Advento das Três Calamidades

Capítulo 840

Advento das Três Calamidades

"O-o quê?"

Os gemidos de Evelyn cessaram enquanto ela fitava aqueles dois olhos castanhos.

"O que você acabou de dizer...?"

Os olhos dela lampejaram com frieza por um breve instante, mas o olhar não teve efeito algum sobre o par de olhos castanhos que a encaravam calmamente.

"Aquele clérigo que acabou te ajudando... Você o matou no final, não foi?"

"Do que você está falando?"

O tremor já havia desaparecido da voz de Evelyn, substituído por uma certa frieza que combinava com o ambiente. Encarando-a, o par de olhos castanhos recuou um pouco, revelando um sorriso fino.

"...Parece que você ainda não está totalmente livre."

"Do que você está falando?"

"Só quero te perguntar uma coisa. Se foi você quem não matou o Clérigo, então quem foi?"

"Não sei, mas não fui eu. Todos disseram que foi um acidente. Não sei bem. Mas não fui eu."

Fazendo uma pausa, acrescentou:

"Estou te dizendo que não fui eu."

"...E como você tem tanta certeza disso?"

"O quê?"

Eva fervia de raiva, seu rosto se contorcendo de forma ameaçadora, mas antes que pudesse agir, Julien deu um passo à frente e pressionou uma mão sobre a cabeça dela, imobilizando-a no lugar.

"O que você—!!"

"Só não vou fazer nenhuma besteira," respondeu Julien suavemente, sua mão segurando firme contra a cabeça dela. Ela tentou se debater, mas foi em vão. A força de Julien era imensamente superior, e toda a energia dentro do corpo dela havia sido completamente esgotada.

Ela estava à total mercê de Julien.

"Para! Me solta!!"

É claro que só porque não conseguia se soltar pela força não significava que Evelyn ia deixar Julien fazer o que quisesse. Ela continuou se debater, agarrando a mão dele com ambas as delas e cravando as unhas na pele dele.

"Me solta!!"

"Que diabos você está fazendo?! O que há de errado com você!?"

Na fúria dela, nem notou a escuridão que se instalava nos olhos dela. Lentamente, mas com firmeza, a escuridão avançava.

Corrompendo-a.

"......"

Julien observou tudo em silêncio, seu olhar permanecendo lúcido enquanto ignorava os gritos e a agitação de Evelyn.

Evelyn não parou.

Continuou gritando, cada grito mais alto que o anterior.

"Me solta, porra!"

"Vou te matar! Vou te matar, porra!!"

"Por que você não me ouve? Droga! Droga!"

As unhas dela cravavam profundamente na pele dele, arrancando sangue. Mesmo assim, Julien não soltava.

Elaspenas olhava para ela.

"Eu te odeio! Eu te odeio!!! Eu te odeio, porra!"

"Me... solta!!"

Mas logo, até as reclamações começaram a diminuir.

"Eu... pedi pra você... me soltar!"

"Para. Eu disse... para... para."

"...Por quê?"

"Por que... você não para?"

"P-para."

"Por favor."

A voz de Evelyn foi ficando cada vez mais suave até que, talvez exausta ou percebendo que não podia fazer absolutamente nada, ela parou.

Até a escuridão dentro do olhar dela parou momentaneamente.

A mão de Julien se suavizou ao ver aquilo. Mas não sua voz, fria como sempre fora.

"Você pode não perceber, mas sua mente já estava corrompida há muito tempo. As coisas que eu já tinha conversado com você e com os outros... finalmente te alcançaram, e este é o resultado. Talvez você não perceba por conta própria, ou talvez tenha se esquecido, mas foi você quem matou o mesmo Clérigo que um dia te ajudou."

"P-para."

Evelyn balançou a cabeça, tentando negar as palavras dele. Sua voz saía fraca e insegura, o exaustor pesava fortemente em seu rosto. Mas isso não importava para Julien.

Ele já tinha visto tudo. Ele sabia a verdade que estava enterrada no fundo da mente dela.

"...Tudo porque ele não queria te ensinar mais. Porque você estava tão desesperada para ser algo. Fazer algo que permitiu que a escuridão te corrompesse por um instante. Você pode não se lembrar, mas fez. Você... o matou."

Os lábios de Evelyn tremiam, sua cabeça balançando enquanto murmurava coisas como: "Não, isso não faz sentido. Não fiz isso. Eu sei que não fiz. Você está... mentindo."

"Talvez você mesma não perceba, mas..."

Julien estalou os dedos livres.

Swooosh!

Imediatamente, a escuridão ao redor desapareceu, substituída por uma cena diferente. Uma que Evelyn sentiu vagamente familiar.

Este lugar...

"O que... você está fazendo?"

"Se você não quer aceitar, vou te mostrar."

"Me mostrar o quê? O que você..."

As palavras de Evelyn pararam abruptamente ao sentir os lábios selando juntos. Seus olhos se arregalaram ao olhar para Julien, mas ele não estava olhando para ela. Ele estava olhando para outro lugar.

Um lugar distante.

E quando Evelyn seguiu o olhar dele, seu rosto gelou.

Uma garota solitária caminhava por um longo caminho de flores amarelas, com a cabeça baixa enquanto mechas de cabelo roxo caíam sobre seu rosto, escondendo suas feições. Ela se movia lentamente entre as flores, os lábios murmurando as mesmas palavras repetidamente, sem parar, como se temesse parar.

"Por que você não pode? Por que você não pode...? Por que você não pode?"

A garota parecia ter cerca de quinze anos. No instante em que os olhos de Evelyn se fixaram nela, um choque percorreu seu corpo, como eletricidade percorrendo seus nervos. A escuridão que avançava em seus olhos parou completamente, deixando-a fitar a cena com a boca ligeiramente aberta.

Este lugar...

Esta cena...

A respiração dela começou a ficar mais pesada, os lábios tremendo enquanto tentava entender o que estava vendo.

Mas antes que pudesse, sua cabeça estremeceu.

'Falso.'

'É tudo falso.'

Vozes começaram a sussurrar em sua mente.

"Não... caia nas armadilhas dele. Ele está tentando te manipular com memórias falsas. Nada disso é real. É tudo falso!"

"H-ha."

O peito de Evelyn tremia, a escuridão que havia parado de se espalhar pelos olhos dela começou a se mover novamente. Mas desta vez era diferente. A escuridão não era tão profunda quanto antes. Era muito mais lenta, e enquanto Evelyn fitava a cena diante de si, a dúvida começou a se infiltrar.

'Isso é falso, certo? Isso tem que ser falso. Não me lembro de nada disso. Isso deve ser o Julien tentando falsificar as coisas... Sim, tem que ser.'

Apesar de dizer a si mesma que tudo isso era falso, a dúvida persistente que Julien plantou ainda permanecia no fundo da mente dela. Isso impediu que a escuridão consumisse ainda mais a mente dela enquanto Evelyn concentrava sua atenção na garota.

E logo—

"O que você está fazendo aqui?"

Ouviu-se uma voz familiar ecoando pelo ambiente.

A jovem de pé entre as flores parou, o olhar ainda baixo enquanto uma figura surgia ao longe.

Vestindo túnicas escuras marcadas por uma cruz vermelha marcante no centro do peito, o Clérigo a observava com clara desgraça, sua expressão dura e hostil ao perceber sua presença.

"Eu não disse que íramos parar aqui? Por que você decidiu vir?"

O tom dele era severo, e havia raiva clara escrita em suas feições enquanto a encarava.

"Você sabe a que distância está de sua própria propriedade? Não faz sentido você estar aqui. Já te disse que você não serve para isso. Também te ensinei um feitiço como prometi. Na verdade, você estar aqui já está me atrasando bastante. O que vai acontecer se um dos meus pacientes morrer por causa do atraso?"

"......"

Apesar das palavras, a jovem não se moveu.

Sua cabeça permanecia baixa, sua expressão ainda escondida pelo cabelo que caía.

Vendo isso, o Clérigo não ficou mais zangado. Em vez disso, seu rosto eventualmente se suavizou enquanto caminhava em direção à jovem e alcançava o ombro dela, abaixando-se para ficar na mesma altura dos olhos dela.

"Escute..."

O tom dele também se suavizou.

"...eu entendo que você quer ajudar. Embora eu não entenda o que está te levando a ser tão desesperada, posso entender seus desejos. Realmente posso. No entanto, as coisas têm etapas. Neste momento, você está tentando apressar as coisas demais. Você ainda não está pronta."

O Clérigo fez uma pausa, seu rosto incomumente suave se suavizando ainda mais.

"Você quer alcançar algo, não é? Você quer ajudar alguém querido. Você quer provar que pode ser útil. Mas precisa entender isso... querer ajudar não é suficiente. Sem a capacidade, você não pode fazer nada. Você tem que ser paciente. Você tem que aprender. Você ainda é jovem. Tem tanto para apre—"

SPURT—!

Foi abrupto.

Ninguém realmente viu aquilo vindo.

Seja o Clérigo ou a Evelyn que observava tudo.

Ninguém viu aquilo vindo.

Thud!

Sangue manchou a grama verde enquanto um corpo caía no chão. Seus olhos permaneceram bem abertos, o choque congelado em seu rosto. Próximo ali, a menina estava paralisada, sua pequena mão escorregadia de sangue. Lentamente, ela levantou a cabeça, revelando um par de olhos escuros e vazios fitando adiante.

Logo—

"Ele... Ele. Ele. Ele."

Risadas começaram a ecoar de seus lábios, seus olhos ficando cada vez mais escuros a cada segundo que passava. Era óbvio que ela estava começando a enlouquecer.

Observando a cena, Julien acenou com a mão.

Ele parou a cena e se virou para olhar para a Evelyn presente.

Este não era o fim da cena. Havia mais coisas, mas ele não podia mostrá-la. Não podia mostrar Noel. Ou, para ser mais preciso, Aldric. Ele estava observando o tempo todo, deixando a cena se desenrolar.

Até Julien não entendia muito bem o motivo disso. Queria perguntar a ele, mas não podia. Tinha que esperar até vê-lo novamente.

Mais uma vez, o ambiente ficou escuro.

Um silêncio pesado caiu sobre os dois enquanto nenhum dos dois falava.

Mas logo—

"É... falso."

A voz rouca de Evelyn soou.

Seus olhos pareciam vazios, mas a escuridão já não era tão proeminente. Julien podia sentir isso. A dúvida no olhar dela. Ela gritou 'fundo', mas no fundo, sabia que tudo era real. Que nada do que ele lhe mostrara era falso.

"Não pode... ser. C-como isso é possível? Deve ser falso. Eu... jamais—"

"Dê uma olhada."

Julien não disse nada elaborado. Não deu sermão, nem fez nada além de simplesmente acenar com a mão.

Swooosh—!

Ao fazer isso, um espelho apareceu.

era apenas um espelho simples, mas no instante em que Evelyn olhou para ele, sua expressão congelou. Ela absorveu tudo de uma vez. Do cabelo desgrenhado ao rosto pálido. Mas mais do que qualquer outra coisa, sua atenção se fixou nos olhos.

Aqueles olhos escuros dela.

Os olhos de Evelyn tremeram incontrolavelmente, suas emoções oscilando violentamente.

Julien se pôs diante dela, seus lábios se abrindo lentamente.

"Acho que isso é suficiente."

Ele estendeu a mão em direção a ela.

"...É hora de você finalmente sair desse transe."

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