
Capítulo 861
Advento das Três Calamidades
"Isso pode não ser muita coisa, mas servirá por enquanto. Usei tudo o que conseguimos trocar."
Anne falou enquanto entregava uma chave para cada um de nós.
Não, para ser mais preciso, ela entregou uma chave para mim, para Evelyn e para ela mesma.
"Você e Leon dormirão juntos."
Anne se virou para olhar para Evelyn, Kiera e Aoife.
"Vocês três durmam juntas. E..."
Ela voltou sua atenção para An'as.
"Você dorme comigo."
"Hã...?"
An'as piscou algumas vezes. Então, olhando para mim, ele coçou o lado do queixo.
"É apropriado? Digo, eu posso—"
"Vai se ferrar."
Segurando-o pela gola, ela o arrastou para longe.
Os outros e eu só pudemos observar os dois com expressões estupefatas enquanto nos entreolhávamos. No fim, Kiera quebrou o silêncio.
"Quem vocês acham que é o ativo?"
"...."
"Não, sério. É uma pergunta genuína."
"..."
"Ah, dane-se. Esquece. Vocês todos são deprimentes demais para se conviver."
Estalando a língua, ela arrancou as chaves das mãos de Evelyn enquanto seguia em direção ao seu quarto. Aoife e Evelyn a seguiram logo atrás. Olhei para as três antes de fixar meu olhar na direção de Leon.
"Devemos ir?"
Ele ainda parecia um lixo.
Seu rosto estava pálido e ele parecia precisar de um descanso. Jogando as chaves na minha mão, procurei pelo nosso quarto.
Para ser sincero, este lugar era horrível.
O piso de madeira velha rangia a cada passo. Enquanto eu lançava olhares para as portas ao longo do corredor, notei várias rachaduras atravessando-as. Se alguém quisesse, poderia facilmente espiar o interior dos quartos sem muita dificuldade.
Mas isso não era o mais problemático.
'O cheiro.'
Era o cheiro deste lugar.
Era isso que tornava o local extremamente ruim. Uma mistura de podridão e mofo.
Não a ponto de me fazer querer vomitar, mas o suficiente para me causar repulsa.
"Chegamos."
Parando diante do nosso quarto, empurrei a porta e entrei.
Eu não esperava muito ao entrar, mas... isso seria mentira. Eu tinha algumas expectativas, talvez apenas uma pequena esperança de que o quarto fosse pelo menos habitável. Mas, ao encarar as duas camas sem colchão e os móveis caindo aos pedaços, parecia que dormir do lado de fora, na areia, provavelmente seria uma opção melhor.
"...Isso serve."
Parecia que eu era o único com problemas quanto ao quarto, já que Leon foi até sua cama e se sentou.
Ao mesmo tempo, ele fechou os olhos enquanto circulava a mana dentro de seu corpo.
Muito provavelmente, ele estava tentando se recuperar de seus ferimentos.
Pensei em deixá-lo sozinho, mas, poucos momentos depois, sua voz chegou aos meus ouvidos.
"Aquele era... o sangue de Mortum, não era?"
Meus passos pausaram enquanto olhava para o chão.
Por fim, acenti.
"Sim."
"...Entendo."
Leon acenou silenciosamente.
Ele estava bem ciente da minha situação e, portanto, percebeu o que era o líquido dentro do frasco.
"Se o sangue está aqui, então é provável que ele também esteja, correto?"
"Sim."
Isso confirmava, de certa forma, as palavras de Panthea. Eu tinha minhas dúvidas, mas agora estava mais certo disso.
"Então..."
Leon abriu os olhos, seu olhar direcionado diretamente para mim.
"...Deixe-me participar dos Rankings."
"Não."
A resposta veio imediatamente.
"Mas por quê? Não consegue ver o estado do quarto em que estamos? Se não fizermos algo rapidamente, não seremos capazes de ficar aqui por muito mais tempo. Temos no máximo um dia para ficar aqui, e duvido que seremos capazes de procurar pelo que você quer em apenas um dia."
"Essa não é a questão."
"Então qual é?"
"A questão é que não podemos nos expor."
Leon de repente ficou quieto.
Continuei a explicar: "Não estamos nos Impérios. Estamos na Dimensão Espelho. Este não é um lugar onde podemos simplesmente agir como bem entendemos. Estamos em território inimigo, droga. Se você decidir participar, atrairá todos os olhares para si. Haverá um risco muito grande de você se expor — e a nós também."
Essa era a razão pela qual eu não queria participar, nem queria que os outros participassem.
Dawn tinha olhos e ouvidos em toda parte. Já estávamos andando sobre ovos, e no momento em que um de nós participasse da batalha do ranking, estaríamos servindo a nós mesmos em uma bandeja.
"Mas—"
"Não há mas."
Cortei Leon antes que ele pudesse dizer qualquer coisa.
Encarando-o, pude ver o cenho franzido em seu rosto, junto com sua expressão perturbada. O quê? Ele ainda estava preocupado com o que aconteceu contra aquele Titã de Areia?
'Nem foi culpa dele.'
Ainda assim, não lhe disse isso.
Eu sabia que qualquer coisa que eu dissesse a ele naquele momento em relação ao Titã de Areia cairia em ouvidos surdos.
Em vez disso...
"Você foi ensinado por Noel, certo?"
"Hm?"
Leon levantou a cabeça levemente enquanto eu me aproximava.
Eu me corrigi.
"Mortum. Ele te ensinou, certo?"
"Até... certo ponto."
Mesmo agora, Leon não fazia ideia da verdadeira identidade de Noel como Aldric. Eu ainda não tinha coragem de lhe contar. No entanto, nos anos em que ele esteve na Família Evenus, Noel lhe ensinou algumas coisas. Mesmo através do Cálice.
Nesse caso...
"Embora eu não saiba se você será capaz de sentir, vou te mostrar algo."
Estendendo minha mão, um círculo mágico se formou na palma dela.
"Julien?"
Atônito com minhas ações, Leon olhou para mim.
Apenas apontei para o círculo mágico.
"Observe o Círculo Mágico com atenção. Olhe para o interior dele. Para ser preciso, olhe para as Runas. Veja se consegue notar algo."
"O que você está...?"
Apesar da confusão, Leon seguiu minhas instruções e observou o círculo mágico. A princípio, ele parecia confuso, mas, eventualmente, pareceu ter notado algo estranho. Então eu sorri.
'Como esperado de um aluno exemplar.'
"Eu as chamo de Runas Exteriores."
Expliquei a situação para Leon.
"São Runas que podem mudar completamente as propriedades dos feitiços e do corpo humano. Acredito que a razão pela qual os 'Deuses' foram capazes de se tornar 'Deuses' foi especificamente por causa de sua habilidade de usar as Runas Exteriores."
Os lábios de Leon se abriram, seus olhos arregalados com a informação repentina lançada sobre ele. Mas, assim que se abriram, seus lábios se fecharam.
Continuei.
"Tendo sido ensinado por Noel, e levando em consideração como você foi capaz de se curar de seus ferimentos tão rápido, há uma boa chance de que algumas dessas runas estejam escondidas dentro do seu sangue."
Isso era apenas um palpite da minha parte.
Eu não tinha certeza, mas tinha a sensação de que estava perto da verdade.
"Noe... quero dizer, Mortum, muito provavelmente passou algo para você. Se você conseguir, de alguma forma, acessar esse poder, poderá crescer exponencialmente. Mas isso depende de você. Honestamente, eu mesmo sou bem novo nisso tudo e não tenho um bom domínio de tudo. Mas sei que você é capaz de sentir a Fonte. Nesse caso, você deveria tentar."
"....."
Leon não me respondeu.
Parecia que ele ainda estava processando minhas palavras.
Mas, eventualmente, ao olhar para mim, ele perguntou: "Se... você está dizendo que acessar essas Runas Exteriores... é o que tornou os Deuses deuses, isso não significa que você, ao acessá-las, já é um deus?"
De repente, minha mente ficou em branco.
Havia muitas coisas que eu pensei que Leon me diria. Desde coisas como "Como posso compreender essa Runa Exterior?", "O que preciso fazer para aprender mais?" e assim por diante... Mas isso?
Essa foi a última pergunta que esperei que ele fizesse, e de repente caí na risada.
"O quê? O que há de tão engraçado?"
"Nada, nada."
Cobri minha boca enquanto olhava para ele.
Eventualmente, dei de ombros.
"Acho que você pode dizer isso."
Ele não estava errado em sua suposição, mas, ao mesmo tempo, eu ainda estava longe de ser forte o suficiente para ser comparado a eles. O entendimento deles sobre as Runas era muito mais profundo que o meu, assim como seu poder.
Dando um tapinha no ombro de Leon, voltei minha atenção para o banheiro.
"...Por enquanto, concentre-se apenas nas coisas que você pode fazer. Tente sentir a Runa dentro do seu corpo, se você a tiver, e tente obter um controle melhor sobre ela. Talvez então você consiga se tornar muito mais forte."
"Mhm."
Leon acenou.
"Eu vou tentar, mas..."
"Mas?"
"Hmm, esquece."
Leon balançou a cabeça, aparentemente mudando de ideia sobre algo. Meus olhos se estreitaram ao olhá-lo, mas decidi deixar passar enquanto ia em direção ao banheiro, dirigindo-me à pia desgastada para lavar as mãos.
Shaaa—!
Enquanto a água corria na pia, comecei a lavar as mãos, a água fria espirrando em meus dedos e escorrendo pelas minhas palmas. O frio persistiu contra minha pele enquanto eu esfregava as mãos sob o fluxo fino.
Senti-me à vontade enquanto lavava as mãos, quase hipnotizado.
"Julien."
Só voltei a mim depois de ouvir a voz de Leon.
"Quanto tempo você vai lavar as mãos? Já faz quase dez minutos."
"Hm?"
Olhei na direção de Leon.
Dez minutos? Do que ele estava falando...
Meus pensamentos pararam abruptamente quando minha cabeça virou na direção do espelho, e meu reflexo me encarou de volta.
Ao captar meu próprio reflexo, minha respiração parou de repente.
Tudo parecia e se movia exatamente como eu.
Mas aqueles olhos...
Eles estavam completamente pretos como azeviche. Enquanto me encaravam, os pelos da minha nuca se arrepiaram instantaneamente.
De repente, o ar pareceu muito mais frio enquanto mantive meus olhos fixos naqueles que me encaravam.
Foi só isso que aconteceu.
Nada mais ocorreu naquele momento, tudo desaparecendo depois que pisquei meus olhos.
Mas isso foi o suficiente.
Isso foi... o suficiente para eu entender.
'Eles' tinham notado minha presença.
"A-ah."
Meu peito tremeu levemente, minha mão pressionou meu peito enquanto eu apagava todas as emoções de dentro de mim.
"...Isso não é nada bom."