Advento das Três Calamidades

Capítulo 842

Advento das Três Calamidades

As vozes dentro da mente de Evelyn ecoavam alto.

Tão alto que ela mal conseguia entender qualquer coisa ao seu redor. Mas, acima de todos os sussurros que arranhavam seus pensamentos, uma voz se destacava. Ela estilhaçava o resto e cortava direto até o núcleo da sua mente.

Livre...?

"Eu vou te libertar, se é isso que você quer. Eu tenho o poder pra fazer isso. Oja quer que seja que esteja te atormentando, eu posso te livrar disso."

Devagar, Evelyn levantou a cabeça.

Seus lábios tremeram.

Faça isso.

Me livre de tudo.

"...Eu posso te libertar, mas você nunca vai ser livre. Você só vai acabar dependendo de mim, como sempre. É isso que você realmente quer?"

Evelyn sentiu algo pesado pressionar o seu peito.

'A gente quer isso...'

'Me livre de toda a dor. De toda essa irritação. Você quer se livrar das vozes, né?'

'Você sempre dependeu dele. Qual vai ser a diferença do passado? Só aceita a oferta dele.'

'É, ele pode ser a causa de tudo, mas—'

"Cale a boca!!!"

O grito de Evelyn estilhaçou todas as vozes na sua mente.

Apertando os dentes, ela se levantou devagar, levando as mãos à cabeça.

"Porra! Porra! Porra! Porra! Porra!!!"

Como se estivesse possuída, ela começou a xingar com toda a força dos seus pulmões.

"Eu odeio isso, porra! Eu odeio essa porra!!!"

Pra quem ela direcionava seus gritos, nem ela sabia. Era pra Julien por ter dito aquelas palavras? Era por ela mesma por querer aceitar aquelas palavras? ...Ou era por tudo que tinha levado a essa situação?

"Porra!!"

Fosse o que fosse, ela só queria xingar.

"Eu odeio essa merda!!"

Seus gritos eram crus, e sua voz foi ficando rouca enquanto gritava. Mas, acima de tudo... esses gritos a ajudaram a liberar uma boa parte da frustração que ela vinha guardando.

"Eu... haa..."

Apertando o peito, Evelyn olhou pra Julien, sua respiração subindo e descendo de forma rápida e irregular. Tinha tantas coisas que ela queria dizer pra ele.

Mas, no momento em que abriu a boca, as únicas palavras que saíram dos seus lábios foram...

"Você é um hipócrita."

O rosto de Evelyn mudou rapidamente no momento em que aquelas palavras saíram da sua boca.

Até ela não entendeu por que tinha dito aquilo de repente, mas logo viu os lábios de Julien se curvarem num sorriso.

"...Você também é."

Os lábios de Evelyn tremeram mais uma vez, seu peito fervendo com o que ela só podia descrever como raiva. Mas antes que ela pudesse gritar, xingar ou sequer dizer qualquer coisa, Julien começou a falar.

"Eu não gosto muito de mim mesmo."

"....."

As palavras de Evelyn pararam abruptamente, seus olhos se abrindo um pouco.

"...Mas eu acabei amando e apreciando a pessoa que eu me tornei."

"Eu..."

"Eu digo que não me importo, mas me importo muito mais do que gostaria de demonstrar."

Julien fechou os olhos e balançou a cabeça.

"Eu gosto de falar bastante, mas nunca falo por mim mesmo."

Ouvindo suas palavras, Evelyn não sabia como reagir. Ela ficou paralisada, tentando entender o que ele estava dizendo.

"Eu sempre tento saber o que se passa no coração dos outros, mas nunca tento saber o que se passa no meu próprio."

E então—

"Você tem razão, eu sou um hipócrita."

Ele abriu os olhos novamente e Evelyn ficou em silêncio.

"Mas você também é."

"Isso não é..."

"Não é?"

Julien inclinou a cabeça.

"Você não é muito diferente de mim nesse sentido. Você diz que quer mudar. Diz que quer ser útil, mas não para de pensar em pedir a minha ajuda."

"Mas isso é—"

"É o quê? Não é a verdade?"

Evelyn abriu a boca.

Ela tentou rebater, mas, no momento em que tentou, percebeu uma coisa.

Nenhuma palavra saiu dos seus lábios.

Como se um nó tivesse se formado no fundo da sua garganta, de repente ficou impossível falar. Sua mente ficou em branco, e as vozes que antes invadiam seus pensamentos pararam por completo.

"Você é uma hipócrita, e eu também. Nós—"

"Poupa-me do sermão."

Apertando os dentes, Evelyn encarou Julien.

"Porra!!"

Os xingamentos voltaram.

Mas dessa vez, sem que ela soubesse, a escuridão que tinha invadido seus olhos já tinha desaparecido.

Agora mesmo, os olhos dela estavam claros.

Mais claros do que jamais estiveram.

"Eu sei que sou uma hipócrita. Você não precisa me falar isso. A razão pela qual eu estava xingando é que eu sei que sou uma maldita hipócrita."

A voz de Evelyn não estava mais rouca.

Sua mente também estava clara.

"...A razão pela qual eu estou xingando é que, por um momento, eu pensei em pedir a sua ajuda."

Abaixando a cabeça um pouco, Evelyn soltou uma risada de escárnio. Não pra Julien, mas pra si mesma.

"É engraçado. Eu sempre digo que quero ser útil. Que quero valer alguma coisa, mas no final, eu só culpo todo mundo menos eu mesma. Mesmo quando você e os outros me salvaram inúmeras vezes. Eu sei disso. Eu sei, porra. E..."

Ambas as mãos de Evelyn cerraram os punhos diante dela, e seu rosto se contorceu.

"...E mesmo sabendo de tudo isso, eu pensei em pedir a sua ajuda. É uma porra deprimente. Especialmente quando a resposta está bem diante dos meus olhos."

Evelyn continuou zombando de si mesma, mas, apesar disso tudo, sua determinação cresceu.

Levantando a cabeça pra encarar Julien novamente, ela respirou fundo.

"Eu não preciso da sua ajuda."

Apontando pra sua própria testa, ela cuspiu as palavras.

"Eu consigo cuidar da minha própria mente fodida sozinha."

"....."

O ambiente ficou silencioso logo depois disso.

Julien ficou encarando Evelyn. Era difícil saber o que ele estava pensando, mas, eventualmente, ele assentiu.

"Tudo bem."

Ele levantou ambas as mãos.

"Eu não vou te ajudar, mas..."

"Mas o quê?"

"Você tá começando a parecer a Kiera com a forma como tá falando."

"...Ah."

Evelyn ficou paralisada. Mas só por um momento, enquanto forçava um sorriso.

"Parece que sim."

Ela então olhou ao redor.

Pra escuridão que cercava os dois.

Elha era densa e parecia completamente estranha pra ela. E, ao mesmo tempo, parecia algo que ela poderia controlar. Quase como se fosse uma extensão do seu corpo. Fechando os olhos, Evelyn começou a controlar a escuridão aos poucos.

Swoooosh—!

Ela não tinha muita certeza se estava fazendo um bom trabalho, mas no momento em que um frio específico percorreu seu corpo, soube que pelo menos tinha feito algo certo.

E quando abriu os olhos, um mundo de gelo recebeu o seu olhar.

Finalmente...

Os dois estavam fora.


'Isso pode ser chamado de progresso, né?'

Observando a escuridão recuar e sentindo o frio voltar, finalmente senti um peso enorme sair do meu peito. Por um momento, achei que tudo tinha acabado.

Achei que finalmente poderia sair daquele maldito lugar.

Mas logo percebi que as coisas ainda não tinham terminado.

Que ainda havia coisas que precisavam ser resolvidas.

"Julien...?"

"Eu sei."

Eu olhei na mesma direção que Evelyn estava olhando.

Pra o corpo estendido no meio do frio.

Meu peito pesou mais uma vez, minha expressão travando ligeiramente enquanto sentia o poder vindo daquele corpo.

p>Felizmente, ele não parecia estar consciente.

No entanto, seu rosto estava de uma palidez mortal, e uma fina camada de gelo tinha começado a se espalhar pelos pés, envolvendo-os lentamente. O gelo estava começando a se espalhar mais rápido, e, se não fizéssemos algo logo, o corpo inteiro dele viraria gelo.

Troquei um olhar tenso com Evelyn.

"...O que você acha que a gente deveria fazer?"

Evelyn perguntou, parecendo preocupada.

Eu olhei de volta pra ela, igualmente perdido. Eu também não sabia. Sabia que não podíamos deixar ele daquele jeito, mas, ao mesmo tempo, pensando em como ele reagiu depois que a verdade sobre Evelyn veio à tona, eu sabia que, se ajudássemos ele, havia uma grande chance de ele atacar Evelyn.

...E eu não tinha certeza se conseguiria detê-lo.

Na verdade, provavelmente não conseguiria. Ele era muito mais forte do que eu.

A única razão pela qual ele estava nesse estado era graças ao poder absurdo que estava adormecido no corpo de Evelyn.

'Não, talvez isso não seja mais bem o caso.'

Levando em conta o estado atual dele, percebi que talvez necessariamente não perdêssemos.

"Por enquanto, é melhor você ajudar ele."

"Mas e se..."

"A gente resolve isso depois. De qualquer forma, mesmo que ele acorde, não vai conseguir fazer nada contra nós dois. Pelo menos não no estado em que ele se encontra. A gente conversa com ele quando ele acordar."

"Tudo bem."

Evelyn respirou fundo, voltando sua atenção pro corpo de Velar.

Relâmpagos começaram a crepitar ao redor do corpo dela enquanto ela se apressava em direção a ele e começava o tratamento.

Cra Crack! Cra Crack!

O gelo se quebrava rapidamente enquanto ela trabalhava, e, observando-a, não pude deixar de notar a clara melhora no controle de mana de Evelyn.

'Ela melhorou bastante depois de sair daquilo.

A velocidade com que o gelo se estilhaçava era muito maior do que antes, e até pude avistar sinais de recuperação vinda do corpo de Velar.

Mas...

'Ainda não é suficiente.'

O controle de Evelyn tinha melhorado, mas ainda estava longe de ser o suficiente para tratar a condição dele. Olhei pra ela e depois desviei o olhar pro nosso entorno, observando a cidade de gelo ao meu redor.

Desde os prédios imponentes esculpidos em cristal congelado até a névoa flutuante que envolvia tudo.

A névoa tinha claramente ficado mais fina após os eventos com Evelyn, mas ainda estava densa. O frio ainda era cortante, sem sinais de cessar.

Olhando ao redor, fiquei preocupado.

'Como é que a gente vai sair dessa situação?'

Eu tinha resolvido um problema, mas o verdadeiro ainda permanecia. Leon e os outros estavam paralisados, suas vidas sendo lentamente drenadas. Não havia muito tempo.

Eu precisava pensar em algo rapidamente.

Caso contrário—

"Julien."

Uma voz suave me tirou dos meus pensamentos.

Virando a cabeça, vi Evelyn afastar as mãos do corpo de Velar enquanto se levantava.

Notando sua expressão séria, olhei na direção de Velar.

Foi também nesse momento que os olhos dele começaram a tremer.

Em breve—

Os olhos dele se abriram de uma vez, e meu corpo inteiro tensionou.

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