Advento das Três Calamidades

Capítulo 843

Advento das Três Calamidades

"Haa..."

Uma névoa fina escapou com minha respiração enquanto um par de olhos se fixou nos meus. Seus cabelos azuis balançavam ao vento, e meu coração se apertou em resposta.

Ele parecia confuso.

Como se não conseguisse se lembrar direito do que havia acontecido.

Mas logo—

"Você..."

Seu olhar mudou. A forma como ele olhava para Evelyn mudou.

Memórias inundaram sua mente, e eu senti o ambiente ao redor ficar ainda mais frio. Tanto que meu corpo inteiro começou a enrijecer. Apesar da mudança, não senti medo. Embora o frio tensionasse meu corpo inteiro, não era suficiente para me ameaçar.

Era óbvio.

'Ele está ferido.'

"Acalme-se."

Primeiro tentei raciocinar com ele.

Mas isso era mais fácil dizer do que fazer.

"Você está com eles!"

Seus gritos preencheram o ambiente ao redor.

"Eu consigo sentir! Você tem a mesma energia daquele monstro! Você está com eles! Você nos enganou! Eu nunca deveria ter confiado em você!!"

Seus olhos pareciam ter perdido toda a razão. Só restava ódio. Mas não era como se eu não entendesse. Este lugar... que um dia fora belo havia mudado. Já não era mais o lugar pacífico que ele conhecera. Onde crianças brincavam e famílias viviam. Apesar da dureza da Dimensão do Espelho, este lugar ainda era um lugar que guardava alguma esperança para aqueles que viviam ali.

...E tudo havia desmoronado com um único incidente.

Um único 'Caçador de Deuses'.

"Você... Você não teve o suficiente, é? Você quer acabar com cada pessoa restante neste lugar, é? Você não fica satisfeito enquanto todos não forem embora, é? Não, não, não..."

O Velar normalmente calmo havia desaparecido.

Em seu lugar estava um Velar cheio de nada além de ódio.

Felizmente, eu existia.

"Acalme-se."

Minha voz saiu mais calma do que eu esperava. Ao me dirigir a Velar, meu foco nunca deixou a enorme esfera vermelha dentro de seu corpo. Ela o envolvia por completo, continuando a inchar a cada momento que passava. Não havia como negar. Seu ódio era profundo.

Mas não era nem de longe tão profundo quanto o ódio que percorria o corpo de Evelyn.

O ódio artificial que residia no fundo dela.

"Você... Você também está com ela, não é? Não tem como não estar. Como você não sente a energia dentro dela? Você sente, não é? Não tem como não sentir!!"

Empurrei minha mão para baixo.

A esfera vermelha começou a se comprimir com minhas ações.

E a voz de Velar foi se suavizando.

"Você sabia desde o início? Vocês dois estão trabalhando juntos desde o início? Qual é a sua relação com o 'Caçador de Deuses'? Vocês são seguidores dele? Seu trabalho é acabar conosco para que não falemos sobre isso? É isso...?"

Juntamente com a suavidade, uma nova esfera apareceu.

Uma de um azul profundo.

E no momento em que apareceu, a voz de Velar começou a falhar.

"Por quê...? Por que vocês... Não podem simplesmente nos deixar em paz? Por que não podem simplesmente nos deixar viver? O que... fizemos de errado? O que nós..."

"Vocês não fizeram nada de errado."

Respondi com calma.

"Ninguém fez nada de errado. Nem nós, nem vocês. Esta não é uma situação que possamos controlar, e posso garantir que não temos nada a ver com o que aconteceu com Eisylra. Caso contrário, se realmente tivéssemos algo a ver com este lugar, não teríamos sido afetados pelo frio como fomos."

Puxei a manga da minha roupa para baixo, revelando os blocos de gelo que haviam se prendido ao meu braço, rastejando pela minha pele. Meu braço inteiro irradiou frio no momento em que o expus, o gelo ficando ainda mais espesso enquanto canalizei minha mana e cobri meu braço mais uma vez.

'...Eu realmente preciso encontrar uma solução para isso em breve. Não sei por quanto tempo vou aguentar.'

Para piorar as coisas, Leon e os outros tinham ainda menos tempo.

Eu precisava fazer Velar confiar em nós novamente.

"Há também a questão dos nossos amigos. Eles se transformaram em gelo, e a razão pela qual estamos aqui é tentar resolver a maldição ao redor deles. Não há outro motivo para termos escolhido ficar aqui."

"Isso tudo pode ser uma desculpa."

"Eu sei."

Não havia como negar isso.

Mas—

"Nós também poderíamos tê-lo matado aqui mesmo, e agora mesmo, e ainda assim, não o fizemos."

Olhei para Velar de forma significativa.

Seus lábios se abriram. Como se tentasse me rebater, mas como se também percebesse a situação, ele parou de falar.

Ele entendeu que eu estava certo.

Se eu realmente quisesse matá-lo, ele já estaria morto agora.

"Não há razão para eu mantê-lo vivo se eu realmente fosse contra você."

Agora que eu havia controlado sua raiva, a irracionalidade que dominava sua mente havia desaparecido. Em seu lugar estava a calma que eu estava acostumado a ver. Mas dentro daquela calma, eu ainda podia ver dúvida.

Especialmente quando ele deu uma olhada em Evelyn.

"Eu..."

"Ela está amaldiçoada."

Falei antes que Evelyn pudesse.

Eu já tinha uma ideia de como convencer Velar.

"Você deve ter visto com seus próprios olhos. Aquela energia estranha que cobre o corpo dela... É uma maldição."

"..."

"É uma maldição semelhante à do 'Caçador de Deuses'. Não posso dizer com certeza se é a mesma, mas tenho certeza de que você pode perceber que não é algo que ela consiga controlar. Na verdade, acredito que o 'Caçador de Deuses' também esteja passando por uma situação semelhante."

Se o 'Caçador de Deuses' era realmente Delilah, então havia uma grande chance de que a escuridão tivesse consumido a maior parte de sua racionalidade. Eu esperava que as coisas não tivessem chegado a esse ponto, mas minhas esperanças eram poucas.

Quanto mais eu pensava nisso, mais meu coração se apertava.

"...Não posso te dizer o que é, já que eu mesmo não sei, mas neste momento, ela é a única capaz de acabar com a maldição."

Olhei na direção de Evelyn.

Se a maldição realmente se originou do 'Caçador de Deuses', então ela era sem dúvida a chave para resolver toda a situação.

Seu controle também havia melhorado significativamente.

Só mais um pouco, e...

"Os outros..."

Como se de repente se lembrasse de algo, o rosto de Velar empalideceu.

Ele se apressou em alcançar a neve abaixo de si, tentando se levantar, mas o esforço por pouco não o fez tropeçar para trás. Felizmente, Evelyn apareceu ao lado dele e o ajudou a se equilibrar, puxando-o para ficar de pé.

"O-obrigado."

Velar olhou para Evelyn, com uma expressão abatida. Parecia haver muitas coisas que ele queria dizer. Havia tanto dúvida quanto relutância. Ele ainda estava claramente desconfiado dela, mas ao mesmo tempo, parecia preocupado.

Extremamente preocupado.

Não com ela, mas com outra coisa.

Observei sua expressão e abri meus lábios.

Mas—

"Temos que nos apressar."

Ele falou antes que eu pudesse.

"...Por causa do que aconteceu, eu perdi o controle. Eu... não consegui manter minha conexão com o refúgio. Os outros... Os outros..."

A compreensão rapidamente me atingiu quando pensei nas crianças no refúgio.

'Ah, merda.'

Olhando para Evelyn, nós dois nos movemos.

"Vamos."


Swoooosh! Swoosh—!

Todos nós havíamos sido enfraquecidos pelo que acontecera não muito tempo atrás. Velar era uma sombra de seu antigo eu, e o mesmo valia para Evelyn. De nós três, ela era de longe a mais esgotada.

Eu não estava em melhor estado.

Eu também havia passado por muita coisa, mas sabia que precisava persistir.

Precisava superar meu cansaço.

Neste momento, eu era o único que poderia nos levar de volta.

Mas as coisas não eram fáceis.

Quando uma silhueta surgiu da névoa branca ao nosso redor, eu parei e me virei, imaginando uma esfera vermelha em minha mente enquanto desferia meu punho para frente com toda a minha força.

BANG!

Meu punho encontrou algo duro, e meu coração estremeceu.

"———!!"

Quando recolhi meu punho, notei toda a geada que o envolvera enquanto a estátua diante de mim se estilhaçava em milhares de pedaços.

"Juli—"

"Continuem andando." Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia. "Não parem."

Meu virei novamente.

Swooosh!

O vento uivava, e a névoa era tão densa que eu mal conseguia ver algo à minha frente. O som de passos ao meu lado era o único ruído que eu conseguia distinguir.

Apenas passos.

Esmagando a neve.

Eram muitos.

Vindo de todas as direções.

Olhei para a neve abaixo.

Bati minha mão contra a neve, fios disparando em todas as direções.

Eles se espalharam cegamente, avidamente.

A velocidade com que minha mana drenava era incrivelmente rápida, mas isso precisava ser feito enquanto eu rapidamente virava a cabeça e estalava meu dedo para cima. Instantaneamente, vários fios subiram e perfuraram o que quer que tivesse pisado neles.

Os fios eram como uma rede de segurança.

Sempre que eu sentia algo pisar neles, eu rapidamente lidava com isso, tornando a jornada muito mais tranquila.

'...Isso está realmente drenando.'

Minha visão turvou por um momento.

Apertei os dentes e virei a cabeça novamente, socando em uma direção específica.

BANG!

Outro punho encontrou o meu.

O impacto enviou uma descarga pelo meu braço, e mais geada se espalhou pela minha pele.

"Kh!!"

A essa altura, meu punho inteiro estava dormente, meus dedos rígidos e sem resposta, a geada ameaçando rastejar ainda mais acima pelo meu braço.

Eu não podia me dar ao luxo de desacelerar.

Felizmente, não precisamos lutar por muito mais tempo. Através da névoa, o contorno do refúgio finalmente surgiu, e os passos de Evelyn e Velar ficaram apressados, irregulares mas desesperados.

"Estamos... quase lá."

Quase.

Essa palavra não me fez sentir melhor.

Acelerando o passo, estalei meu dedo novamente, abrindo um caminho estreito à frente enquanto nós três corríamos em direção ao edifício.

Embora eu não pudesse ver claramente, eu podia sentir.

As incontáveis presenças se aproximando por trás.

A neve estalando mais alto.

Mais rápido.

Mais perto.

'Merda. Merda. Merda.'

Eu estava além do exausto agora. Meus pulmões queimavam a cada respiração, gelo arranhando minha garganta enquanto me forçava para frente. Os passos atrás de nós avançaram, e por um breve e aterrorizante momento, parecia que estavam bem em cima de mim.

Algo frio roçou minhas costas.

Meu coração disparou—

Mas antes que eu pudesse reagir, Evelyn atacou.

Cra—CRACK!

O ambiente piscou em roxo por uma fração de segundo enquanto um estrondo ensurdecedor cortava o ar. Evelyn estendeu a mão de à minha frente, agarrando meu braço e me arrastando para frente com a pouca força que lhe restava.

Nós tropeçamos para dentro.

CLANK!

A porta se fechou com força atrás de nós, cortando as figuras congeladas bem quando elas a alcançaram.

Nenhum de nós parou.

Nenhum de nós sequer olhou para trás.

O corredor familiar nos recebeu, e nós corremos.

Corremos para onde os outros estavam.

"Por favor... Por favor... Por favor..." A voz suave de Velar ecoou pelo corredor, a desesperança nela crua e sem filtros.

E então—

Chegamos.

"A-ah... D-droga."

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