
Capítulo 860
Advento das Três Calamidades
"O que é..."
Passando pelos portões imensos, eu não esperava nada particularmente impressionante, talvez apenas uma cidade protegida por muralhas imponentes, com pessoas vivendo em condições razoavelmente normais, como as outras cidades que eu tinha visitado.
Não, talvez isso fosse um pouco demais.
Eu entendia desde o início que a vida na Dimensão Espelho não era fácil. Sabia que as pessoas estavam sofrendo e estava preparado para ver parte desse sofrimento.
Mas o que encontrei foi algo que eu nunca teria esperado nem em um milhão de anos.
"O que é este lugar?"
"...Estamos realmente no lugar certo?"
Estava escuro.
As ruas eram amplas e sombrias, mas lixo espalhava-se pelos arredores em pilhas irregulares. Cadáveres jaziam à beira da estrada, seus corpos se decompondo lentamente sob o calor implacável, um leve cheiro fétido pairando no ar enquanto o calor batia nas ruas silenciosas.
"Ukh—!"
O cheiro era forte. O suficiente para fazer qualquer um de nós querer vomitar.
Eu mal me segurei enquanto olhava para cima.
Não havia um pingo de luz solar.
Não...
"Eu consigo ver algo. Um pequeno buraco mais à frente onde dá para ver alguma luz, mas é muito pequeno daqui onde estou."
Parecia quase que eu estava no fundo de um poço.
Sim, assim eu descreveria.
"Eu já esperava isso, mas a situação é muito pior do que eu tinha imaginado."
Anne cuspiu enquanto olhava ao redor, fazendo o possível para manter sua expressão controlada. Todos nós nos viramos na direção dela, perguntando-se o que ela estava dizendo.
Anne apenas continuou.
"Eu achei que vocês já teriam entendido no momento em que eu disse que só temos um dia para ficar aqui, mas nem qualquer pessoa pode ficar nesta cidade. A Terra do Fogo é particularmente escassa de recursos e comida. É por isso que não pode abrigar muitas pessoas, e só existe uma cidade."
Seguindo adiante enquanto cobria ainda mais o rosto com o manto que tinha, eu a segui por trás, usando [Lamento das Mentiras] em nós por precaução.
O ar estava seco, e o calor parecia intenso.
"Esta é uma cidade que valoriza as pessoas com base no seu valor. Não importa de onde você vem, quem é o seu pai, ou qual é a sua linhagem. O que importa é que você seja forte e possa sustentar a cidade. Quanto mais forte você for, mais privilégios você tem. Tipo..."
Parando por um momento, Anne olhou para cima.
Em direção ao pequeno buraco no céu.
"Você mora nos andares superiores."
Andares superiores?
Anne apontou para a distância, onde um pilar escuro e enorme se erguia à vista. Ele ficava bem no centro da cidade, elevando-se acima das estruturas ao redor, esticando-se até o topo, sua forma massiva visível de praticamente todas as direções.
Conectados a ele havia várias grandes plataformas que se estendiam em direção às bordas das muralhas, formando o que parecia ser os próximos andares. Ainda havia espaços entre os níveis, e de tempos em tempos, eu notava coisas caindo de cima, presumivelmente lixo dos andares superiores.
"Você só pode subir pelo pilar. No entanto, apenas aqueles que têm status têm acesso aos andares superiores."
Tirando sua balança, ela olhou de volta para nós.
"Só nos deram acesso ao nível mais baixo, e quando nosso tempo acabar, seremos forçados a sair." Anne voltou sua atenção para mim. "Como você planeja proceder?"
"....."
Permanei em silêncio, sem saber como responder.
Meu objetivo era simples.
Encontrar qualquer informação sobre Noel e onde ele estava preso. Na verdade, até aquele momento, eu nem tinha certeza se a informação estava correta. Eu estava seguindo às cegas as palavras de Panthea, mas não havia nenhuma garantia de que aquela louca tinha me dito a verdade.
Isso muito bem poderia ser uma armadilha.
Mas, ainda assim, era a única pista que eu tinha.
"Haa."
Respirando fundo, massageiei meu rosto. Olhei para o nosso grupo antes de decidir me acalmar. Todos pareciam exaustos. Em especial Leon, cujo rosto ainda estava pálido, estava se recuperando de seus ferimentos.
"Vou pensar em algo depois que descansarmos."
"...Certo."
Anne assentiu com a cabeça, concordando, enquanto começava a perguntar por direções.
Nesse meio tempo, aproveitei um momento para observar cuidadosamente os arredores. A arquitetura era estranha, as casas construídas de arenito frágil que paregiam desgastadas, muitas delas quebradas em certas áreas. Algumas barracas ficavam ao longo das ruas, mas tinham pouco em seus expositores vazios, dando ao lugar uma aparência sombria e abandonada.
Pequenos degraus levavam a diferentes áreas, as passagens estreitas e caminhos irregulares fazendo tudo parecer incrivelmente apertado.
Uma coisa que notei particularmente, além do estado do lugar, foram as pessoas. Embora muitas estivessem desnutridas, algumas até com correntes nos braços e pernas, todas eram bastante fortes.
"Não são muito mais fracos que An'as."
Subconscientemente, minha cabeça se virou na direção dele.
"...Eu sei o que você está pensando."
Desviei o olhar.
"Ok, encontrei um lugar onde podemos ficar."
Anne voltou alguns momentos depois.
"Não fica longe daqui, e devemos conseguir ficar à noite. Mas..."
Ah, lá vem o "mas"...
"Eles não aceitam comida como pagamento."
Anne explicou rapidamente a situação para nós. Não era complicado. Em resumo, a única forma de pagar era com a moeda da cidade, que era o 'Khan'.
"Felizmente, consegui trocar com alguém e pegar alguns."
Anne mostrou um pequeno saco.
"No entanto, não é suficiente para outras coisas. O máximo que posso fazer é conseguir alguns quartos."
"Isso é mais do que suficiente."
Respondi enquanto olhava para os outros. Eles estavam estranhamente silenciosos desde o momento em que entraram na cidade, suas expressões rígidas enquanto absorviam as cenas ao redor. A realidade da Dimensão Espelho provavelmente tinha finalmente afundado em suas mentes desde que chegaram aqui.
"É, este lugar não é nada bonito de se ver."
Havia muitos cadáveres e pessoas que pareciam estar lutando para andar direito. Mas se havia uma coisa mais notável, era a ausência de crianças e idosos.
"Provavelmente, eles foram expulsos da cidade."
Anne já tinha nos explicado, mas os fracos não tinham permissão para ficar neste lugar. Isso incluía crianças e idosos. Havia um limite para o número de pessoas que podiam ficar, e cada vaga era disputada desesperadamente.
"...Mas, claro, se os pais conseguirem de alguma forma garantir um emprego ou obter um posto, eles poderão ficar."
Olhando ao meu redor, respirei fundo, fazendo o meu melhor para não pensar nisso.
Este lugar era verdumente revoltante.
Era—
TUM! TUM! TUM! TUM! TUM!
Meus pensamentos foram abruptamente interrompidos quando um som de tambor forte ecoou por toda a cidade.
TUM! TUM!
O tambor era alto.
Alto o suficiente para fazer o chão tremer enquanto as pessoas ao nosso redor ganhavam vida.
"O que está acontecendo?"
"O que está acontecendo...? A cidade está sendo atacada?"
"Não."
Os olhos de Anne se estreitaram enquanto ela olhava para cima.
Ela não era a única. Todos os cidadãos olharam para cima ao mesmo tempo. Em direção ao espaço vazio no ar, e logo que fiquei confuso, vários grandes hologramas se manifestaram ao redor da cidade enquanto meus olhos se arregalavam levemente.
"Que diabo é aquilo?"
"Batalha de ranking."
Anne anunciou, respirando fundo enquanto olhava para cima.
Ao mesmo tempo, os hologramas se deslocaram e duas figuras apareceram dentro de uma grande arena. As paredes estavam repletas de cicatrizes profundas, enquanto o chão era cercado por arquibancadas imponentes. Espectadores preenchiam todos os lados, seus gritos silenciosos, mas de alguma forma ainda sentidos, enquanto as pessoas ao nosso redor explodiam em emoção, suas expressões beirando o fanatismo.
"Sem Gorian! Gorian sem ishma!"
"Gorian! Gorian! Gorian!"
"Ishma! Ishma! Ishma!"
"Asima!!"
Eu olhei para o holograma em silêncio enquanto a luta começava, as duas figuras no holograma se lançando uma contra a outra.
A luta era intensa.
Ambos os lados se atacavam implacavelmente, empregando todo tipo de truques e táticas em suas tentativas de matar um ao outro. Seus movimentos eram rápidos e precisos, cada golpe carregando uma intenção clara. Embora eu não pudesse avaliar com precisão a força deles de onde estava, era óbvio que eles estavam longe de ser lutadores comuns.
A brutalidade pura da luta me fez estremecer enquanto sangue se espalhava pela areia. Rostos eram esmagados por golpes devastadores, enquanto pedaços de carne se rasgavam e caíam no chão, expondo os ossos por baixo.
Mas acima de tudo—
"Hahahahaha!!"
"Ishma! Saliem keh isham!"
"Rum! Rum...!"
O fanatismo absoluto das pessoas ao meu redor me desconcertou completamente. Olhando ao redor, parecia quase que eu não estava olhando para humanos, mas para um bando de hienas sedentas de sangue cercando presas feridas.
"Acabou."
A luta não durou muito tempo.
Ambos os lados estavam bastante equilibrados, mas o equilíbrio quebrou quando um dos lutadores de repente mordeu o rosto do oponente, arrancando um pedaço de carne. Aproveitando a abertura, enfiou os polegares nos olhos do oponente, cegando-o completamente.
O resto foi um banho de sangue, já que o guerreiro chamado Gorian não parou, atacando repetidamente, transformando seu oponente em uma polpa.
"Hueeeee!"
"Gorian! Gorian! Gorian!"
"Gorian—!"
Gritos de alegria explodiram por toda parte enquanto as pessoas celebravam fanaticamente, e Gorian ficou de pé sobre os restos do outro guerreiro, erguendo suas grandes mãos para cima enquanto as pessoas nas arquibancadas torciam assim como a multidão abaixo.
Absorvi a cena ao meu redor e pressionei os lábios.
"Não há mais nada para ver."
Eu já sabia que este lugar era brutal, mas foi além das minhas expectativas. Ainda assim, eu não estava aqui para testemunhar as lutas.
Eu estava aqui para descobrir a localização de Noel.
Não havia necessidade de ficar mais tempo.
"Vamos. Não há mais nada para v—"
Minhas palavras foram abruptamente interrompidas momentos depois quando algo caiu na direção de Gorian.
Pegando o item, Gorian o ergueu no ar enquanto a multidão torcia junto com ele. Olhei para o objeto em sua mão. Parecia um pequeno frasco cheio de um líquido vermelho. Meu coração deu um pulo quando Gorian levou o frasco à boca.
Então...
Sob os aplausos de todos presentes, seu corpo começou a se curar rapidamente.
Desde os ferimentos profundos até os que pareciam impossíveis de curar, cada um de seus ferimentos se curou enquanto ele jogava o frasco de vidro no chão antes de rugir.
"Waaaaaah!"
"Gorian! Gorian! Gorian! Gorian!"
"..."
Todo o barulho ao meu redor pareceu desaparecer, substituído por um zumbido constante nos meus ouvidos. Quando virei a cabeça, o olhar de Leon encontrou o meu.
"Julien, isso é..."
"Eu sei."
Respondi, as palavras saindo terrivelmente calmas.
"...Eu sei."