
Capítulo 57
Verme (Parahumanos #1)
Abri as portas de vidro para o Brian para que pudesse carregar as caixas de mobília para dentro. O que mais me chamou atenção no prédio dele foi o fato de tudo estar extremamente organizado. Nada de lixo, nenhuma pessoa, barulho nenhum. Havia um quadro de avisos logo após a segunda porta, que normalmente eu esperaria que estivesse um pouco bagunçado, como de costume, mas mesmo ali as postagens estavam cuidadosamente espaçadas, e tudo era protegido por uma tampa de vidro com uma trava pequena. Era meio que estéril. Ou talvez fosse só eu estar acostumado com uma área com mais personalidade.
Eu não sabia o que dizer. Não só em relação ao prédio do Brian – eu não fazia ideia de quais palavras deviam sair da minha boca. Não tinha o jeito de fazer conversa fiada naturalmente. Geralmente, eu me virava planejando tudo com antecedência, pensando no que poderia falar. Problema era, eu tinha distraído minha cabeça, não tanto pelos traços do Brian, mas pela constatação de que tinha ficado observando eles. Agora, tentando me recuperar, firmar o pé na realidade e pensar em uma conversa, tudo que conseguia pensar era: “Caramba, Taylor, por que diabos você não consegue pensar em nada pra dizer?!”.
Entramos no elevador, e Brian colocou as caixas na grade de metal interior. Eu consegui dizer: “Qual andar?”.
“Quarto, obrigado.”
Pressionei o botão.
Subimos, e na hora que a porta se abriu, ofereci uma ajuda a Brian para estabilizar as caixas enquanto ele recuava do elevador. Ele conduziu até o corredor e parou na porta enquanto eu buscava as chaves que ele tinha me dado, tentando achar a chave do apartamento dele.
Não tinha ideia do que esperava encontrar no lugar do Brian, mas ele ainda conseguiu me surpreender.
A primeira coisa que notei foi o teto alto. O apartamento era praticamente de dois andares, com um conceito bem aberto, poucas paredes. A cozinha ficava à esquerda ao entrarmos, pequena, separada da sala de estar por um balcão/península. À direita tinha o armário do corredor, e as paredes que cercavam o banheiro e um dos quartos. Logo em frente, tinha a sala espaçosa, com uma janela do chão ao teto e uma porta de vidro que levava a uma sacada de pedra. Uma escada levava a um quarto que ficava lá em cima, sobre o banheiro e o outro quarto – acho que era lá que o Brian dormia, pelo menos, pelo colchão que não estava bagunçado, mas também não parecia arrumado, visível de onde eu estava.
O que me deixou impressionado, acho que, foi o clima de tranquilidade do lugar. Tinha duas estantes, de cor cinza claro, na sala. Nelas, vi uma mistura de romances, plantas e livros mais antigos, com lombadas de couro rachadas e gastas. Algumas folhas de plantas penduravam, desfilando sobre as prateleiras inferiores. O sofá e a poltrona eram de corduroy bege bem clarinho, oversized, com almofadas bem espessas e profundas, de jeito que parecia que você podia se perder nelas. Podia imaginar bem me enroscando naquela poltrona com as pernas dobradas ao lado, lendo um livro.
De alguma forma, eu esperava um visual mais de aço, preto de couro, sabe? Não que eu associasse a personalidade ou os gostos do Brian com esse estilo, mas era o que eu imaginaria de um jovem solteirão. Seja pela suavidade das cores, pelo potinho com pedras, água e bambu na bancada da cozinha, ou pelas fotos em tom sépia de árvores na entrada, o lugar transmitia uma sensação de calma.
Sentiu um aperto de inveja, e não era só porque o apartamento do Brian era bonito. Era porque eu tava começando a entender melhor quem ele era, e como éramos pessoas muito diferentes, nesse aspecto.
Brian fez um barulho de desprezo ao deixar as caixas no armário da porta da frente. Ele tirou as botas e isso me deu o sinal para tirar os meus sapatos também.
“Já comecei uma das tarefas,” ele me disse, nos puxando para a sala, e eu notei uma pilha de tábuas cinza claro e uma caixa de papelão vazia encostada na parede ali. “Parece que realmente precisa de uma segunda pessoa. Quer alguma coisa antes de começarmos? Gosta mais de chá ou café? Ou prefere um refrigerante? Um lanche?”
“Estou de boa,” sorri, tirando minha blusa de moletom e colocando na bancada. Prometi pra Tattletale que faria isso. Senti-me bem constrangido, com a barriga à mostra, e tentei distraí-lo com a tarefa, dizendo: “Vamos começar?”
A primeira tarefa, a que ele tinha deixado incompleta, era uma estante, e começamos por ela. Como ele tinha falado, era realmente uma tarefa pra duas pessoas. A estante tinha três colunas com seis prateleiras cada, e todas as partes se encaixavam usando pinos de madeira. Era impossível encaixar duas peças próximas ao topo sem que as da parte de baixo se soltassem, e vice-versa, então pegamos um ritmo em que um de nós colocava as peças, enquanto o outro mantinha tudo firme pra não desmoronar.
No total, levou uns vinte minutos. Depois de verificar que tudo estava encaixando direitinho, Brian levantou a estante do chão e colocou na parede.
“Tá feita,” ele sorriu, “Quer uma bebida?”
“O que tem aí?”
“Aqui, na geladeira, tenho umas coisas. Pode escolher.”
Puxe uma coca de cereja. O Brian pegou uma coca, mas pouco ligou pra ela enquanto abria a próxima caixa, a quadrada, quase quatro pés de comprimento, e começava a dispor as peças no chão da cozinha. Uma mesa de cozinha com banquetas.
Como descobri, montar a mesa era mais difícil do que a estante. As pernas tinham que ficar exatamente no ângulo certo, ou os parafusos emperravam nas furos ou forçavam a perna pra fora do lugar. Toda vez, acabávamos tendo que tirar o parafuso e recomeçar. Eu ficava segurando uma das pernas da mesa enquanto ele apertava os parafusos na base.
Sem olhar pra minha direção, ele colocou a mão sobre a minha para ajustar o ângulo por um instante. O contato foi como se alguém tivesse dedilhado uma corda de guitarra, aquela que vai do topo da cabeça até o meio do corpo. Um som profundo, vibrando lá dentro, que a gente só consegue sentir, não ouvir. Fiquei muito feliz ao perceber que minhas mangas longas evitavam que a pele dos braços arrepiasse, de tão arrepiados que estavam.
Contecei a minha defesa principal: ficar quieto, imóvel, pra não fazer nenhuma besteira. Problema era, isso me deixou muito consciente do silêncio e da falta de conversa.
Provavelmente, o Brian nem se deu conta disso, mas eu ficava me questionando sobre o que falar, como puxar papo ou iniciar uma conversa. Era uma situação quase insuportável.
Ele se aproximou para olhar melhor enquanto colocava uma porca na haste do parafuso, e seu braço tocou meu ombro. Mais uma vez, aquela reação quase elemental veio de mim. Era intencional? Ele sinalizava interesse com contato físico casual? Ou eu estava atribuindo significado a algo que talvez fosse coincidência?
“Quase pronto,” ele murmurou, ajustando a posição para começar a apertar o outro parafuso na perna da mesa. Agora, o braço dele não estava mais no meu ombro, mas a posição dele, agachado ali tão perto, com o rosto a poucos centímetros do meu... Isso piorou.
“Taylor, você acha que consegue pegar a chave inglesa menor sem mexer na perna?”
Não confiei em mim mesmo pra responder sem fazer uma careta, então só estendi a mão e entreguei a chave.
“Mais rápido, valeu,” ele respondeu, após um segundo. “Quer me passar a porca?”
Eu peguei, deixando ela caírem na mão dele em vez de colocá-la ali, preocupado com o que poderia fazer ou como reagiria se minha mão tocasse a dele. Não ia passar dos próximos três pés de mesa assim, nem das banquetas, quanto mais do terceiro móvel que ainda nem tínhamos começado.
“Taylor?” ele perguntou.
Deixou a pergunta no ar, então engoli em seco e respondi: “O quê?”
“Relaxe. Você pode respirar.”
Ri baixinho ao perceber que tava prendendo a respiração, o que resultou numa respiração nervosa, rindo de leve, o que só deixou o clima mais estranho.
Ele sorriu: “Tudo bem?”
O que eu deveria dizer? Admitir que não sabia como lidar com estar perto de um cara bonito?
Olhei para o chão, para a perna da mesa que segurava. “Fico nervoso perto das pessoas. Acho que tenho mau hálito ou suor, e não consigo perceber porque é meu... Então às vezes faço isso de prender a respiração pra não correr o risco de sentir.”
Bravo, Taylor. Bravo. Imagina uma ovação bem lenta e sarcástica. Falar de mau hálito e suor era uma ideia genial pra acabar envergonhado ainda mais. Uma dessas memórias que vão me fazer corar toda vez que eu lembrar nos próximos anos ou décadas.
Aí, de repente, Brian se aproximou, fechando a pequena distância que tinha entre a gente, até que nossos narizes quase se tocaram.
“Não, você cheira bem,” ele me disse.
Se eu fosse um personagem de desenho, acho que nessa hora sairiam vapores das minhas orelhas ou eu começaria a derreter numa poça. Em vez disso, segui meu instinto e fiquei muito imóvel, ciente de um calor ardente no rosto, talvez de um rubor assassino.
Era difícil dizer se era uma benção ou não, mas Brian foi distraído pelo som de uma chave na fechadura e da porta da frente se abrindo.
Minha primeira ideia foi que a garota que entrou era namorada do Brian. Depois, ela olhou para a nossa direção, deu um sorriso de lado, e percebi que os olhos dela tinham algo da mesma cor dos dele. Era a irmã dele.
Minha segunda reação, ou minha segunda resposta, na verdade, foi difícil de explicar em palavras. É como, por exemplo, olhar pra um Mercedes e dizer que é uma obra de arte linda, mesmo que você não seja muito familiarizado com carros. Com o mesmo espírito, quando você vê um Mercedes com um decalque de fogo barato ao redor das rodas e um spoiler feio feito em casa colado atrás, é uma decepção fundamental. Foi exatamente assim que me senti ao olhar pra Aisha.
Ela era bonita, tão feminina quanto o Brian era masculino, com maçãs do rosto altas, pescoço comprido, e, embora fosse uns dois ou três anos mais nova do que eu, ela já tinha seios maiores do que os meus. Eu poderia até trocar um dedo por pernas, cintura e quadris como os dela.
Caramba, essa família tinha genes bons.
Só de olhar pra Aisha dava pra perceber que ela ia ser uma gata de arrasar quando crescesse. Mas, ainda assim, ela tinha uma mecha de cabelo descolorida, e essa mecha, por sua vez, tinha uma risca roxa. Parecia que ela tinha se esforçado pra parecer vulgar, com shorts jeans rasgados por cima de meia-calça neon verde fluorescente, e um top sem alças que eu hesitaria em chamar de roupa íntima. Qualquer inveja que eu sentisse dela era reforçada por uma sensação quase ofendida por ela estar arruinando a beleza natural que tinha.
“Tô atrapalhando?” ela falou, com um tom vagamente irônico, me lançando um olhar que eu não consegui entender direito.
“Aisha,” Brian se levantou, “O que você está fazendo aqui? Você-” ele parou ao ver uma mulher negra, forte, entrando pela porta da frente. Enquanto o olhar de Aisha na minha direção tinha sido ambíguo, o dela para mim foi bastante diferente. Disprezo, desgosto. Percebi como eu devia estar parecendo, levemente suado, no chão, rodeado de pedaços de mobília, com a barriga exposta, quase corando até as orelhas com um tom de rosa. Me apressei em pegar a minha blusa de moletom e vestir rapidamente.
“Senhor Laborn?” ela falou, “Tenho certeza de que esperava você mais preparado, mas parece que está ocupado agora.”
Brian balançou a cabeça: “Senhora. Senhora Henderson. Tenho quase certeza de que seu escritório me informou que eu iria esperar você às duas da tarde.”
“Era o horário original. Aisha me disse que vocês queriam remarcar-” ela parou e lançou um olhar firme para Aisha.
Aisha sorriu, encolheu os ombros e se sentou na ponta do balcão da cozinha. “O quê? Tenho um filminho que quero assistir hoje à tarde com minhas amigas.”
“Se você tivesse pedido, eu poderia ter dito sim,” Brian falou, “Agora, provavelmente, vou dizer não.”
“Não é sua decisão, irmão, ainda não moro com você,” ela levantou os dois dedos do meio na minha direção.
Brian parecia que ia falar mais alguma coisa, mas parou. Suspirou, então voltou a atenção para a assistente social da Aisha, “Desculpe por isso.”
Ela fez uma expressão de preocupação: “Eu também. Deveria ter ligado pra confirmar, dado o histórico de exageros dela.” Olhou para o caderno, virou uma página, “Se quiser remarcar, hmm, já estou com a agenda cheia pra tarde, mas quem sabe neste fim de semana…?”
Brian deu um olhar irritado para a Aisha: “Já que ela está aqui, se ela estiver disposta a passar por cima do móvel que ainda não terminamos de montar, podemos fazer isso agora mesmo.”
“Se você tiver certeza? E quanto ao seu... acompanhante?” ela me olhou.
Provavelmente meu rosto ainda tava corado, e acho que fiquei ainda mais vermelho ao me ver no meio daquela situação constrangedora. Talvez isso não ajudasse a melhorar as impressões ruins que ela tinha de mim.
“Ela é minha amiga, só estava me ajudando. Taylor, não sei quanto tempo vai durar isso. Não quero te fazer perder seu tempo, mas também me sentiria mal se você saísse tão cedo, logo depois de vir até aqui. Se quiser ficar e relaxar, posso te levar de volta depois.”
Toda parte de mim que é socialmente desajeitada queria aceitar a saída, fugir, esfriar a cabeça. Mas, de algum jeito, não conseguia fazer isso.
“Fico, se não vou atrapalhar. Não tenho planos pra hoje à tarde.”
Quando o Brian sorriu, entendi porque não tinha pulado na oportunidade de ir embora.
A mulher olhou mais um pouco pra mim, me avaliando. Ela perguntou: “Você está na aula online dele?”
Eu neguei com a cabeça.
“Não. Você parece um pouco jovem pra isso.” Então ela me desafiou: “Por que você não estuda?”
“Hum,” hesitei. Tentar manter a verdade o mais próximo possível. “Fiquei próximo de uma explosão, levei um susto, estou sem ir às aulas até ficar melhor.”
“Entendi. Tenho certeza de que montar móveis era o que o médico quis dizer quando recomendou que você descansasse e se recuperasse?”
Sorrir de forma constrangedora e encolher os ombros. Caramba, tava torcendo pra não estar atrapalhando o Bryan com esse papo.
“Então,” Brian falou com a Mrs. Henderson, “Você queria dar uma olhada na minha casa e no espaço que reservei pra Aisha? Acho que essa é uma oportunidade de conferir um lugar antes que a família corra pra esconder tudo debaixo do tapete.”
“Mmm.” resposta sem compromisso. “Vamos lá para a sacada, e você me conta da região e das escolas próximas.”
Brian abriu a porta, segurando-a para a assistente social. Ela saiu, deixando eu com Aisha, que ainda estava sentada no balcão. Dei um pequeno sorriso pra ela, e ela me devolveu um olhar frio, penetrante. Eu, desconfortável, voltei minha atenção para a mesa e tentei ver o que podia fazer sozinho, com a segunda perna.
“Então. Você faz parte do time do meu irmão?”
O quê? Fiquei orgulhoso de mim mesmo por não vacilar. “Time? Eu sei que ele gosta de boxe, ou gostava, ao menos, mas-”
Ela me olhou de um jeito estranho: “Vai fazer de trouxa, né?”
“Não tô entendendo. Desculpa.”
“Beleza.” Ela se recostou, levantando as pernas um pouco.
Voltei a focar na perna da mesa. Não tinha avançado muito, quando ela me interrompeu de novo.
“Olha, eu sei que você faz parte do time dele. Pela lógica, deve ser a garota inseto.”
Neguei com a cabeça, mais pra negar mesmo do que por frustração. Que droga, Brian?
“Ele me falou que tem poderes, não disse quais. Como ele tem poderes, acha que eu posso também. Não quis me surpreender. Descobri quem ele era depois, vi uma notícia de um roubo a um cassino numa noite que ele não estava em casa, comecei a acompanhar os horários em que ele não podia sair, e tudo se encaixava. Questionei ele, e ele não negou muito bem.”
Pra tentar desconcertá-la, fiz a expressão mais surpresa possível, bem exagerada, e falei: “Você tá dizendo que seu irmão é um supervilão?”
Ela piscou duas vezes, depois falou lentamente, como se estivesse conversando com alguém com deficiência mental: “Yeeeaah. E eu digo que você também. Por que será que meu irmão anda com você?”
Caramba. Isso doeu.
Fui poupado de ter que pensar numa resposta e manter a encenação, quando o Brian e a assistente social voltaram do balcão.
A assistente social falou: “…está hesitante, com a lista de espera.”
“Ela é do território, e entraria na mesma turma de todos os alunos do nono ano,” Brian respondeu, lançando um olhar de reprovação pra Aisha, “E isso evitaria que ela convivesse com as más influências daqui.”
Aisha mandou o dedo do meio de novo pra ele.
“Mmm,” a assistente respondeu, trocando olhares entre Aisha e ele. “Gostaria de ver seu quarto agora?”
“Meu? Não o da Aisha?”
“Por favor.”
Brian levou a assistente social escada acima até o quarto dele, que tinha vista pra o resto do apartamento.
“Quem sabe eu vejo como você reage se eu gritar isso em voz alta,” sugeriu Aisha, fazendo sotaque, “Como você se chama mesmo?”
rolei os olhos.
“Não quer dizer? Ah, dane-se.” Ela colocou as mãos ao redor da boca como se fosse gritar e falou, num tom quase de canto: “Ladybug e Grue, na área!”
Olhei pra cima, torcendo pra que o Brian e a assistente social não estivessem por perto. O som de conversa lá em cima parecia não ter sido interrompido pelo que ela tinha dito.
“Parece que você se coloca numa situação sem saída, falando assim,” respondi, “Ou você tem razão, e irrita duas pessoas que seria melhor não provocar, ou você está errada e parece louca.”
“E se elas já acham que eu sou um pouco louca? Que tenho a perder?”
“Não posso dizer,” apertei o parafuso, examinei a perna da cadeira, e ela tava sólida, firme como uma rocha. Passei para a próxima. “E o que você tem a ganhar?”
“Vamos lá,” ela insistiu, “Só admite!”
Meu coração batia forte enquanto o Brian e a assistente desciam as escadas. Aisha, por sua vez, colocou um sorriso largo e falso pra recebê-los. O Brian chamou a mulher para o segundo quarto, mas não entrou com ela. Parou pra me olhar.
“Taylor, você não precisa fazer isso tudo sozinho.”
“Tudo bem,” eu disse. Olhei para onde Aisha tava sentada na bancada, e adicionei, “É uma boa distração.”
“Desculpe. Acho que vamos demorar só mais um pouco.”
Parece que foi exatamente o que aconteceu. A assistente saiu do quarto que seria dela, olhou o banheiro, e depois deu uma olhada nos armários e na geladeira.
A Senhora Henderson falou com Aisha: “Gostaria que você saísse para a sacada por um minuto.”
“Tudo bem.” Aisha saiu do balcão e foi lá fora.
“E,” ela virou-se pra Brian, “Talvez sua amiga queira sair também.”
“Na verdade, não tenho nada pra esconder,” ele respondeu, me lançando um olhar.
“Tudo bem. Começando, isso aqui é melhor do que a maioria,” ela falou.
“Obrigado.”
“Mas tenho minhas preocupações.”
Era visível que a expressão do Brian mudara um pouco, naquele momento.
“Li os documentos e os planos que você enviou. Você tem um plano bem sólido pra cuidar das finanças, pagar as contas, ajudar na escola, possíveis despesas extras, orçamento para roupas, até guardar dinheiro pra faculdade. Em muitos aspectos, é o tipo de situação que eu gostaria de ter na maioria dos meus casos.”
“Mas?”
“Mas, olhando pra essa casa, vejo que você a tornou muito sua. Os móveis, as decorações, as obras de arte parecem refletir sua personalidade, deixando pouco espaço pra da Aisha, até mesmo no espaço que você reservou pra ela.”
Brian ficou meio surpreso com aquilo. “Entendi.”
“Olha, Sr. Laborn, temos que pensar na perspectiva da Aisha. Ela foge o tempo todo, e claramente não vê a casa do seu pai como um lar. É preciso ter um cuidado extra pra que ela perceba esta como um lar. Isso, claro, se ela acabar vindo parar aqui, e não na casa da mãe dela.”
“Minha mãe.” A expressão dele ficou mais séria.
“Estou ciente das suas preocupações com relação à mãe da Aisha, senhor.”
Meu celular vibrando na minha jaqueta fez eu ignorar por enquanto.
Brian suspirou, meio cabisbaixo: “Isso dá pra consertar?”
“Sim. Inclua a Aisha na decoração, esteja disposto a abrir mão do seu gosto e estética pra ela também se sentir parte do espaço,” ela disse. “Sei que não vai ser fácil. A Aisha às vezes é difícil, tenho certeza que podemos concordar nisso.”
Comecei a pensar que ela tinha razão.
“É,” Brian assentiu, “Então, qual é a próxima etapa?”
“Vou visitar a casa da mãe dela daqui a uma semana e meia, se estou lembrado direito. Se você quiser me mandar um e-mail quando tiver feito as mudanças necessárias, as pequenas correções que a inspeção apontou, posso passar lá de novo.”
“Seria ótimo.”
“Lembre-se de que meu volume de trabalho está muito cheio, e provavelmente só poderei passar lá pelo menos uma semana depois de receber sua mensagem.”
“Obrigado,” Brian falou.
“Alguma dúvida?”
Ele negou com a cabeça.
“Então, boa sorte. Para compensar o horário inesperado, vou fazer uma oferta única: posso levar a Aisha pra você. Se ela insistir em se suspender, posso apresentar ela a outras que fizeram o mesmo caminho, enquanto eu atendo às outras audiências essa tarde.”
Brian sorriu. Não foi aquele sorriso tão incrível que eu tinha visto tantas vezes, mas foi um sorriso simpático, “Acho que ela vai perder o filme que queria ir.”
“Acho que sim,” a assistente social disse, de forma cúmplice. “Continue assim, Sr. Laborn. A Aisha tem sorte de ter você.”
Depois disso, a reunião não durou muito, e uma Aisha reclamona foi levada embora pela assistente social. Eu só consegui respirar aliviado quando eles já tinham partido. Mesmo assim, tinha uma sensação de desconforto, sabendo o quanto Aisha desconfiava de tudo.
Lembrei que meu celular tinha recebido uma mensagem, peguei pra ver do que se tratava. Enquanto mantinha o dedo na tela pra desbloquear, comentei: “Aisha descobriu os Undersiders, parece.”
“Droga. Desculpa,” ele fez uma face de dor, “Se eu soubesse que vocês iam se encontrar, tinha te avisado. Você não falou nada?”
“Fingi que não sabia o que ela tava falando, mas, de que adianta? Isso vai dar problema?”
“Ela prometeu que não ia contar pra ninguém... E me incomoda que ela tenha sido tão imprudente de perguntar isso pra alguém que eu nem tinha aprovado. Mas a Aisha não conta por contar. Acho que ela tava brincando com você.”
“Se você tiver certeza,” eu tinha minhas dúvidas, mas não queria pressionar, já que ele tava estressado.
“Tenho quase certeza,” ele suspirou.
Olhei pro meu celular. Era de Lisa.
desculpa interromper o romance. vocês precisam se apressar. coisa séria está acontecendo.
Senti uma leve sensação de calor nas bochechas enquanto deletava cuidadosamente a mensagem. Quando terminei, olhei pro Brian: “A Lisa disse que tem coisa acontecendo. Ela quer que vocês voltem logo.”
“Canseira,” ele falou. “Eu tava esperando... não, que droga. Acho que não vamos conseguir montar tudo, né?” ele sorriu pra mim.
Eu retribui o sorriso: “Outra hora.”
Ele me ajudou a levantar, com a mão. Será que eu tava sendo otimista ou observador demais quando notei que a mão dele ficou um instante mais tempo que o necessário na minha?
Será que uma parte de mim tava com medo dessas possibilidades, na esperança de que nem fosse esperança nem uma observação real minha? Porque, no fundo, eu não tinha certeza se havia ou se eu só queria que uma parte racional de mim estivesse falando.
Droga. Mentalmente, adiantei a minha linha do tempo. Não mais que uma semana, e teria que levar tudo que eu sabia sobre os Undersiders até a Protegotate. Não confiava muito em mim mesmo por mais do que isso.