
Capítulo 304
Fui parar dentro de uma história de fantasma... e ainda tenho que trabalhar
aviso de conteúdo: tentativa de suicídio
Pisquei os olhos, um choque frio e apagado percorreu meu cérebro exausto…
"J-Já era para a gente?"
"……"
"N-Não… não pode ser, não pode…"
"Calma. Ainda temos outras opções…"
Virei a cabeça.
O garoto do ensino médio estava mexendo em algo.
Um recibo. Ou melhor, o folheto disfarçado do Escritório de Gestão de Desastres Sobrenaturais. Provavelmente o mesmo papel que ele achou quando pediu ajuda.
'Por que ele…?'
Estaria procurando algum conselho?
Mas, em vez de ler, ele estava arrancando algo do papel e tentou colocar na boca…
"…!!"
Eu dei um tapa na mão dele.
"Ah!"
Abri os dedos dele e peguei o objeto. Ele se debateu, mas ignorei.
"Não—!"
…Uma pílula branca em forma de cápsula.
'Eu conheço isso…'
O Escritório já incluíra essas pílulas junto com os guias para histórias de fantasmas de alto nível…
Pílulas de eutanásia.
Se a dor ficar insuportável, tome a cápsula que acompanha o folheto.
Garantimos um fim tranquilo.
Meu pior medo se confirmou.
'Droga, droga, droga!'
Era isso que estava no folheto que ele encontrou.
"D-Desculpa."
Ele chorava enquanto falava.
"Eu… Eu não aguento mais. Não quero passar por esse liquidificador. Tô com tanto medo, tonto, não dou conta… prefiro morrer num jeito tranquilo…"
Eu mal conseguia respirar.
"Me desculpa. Tô sendo egoísta por querer paz só pra mim? Se… se meia pílula matar alguém, a gente pode dividir—?"
"Não."
Rangendo os dentes diante do desespero dele, forcei um sorriso para tranquilizá-lo e toquei seu braço.
"Vai ficar tudo bem. Ainda tem outra saída."
"C-Como assim?! Já faz três dias que não conseguimos dormir, comer, nada…"
"A gente consegue."
Segurei ele firme.
"Até agora, a gente acreditava que a loja ia reabrir logo, então tentamos ficar o mais seguro possível. Se não vai abrir tão cedo, existem outros meios."
"S-Sério?"
"Sim."
Era verdade.
…Desde que eu tomasse uma decisão.
—Abandonar o Agente Bronze.
Excluir toda preocupação dele não escapar porque procura a gente, toda pressão de confirmar que estamos vivos, toda esperança de que ele possa nos ajudar.
Esquecer tudo.
De qualquer forma, o registro mostrava que o Agente Bronze conseguiu escapar sozinho.
…Só que ele falharia em resgatar os civis.
'A ideia de que ele conseguiria salvar o civil que estava com ele é… ilusão.'
Hora de ser realista.
Decidi fazer tudo que estivesse ao meu alcance.
'Se os dois tivermos que esperar a loja reabrir…'
Minha prioridade mudou rápido. Depois de três dias remoendo, eu já tinha o próximo plano pronto.
"Vamos subir."
"Hã…?"
"Não tome essa pílula. Coloque isso na boca, tá? Só deixe ela lá dentro."
Entreguei para o garoto do ensino médio um Doce da Nostalgia.
Um item estranho que te devolve à sua melhor condição física.
"Uau…!"
Assim que ele colocou na boca, a expressão dele mudou.
"M-Meu pé— melhorou!"
"Pense que ela vai derretendo aos poucos. Só funciona enquanto estiver na boca."
"Entendi…!"
Ele levantou, com o rosto iluminado de empolgação. Até o estado mental dele parecia ter voltado ao normal.
Quase esperava ele perguntar por que não dei isso antes, mas parece que ele estava tão feliz com a recuperação milagrosa que nem pensou nisso.
"Então, o terceiro andar é o último, certo? Tem alguma saída lá em cima? Se a gente chegar lá, dá pra sair? Vamos fugir agora?"
"Vamos subir para preparar a fuga."
E também—
"O terceiro andar não é o último andar."
"…O quê?"
"Às vezes você encontra uma porta que leva acima do terceiro andar."
Mas—
"O— O folheto disse para não subir lá…"
Isso era verdade.
Esse supermercado tem três andares térreos e um subsolo.
Para reafirmar: não confie em nenhuma saída de emergência que leve ao ‘quarto andar’. O quarto andar não faz parte deste supermercado.
Looky Mart e seu quarto andar.
Um truque que virou praticamente uma piada entre os <Registros de Exploração Sombria>.
'É uma palavra-chave que grita ‘desaparecido’.'
Quando alguém sobe para o quarto andar.
A frase simplesmente para ali, e todos desaparecem.
Não importa o quão intensa ou emocionante tenha sido a exploração até ali, não tem importância. É como se eles ficassem hipnotizados e puff! Sumissem sem explicação.
Mais assustador ainda porque ninguém nunca escreveu por que eles sumiram, ou o que realmente existe naquele andar.
É um tabu — mesmo no caso que mais detalhou um desaparecimento, aquela parte sempre faltava.
Lembrei de um registro em especial.
O agente que percebeu que os civis para resgatar já estavam mortos e decidiu desafiar essa regra.
/ Início da gravação
Agente Choi : Então, estou no terceiro andar e acabei de achar uma porta que leva para o quarto andar.
Agente Choi : Vou abrir só um pouco. Não estou louco, tá? Mas não podemos deixar aquele lugar assim, né? Já não tem registro de quase cem pessoas desaparecidas depois de subir?
(O agente fala várias desculpas pessoais e últimas palavras que parecem um testamento.)
Agente Choi : Certo, vou abrir a porta do quarto andar agora. E… abriu. Ta-da!
(Som da porta abrindo, passos entrando, porta fechando num instante.)
Agente Choi : Parece normal, só uma porta velha de emergência… Tem uma escada… Nada fora do comum… A porta de saída ainda tá lá.
(Ele observa mais alguns minutos — sem anormalidades.)
Agente Choi : Beleza. Vou subir agora.
(Passos ecoando. Provavelmente o som de alguém subindo a escada.)
Agente Choi : Vamos ver… A saída ainda está… Oh. …Sumiu. Então não tenho escolha a não ser continuar. Vou nessa!
(Passos continuam por 30 segundos.)
Agente Choi : Ufa… Cheguei. Porta do quarto andar.
Agente Choi : Do lado de fora parece qualquer porta metálica comum.
Agente Choi : …Certo, vou abrir.
(Som da porta metálica abrindo. Ao mesmo tempo, começa a tocar o jingle do Looky Mart.)
Agente Choi : Hã?
(O jingle fica mais alto e muda de tom.)
Agente Choi : E-Espere.
(Uma cacofonia indescritível. Rugidos ensurdecedores, uivos bizarros, ruídos de vento em vazio, chuva, balões se esfregando, estouros, 12 sons não identificados e ■■■ ■■.)
Agente Choi : (silêncio)
Agente Choi : Bem-vindo ao Looky Mart!
Sem notícias nas 24 horas seguintes. Quando a bateria acabou, a gravação parou.
O gravador do agente foi encontrado depois na seção de eletrônicos do terceiro andar do Looky Mart.
"……"
É o tipo de registro que faz você jurar nunca abrir aquela porta de emergência para o quarto andar.
Mas.
"Não se preocupe. Quando encontrarmos a porta, eu vou te mostrar o que fazer."
Esse é o nosso destino.
"……Tá."
Quer fosse pela confiança construída durante três dias ou por ter visto o poder misterioso do Doce da Nostalgia, o garoto assentiu obediente.
"Vamos andar devagar."