
Capítulo 774
Advento das Três Calamidades
Estalou~
O fogo continuava a arder com intensidade.
Ele crepitava no ar, consumindo as vigas de madeira uma a uma. As janelas se quebravam sob o calor, espalhando estilhaços de vidro como estrelas cadentes, enquanto línguas de chama lamberam vorazmente as cortinas, engolindo-as de uma só vez, num único suspiro.
A propriedade gemia.
Fumaça se enrolava para cima em nuvens sufocantes, obscurecendo o céu noturno, enquanto brasas caíam ao chão.
"....."
Uma figura permanecia do lado de fora do incêndio, olhando fixamente para as chamas com uma expressão vazia.
Estalido! Estalido—!
O som fraco de gritos ecoava ao fundo.
Pessoas correndo para dentro e para fora, gritando com ele.
"Fuja daqui!"
"Você precisa correr, chefe de família!"
"Corra antes que seja tarde demais! Salve-se!"
"Chefe de Família!!"
"Haha."
Um tremor percorreu o corpo da figura, a névoa em seus olhos se dissipando enquanto ele despertava daquele estado. Seus lábios tremiam enquanto ele fazia isso.
"Eu... Eu devia ter sabido."
Ele levou a mão ao peito, fechando lentamente o punho.
"Por quê...? Por que não fiz algo... P-por que não o matei quando tive a chance?"
Lágrimas escorriam pelo rosto dele, borrando a cinza que se acumulara na face. Tudo aconteceu de forma incrivelmente rápida, mas ele ainda conseguia lembrar de tudo com nitidez.
Um domo roxo que cobria toda a área.
Mãos que saíam do chão, agarrando as criadas e trabalhadores da propriedade.
Gritos.
Corpos caindo.
O grupo de cavaleiros chegando, mas sendo inevitavelmente repelido.
Gritos do capitão Albas.
Linus se lembrava de tudo enquanto permanecia imóvel, como se as cenas passassem diante de seus olhos em uma reprodução contínua. Mas, em especial, se havia algo que ele podia recordar com clareza, era a figura fria que permanecia no centro de tudo.
Seu olhar era gélido. Tão frio que quase dava medo.
Mas ao mesmo tempo, ele via. A loucura escondida por trás daquele olhar.
"Eu... Eu... devia ter..."
Todo sentimento que restava era de arrependimento.
Ele pensava que talvez os pesadelos fossem mentira. Que Julien tinha mudado. Mas essa não era a verdade.
Ele sempre tinha sido o mesmo.
Os pesadelos não eram falsos. Eram uma premonição do futuro que viria.
Se ao menos... ele pudesse confiar neles.
Isso. Tudo isso.
Era culpa dele.
"Haaaaa—!"
Ao ouvir outro grito, Linus lentamente voltou a cabeça.
'Ainda... Preciso ajudar.'
Seu corpo estava pesado, mal conseguia ficar de pé. Ele lutou ao lado dos guardas, mas mesmo assim, era impotente. Era apenas uma pessoa, mas era suficiente para o dominar completamente.
"Ajude!."
"Alguém me ajude—!"
Tropeçando de volta em direção às chamas furiosas, Linus usou suas últimas forças para ajudar quem estivesse em necessidade.
"Mais um... Só... mais um."
"Princesa, a situação está crítica! Houve um ataque na Condado de Evenus. Relatos dizem que a propriedade principal está em chamas. Por enquanto, as investidas foram interrompidas lá, mas acreditamos que vão prosseguir."
Uma figura estava sentada em um trono, seu olhar frio relampejava ao ouvir o relatório. Seus longos cabelos vermelhos caíam sobre os ombros, enquanto seus olhos amarelos brilhavam sob a luz fraca do cômodo.
Ela permanecia em silêncio, uma pressão silenciosa pesando na sala antes que ela assinalasse com a cabeça.
"...Entendido. Pode partir."
"Mas, Princesa—"
"Não foi disso que eu falei?"
Embora Aoife não tivesse gritado, a força na sua voz foi suficiente para fazer a acompanhante tremer, que apressou-se a fechar a boca e saiu, deixando Aoife em silêncio.
O silêncio se estendia enquanto ela olhava à frente.
Quanto tempo se passou desde que ele virou...? Aoife começava a esquecer. Tudo aconteceu de repente. Não foi instantâneo. Foi gradual. Ela estava tão ocupada com a sucessão que nunca teve a chance de prestar atenção de perto nele.
Mesmo assim, ele era útil para ela.
Ele ajudou a empurrar seu irmão para as portas da destruição.
Mas aí foi que tudo aconteceu.
Surgiram figuras estranhas, poderosas, do nada, atacando o Império de múltiplas frentes. Eram brutais e eficientes; cada ataque parecia planejado, e todo o impulso que ela havia conseguido construir desmoronou-se.
Aoife tentou resistir, mas eles eram extremamente fortes.
Forçaram-na a recuar, e só após um ano de batalhas incessantes conseguiu encontrar uma tênue tentativa de equilíbrio.
Talvez fosse o estresse incessante da guerra ou as ameaças constantes, mas suas habilidades começaram a crescer a uma velocidade assombrosa. Em apenas um ano na linha de frente, ela avançou do sexto para o sétimo nível, uma façanha que levaria outros muito mais tempo.
Mesmo assim, seu progresso não dava sinais de desaceleração, indicando que alturas ainda maiores estavam por vir.
Seu crescimento era tão impressionante que começou a questionar a si mesma.
'Será que meu crescimento realmente se deve a todos os perigos que enfrentei ou há algo mais...?'
Ela não tinha certeza, mas essa mudança não lhe desagradava. Quanto mais poderosa ficava, maior sua influência com seu exército e com os súditos.
'Você realmente acha que é mera coincidência?'
De repente, uma voz cortou o silêncio ao seu redor. Aoife virou-se para a esquerda e foi recebida por um sorriso. Um sorriso carregado por uma figura que parecia demais com ela mesma.
Aoife não reagiu à sua aparição repentina.
Ela já estava acostumada com isso.
"Foi você?"
'Haha.' A figura sorriu, o sorriso se estendendo até os olhos, 'Nada nesta vida acontece por acaso. Uma pessoa não fica tão forte só lutando.'
Seu dedo pressionou suavemente o queixo de Aoife, levantando-o um pouco enquanto seus olhos amarelos se cruzavam com os dela.
'A força que carregamos dentro de nós é imensa. Muito maior do que você imagina. Você só começou a acessá-la por estar chegando na idade, mas não vai demorar até que tenha total controle. Quando isso acontecer, nada nos deterá. Vamos poder governar este mundo.'
As palavras fizeram com que os olhos de Aoife ficarem nublados.
Governar o mundo...?
Não parecia tão ruim. Na verdade, parecia bastante tentador.
Mas—
"Vou pensar sobre isso."
Os olhos de Aoife saíram de seu torpor enquanto ela olhava à frente. A figura ao seu lado desapareceu, e as portas começaram a se abrir lentamente.
Rangeu—
Logo após, uma figura apareceu.
Vestida com um capuz preto, seus traços estavam escondidos. Ainda assim, Aoife não precisava ver o rosto para reconhecê-la. Quando o capuz foi finalmente levantado, um par de olhos cinza visivelmente cansados olhou de volta para ela.
Um par de olhos amarelos encontrou um par de cinza.
"...Você está terrível."
No fim, a que quebrou o silêncio foi ela mesma. Ao perceber Leon, suas palavras carregavam muita verdade. O estado atual dele era deplorável. Olheiras pesadas repousavam sob os olhos, seu rosto sem cor, e os lábios rachados e secos. Estava claro que ele não descansava direito há muito tempo.
E essa provavelmente era a verdade.
Desde o incidente com Julien, ele tinha mudado.
O rosto de Aoife ficou mais frio ao pensar nisso.
"O que você veio fazer?"
"...."
Os lábios de Leon tremeram. Ele não respondeu imediatamente. Em vez disso, manteve o olhar fixo nela, parecendo tentar encontrar as palavras certas.
"O que é? Por que está struggleando tanto para falar? Vai me dizer que o Julien que está destruindo o Império agora não é o mesmo Julien que eu conheço?"
De repente, Aoife sorriu com um sorriso irônico.
"Não sou tão burra. Dá pra perceber que tem algo errado. Mesmo assim..." Os olhos dela brilharam com uma luz fria e perigosa, "Isso não muda o fato de que ele virou um monstro. Se você veio me dizer para parar fi—"
"N-não."
Uma voz rouca interrompeu Aoife, fazendo com que ela parasse e olhasse para Leon.
"Não...? O que você—"
"Eu... não vou impedir você."
Leon respondeu algum tempo depois, sua voz ficando ainda mais rouca. Suas palavras fizeram com que Aoife parasse, observando-o atentamente.
"Você não vai me impedir?"
"N... não."
Leon balançou a cabeça, piscando com cansaço.
"Não vou te impedir." Ele repetiu, garantindo que ela ouvisse bem. Seu gesto repentino fez Aoife franzir a testa enquanto lentamente se levantava do trono. "Quer dizer que vai deixar eu matar o Julien, ou quem quer que seja essa pessoa?"
"...Se for preciso."
Leon assentiu lentamente.
O olhar de Aoife se estreitou, sua mente corria enquanto tentava entender as intenções de Leon. Mas quanto mais ela o observava, mais ficava claro o quão sério ele realmente era.
No final, ela relaxou o rosto e suspirou.
"Relaxe, ainda não vou fazer nada com ele. Não porque não queira, mas porque é impossível para mim."
O Império vivia um estado de caos. Julien não era o único de quem ela precisava se preocupar. Havia outros. O problema era que os demaisImpérios também estavam lutando para lidar com a situação atual.
Não era só ela. Todos os Impérios enfrentavam a mesma crise.
Normalmente, Aoife não se preocuparia tanto assim. Seu Império era forte, e com figuras notáveis como Delilah, seria difícil para forças externas atacá-los de fato.
Mas aí está o problema.
As coisas seriam calmas se Delilah estivesse presente.
Porém, após o anúncio de seu noivado, ocorrido anos atrás, ela desapareceu completamente do Império e do mundo. Foi como se sua existência tivesse sido atraída da face da terra.
Muitos tentaram contato com o Duque, mas nem ele tinha certeza.
No final, a situação piorou justamente por causa de seu desaparecimento.
Se ela não tivesse...
'Não, não adianta refletir sobre isso.'
Não existem "e se" neste mundo. A situação já se desenrolou como aconteceu. Tudo que ela podia fazer agora era olhar para o futuro e buscar uma saída para o apuro em que se encontrava.
Perdida em seus pensamentos, ela não percebeu a sutileza na expressão de Leon. Ele fechou os olhos, sentindo um pulso fraco vindo do seu peito. Enquanto o ritmo aumentava, seus traços começaram a mudar, e ele instinctivamente levou a mão ao local onde repousava o cálice.
Isso...
Sentindo o pulso, os lábios de Leon se abriram. Uma conversa antiga ecoou em sua mente, e a mão apertou com força contra o peito.
Seria esse o sinal?
Ele... poderia finalmente acabar com esse inferno?
Estrondo—!
As portas do cômodo se abriram abruptamente, e uma figura entrou correndo.
"Princesa!"
A voz dela era de pânico, chamando atenção de Leon e Aoife. Antes que Aoife pudesse dizer qualquer coisa, a acompanhante gritou.
"Conseguimos impedir o Assento da Loucura! Ele... Ele..." A acompanhante engoliu em seco, recuperando o fôlego rapidamente: "Está na Fenda do Espelho em Bremmer!"
O rosto de Leon mudou à medida que a sensação no peito se estabilizou.
Lá ele entendeu.
Seu inferno...
Finalmente estava para chegar ao fim.