem num momento assim. Você fez muita coisa por mim. Mesmo que não conseguisse recolocá-la, nem acho que essa mão fosse tão bonita,” examinou a mão que acabara de usar para sufocar Faultline, “Perdê-la por algo que você trabalha há tanto tempo nem é questão de tristeza.”

“Idiota,” ela se levantou, tossindo de novo, “Como é que fico brava com você, dizendo uma coisa dessas?”

Ele ficou calado.

“Ou não vai dar, ou preciso de algo que me leve quase à morte… de qualquer jeito, já desisti dessa brincadeira.” Ela sentou na cadeira e jogou a máquina com as hastes no lixo. “Gosto de estar vivo demais pra ficar brincando na beira do perigo.”

“Sim,” ele respondeu baixa.

“Obrigada, aliás, por tentar,” ela comentou, enquanto comia o restante dos sanduíches. Devolveu o de meio para a sacola e deixou o outro fechado. Após um instante, enfiou o recibo com o número da Laura na bola de papel e jogou na lixeira.

“Ei! O que foi isso?”

“Acho que ela não gostou porque sou eu,” Gregor comentou. “Acho que ela gostou mais porque sou um monstro.”

“Aí, rapaz, você se sabotando. Ela é gata. Olha pra ela.”

Gregor olhou. Ela era atraente. Suspirou.

“Novas, você sabe o que é um devoto?”

Novas balançou a cabeça.

“É uma expressão usada pra quem gosta de pessoas com deficiência, por causa da deficiência. Acho que é sobre poder, atração por alguém fraco de alguma forma. Eu acho que essa Laura vê em mim uma fraqueza, pelo jeito que sou, pelas dificuldades do dia a dia, e isso a atrai, como um inválido ou cego pra um devoto. Isso não me interessa.”

“De jeito nenhum. Talvez ela goste mais de quem você é por dentro.”

“Ela não viu o suficiente pra saber quem eu posso ser,” respondeu Gregor.

“Aí, cara, você tá se prejudicando. Essa é uma oportunidade que vale a pena.”

“Você é mais forte que eu em muitas áreas, Novas. Eu tenho que levar a janta do pessoal.” Gregor virou-se pra sair.

“Ei, manda o Pierce lá embaixo pra mandar mais garotas, vale?”

Gregor fez o que pediu, chamando o segurança na base da escada. Esse, por sua vez, chamou as garotas na pista de dança.

Enquanto elas subiam, Gregor virou-se pra Novas, “Você tá feliz?”

“Ah, cara. Você não vai se iludir de novo, né?”

“Vou te poupar disso. Você tá?”

“Mano, olha pra mim. Tenho grana sobrando, as garotas mais gostosas da cidade querendo ficar comigo. Literalmente querendo provar de mim! O que acha?”

“Então tá feliz, né?”

“Momento inesquecível, mano.” Novas abriu os braços para cumprimentar as garotas que chegavam ao topo da escada.

“Fico feliz.” Gregor virou-se e entrou pelo corredor nos fundos do balcão. Quando a porta se fechou, o som da música ficou mais baixo.

Seu próximo destino era a primeira porta à esquerda. Bateu.

“Entre.”

O quarto tinha uma cama em cada canto oposto. De um lado, tinha pôsteres, fotos, uma estante cheia de livros, um computador Apple com duas prateleiras de CDs acima dele, e dois sistemas de som. A música do computador quase não cobria o som do clube lá embaixo. A garota deitada na cama tinha sardas no rosto e nas mãos, e cabelo cacheado castanho. Pilhas de revistas ao seu redor quase tombavam no menor movimento.

Do outro lado, era bem simplificado. Nada na parede, nem livros, nem eletrônicos. Tinha apenas uma cama, uma mesa e um guarda-roupa. A única decoração era uma colcha colorida e um travesseiro. Gregor sabia que tinha sido presente da Faultline. A dona não tinha saído pra comprar, com certeza.

Aquela garota estava sentada num canto, olhando pra parede. Era loira, com cabelo quase branco, que raramente passava da puberdade. Sua blusa roxa, como a de uma rainha, era um pouco grande, caindo sobre as mãos, e as calças claras pareciam mais confortáveis do que na moda.

“Trouxe seu jantar, Emily.”

“Valeu,” respondeu ela, pegando o sanduíche e começando a abrir o pacote.

“Ela tá bem?”

“Não foi um dia bom pra ela.”

Ele assentiu.

“Elle,” falou com delicadeza, “posso chegar mais perto?”

Saberam, na prática, que quanto mais distante, mais forte o seu poder era. E isso a tornava ainda mais perigosa quando ela ficava tão perdida que nem reconheceria alguém. Uma ironia cruel, pensou Gregor, ela praticamente não tinha força na hora em que mais era ela mesma. Era uma questão que esperavam resolver algum dia.

A garota virou-se e olhou nos olhos dele. Ele interpretou como consentimento; aproximou-se e entregou o sanduíche.

“Come,” ordenou.

Ela comeu, quase mecanicamente.

Depois de Faultline ter encomendado ele e Novas, uma missão levou-os a um sanatório de alta segurança. Foram lá tentar alguma coisa, alguém do grupo DragonSlayers — um bando de vilões que usava tecnologia roubada de um dos engenheiros mais poderosos do mundo pra pequenos crimes e mercenariar. O ataque ao hospital não foi bem, resultando em um bloqueio tecnológico de alta precisão. Isso atrasou a missão por horas e criou problema com uma residente, uma parahumana que tinha que ser transferida frequentemente, para evitar que sua influência se espalhasse além da cela, virando um problema sério para todos: funcionários, internos, os que passavam sem saber.

No fim, após lidar com o esquadrão do Proteção de Boston e obter as informações necessárias, recrutaram a garota.

Ele ficou ali, assistindo ela comer até acabar o sanduíche, e então saiu. Emily fez um pequeno gesto com a mão, despedindo-se, e ele respondeu com um aceno.

Seu último destino era o escritório no fim do corredor do segundo andar. Espiou pela janela, entrou silencioso e fechou a porta.

Faultline, dona do Palanquin e de outros negócios em Brockton Bay, estava sentada numa grande mesa de carvalho. Diante dela, entre livros, cadernos e anotações, tinha algo que lembrava um xilofone — uma série de hastes presas a uma tábua, alinhadas lado a lado.

Ela vestia roupas profissionais: uma camisa branca de mangas arregaçadas, calças pretas, dentro de botas de couro pretas brilhantes com bico de aço. Seus cabelos ondulados estavam presos em um coque, mas caíam soltos. Não usava máscara — quem trabalhava ali era bem pago de mais pra se arriscar. Seu rosto tinha traços bastante agudos, talvez não convencionais, mas Gregor sabia que ela era mais atraente que Novas ou ele mesmo.

Enquanto a observava, ela fechou os olhos, passou a mão sobre as hastes e, de repente, rajadas de energia vermelha e azul brotaram, fazendo pedaços de madeira, metal, pedra e plástico caírem na mesa. Outras hastes, verdes, permaneciam intactas.

“Porra,” ela murmurou. Jogou as peças no lixo ao lado, levantando uma sobrancelha pra Gregor na porta.

“Não quis te interromper.”

“Fica tranquilo. Talvez me distraindo eu acabe ajudando.”

“Se tiver certeza,” falou ele, chegando até o balcão e colocando a sacola. “Era sete horas, ninguém tinha comido, e eu trouxe uns sanduíches pra gente.”

“Obrigada. E a Elle?”

“A Spitfire disse que ela tava mal, mas já comeu. Talvez amanhã seja melhor.”

Faultline suspirou. "Tomara. É fácil criar apego, sabe? Com ela."

“Sim.”

“Porra,” ela xingou, passando a mão nas hastes de novo, e lá, de novo, a madeira verde se recusou a ser cortada.

“O que tenta fazer?”

“Falamos do efeito Manton.”

“Aquela regra que impede alguns poderes de afetar seres vivos. Você tenta remover essas restrições de si mesma.”

“Frustrada. É só uma questão de tempo até uma missão importante, eu ficar fraca por causa dessa limitação arbitrária.”

“Difícil de acreditar que alguém que virou um prédio em cima de alguém se considere fraco.”

“Foi mais sorte do que habilidade,” ela suspirou, ajustando as hastes.

“Se você diz.”

“Tem uma teoria de que o efeito Manton é uma barreira psicológica. Nosso sentimento de empatia nos impede de usar nossos poderes ao máximo, instintivamente. Ou temos medo de nos machucar usando eles, uma limitação subconsciente que também afeta outros seres ao redor.”

“Entendo.”

“Então, tento enganar meu cérebro. Com esse arranjo, passo de material inorgânico a tecido morto, e depois a tecido vivo, de formas aleatórias ou alternando. Se conseguir enganar minha mente, antecipando o material errado, acho que consigo furar essa barreira mental. Uma vez, fica mais fácil na próxima. Essa é a teoria, pelo menos.”

Ela tentou de novo. “Porra!”

“Parece que não funciona.”

“Nem um pouco. Faz um favor, rearranje esses tubos — sem deixar eu ver.”

Ele veio, mexeu nas hastes, as reorganizou e as prendeu de novo. Ela, de olhos fechados, aguardou.

“Vai lá.”

Ela tentou de novo, olhos fechados, e começou a xingar várias vezes ao abrir os olhos.

Gregor passou por ela, segurou seu pescoço com a mão esquerda, puxou-a da cadeira, empurrou no chão e montou por cima, com os joelhos pressionando seus braços. Apertando devagar, cada vez mais forte.

Os olhos de Faultline se arregalaram e seu rosto começou a mudar de cor enquanto ela lutava. Ela trouxe os joelhos pra cima, mas parecia mais fácil acertar uma cama de água. O efeito era parecido. Por baixo da pele, mais resistente do que parecia, estavam o esqueleto, os músculos e órgãos, todos imersos em uma mistura viscosa. O esqueleto, descobriu Gregor, era de tubarão — flexível, dobrando e se recuperando rápido, mais do que um humano normal. Ele tinha sido atropelado por um carro e logo saiu de lá andando. Seus chutes, portanto, pouco impactariam.

“Desculpe,” falou Gregor.

Sua força foi enfraquecendo Faultline até ela ficar quase sem resistência.

Ele esperou um pouco, soltou e ela tossiu, expirando ar com força.

Esperou ela se recuperar, notou que ela controlava a respiração, e falou: “Há meses, discutíamos o efeito Manton. Você dizia que um segundo gatilho era possível, uma mudança nas habilidades após uma situação extrema. Pode ser por isso que alguém quebrou a regra do Manton.”

Ela assentiu, tossindo de novo.

“Não teria funcionado se eu tivesse te avisado antecipadamente. Desculpe.”

Ela balançou a cabeça, tossiu uma vez e respondeu rouca: “Não funcionou, de qualquer jeito.”

“Sinto muito.”

“E se tivesse dado certo, seu louco? O que você espera que eu fizesse? Cortar sua mão? Matar você?”

“Achei que, no máximo, minha mão ou braço, nada além disso. Acho que você não iria me matar, nem num momento como esse. Você fez muita coisa por mim. Mesmo que não consiga recolocá-la, nem acho que essa mão fosse tão bonita,” examino a mão recém usada para sufocar Faultline, “Perdê-la por algo que trabalha há tanto tempo não é uma perda irreparável.”

“Idiota,” ela se levantou, tossindo, “Como é que fico brava com você por isso?”

Ele ficou calado.

“Ou não funciona, ou preciso me aproximar da morte… de qualquer forma, já desisti dessa brincadeira.” Ela sentou na cadeira, jogou o aparelho no lixo e disse: “Gosto demais de estar viva pra brincar na beira do perigo.”

“Sim,” respondeu ele, baixinho.

“Obrigada, aliás, por tentar,” ela comentou, enquanto acabava com um e meio de sanduíches. Devolveu o restante ao saco, e deixou o restante fechado. Depois de pensar um pouco, enfiou o recibo com o número da Laura na bola de papel e o lançou na lixeira.

“Ei! O que foi isso?”

“Acho que ela não gostou de mim porque sou eu,” Gregor comentou. “Acho que ela gostou mais porque eu sou um monstro.”

“Aí, rapaz, você se queimando. Ela é gata. Olha pra ela.”

Gregor olhou. Ela era bonita. Suspirou.

“Novas, você sabe o que é um devoto?”

Novas balançou a cabeça.

“É uma expressão pra quem gosta de pessoas com deficiência, por causa da deficiência. Acho que tem a ver com poder, atração por alguém fraco de alguma forma. Acho que essa Laura enxerga em mim uma fraqueza pelo jeito que eu sou, minhas dificuldades, e isso a atrai, como um inválido ou um cego pra um devoto. Não é minha vibe.”

“De jeito nenhum. Talvez ela goste de você pelo que há por dentro.”

“Ela não viu o suficiente pra isso acontecer,” respondeu Gregor.

“Aí, cara, você tá se fazendo de bobo. Essa é uma oportunidade que não pode perder.”

“Você é mais forte que eu em várias coisas, Novas. Tenho que levar a janta do pessoal.” Gregor virou e saiu.

“Ei, avisa o Pierce lá embaixo que mande mais umas garotas, vale?”

Gregor fez o que foi pedido, chamando o segurança na escada. Aquele, por sua vez, chamou as garotas no salão.

Enquanto elas subiam, Gregor virou-se pra Novas, “Você tá feliz?”

“Ah, cara. Você não vai ficar na fase filosófica de novo, né?”

“Vou te poupar isso. Você tá feliz?”

“Amigo. Olha pra mim. Tenho dinheiro sobrando, as garotas mais gostosas da cidade querendo ficar comigo. Literalmente querendo provar de mim! O que acha?”

“Então tá feliz, né?”

“Melhor momento da minha vida, mano.” Novas abriu os braços pra saudar as garotas no topo da escada.

“Fico feliz.” Gregor virou-se e entrou no corredor dos fundos do balcão. Quando a porta se fechou, o som da música baixou.

Seu próximo destino era a primeira porta à esquerda. Bateu.

“Entre.”

O quarto tinha duas camas, em cantos opostos. Um lado tinha pôsteres, fotos, uma estante cheia de livros, um computador com duas prateleiras de CDs e um som. A música do computador mal cobria o som do clube. A garota na cama tinha sardas e cabelo cacheado castanho, com pilhas de revistas ameaçando tombar.

Do outro lado, tudo era simples. Nada na parede, sem livros ou eletrônicos, apenas uma cama, uma cômoda e um guarda-roupa. A única decoração era uma colcha colorida e um travesseiro — presente da Faultline, certamente. A garota, loira quase prateada, estava deitada na esquina, olhando pra parede. Sua blusa roxa parecia grande pra ela, e as calças eram mais confortáveis que na moda.

“Trouxe seu jantar, Emily.”

“Valeu,” ela respondeu, pegando o sanduíche e começando a abrir.

“Ela tá bem?”

“Hoje não foi um dia fácil.”

Ele assentiu.

“Elle,” falou suave, “posso chegar mais perto?”

Sabiam, na prática, que quanto mais longe, mais forte o poder dela. Isso a tornava mais perigosa quando ela estava tão perdida que mal reconheceria alguém. Uma ironia cruel, pensou Gregor, que ela quase não tinha poder na hora que mais é ela mesma. Esperavam um dia resolver isso.

A garota virou-se pra ela e olhou nos olhos. Gregor interpretou como consentimento, entregou o sanduíche, e falou: “Come.”

Ela comeu, quase mecanicamente.

Depois que Faultline e Novas a enviaram numa missão, foram ao hospital para pegar alguém do grupo Dragonslayers, vilões que usavam tecnologia roubada. A invasão deu errado e causou um bloqueio tecnológico, atrasando tudo. Para manter a cela segura, ela tinha que ser transferida frequentemente, o que virou um problema sério para o pessoal do hospital. No final, conseguiram contato com ela e recrutaram.

Ele ficou lá, assistindo até ela terminar o sanduíche, e saiu. Emily acenou de despedida. Ele respondeu com um aceno.

O último destino era o escritório no final do corredor. Entrou silencioso, viu Faultline sentada lá, rodeada de papéis, e algo que parecia um xilofone — hastes presas a uma placa.

Ela vestia camisa branca, calça preta, e botas de couro. Seus cabelos ondulados presos em um coque. Não usava máscara. Seu rosto tinha traços agudos, mas ela era mais bonita que Novas ou Gregor.

Ela fechou os olhos e passou a mão pelas hastes. Energia vermelha e azul crepitou, pedaços de materiais diversos caíram na mesa, algumas hastes verdes ficaram intactas.

“Droga,” ela disse. Recolheu o que caiu, levantou a sobrancelha ao ver Gregor na porta.

“Não quis te interromper.”

“Fica tranquilo, às vezes me distraindo eu ajudo,” ela falou.

“Se tiver certeza,” ele disse, vindo, colocando a sacola. “Não tinha ninguém pra comer, trouxe uns sanduíches pra gente.”

“Obrigado. E a Elle?”

“A Spitfire disse que ela tava mal, mas já comeu. Talvez amanhã melhor.”

Faultline suspirou. “Que assim seja. É fácil criar apego, sabe? Com ela.”

“Sim.”

“Porra,” ela amaldiçoou, passando a mão pelas hastes, e o verde de novo recusou-se a ser cortado.

“O que tenta fazer?”

“Falamos do efeito Manton.”

“A regra que impede alguns poderes de afetar seres vivos. Você tenta remover essas limitações.”

“Sem sucesso. É só uma questão de tempo até uma missão crítica, e eu ficar fraca por causa dessa limitação.”

“Difícil acreditar que alguém que fez um prédio cair em cima de alguém possa ser considerado fraco.”

“Foi mais sorte. Ainda assim,” ela suspirou, ajustando as hastes, “muita gente que já foi limitada pelo efeito Manton descobriu como driblá-lo, ou superá-lo. Narval, por exemplo, é um caso clássico.”

“Sim.”

“Há uma teoria de que o efeito Manton é uma barreira mental. Por nossa empatia, seguramos nossos poderes por instinto. Ou por medo de nos ferir usando eles, uma limitação subconsciente que também afeta as pessoas ao redor.”

“Entendo.”

“Então, tento enganar meu cérebro. Com esse método, passo de material inorgânico a tecido morto, e depois a tecido vivo, de forma aleatória. Se conseguir enganar minha mente, antecipando o material errado, acho que consigo furar o bloqueio. Uma tentativa, e fica mais fácil nas próximas. Essa é a teoria, ao menos.”

Ela tentou de novo. “Porra!”

“Não parece estar funcionando.”

“Nem um pouco. Reorganize esses tubos pra mim, sem eu ver,” pediu.

Ele veio, mexeu neles, e colocou de novo. Ela, de olhos fechados, aguardou.

“Vai lá.”

Ela tentou de novo, olhos fechados. Quando abriu, começou a xingar várias vezes.

Gregor se aproximou, segurou o pescoço dela com a mão esquerda, puxou-a da cadeira, jogou no chão e montou por cima, com os joelhos pressionando seus braços. Apertou devagar, até ela não resistir mais.

Seus olhos se arregalaram, seu rosto mudou de cor enquanto lutava. Ela tentou colocar os joelhos nas costas dele, mas parecia mais fácil acertar uma cama d’água. Era o mesmo efeito. Sob a pele mais resistente, estavam o esqueleto, músculos e órgãos todos mergulhados numa mistura viscosa. O esqueleto dela parecia mais de tubarão que humano, mais flexível, que se curava mais rápido. Já tinha sido atropelada por carro e logo saiu andando. Seus chutes pouco tiveram efeito.

“Desculpe,” falou Gregor.

Gradualmente, ela foi ficando mais fraca, até ficar quase sem resistência.

Ele esperou um pouco, soltou-a, e ela tossiu, respirando fundo.

Esperou ela se recuperar, e, vendo que ela respirava mais ou menos normal, falou: “Meses atrás, falávamos do efeito Manton. Você disse que possivelmente alguém poderia ter um segundo gatilho, uma mudança nas habilidades após uma situação de vida ou morte. Talvez alguém tenha quebrado essa regra.”

Ela confirmou com a cabeça, tossindo de novo.

“Não teria funcionado se eu tivesse te avisado antes, desculpe.”

Ela balançou a cabeça, tossiu uma última vez e respondeu rouca: “Não deu, mesmo.”

“Sinto muito.”

“E se tivesse dado certo, seu louco? O que você queria que eu fizesse comigo? Cortar minha mão? Matar?”

“Achava que, no máximo, minha mão ou braço — nada mais. Não acho que você me mataria, nem na hora de fazer isso. Você fez muita coisa por mim. Mesmo que não consiga reatarem, nem acho que essa mão seja tão bonita,” ele observou a mão usada pra sufocar Faultline, “Perdê-la por algo que você trabalha há tanto tempo não é algo que se lamenta.”

“Idiota,” ela se levantou, tossindo mais, “Como posso ficar brava com você, dizendo uma coisa dessas?”

Ele permaneceu calado.

“Ou não funciona, ou eu preciso estar perto da morte… de qualquer forma, desisti dessa brincadeira.” Ela sentou na cadeira, empurrou o aparelho com as hastes pro lixo. “Gosto demais de estar vivo pra brincar de fio desencapado.”

“Sim,” respondeu baixinho.

“Obrigado, aliás, por tentar,” ela falou, enquanto terminava os sanduíches. Devolveu o meio ao saco, deixou o restante fechado, e após um instante, enfiou o recibo com o número da Laura na bola de papel, e jogou na lixeira.

“Ei! O que foi isso?”

“Acho que ela não gostou de mim porque sou eu,” Gregor comentou. “Acho que ela gostou de mim porque sou um monstro.”

“Aí, rapaz, você se anulando. Ela é bonita. Olha pra ela.”

Gregor olhou. Ela era atraente. Suspirou.

“Novas, você sabe o que é um devoto?”

Novas balançou a cabeça.

“É uma expressão pra alguém atraído por pessoas com deficiência, por causa da deficiência. Acho que é sobre poder, atração por alguém fraco de alguma maneira. Eu acho que essa Laura vê em mim uma fraqueza, por causa do jeito que eu sou, das dificuldades do dia a dia, e isso a atrai, como um inválido ou cego pra um devoto. Isso não me interessa.”

“De jeito nenhum. Talvez ela goste mais de quem você é por dentro.”

“Ela não viu o suficiente pra saber quem eu poderia ser,” respondeu Gregor.

“Aí, cara, você tá se prejudicando. Essa é uma oportunidade que não se pode perder.”

“Você é mais forte que eu em muitas coisas, Novas. Tenho que levar a janta do pessoal.” Gregor virou-se pra sair.

“Ei, avisa o Pierce lá embaixo que mande mais umas garotas, vale?”

Gregor fez o que foi pedido, avisando o segurança na escada. Aquele chamou as garotas na pista.

Enquanto elas subiam, Gregor virou-se pra Novas, “Você tá feliz?”

“Ah, cara. Você não vai se iludir de novo, né?”

“Vou te poupar disso. Você tá?”

“Meu, olha pra mim. Tenho dinheiro sobrando, as gostosas da cidade querendo ficar comigo. Literalmente querendo provar de mim! O que acha?”

“Você tá feliz, então?”

“Momento top, mano.” Novas abriu os braços pra cumprimentar as garotas no topo da escada.

“Fico feliz.” Gregor virou-se e entrou pelo corredor do fundo. Quando a porta fechou, a música ficou mais tênue.

Seu próximo destino era a primeira porta à esquerda. Bateu.

“Entre.”

O quarto tinha duas camas, em cantos opostos. Um lado tinha pôsteres, fotos, uma estante com livros, um computador com duas prateleiras de CDs e um som. A música quase não cobria a do clube lá embaixo. A garota na cama tinha sardas, cabelo cacheado castanho, e pilhas de revistas ao redor, quase caindo.

Do outro lado, tudo era simples. Nada na parede, sem livros ou eletrônicos. Tinha uma cama, uma cômoda e um guarda-roupa. A decoração era uma colcha colorida e um travesseiro, presente da Faultline, com certeza. Ela estava sentada no canto, olhando pra parede. Era loira, com cabelo quase branco, raro na puberdade. Sua blusa roxa era larga, caindo sobre as mãos. As calças claras combinavam mais com o conforto do que com a moda.

“Trouxe seu jantar, Emily.”

“Valeu,” ela respondeu, pegando o sanduíche e abrindo o pacote.

“Ela tá bem?”

“Hoje não foi bom pra ela.”

Ele concordou.

“Elle,” falou suavemente, “posso chegar mais perto?”

Sabiam — quanto mais longe, mais forte ela era. Por isso, ela era ainda mais perigosa naqueles níveis de entendimento. Uma ironia cruel, pensou Gregor, que ela quase não tinha poder no auge de sua expressão. Uma questão que ainda buscavam resolver.

A garota virou-se e olhou nos olhos dele. Gregor interpretou como consentimento, deu um sanduíche, e falou: “Come.”

Ela comeu, quase mecanicamente.

Depois, Faultline encomendou-os, e uma missão os levou ao hospital de alta segurança. Buscar alguém do grupo Dragonslayers — vilões que usavam tecnologia roubada de um dos engenheiros mais poderosos do mundo, para pequenos crimes e mercenariado. A invasão deu errado, e resultou em um bloqueio tecnológico, atrasando tudo. Para manter a segurança, ela foi transferida várias vezes, o que virou um problema sério para o pessoal do hospital, que tentava impedir que ela influenciasse o ambiente ao redor além da cela. E aí, eles conseguiram contato, e recrutaram a garota.

Assistindo ela comer, Gregor ficou ali, e saiu quando percebeu que ela tinha acabado. Emily acenou, e ele respondeu.

Ficou no escritório no fim do corredor do segundo andar, espionou, entrou silencioso e fechou a porta.

Faultline, dona do Palanquin, estava na sua grande mesa de carvalho. Em cima, tinha um aparelho parecido com xilofone, com hastes presas numa placa.

Ela usava uma camisa branca, calça preta, botas de couro. Os cabelos ondulados presos num coque. Sem máscara. Seu rosto tinha traços agudos, talvez não convencionais, mas Gregor sabia que ela era mais bonita que Novas ou ele.

Fechou os olhos e passou a mão nas hastes. Energia vermelha e azul saiu, pedaços de madeira, metal, pedra e plástico caíram na mesa. Outras hastes, verdes, ficaram lá.

“Droga,” ela falou. Jogou as peças no lixo, levantou uma sobrancelha pra Gregor na porta.

“Não quis te interromper.”

“Fica tranquilo, às vezes me distraindo eu ajudo.”

“Se tiver certeza.” Ele se aproximou, colocou a sacola, “Já eram sete horas, ninguém comeu ainda. Trouxe uns sanduíches pra gente.”

“Obrigado. E a Elle?”

“A Spitfire disse que ela tava mal, mas já comeu. Talvez melhore amanhã.”

Faultline suspirou. “Vamos torcer. É fácil criar apego, sabe? Com ela.”

“Sim.”

“Porra,” ela amaldiçoou de novo, passando a mão nas hastes e, de novo, o verde se recusou a ser cortado.

“O que tenta fazer?”

“Falamos do efeito Manton.”

“Aquela regra que impede alguns poderes de afetar seres vivos. Você tenta tirar esses limites de si mesma.”

“Sem sucesso. É só uma questão de tempo até, numa missão importante, eu ficar fraca por causa dessa limitação.”

“Difícil de acreditar que alguém que virou um prédio em cima de alguém se considere fraco.”

“Foi mais sorte que habilidade,” ela suspirou, ajustando as hastes.

“Se você diz.”

“Tem uma teoria de que o efeito Manton é uma barreira psicológica. Nosso sentimento de empatia nos impede de usar nossos poderes ao máximo por instinto. Ou temos medo de nos machucar. Uma limitação subconsciente que também afeta os outros ao redor.”

“Entendo.”

“Por isso, tento enganar meu cérebro. Passo de material inorgânico a tecido morto, e depois a tecido vivo, de formas aleatórias ou alternando. Se eu conseguir enganar minha mente, antecipando errado, talvez consiga furar essa barreira legal. Uma vez, fica mais fácil na próxima. Essa é a teoria, ao menos.”

Ela tentou de novo. “Porra!”

“Não tá funcionando.”

“Nem um pouco. Faz um favor, reorganize esses tubos, pra eu não ver.”

Ele veio, mexeu, e colocou de novo na posição. Ela, de olhos fechados, aguardou.

“Vai lá.”

Ela tentou, olhos fechados, e começou a xingar ao abrir.

Gregor foi, segurou seu pescoço com a mão esquerda, puxou, jogou no chão, montou por cima e pressionou com os joelhos os braços dela. Apertava devagar, cada vez mais forte.

Os olhos de Faultline se arregalaram, e seu rosto mudou de cor enquanto lutava. Ela tentou levantar os joelhos, mas parecia mais fácil acertar uma cama de água. Era o mesmo efeito. Sob a pele grossa, seus ossos, músculos e órgãos estavam imersos em uma mistura viscosa. Seu esqueleto, descobriu Gregor, era de tubarão — mais flexível, se curava mais rápido, dobrava sem se partir. Tinha sido atropelada por um carro e saiu andando logo depois. Seus chutes pouco fizeram efeito.

“Desculpa,” falou Gregor.

Gradualmente, ela foi ficando mais fraca, até ficar quase sem resistência.

Ele esperou, soltou, e ela tossiu, respirando fundo.

Esperou ela se recuperar e falou: “Há meses, a gente conversou sobre o efeito Manton. Você disse que podia haver um segundo gatilho, uma mudança nas habilidades após uma situação extrema. Talvez alguém tenha quebrado a regra.”

Ela assentiu, tossindo de novo.

“Não funcionou, mesmo. Sinto muito.”

“O que mais poderia ter funcionado, seu maluco? O que você esperava que eu fizesse?”

“Achava que minha mão ou braço — nada mais. Não acho que você me mataria, nem nesse momento. Você fez muita coisa por mim. Mesmo sem conseguir recolocá-la, acho que não é uma mão tão atrativa,” falou, olhando a mão que usou pra sufocar Faultline, “Perdê-la por algo que trabalha há tanto tempo não é algo triste.”

“Idiota,” ela se levantou, tossindo mais, “Como é que eu posso ficar brava com você, dizendo uma coisa dessa?”

Ele ficou silencioso.

“Ou não funciona, ou vou precisar estar na borda da morte… ou então, desisto de brincar com isso.” Ela sentou na cadeira, jogou o aparelho no lixo e disse: “Gosto demais de viver pra brincar na beira do fio.”

“Sim,” respondeu baixinho.

“Obrigada, aliás, por tentar,” ela comentou, enquanto comia o restante do sanduíche. Devolveu a metade ao saco, deixou o restante fechado, e, após pensar um pouco, enfiou o recibo com o número da Laura na bola de papel e jogou na lixeira.

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