
Capítulo 329
Fui parar dentro de uma história de fantasma... e ainda tenho que trabalhar
“Huu…”
Era uma porta enferrujada que parecia pertencer a um esgoto.
Uma porta redonda, estilo portinhola. Suja e pesada, do tipo que você vê em antigas instalações industriais.
E nela, gravados em relevo, caracteres.
餓鬼
“Agwi.”
Um espírito faminto atormentado pela fome após cair no inferno por ganância. Ou o próprio inferno onde esse fantasma residia.
Estranhamente, bem à esquerda da porta havia um buraco único.
…De lá, dava para ouvir o som da água correndo...
“……”
Controlei a respiração, me cobri novamente com sal e agarrei a maçaneta enferrujada da porta.
Depois, prendendo o fôlego, a abri.
Creeeeeek.
À minha frente se abriu um espaço amplo, semelhante a uma praça.
O teto em semicírculo lembrava vagamente uma estação de tratamento de esgoto tradicional, mas...
AAAAH!
As paredes estavam completamente cobertas por mãos.
Mãos ressecadas, com ossos à mostra.
Mãos azuladas como cadáver.
Mãos tatuadas com símbolos estranhos na parte de trás.
Mãos vestindo luvas cerimoniais.
Mãos com unhas feitas…
E cada uma daquelas mãos segurava algo.
“Consegui.”
A Praça dos Encontros, como registrada nos <Registros da Exploração Sombria>.
“O Mercado sem Rosto.”
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Registro da Exploração Sombria / Zonas Especiais
[Mercado sem Rosto]
: Uma zona especial de pequena escala derivada de uma história de fantasmas destacada nos <Registros da Exploração Sombria>.
Um espaço bizarro que pode ser acessado usando os “braços das bocas de lobo”, que atraem pessoas movendo-se entre o reino dos vivos e dos mortos.
Se você colocar apenas o braço dentro desse lugar, pode atrair outros com o que estiver na palma da mão, assim como os “braços das bocas de lobo”.
Como é possível acessar de qualquer lugar e realizar trocas sem revelar a identidade, esse mercado é altamente valorizado como uma praça anônima entre entidades ligadas a histórias de fantasmas.
É um espaço onde facções que normalmente jamais se encontrariam interagem, dando origem a combinações e dinâmicas totalmente inesperadas, um espetáculo à parte.
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Exato.
Os braços instalados ali reagiam se alguém se aproximasse oferecendo um item apropriado.
Nesse momento, eles largavam o que seguravam, concluindo uma troca.
O que constitui um “item apropriado” depende dos desejos do vendedor.
Era um mercado bizarro que reaproveitava o fenômeno aterrorizante das histórias de fantasmas — aquelas em que humanos eram atraídos, tinham seus órgãos colhidos e desapareciam — para facilitar o comércio.
No caso da Daydream Inc., por sua tendência a atrair hostilidade, se alguém aparecesse com alguma ligação à empresa, poderia ser recusado ou até atacado. Sinceramente, considerando a personalidade daquelas criaturas, era o esperado. É até divertido só de ler esses registros especiais.
Foi por isso que evitei vir aqui até agora.
“Já mergulho de cabeça em histórias de fantasmas regularmente, pra que arriscar ainda mais?”
Era como escolher entre um vendedor confiável e estável, tipo a loja alienígena, onde você conseguia produtos de qualidade se tivesse dinheiro, e um mercado negro não verificado, cheio de riscos onde podia acabar adquirindo itens amaldiçoados.
Mas agora… eu estava completamente sem dinheiro.
E se algo acontecesse por acaso, eu sempre poderia “revelar” uma identidade desvinculada da Daydream Inc.
“Huu.”
Entrei, lembrando das restrições típicas das histórias de fantasmas.
Se você ficar mais de duas horas nesse espaço, os braços da boca de lobo que você afastou estarão esperando na porta.
Eu precisava ser rápido.
Honestamente, quando li sobre isso pela primeira vez, parecia mais intrigante do que assustador. Mas agora que estava ali, o clima era completamente aterrorizante.
“Parece que entrei num jogo de terror...”
Um líquido desconhecido corria pelo chão, mas me forcei a ignorar e não reagir.
Afinal, eu não estava sozinho.
“……”
Algumas pessoas já andavam pelo espaço compartilhado, espalhadas em diferentes pontos.
A maioria estava completamente coberta da cabeça aos pés, caminhando e observando os braços incrustados nas paredes.
De vez em quando, alguém vestido normalmente passava exibindo o rosto e sorrindo, mas eu fazia questão de evitá-los.
“Isso sim é loucura de verdade.”
Melhor não se envolver sem motivo.
Eu tinha alvos comerciais específicos em mente.
Embora todos fossem tecnicamente anônimos, dava para perceber a que facção pertenciam.
A pista estava na aparência dos braços.
Como era de se esperar num mundo de histórias de fantasmas, as características eram bizarras e únicas.
Se você tivesse conhecimento suficiente, podia identificar as afiliações pelas mangas, tatuagens, acessórios e assim por diante.
“Pouca gente tem esse nível de conhecimento, então, na maior parte do tempo, o lugar permanece praticamente anônimo.”
Mas eu o tinha — esse conhecimento.
E quem eu procurava tinha uma característica física particularmente marcante. Ou seja…
“……”
Parei de andar.
Entre os braços sedutores, balançando com objetos, vi uma mão ressecada.
Uma mão sem o dedo mindinho.
Na palma, não estava um objeto, mas um pedaço de papel manchado de sangue.
Ela segurava com tanta força que nem dava para ler o que estava escrito.
Dava para dizer se era um item à venda ou não, por isso ninguém lhe dava atenção.
Mas era exatamente o que eu procurava.
“Aquele pedaço de papel.”
Me aproximei do braço e estendi a mão…
“Ei, essa aí está aqui faz tipo cinco anos.”
Meu corpo congelou.
“Você não entende muito bem como as coisas funcionam aqui, né? Esses braços não estão fisicamente acenando em tempo real. São só fenômenos fantasmais imitando os originais.”
Alguém agarrou meu ombro e começou a conversar.
“Não é como se alguém segurasse esse braço direto por cinco anos. Provavelmente se foi há cinco anos. Ou morreu.”
O verdadeiro problema era que —
“Como assim?”
— a voz era familiar.
“……”
Em vez de me soltar ou sair correndo, virei a cabeça, um pouco tenso.
“Não parece muito um item atraente, né?”
Só dava para ver a curva em forma de lua crescente dos olhos por cima da máscara.
Mas só por isso e pela voz, eu já sabia quem era.
Tinha visto aquele rosto há poucos dias.
“...Agente Choi!”
O agente com apelido da primeira era que tinha visitado meu quarto de hospital.
“E-Espere.”
Ele estava falando comigo?
Naquele momento, eu havia preenchido onde deveria estar meu braço direito com uma prótese de manequim e algodão, escondida sob o casaco.
Naquela escuridão, não seria fácil notar que me faltava um braço.
Claro que, considerando que ele era um agente veterano da Divisão de Gerenciamento de Desastres, podia perceber na intuição e experiência…
“Mas, ainda assim, num mundo de histórias de fantasmas, não era incomum encontrar pessoas com membros faltando.”
Mas não podia contar com isso com certeza.
Fugir agora só levantaria suspeitas.
Mal consegui me controlar e olhei diretamente para ele.
Havia ainda uma chance de ele ter puxado conversa só para identificar o item que eu estava tentando pegar.
“Ah~ Quer outra dica? Pouca gente sabe dessa…”
O agente Choi olhou para a mão que eu estendia em direção ao “braço” e chegou mais perto, cochichando como se fôssemos velhos amigos.
Era…
“As veias nos pulsos. Acontece que elas são únicas para cada pessoa também.”
Um arrepio percorreu minha pele.
“São quase como impressões digitais. Se você decorar os padrões das veias de alguém, é perfeito para rastrear essa pessoa. A gente pode cobrir o rosto, disfarçar o corpo, até queimar as digitais... mas veias? Essas não dá pra queimar, né?”
“……”
“E a maioria das pessoas abaixa a guarda. Acham que esconderam tudo.”
Estou ferrado.
“Hoobae-nim. O que está fazendo aqui? Ou melhor...”
O agente Choi sorriu amplo.
“Quem te contou sobre este lugar?”