Advento das Três Calamidades

Capítulo 773

Advento das Três Calamidades

Era diferente comparado ao que havia antes.

Se antes ele me transmitia um sentimento profundo de pavor toda vez que aparecia, desta vez não era o caso. Ele parecia calmo, igual ao ambiente ao redor.

E mesmo assim—

Era a calma estranha com que se portava que fazia meu coração bater mais forte.

"Eu vim assim que consegui absorver todo o sangue. Você sabe por que estou aqui, né?"

Sua voz também era suave.

Olhando para o horizonte e depois de volta para ele, decidi observar sua aparência verdadeira pela primeira vez. Ou pelo menos, aquilo que eu achava que era sua aparência original.

"Ha."

Então era assim... foi isso que aconteceu...

"Faz tempo, Inquisidor Hollowe."

Toren sorriu.

"De fato, faz um tempo, Julien."

O sorriso dele era igual ao do passado. Aquele sorriso calmo, porém bastante tranquilizador. Refleti sobre minhas interações anteriores com ele e comecei a entender melhor.

"Você sabia desde o começo, né?"

"...Mais ou menos. Não posso dizer que tinha certeza, mas não são muitas pessoas que apreciam o mesmo tipo de humor que eu."

"De fato, foi bom saber que tinha alguém lá fora que gostava do mesmo tipo de humor que eu."

"Não foi?"

Parecia que eu estava conversando com um velho amigo, e por um breve instante, aquele pensamento aquecido parecia real. Ainda assim, a lembrança do motivo pelo qual ele estava ali voltou à minha mente, e o sorriso foi lentamente desaparecendo do meu rosto, deixando uma sensação de peso que eu não podia mais ignorar.

"Você veio pegar o sangue restante, não é?"

"Sim, e não."

Toren respondeu, virando o olhar para o local distante.

"Embora eu adorasse, não estou em condições de fazer isso. Já foi difícil demais absorver tudo aquilo que pertencia àquela marionete que você criou na igreja. Duvido que consiga absorver mais sangue, mesmo querendo. Talvez demore pelo menos cinco anos até estar em condições de tentar algo assim novamente."

"...Ah."

Foi um pouco inesperado.

No entanto, ao pensar melhor, começou a fazer sentido.

'Para mim e Noel fazer tudo o que queríamos, sem ele interferir ou fazer qualquer coisa, deve ter sido um grande esforço só para tentar absorver o meu sangue. Provavelmente será igual quando ele absorver a próxima metade.'

Nesse caso...

"Você veio só para coletar antes que seja tarde demais?"

Ao ouvir minhas palavras, o sorriso de Toren se abriu mais.

"...Exatamente."

Ele riu um pouco enquanto olhava para mim.

"Você é uma variável demais. Seu crescimento também é surpreendente. Não posso deixar que continue ficando mais forte. Isso seria perigoso demais para mim."

"Fico até comovido por você pensar assim de mim."

Por outro lado, ele não estava errado. Eu realmente tinha um talento impressionante.

Raramente, se é que havia alguém, na minha idade tinha alcançado o mesmo grau que eu.

Claro, não era como se eu tivesse conseguido isso sozinho. Sempre tive ajuda suficiente para chegar ao estado em que estou.

"Não precisa ficar tão orgulhoso com um elogio. No final das contas, é só a verdade. Você também deve estar ciente de que você não é uma pessoa comum."

"...Se você diz assim."

A nossa conversa ainda era leve.

Porém, quanto mais eu falava, mais sentia a atmosfera de finalização se aproximando na conversa. Ela se aproximava cada vez mais do ponto final do qual eu não podia fugir. Provavelmente esses seriam os meus últimos momentos por um bom tempo.

Planejava perguntar tudo o que pudesse.

"Por que fez o que fez com ela...?"

"Hm?"

Levantando a sobrancelha, Toren piscou os olhos. Parecia confuso no começo. Mas logo, demonstrou um olhar de compreensão.

"Certo, certo. Você tinha um compromisso. Ouvi tudo sobre isso. Parabéns!"

Ele parecia bastante divertido.

"...Fiquei um pouco surpreso ao descobrir seu noivado. Soube há algumas horas, bem antes de vir para cá. Você não imagina o quanto fiquei chocado ao saber do seu noivado. Foi uma grande surpresa, mas também percebi que fazia sentido."

Toren abruptamente se inclinou mais perto de mim, com os olhos fixos no meu rosto enquanto sua voz sussurrava.

"Você está tentando alcançar o mesmo objetivo que eu. É lógico que queira experimentar o amor. Também admito que a garotinha é bem bonita."

De repente, ele sorriu de forma ampla e sinistra.

"...Eu só não imaginei que você realmente iria atrás de alguém como ele—"

"Você ainda não respondeu à minha pergunta."

Interrompi Toren antes que ele continuasse com aquelas besteiras.

"Por que fez o que fez?"

Eu só queria entender de verdade os motivos por trás de suas ações. Será que era apenas porque ele queria criar alguém capaz de lutar contra os Seres Externos? Ou havia algo mais além do que eu sabia?

"....."

O sorriso no rosto de Toren diminuiu levemente.

Ele ficou me encarando por alguns segundos, antes de soltar um suspiro e recuar.

"Existem muitas razões para o que fiz. Acima de tudo, eu queria criar uma arma para usá-la contra eles."

Por 'eles', ele se referia aos Seres Externos.

"E você não pensou que tudo isso poderia acabar dando errado para você?"

"Ah, várias vezes."

Toren respondeu, com a voz leve.

"A ideia realmente passou pela minha cabeça muitas vezes."

"Então...?"

"Então, o que?"

O Toren inclinou a cabeça. "Você está me perguntando por que continuaria vivo mesmo com a possibilidade de tudo isso dar errado?"

"....."

"É simples, na verdade."

A voz de Toren baixou.

"...Eu não a considerei uma ameaça. Além de você, ninguém consegue me ameaçar. Não é arrogância. É a verdade simples. No mundo, ninguém é mais forte do que eu ou jamais será. Em certo ponto, até pode pensar nela como uma fracassada. Mesmo tendo se tornado forte, e talvez chegue ao Topo, ela não consegue alcançar a fonte. Quando não consegue entender a fonte, pouco pode fazer. Ela não representa ameaça."

"Mas e se ela conseguir?"

"Então isso significaria que meu experimento deu certo."

O rosto de Toren sorriu de repente, com os olhos brilhando de excitação, enquanto sua voz ficava mais alta.

"Mesmo que ela venha a se tornar uma ameaça no futuro, o fato de ter tocado na fonte quer dizer que o experimento foi bem-sucedido. Significa que posso criar ainda mais como ela!"

Batendo no peito, suas palavras ficaram mais aceleradas.

"Se eu conseguir replicar o experimento e criar mais como ela, posso produzir inúmeras criaturas para enfrentá-los. Elas podem não ser tão fortes individualmente, mas um exército dessas criações logo será suficiente para derrotá-los e libertar o mundo de sua tirania."

O olhar de Toren cintilava de loucura enquanto falava.

"...Por isso é tão importante que ela possa andar livremente. Pode ser uma fracassada agora, mas se ela conseguir superar? Então isso significará que o caminho que estou trilhando está correto. De qualquer forma, eu não perco!"

Naquele momento, o olhar de Toren estava nitidamente louco. E mesmo assim, por mais que estivesse completamente insano, dava para perceber uma certa clareza ali dentro. Ele tinha pensado tudo cuidadosamente, e embora eu quisesse contestar, percebi que não poderia.

As palavras dele...

Faziam sentido.

E essa foi a realidade que apertou meu coração.

"É uma pena, porém."

Voz de Toren baixou, me puxando de volta aos pensamentos enquanto eu o observava.

"O que é uma pena?"

"Seu corpo."

Toren respondeu, apontando para mim, fazendo com que eu levantasse a sobrancelha. O que ele—

"Está uma bagunça. Dá para ver que você deixou eles poluírem você."

Ele balançou a cabeça, e finalmente entendi. Ele falava das estranhas finas tendões negras que cobriam meu corpo. Pensei na descoberta e como, originalmente, planejava perguntar à Delilah sobre isso.

Esse era o plano original.

Porém, com tudo que aconteceu, sabia que perguntar não levaria a lugar algum. Não porque ela não soubesse, mas porque seria inútil. Não há como evitar o que estava por acontecer comigo.

Eu estaria apenas perdendo tempo.

"Você está pronto...?"

Palavras suaves de Toren sussurradas ao meu ouvido, fazendo-me estremecer. Meus lábios tremeram, e eu quis balançar a cabeça. Porém, sabia que aquilo não era algo que poderia evitar.

Eu simplesmente era demasiadamente fraco.

Não poderia escapar dele, nem se quisesse.

No final, só me restava fechar os olhos e murmurar, "...Tem certeza que quer fazer isso?"

"Eu? Certeza...?"

Seu tom quase parecia zombar enquanto ele fazia uma pausa.

"Por que não estaria? Você bem sabe que preciso fazer isso para alcançar meu objetivo."

"Não, não estou falando disso."

Meu rosto relaxou ao olhá-lo, minha voz ficando mais fria ao mesmo tempo. Embora não tivesse certeza, parecia que uma figura certa tinha surgido ao meu lado, colocando a mão no meu ombro enquanto pronunciava suas palavras diretamente.

"Nada escapa ao meu alcance. Eu vi e testemunhei tudo o que há para testemunhar. Quando pergunto se você tem certeza de fazer isso, na verdade estou perguntando se você considerou se isso foi algo que eu planejei previamente—"

Pareei no final da minha frasesem saber direito o motivo, uma ideia se estabeleceu na minha mente. No final, sorri e ri.

"Deixa pra lá. Seja o que for que você faça, você sempre vai dançar na palma da minha mão. Faça o que desejar, eu—"

Eu nunca cheguei a terminar minha frase.

Minha visão escureceu logo depois.

***

Tump!

Um corpo caiu pesadamente no chão.

Um par de olhos frios encarava o corpo.

O rosto de Toren estava frio. Tão frio que parecia gelar o ambiente ao redor.

Swoosh!

Pouco tempo depois, uma figura surgiu atrás dele. Sua expressão era complicada enquanto olhava para o corpo no chão. Podia perceber que ele ainda estava vivo, sua boca subindo e descendo lentamente.

Assim que Atlas abriu a boca, Toren também falou.

"Sumiu..."

Sua expressão ficou ainda mais fria ao pronunciar aquelas palavras.

A temperatura caiu mais, e por um momento, Atlas sentiu o coração apertar, um medo avassalador tomando conta de si.

Por sorte, a sensação não durou muito, pois Toren se acalmou logo em seguida.

Ele voltou sua atenção para Atlas.

"Ele não é seu discípulo...?"

"...Ah, sim." Atlas assentiu lentamente, seu peito tensionando mais sob o olhar de Toren. Quando achou a tensão insuportável, Toren falou. "Quebrei o selo dentro dele. Cuide bem dele. Pode não ser mais a mesma pessoa, mas o corpo é. Os talentos ainda devem estar lá. Certifique-se de que ele não morra, pois ainda preciso do corpo dele mais adiante."

Com essas palavras, o corpo de Toren começou a desaparecer.

"Ah."

Mas justo no momento em que seu corpo desapareceu completamente, parecendo recordar de algo, Toren acrescentou: "É hora de pararmos de ser tão passivos. Prepare tudo. A partir de agora, a Sky Invertido e cada organização irmã devem fazer o possível para deixar uma marca neste mundo. Está na hora de colocar nossos planos em ação."

Seu corpo desapareceu completamente depois disso.

"....."

Atlas permaneceu em silêncio, lutando para processar aquelas palavras.

Mas logo—

Tro-Tro! Tro-Tro!

O corpo de Julien começou a se contorcer.

O olhar de Atlas caiu sobre o corpo, e logo depois, os olhos se abriram de repente.

"Huaaaa!"

Julien respirou fundo, sua expressão distorcendo enquanto olhava rapidamente ao redor.

"Cadê essa merda?! O que está acontecendo!?"

Seus gritos ecoaram pela floresta enquanto sua visão passava de um lado para o outro. No final, seu olhar se fixou em Atlas, com a expressão contorcida.

"E aí, filha da puta. Onde porra—"

"Shh."

Atlas pressionou o dedo contra os lábios, silenciando Julien enquanto observava calmamente. Julien arregalou os olhos ao perceber, sua face mudando enquanto tentava dizer algo, mas Atlas não permitiu, falando em voz baixa.

"Meu nome é Atlas, e fui designado para treiná-lo."

Ao ver Julien com a expressão desafiadora, Atlas fechou os olhos e suspirou.

'...Vai levar um tempo longo.'

Com um movimento da mão, os dois desapareceram logo em seguida.

A partir daquele dia, a Sky Invertido passou a ser conhecida mundialmente. E o mesmo aconteceu com cada organização irmã.

Elas espalharam rapidamente sua influência por todo o planeta.

Poderes desconhecidos começaram a emergir pelo mundo, desestruturando as potências estabelecidas, tomando territórios de impérios e provocando uma guerra prolongada, que causou muitas vítimas.

De todo esse poder, uma organização se tornou especialmente infame.

Julien Dacre Evenus.

A Trono Baixo da Loucura.

Comentários