Advento das Três Calamidades

Capítulo 839

Advento das Três Calamidades

Era um passado distante.

Evelyn ainda conseguia se lembrar dos momentos em que Julien mudou.

"Fique o longe de mim. Só de te olhar fico enojado."

"Hm? O quê...?"

"Você não me ouviu? Fique o longe de mim."

"M-mas...!"

"Droga! Você é surda?"

Apesar de todas as suas tentativas de se aproximar dele, ele só a afastava, ficando cada vez mais frio a cada uma de suas visitas. Ele logo se tornou uma personificação de ódio. Uma bola de escuridão que parecia estar constantemente à beira de uma explosão.

Depois disso, ela raramente falava com ele.

Como uma sombra, ela o observava à distância.

Ela via enquanto ele lentamente afundava cada vez mais na loucura. Via enquanto ele começava a maltratar os servos e Leon.

Se ele antes brilhava como ouro puro, com o tempo uma escura ferrugem começou a se formar dentro dele. A mudança foi lenta, quase imperceptível no começo, mas em retrospecto, estava claro que ele estava afundando cada vez mais nas trevas. Que a ferrugem finalmente corroera cada último pedaço que antes brilhava.

Anos se passaram assim.

Antes que percebesse, Evelyn tinha 15 anos.

Fazia um tempo que Julien havia mudado. Em certas ocasiões, ele se transformava e voltava a uma 'diferente' versão de si mesmo.

Aquela mudança... foi o suficiente para despertar esperança nela.

"Talvez ele ainda esteja lá?"

O pensamento grudou na mente dela como uma espécie de cola. No momento em que se formou, se recusou a sair de sua cabeça.

"Sim, deve ser isso. Ele ainda est lá. Tenho certeza. O Julien que eu conheço ainda est ali...!"

Mas por que ela estava tão obcecada com ele?

Seria simplesmente o amor jovem de uma mulher?

Não, não exatamente...

Evelyn não gostava de Julien romanticamente. Nunca gostou. Nem agora, nunca. Os dois haviam crescido juntos, e ela o conhecia desde pequena.

Ele era mais como... um irmão mais novo para ela.

Sim, isso.

Ele era alguém precioso para ela, mesmo depois de tudo o que ele havia feito.

Porque ela conseguia ver.

Ela conseguia ver a luta em seus olhos. A luta enquanto ele combatia um tipo de escuridão que tentava tomar conta.

Aos olhos dela, ele parecia estar implorando.

Implorando por ajuda.

por isso—

"Por favor, me ensine."

Um dia, quando um homem estranho vestindo um terno escuro marcado com uma cruz vermelha apareceu, Evelyn agarrou suas roupas, segurando-o.

"...Por favor, me ensine."

"Tem certeza de que quer fazer isso?"

Até hoje, Evelyn conseguia se lemquelea voz distinta e severa.

"Por que você quer aprender comigo, afinal? Seu amigo... Ele não est possuído. Faça o que fizer, você não conseguir ajudá-lo. Este não é um caminho que a maioria das pessoas trilha. Um cheio de muito sofrimento, e com pouca ou nenhuma recompensa. Tem certeza de que quer aprender comigo?"

"....."

Evelyn hesitou.

No entanto,

"Sim."

A mente de Evelyn nunca estivera tão clara.

Ela queria aprender.

Ela queria...

Ajudar.

Porque em todos os seus quinze anos de vida, ela nunca uma vez foi capaz de ajudar. Nem Leon. Nem os servos, e nem... Julien.

Mesmo quando ele dizia que não iria adiantar. Mesmo quando ele dizia que o corpo dele não estava possuído. Mesmo quando ele dizia que o que ela estava fazendo era inútil...

Evelyn assentiu sem hesitar.

"Quero aprender. Eu realmente quero aprender."

Quero... ser útil.

"....."

O homem ficou em silêncio, encarando a garota que o olhava com uma expressão esperançosa e ao mesmo tempo desesperada.

"Tudo bem."

Ele só conseguiu ceder no final.

"...Vou te ensinar um feitiço. apenas isso que vou te ensinar. Não me peça mais nada."

"Sim!"

A alegria que a garota sentiu naquele momento era indescrit vel. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu como se tivesse visto a luz no fim do t nel.

Que talvez...

Este fosse o caminho que ela precisava seguir para ser útil.

Com a permissão de seu pai, Evelyn seguiu o Clérigo para longe da propriedade principal. Para que ela pudesse treinar, precisava de um local adequado.

"Não vou conseguir cuidar de você por muito tempo. Você precisa cuidar de si mesma e apenas observar o que eu faço. Nunca faça nada precipitado e apenas observe o meu trabalho."

"Entendido!"

Sua voz denunciou sua empolgação. Apesar de não ser famosa, Evelyn sabia tudo sobre Clérigos. Sabia sobre sua devoção e habilidades. Sobre como eram as pessoas que todos procuravam quando estavam em apuros.

Ela não queria ser como eles, mas queria ser parecida com eles.

Por esse motivo é que ela estava desesperada para aprender.

Mas no fim das contas, o sonho de uma criança era apenas um sonho.

"Haaaaaaa—!"

Quando a dura realidade veio à tona, aquele sonho se estilhaçou diante de seus olhos.

"S-socorro! Alguém... me ajude!"

Os gritos eram altos, arrancados direto de sua garganta, roucos e ásperos como se sua voz fosse being retalhada a cada clamor.

"Socorro! Socorro! Socorro! Tire isso! Tire isso!"

"Lance o feitiço rapidamente!"

"Evelyn! Evelyn!"

"E-eu... e-eu..."

"Ajuda, sua vadia! Tire isso! Tire isso!!!"

"H-ha...!"

Os cabelos da mulher pendiam em mechas emaranhadas ao redor do rosto, colados de sujeira. Rachaduras se espalhavam por sua pele como porcelana quebrada, algumas escorrendo um vermelho escuro, enquanto seus olhos estavam injetados e saltados, encarando Evelyn, que estava ali, incapaz de fazer qualquer coisa.

"Eu vou te matar!! Por que não est ajudando!! Você é in til! In—ehp!!"

Swooosh!

Um feitiço poderoso desceu de cima, rel mpagos crepitando violentamente no ar ao atingir a cabeça da mulher. O impacto fez a eletricidade se espalhar por seu corpo, forçando seus membros a se contrair e convulsionar incontrolavelmente enquanto a força a devastava por dentro.

Todo o processo durou não mais do que alguns segundos, e quando os efeitos do feitiço passaram, a mulher caiu mole no chão.

Thud!

Ela havia desmaiado completamente.

"....."

O silêncio retornou mais uma vez.

Olhando para a mulher, Evelyn lentamente ergueu a cabeça.

Ela encarou o homem diante dela. Seu mestre.

"Evelyn..."

Ele nem a bateu nem a repreendeu.

"...Eu acho que isso não é para você. Acho melhor você desistir. Você é talentosa, mas isso não é para voc."

Ele simplesmente desistiu dela.

E isso...

Isso a machucou mais do que qualquer coisa.

"Não, eu..."

Eu posso ser útil!

"Essa não é a primeira vez que algo assim acontece. Tem sido assim durante toda a última semana."

Não, eu realmente posso ajudar!

Não sou in til!

"Eu sei... mas eu posso fazer melhor. Se você—"

Por quê?

Por que não conseguiam ouvi-la?

Ela gritava, mas suas palavras nunca chegavam até eles.

"Posso te dar outra chance, mas os pacientes não darão. Cada segundo que eu passo com você é um segundo que deixo de passar com um paciente. Me desculpe, mas parece que isso pode ser o fim. Felizmente, você é perspicaz. Conseguiu captar o conceito principal do feitiço que te ensinei. Com ele, quando chegar a hora, você deverá conseguir ajudar."

Não! Não! Não!

Eu posso ajudar! Eu realmente posso ajudar!

"Adeus."

Essa foi a última vez que Evelyn viu o Clérigo.

Não porque ela não tenha procurado por ele, mas porque ele faleceu pouco depois.

Aquele também foi o momento em que Evelyn mudou.

Aquele incidente realmente abriu os olhos de Evelyn para a realidade de sua situação.

"E-eu só precisava de mais tempo. Se ele tivesse me dado mais tempo, eu tenho certeza de que poderia ter feito algo . s que eu precisava de mais tempo. Só isso... Eu só precisava de mais tempo."

A determinação de Evelyn se fortaleceu.

"Certo, eu consigo fazer isso. Eu... definitivamente consigo fazer isso. Eu só preciso de mais tempo. Preciso observar mais antes de agir. Eu estava me apressando demais. Só preciso ser mais paciente, e eu consigo... Eu definitivamente serei útil!"p>

Dali em diante, Evelyn passou todo o seu tempo aprimorando suas habilidades.

Mas apesar disso, as coisas nunca mudaram.

Mesmo quando a Academia começou, e vários incidentes ocorreram, nada nunca mudou. Ela sempre se encontrava em situações em que acabava recebendo ajuda. Cada vez que isso acontecia, ela dizia a si mesma: 'Na próxima vez. Eu estava observando. Eu... estava esperando o momento certo. Julien... Ele mudou, certo? Não, não tenho certeza. Preciso ter certeza. Ele mudou, certo? Mas e se eu estiver pensando demais? Vamos observar mais. Sim, eu deveria observar mais.'

Sua mente estava cheia de incontáveis pensamentos.

Pensamentos que... só cresciam a cada uma de suas falhas.

*

"Hic... Hic...!"

Suaves soluços ecoavam na escuridão.

Os choros ecoavam por cada canto da escuridão enquanto a figura de Evelyn surgia dentro dela, seu corpo encolhido sobre si mesmo. Ela abraçava sua forma trêmula com força, curvada em posição fetal, como se desesperadamente tentasse preservar o pouco de calor que lhe restava.

"Hic...!"

Seus choros continuaram ecoando pela escuridão enquanto tentáculos escuros tentavam se enrolar ao redor de seu corpo, fazendo o melhor para confortá-la.

Parecendo sussurrar palavras doces ao seu ouvido.

'Você não é in til.'

'... Não é que você seja in til, é que você nunca tem a chance de tentar. A não é culpa sua.'

'Nunca é culpa sua.'

'... a culpa dele. Ele sempre toma o crédito de você. Ele é quem deveria ser culpado por tudo isso. Isso não é culpa sua de forma alguma!'p>

p>Enquanto as vozes sussurravam na mente de Evelyn, os tentáculos ao seu redor engrossavam, apertando-se enquanto se enroscavam ao redor de seu corpo em um abraço suave. Momentos depois, seus choros começaram a diminuir, substituídos por um estranho e antinatural calor que lentamente se espalhava por sua forma trêmula.

"Hic..."

A mente de Evelyn começou a clarear enquanto ela se banhava no estranho calor que os tentáculos lhe proporcionavam.

Seus choros eventualmente pararam, e as vozes também.

Aquele também foi o momento em que sua mente ficou lúcida.

'A não é culpa minha. Nunca foi. a culpa dele. a culpa do Julien—'

Riiiiiiiiiiiiiiiip—!

Um alto rasgão arrancou Evelyn de seus pensamentos. Seus olhos se arregalaram ao ver os tentáculos escuros enrolados ao redor de seu corpo sendo arrancados, uma mão enorme avançando para agarrá-los e arrancá-los força.

"Não, o que você est fazendo...! Não!"

Evelyn tentou deter a mão, mas a mão se recusou a obedecer.

Riiiiip!

Ela continuou o que estava fazendo, arrancando ainda mais tentáculos enquanto a expressão de Evelyn ficava cada vez mais pálida.

"O que você est fazendo!? Pare! Eu disse pare!!"

Seus gritos soavam mais como um choro infantil do que genuínas súplicas de socorro.

Talvez, fossem.

E talvez... essa fosse a verdadeira Evelyn.

Riiiiiip!

"Pare! Não! Não! Não! Não!"

Quanto mais tentáculos eram arrancados, mais fria Evelyn se tornava. O calor que antes a envolvia, aquela frágil sensação de segurança, desapareceu por completo. Arrancado de suas mãos por aquelas mãos enormes, deixando apenas um frio cortante em seu lugar.

Ódio cruzou a visão de Evelyn enquanto ela encarava aquelas mãos.

Mas no momento em que a mão arrancou ainda mais tentáculos, abrindo uma fenda larga o bastante para alguém passar por ela, um par de olhos cor de avel entrou no campo de visão de Evelyn.

Olhos cor de avel, que ela conhecia muito bem.

Momentos depois, sua voz atravessou a escuridão.

"Aquele Clérigo..."

Então as palavras que se seguiram a fizeram ficar completamente imóvel.

"Foi você que o matou, não foi?"

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