
Capítulo 865
Advento das Três Calamidades
"Haa... Haa..."
Leon respirou fundo várias vezes, recuperando lentamente o fôlego enquanto encarava o corpo caído à sua frente.
'Eu consegui.'
Seu punho se fechou silenciosamente enquanto ele continuava a fitar o corpo. Uma pequena parte dele estava empolgada, mas, ao mesmo tempo, havia outra parte que sentia o completo oposto.
'Eu venci, mas a luta foi muito mais difícil do que deveria ter sido. Teria sido fácil se eu estivesse com minha espada e tivesse ido com tudo. Não, não é bem assim...'
Em certo momento, Leon percebeu que estava começando a dar desculpas.
Seu oponente era mais fraco que ele, e ainda assim conseguiu forçar Leon a uma luta amarga. Era justamente esse pensamento que deixava seu peito pesado. Ele também entendia claramente o motivo pelo qual seu oponente foi capaz de pressioná-lo tanto.
Ele simplesmente queria vencer mais.
'Não, eu também quero.'
Respirando fundo, Leon voltou sua atenção para o supervisor, que caminhou até o corpo caído e pisou com força na cabeça dele.
BANG!
"———!"
Observando a cabeça do homem explodir diante de seus próprios olhos, Leon arregalou os olhos em choque. Ele encarou o supervisor, que já havia voltado sua atenção para ele. Sem dizer uma palavra, o homem apontou para a porta principal da sala, que começou a se abrir lentamente.
Um som de fricção baixa ecoou das enormes portas de pedra enquanto elas se abriam. Várias silhuetas apareceram atrás delas, e no momento em que Leon as viu, todo o seu corpo congelou.
"Abba!" [1]
"....A-bba!"
Duas crianças pequenas.
Um parecia ser um menino de não mais que cinco anos, enquanto a menina parecia apenas um ano mais velha. Ambos vestiam roupas esfarrapadas, seus corpos finos, frágeis e abatidos. No momento em que viram a figura no chão, correram na direção dela, cercaram o corpo e começaram a chorar.
"Abba! Abba!"
Leon não conhecia o idioma deles, mas conseguia entender.
Ele entendeu tudo enquanto seu mundo começava a girar, seu estômago embrulhava e sua expressão empalidecia.
"Saran tual!"
Foi a voz alta do supervisor que finalmente o tirou daquele estado, instigando-o a deixar a sala.
Os lábios de Leon se abriram, seu lábio inferior tremendo enquanto ele encarava as crianças.
No entanto, vendo que o supervisor ainda o encarava, Leon não disse mais nada e saiu lentamente da sala. Os gritos lamentosos das crianças ecoavam atrás dele enquanto caminhava, cada som fazendo seus lábios tremerem levemente.
Seu olhar finalmente se ergueu e recaiu sobre a figura que o esperava no final do corredor.
"Todos que lutam aqui o fazem para sobreviver. Aqueles que participam das Batalhas de Ranking não fazem isso por honra. Eles fazem por desespero. Eles lutam porque precisam sustentar seus filhos."
Leon sentiu algo pesado pressionar seu peito. O peso disso tornava difícil falar. No entanto, enquanto os gritos abafados das crianças continuavam a ecoar atrás dele, ele se viu fazendo uma pergunta simples.
"A-as crianças. O... o que...?"
"Elas serão expulsas da cidade. Muito provavelmente, morrerão em poucas horas."
Anne respondeu friamente, e o peso no peito de Leon aumentou.
"Tudo isso aconteceu porque você derrotou o pai delas, o único provedor. E não será a última vez que algo assim acontecerá. A maioria das pessoas que você enfrentará nos próximos dias provavelmente estará na mesma situação. Elas não estão aqui pelo mesmo motivo que você. Não estão aqui para provar seu valor. Estão aqui para lutar por suas famílias. Por suas vidas. Isso não é um jogo simples. Esta é a realidade da Dimensão Espelhada."
As palavras de Anne atingiram a mente de Leon como um trovão. Elas ecoaram em seus pensamentos repetidas vezes, reverberando como o rufar de tambores distantes.
Antes mesmo que percebesse o que estava acontecendo, a pressão pesada em seu peito subiu repentinamente. Sua respiração ficou irregular enquanto ele cambaleava em direção à parede, estendendo a mão para se apoiar na pedra fria.
Curvando-se, ele engasgou e vomitou.
"Urkhh—!"
O vômito se espalhou pelo chão enquanto Anne o observava em silêncio. O rosto de Leon ficou ainda mais pálido, seu corpo tremendo levemente enquanto mais bile saía de seus lábios.
As palavras dela foram duras, sim.
Mas essa era a realidade da Dimensão Espelhada.
Ela precisava dizer tudo isso para que ele entendesse. Não havia misericórdia naquele lugar. Aquele não era um mundo onde alguém de bom coração como ele pudesse sobreviver.
Ela precisava mostrar a ele a realidade das coisas para que ele pudesse enfrentá-la.
'Dito isso, embora eu esteja acostumada com este lugar, não gosto da situação aqui. Mesmo no Remanescente Sul, as coisas não eram tão ruins assim.'
Anne já tinha organizado algumas coisas com An'as para cuidar das crianças, mas ela não tinha certeza se queria contar a Leon sobre isso. De certa forma, ele precisava disso. Para forçar a si mesmo a confrontar a realidade deste lugar e mudar sua mentalidade.
Isso não era um jogo. Isso era a realidade.
Esta era a Dimensão Espelhada.
Ninguém podia vir aqui esperando algo diferente disso.
"Uekrhg!"
Enquanto Leon continuava a vomitar, Anne olhou de volta para a sala de onde ele tinha acabado de sair. As portas já estavam fechadas. Voltando sua atenção para ele, ela murmurou: "Limpe isso quando terminar. Sua próxima luta será em poucas horas."
Para se qualificar para as Batalhas de Ranking, era preciso derrotar vinte oponentes de nível semelhante. Cada partida permitia apenas algumas horas de descanso antes da próxima. Isso testava não apenas a resistência, mas também a pura força de vontade de cada competidor.
Se Leon realmente quisesse seguir em frente, ele teria que se levar ao limite absoluto.
"Ainda há tempo para você parar. As lutas são até a morte. Quanto mais fundo você vai, mais difícil se torna sair. Você derramará muito mais sangue, e mais crianças ficarão órfãs, o que não é diferente de condená-las à morte. Sugiro que pense bem antes de voltar lá dentro."
Anne não disse muito mais.
Ela entendeu que não havia necessidade de dizer mais nada. Leon parecia entender suas palavras enquanto permanecia curvado contra a parede. Anne deu-lhe uma última olhada antes de se virar e sair.
'Espero que isso abra mais os olhos dele.'
*
"Ukh!"
Sentindo a textura fria e áspera da parede sob sua mão, Leon permaneceu curvado, apoiando-se pesadamente nela. O vômito finalmente havia parado, mas sua respiração ainda estava irregular.
Sua visão permanecia turva, o corredor ao seu redor oscilando levemente enquanto sua cabeça parecia leve e vazia. O gosto amargo persistia em sua boca, e os ecos dos gritos das crianças ainda soavam fracamente em seus ouvidos.
'O-o que eu... estou fazendo?'
Pensando em tudo o que acabara de acontecer, Leon percebeu que Anne estava certa. Quanto mais ele continuasse nesse caminho, mais situações como essa se desenrolariam diante dele.
Se ele já estava reduzido a vomitar após a primeira luta... o que aconteceria depois da próxima? Ou da seguinte?
Essa não seria a primeira vez que uma situação assim ocorreria.
Ele seria ingênuo se pensasse o contrário.
Ele sabia que todos os que participavam estavam em uma situação semelhante. Mas e ele?
Ele não estava tão desesperado quanto eles. Ele não precisava disso tanto quanto eles.
Se ele simplesmente desistisse... então talvez outra pessoa pudesse sobreviver.
Talvez...
"....Droga."
Cobrindo os lábios, Leon olhou em volta antes de se afastar da parede. Seu corpo parecia pesado, e cada passo parecia mais difícil que o anterior enquanto ele começava a caminhar sem qualquer direção real.
Ele não sabia para onde estava indo.
Ainda assim, enquanto vagava pela cidade, seu olhar começou a percorrer lentamente os arredores. Ele olhou para as pessoas que passavam e para as casas desgastadas que margeavam as ruas. Ele encarou as pessoas exaustas, os corpos deitados imóveis no chão e a pobreza que parecia transpirar de cada canto daquele lugar.
Ele sabia que nem tudo era assim. Ele entendia que os níveis superiores da cidade eram bem melhores. Mas quanto mais olhava em volta, mais sufocante a situação começava a parecer, o desespero daquele lugar instalando-se profundamente em seu peito.
'Como... alguém pode sobreviver assim?'
Ele observava enquanto as pessoas vasculhavam corpos e pilhas de lixo. Ele as via lutando apenas para encontrar água. Estavam maltrapilhas e abatidas, seus corpos cobertos por incontáveis cicatrizes. Muitas das figuras pareciam crianças pequenas, seus corpos finos mal conseguindo ficar de pé.
Quanto mais ele olhava, mais seu estômago embrulhava.
Este lugar...
Realmente parecia um inferno na Terra.
THUMP! THUMP! THUMP! THUMP! THUMP!
De repente, a cabeça de Leon se ergueu enquanto um som de tambores ecoava pelo ar. A batida profunda e rítmica rolou pela cidade como um trovão distante.
Imediatamente, cada cidadão parou o que estava fazendo. As cabeças se ergueram em uníssono, seus olhos voltando-se para a mesma direção.
THUMP! THUMP! THUMP!
A cada batida pesada, o próprio chão parecia tremer, o lugar inteiro balançando levemente enquanto o som continuava a reverberar pelas ruas.
Já familiarizado com o processo, o olhar de Leon se voltou para as projeções que começavam a aparecer por toda a área. Momentos depois, duas figuras se materializaram nelas. Num instante, o lugar estremeceu.
"Tarim! Tarim!"
"Ishma! Ishma! Ishma!"
Ouvindo os cantos e gritos aumentando ao seu redor, o olhar de Leon parou nas crianças desnutridas e nas pessoas que pareciam mortas-vivas momentos antes.
Ele as observou levantarem lentamente suas mãos fracas, suas vozes roucas enquanto se juntavam ao canto, seus olhos vazios fixos nos hologramas flutuando no ar. Elas pareciam desconsiderar completamente suas próprias condições; suas mentes focadas apenas na luta que se desenrolava diante delas.
Quase como se suas vidas não significassem nada diante da luta.
'Ah, entendo.'
Leon observou tudo em silêncio, seus lábios se pressionando enquanto ele percebia algo.
Esta cidade...
Não eram apenas as pedras e as ruas que estavam quebradas—
As pessoas também estavam quebradas.
Em um lugar onde a sobrevivência estava acima de tudo, a pena era um luxo que os fracos não podiam se dar ao luxo de ter.
Apenas através da força alguém poderia ser reverenciado.
Apenas através da força algo poderia esperar mudar.
Quanto mais Leon observava, mais ele percebia onde estava.
Este era Karah Togh,
A cidade solitária situada na Terra do Fogo—
[1] - *Abba* (em algumas línguas semíticas e contextos culturais locais): significa "Pai".