
Capítulo 841
Advento das Três Calamidades
Eu podia ver a escuridão recuando lentamente dos olhos de Evelyn.
A pressão que emanava do seu corpo também começava a diminuir. No seu lugar, eu vi outra coisa. Hesitação.
Ela finalmente estava começando a retomar o controle de si mesma.
Mas ainda precisava de um empurrão.
Um pequeno empurrão.
"Eu sei que você está ciente. Que algo está controlando você. Eu não entendia isso na época, mas agora entendo. Está tentando te sobrecarregar. Tentando se apoderar dos seus medos mais profundos e usá-los para controlar sua mente. Você não pode deixar isso acontecer. Não a menos que queira desistir de si mesma."
A respiração de Evelyn ficou irregular, seus caindo sobre o rosto enquanto ela agarrava sua camisa. Sons estranhos escapavam de sua garganta enquanto ela lutava para suprimir qualquer dor ou voz que tentava forçar caminho até sua mente.
Eu não podia ver seu rosto, mas não precisava ver seu rosto.
A série de orbes flutuando por todo o seu corpo já era suficiente para me dizer o que estava acontecendo.
Vermelho. Roxo. Vermelho. Roxo. Azul.
Suas emoções estavam alternando. Entre o medo e a raiva, havia também tristeza.
Ela estava lutando para se conter.
Neste momento, Evelyn provavelmente estava gritando dentro de sua própria mente.
Então—
"É hora de sair desse transe."
Ergui minha mão e pressionei para baixo.
Naquele instante, todos os orbes pararam de se mover.
Evelyn estremeceu ao mesmo tempo.
'Se você não conseguir sentir nenhuma de suas emoções, provavelmente conseguirá pensar de forma muito mais racional.'
Respirando fundo, eu movi minha mão para cima.
Os orbes dentro do corpo de Evelyn começaram a tremer ainda mais. Senti algo formigar dentro do meu peito ao mesmo tempo, mas ignorei a sensação enquanto os orbes continuavam tremendo. Quase como se estivessem tentando sair do corpo dela.
"V-você..."
Evelyn finalmente ergueu a cabeça, percebendo que eu estava fazendo alguma coisa.
Olhando para baixo, encontrei aqueles olhos roxos dela.
Os olhos dela...
Eram muito mais claros do que antes.
'Está funcionando.'
Mas ainda não tinha acabado.
Movendo meu dedo para cima, os orbes tremeram ainda mais. Após um breve momento, uma linha fina se descolou do topo de um dos orbes, esticando-se pelo ar até se conectar à ponta do meu dedo.
Esse era o limite que minhas habilidades tinham alcançado.
Agora eu podia absorver as emoções de outras pessoas. Embora não de forma limpa, e nem tanto quanto eu gostaria, ainda assim era um progresso.
Em breve, eu chegaria a um ponto em que poderia simplesmente roubar completamente as emoções dos outros.
Esse era provavelmente o caminho que eu precisava seguir para alcançar o Sexto Nível da Magia Emotiva.
"V-você..."
Evelyn não podia ver o que eu estava fazendo, mas provavelmente sentia.
"O... o que... o que você está...?"
"Aliviando um pouco do seu fardo."
A linha finalmente se conectou ao meu dedo, e no instante em que isso aconteceu, meu corpo inteiro foi sacudido por uma onda poderosa de emoções que inundou meu ser.
O suficiente para me pegar de surpresa.
"——!"
Apesar de já estar acostumado a absorver emoções, a intensidade absurda das emoções dela me deixou surpreso. E isso apesar de ter absorvido apenas uma pequena parte.
Mas isso não era tudo.
Não fazia muito tempo que eu me encontrava lutando.
Lutando para pensar e racionalizar adequadamente. Eu estava tão sobrecarregado com tudo que achei que havia ficado insensível às emoções. Mas claramente, esse não era o caso.
'Você é inútil!'
'...Por que você não consegue fazer nada direito?!'
'Pare de hesitar! Você sempre hesita! É por isso que você nunca consegue fazer nada direito! É porque você sempre fica hesitando!'
'Você não passa de um fracasso!'
'Tente ser útil pelo menos uma vez!'
'Não, não...! Eu sou útil! Eu consigo...!! Eu realmente consigo!'
À medida que mais de suas emoções fluíam para dentro de mim, comecei a ouvir uma voz familiar. Era a voz de Evelyn. Eu podia ouvir seus gritos. O ressentimento e todo o ódio que ela havia acumulado ao longo dos anos.
Era intenso.
Extremamente intenso.
Mas...
"..."
Em vez de parar, absorvi ainda mais.
"J-Julien...!"
A voz assustada de Evelyn me alcançou um momento depois, e quando olhei para baixo para ela, apenas balancei a cabeça.
Já estava longe demais.
Emoções eram como uma droga para mim.
Quanto mais as experimentava, mais viciado ficava.
A parte mais difícil é não deixar que elas me consumam. Mas já era tarde demais para mim. Eu já havia sido engolido por completo.
Portanto, eu aguentava.
O mesmo não se podia dizer de Evelyn.
Ela ainda estava sobrecarregada com tudo aquilo, e ao olhar para ela, meu tom se suavizou.
"Você finalmente começou a organizar seus pensamentos?"
"Eu..."
Evelyn mordeu os lábios, seus olhos se curvando para baixo enquanto seu rosto se contorcia levemente. Ela parecia querer dizer tantas coisas, mas lutava para conseguir.
Em seguida, seus ombros tremeram.
Agarrando sua camisa, ela abaixou a cabeça enquanto murmurava.
"Eu... eu não sei."
Sua voz era frágil.
Fraca.
"Eu não sei... o que pensar de toda esta situação. Eu... sei que algo está me controlando. Eu sei. Eu sei. Eu sei."
"É por isso que você precisa sair desse—"
"Mas as vozes estão erradas?"
Eu parei.
Olhando para ela e vendo seus ombros tremerem ainda mais, finalmente percebi.
Pita! Pita!
As lágrimas escorriam por suas bochechas.
"Eu sou inútil."
Ela disse.
"Eu... quase nunca faço nada. Sou um fracasso de todas as formas. Mesmo que eu tente. Mesmo que eu me esforce ao máximo para ajudar, nunca dá certo para mim. Não, será que é realmente esse o caso? Eu... sequer tento? É... esse o problema? Eu tenho medo demais até de tentar?"
A mão que agarrava a camisa se apertou.
O rosto de Evelyn se contraiu.
"Eu não sei. Eu... não sei como posso fazer alguém entender."
Mordendo os lábios até começarem a sangrar, a voz de Evelyn ficou rouca.
"Eu não consigo fazer você entender. Eu... não consigo fazer ninguém me entender. Como seria possível se eu nem consigo explicar para mim mesma?"
Uma mudança começou a ocorrer nos orbes no corpo de Evelyn.
Apesar de já tê-los absorvido, em vez de ficarem mais finos, começaram a ficar maiores.
Meu rosto se enrijeceu ao ver aquilo enquanto as vozes ficavam mais altas dentro da minha mente.
"...Eu consigo sentir que... algumas emoções são grandes demais. Emaranhadas demais para explicar, e no segundo em que tento colocá-las em palavras, elas parecem tão pequenas comparadas ao quão pesadas e sufocantes elas se sentem dentro de mim."
Uma risada amarga escapou dos lábios de Evelyn.
"É estranho... querer que as pessoas te entendam quando você mal consegue se entender. Eu simplesmente me sinto tão entorpecida. Não consigo sentir mais nada. Estou quebrada. É, é isso..."
Sua risada ficou ainda mais amarga.
Ela não continuou com mais nenhuma palavra, mas fiquei feliz que não o fez. Pois eu estava começando a lutar com o influxo repentino de emoções.
'Eu me odeio.'
'Eu... odeio cada parte de mim. Por que eu não posso ser melhor? Eu sou melhor.'
'Eu deveria ter feito desse jeito. Por que eu fiz desse jeito...? É tudo culpa minha.'
Havia muita autocobrança.
Raiva.
Havia tanta raiva.
Não, era melhor descrever como ódio.
Ela estava sobrecarregada.
Confusa.
Até perdida.
Mas—
"Só porque você ainda não consegue se articular não significa que está quebrada. Pelo menos, você está ciente das falhas dentro de si mesma."
As palavras saíram muito mais suaves do que eu esperava.
Apesar de todas as emoções que estava sentindo, eu ainda conseguia falar adequadamente.
"O que você realmente acha que é entorpecimento?"
Não fazia muito tempo que eu me sentia exatamente como ela. Sentia que mal conseguia processar qualquer coisa e simplesmente me desligava. Como se minha própria mente estivesse se desligando.
Mas foi a partir dessa experiência que aprendi algo.
"Entorpecimento não é a ausência de sentimentos. Na verdade, é o oposto. É a sensação de estar sobrecarregado por sentimentos demais."
Olhei para Evelyn.
Para os orbes dela.
"Não é que você não consiga sentir nada, mas sim que está sentindo tanto que seu cérebro não consegue processar tudo."
Eles estavam ainda maiores agora. Tão grandes que até eu estava tendo dificuldade com eles, quanto mais ela. Ela estava sendo sobrecarregada por aquelas emoções.
Então—
"...Você está começando a se desligar."
A mente simplesmente não aguentava tanto.
Simplesmente não aguentava.
A mente dela estava inundada. Sobrecarregada.
Ela estava sentindo demais.
"Você está se desligando por causa de tudo que está sentindo. O que você precisa fazer é identificar o que está sentindo. Enfrentar os sentimentos e, aos poucos, aprender a gerenciar todas as emoções que estão inundando sua mente."
Até eu estava tendo dificuldade em fazer isso.
Emoções não eram simples. Eram complicadas.
Muitos podiam dividi-las em seis categorias principais, mas não era tão fácil assim.
Cada categoria tinha diferentes subconjuntos. Raiva tinha ódio. Ódio tinha ressentimento. Tristeza tinha culpa. E assim por diante...
Eram simplesmente tantas emoções que a mente humana podia interpretar, e até entender uma delas era difícil.
Foi por esse motivo que o caminho Emotivo era difícil.
Que ainda não havia um Deus para ele.
Logo quando você pensava que começava a entender uma certa emoção, percebia que estava apenas no começo.
Eu havia alcançado o Quinto Nível, mas ainda me sentia como se estivesse no início.
Havia tantas novas emoções que eu precisava entender e controlar. O que eu havia alcançado era apenas a ponta do icebergue.
"Eu não posso dizer que entendo completamente o que está acontecendo dentro da sua mente. Se eu quisesse, provavelmente seria capaz de fazer tudo desaparecer de você. Posso tirar todas as emoções que estão sobrecarregando sua mente. Se pedir, eu faço. Mas..."
Parei, meus olhos encontrando os de Evelyn enquanto via a escuridão recuar cada vez mais de seu olhar.
"...Mas você nunca vai crescer com isso. Nunca vai aprender a gerenciar suas emoções."
Ela ficaria presa no mesmo lugar.
"Eu posso te libertar, mas tudo que realmente estaria fazendo é te tirar de uma gaiola menor e te empurrar para uma maior. Vai parecer liberdade, mas na verdade, nada vai mudar. Você ainda estará presa."
Os lábios de Evelyn tremeram.
Seus olhos também.
Ela parecia entender algo.
"A única pessoa que pode realmente te libertar é você mesma. Eu não posso fazer isso por você. Posso facilitar as coisas, até tirar a dor que está sentindo, mas tudo que isso faria seria tornar o ciclo ainda mais vicioso."
Respirei fundo.
"O que você quer que eu faça?"
Você quer entrar em uma gaiola maior...
Ou quer ser livre?
"Eu vou te ajudar independentemente da opção que escolher."