Advento das Três Calamidades

Capítulo 771

Advento das Três Calamidades

A atmosfera congelou.

Era quase como se o tempo tivesse parado por completo.

A mudança foi perceptível à medida que o olhar de Delilah lentamente se voltou na minha direção. Seus olhos, que antes tinham se aquecido, de repente ficaram diferentes. Isso fez meu coração gelar, mas eu sabia que não podia deixar que aquilo me afetasse.

Eu tinha que ser sincero.

Não apenas porque eu queria, mas porque era necessário.

Pelo meu futuro.

"Se eu fosse—"

"Não é brincadeira."

Delilah me interrompeu, seu corpo se afastando levemente de mim.

Eu não a segui e apenas mantive o olhar nela enquanto ela recuava alguns passos, mantendo o foco em mim.

"Isso não é brincadeira."

Ela repetiu.

O que eu só podia fazer era sorrir para ela.

"...Sei que não é."

Por um instante, seus olhos tremularam e se cobriram de um gelo congelante. Não dei muita atenção a isso e apenas direcionei meu olhar para a lua distante.

"Tenho certeza de que você suspeitava há um bom tempo que algo estava errado comigo. Você nunca disse nada a respeito, mas sempre ficou de olho em mim. Eu sei disso."

"Pare."

"...Tenho certeza de que também sabe que este não é meu corpo verdadeiro. Que sou uma alma externa que entrou e tomou conta da entidade conhecida como Julien Dacre Evenus. Você provavelmente percebeu isso há algum tempo, só não falou nada. Eu consegui perceber."

Provavelmente, isso aconteceu naquela época em que meu corpo foi possuído pelo 'Julien' na escola, após o incidente com o Papa.

Senti uma mudança sutil nela, mas não era algo óbvio.

Agora ficou claro para mim que esse foi provavelmente o momento em que ela percebeu a verdade pela primeira vez.

"Ainda há pouco tempo descobri a verdade também. Provavelmente há alguns anos. Queria ter te contado, mas..."

Sorri de lado, apoiando as mãos na grade e recostando-me.

"Não tinha certeza se era uma boa ideia, considerando o estado em que você estava há pouco tempo. Com seu ódio pelos deuses e tudo que eles fizeram com você, parecia mais do que justificado."

De verdade...

"Eu não te culpo se quiser matar todos os deuses. Eu mesma tenho tentado fazer isso."

Ela não falou nada.

Nem uma palavra.

Simplesmente me encarou com seus olhos negros e frios.

Eu não sabia exatamente o que ela pensava, mas estava preparado para qualquer coisa. Mesmo que tentasse me matar ali mesmo, eu estaria pronto. Já tinha feito todas as simulações na cabeça e cheguei à conclusão de que não tinha escolha a não ser revelar toda a verdade.

Percebi também por que, até então, Sithrus tinha mantido ela viva.

'Embora diga que a "descartou", ele ainda mantém a esperança de que algo mude no futuro.'

A confiança absoluta dele em sua força era o que o levava a subestimar a força dela.

De alguma forma, Delilah era uma peça-chave.

... Uma chave para ferir os Seres Externos.

"Eu—"

"Você sabia?"

Antes que eu pudesse dizer algo, a voz de Delilah quebrou. Apesar de estar firme, sob a calma, pude perceber um leve tremor disfarçado na sua fala.

"Eu... sabia o quê?"

"Que aconteceu comigo?"

"....."

Não consegui responder. Poderia ter dito que sim? Talvez. Mas não conhecia os detalhes — só tinha acabado de descobrir recentemente.

"...De certa forma—!?"

De repente, uma pressão terrível envolveu tudo ao redor. Foi tão forte que, por um momento, quase esqueci como respirar. Se não fosse o fato de Delilah não estar tentando me matar, provavelmente eu teria morrido ali mesmo.

"Você sabe?"

Abri a boca, tentando dizer algo para acalmar a situação, mas no fim, apenas assenti com a cabeça.

"...Sim."

O rosto de Delilah se contorceu, e pela primeira vez, vi uma expressão repleta de ódio de verdade. Meu coração parecia parar, e o mundo ao meu redor congelou por completo.

Mesmo assim, apesar de tudo estar tomando um rumo tão sombrio, não entrei em pânico.

Eu sabia que não precisava me desesperar.

Logo, tive minha certeza confirmada à medida que a expressão de Delilah continuava mudando — de ódio para confusão, depois tristeza e, por fim, silêncio.

"....."

No fim, ela simplesmente parou de se mover.

Eu sabia que era minha hora de falar.

"Só descobri recentemente. Na Dimensão do Espelho, quando conversei com Panthea."

Cabeça de Delilah tremeu. Ela provavelmente tinha conhecimento da presença de Panthea na Dimensão do Espelho, ou pelo menos uma suspeita.

"Ela não me disse explicitamente que era você, mas não foi difícil descobrir. Ela também não sabe minha verdadeira identidade, pois nunca a revelei — nem tinha os meios necessários para ser reconhecido como Oracleus."

Já vinha pensando nisso há algum tempo. Sobre o motivo de ter que morrer e doar meu sangue. Uma das razões era Sithrus, outra provavelmente era para que eu evitasse levantar suspeitas por parte de Panthea.

Sobre minha verdadeira identidade e meu objetivo.

Tudo tinha sido planejado com antecedência para que aquilo não acontecesse.

'Se eu não for o traidor, e o mesmo for verdadeiro para Noel, então faz sentido. Provavelmente foi feito para permanecer cauteloso com os outros deuses. Não há ninguém em quem eu possa confiar entre os seis, além de Noel.'

Mas esses eram pensamentos para depois. Agora, não havia nada mais importante do que a mulher à minha frente, então dei um passo à frente.

No entanto, assim que o fiz, Delilah recuou.

Ela balançou a cabeça, e minhas mãos caíram.

Abri a boca, pronto para dizer algo, mas ela me derrotou.

"É isso que você quis dizer antes...?"

"Sobre?"

"Sobre ser difícil estar ao seu lado."

"Ah..."

Abri a boca, fechei por um instante e depois assenti.

"Sim."

Exatamente por isso é que eu tinha dito aquilo. Estar comigo não seria fácil. Na verdade, provavelmente seria incrivelmente difícil.

"Tenho muitas coisas pesando sobre mim no momento. Uma parte do meu passado voltou à tona. Uma que não consigo evitar, mesmo tentando."

"O que você quer dizer?"

Sorri para Delilah. Ou pelo menos, tentei sorrir.

Apesar de meus esforços para consolá-la, tudo o que consegui foi uma desculpa fraca para acalmá-la.

"...Vou partir em breve."

"Partir?"

O rosto de Delilah mudou. Sua expressão tensa se esvaziou, dando lugar a uma preocupada.

"Para onde vai? Por quanto tempo...?"

Sua voz acelerou a cada pergunta, como se ela entendesse que a razão de tudo aquilo não era apenas minha vontade de sinceridade, mas que eu iria me despedir dela.

"Você não vai..." Delilah parou, mordendo os lábios de forma firme enquanto seu exterior frio começava a desaparecer. "Você não vai—"

"Eu não vou morrer."

Reforcei com um sorriso, agora mais sincero.

"Só estarei ausente por um tempo."

"Por quanto tempo...?"

"Não sei. Provavelmente um bom tempo."

"Quanto tempo é um bom tempo?"

"Um ano? Dois anos? Talvez mais..."

Eu mesmo não sabia direito. Gostaria que fosse menos, mas não tinha certeza. Era algo que não podia escapar. Na verdade, era mais uma questão de destino.

Algo que eu tinha que fazer, independentemente da minha vontade.

"Tanto tempo assim?"

"Tanto tempo."

Assenti, e tudo ao redor entrou em um silêncio absoluto. Delilah permaneceu completamente imóvel, com a expressão distante, quase sem sentimento. Fiquei observando por um momento e dei um passo adiante. Dessa vez, diferente de antes, ela não se moveu.

Mais um passo, chegando mais perto dela.

E então outro, e—

Fiquei bem na sua frente, envolvi meus braços ao redor do corpo dela e a aproximei de mim.

Ela não resistiu, e aquilo foi tudo o que eu precisava.

De algum modo, essa era a maneira dela mostrar que estava disposta a esperar. Enquanto a segurava perto, tentando memorizar a sensação, a voz suave de Delilah sussurrou no meu ouvido:

"Você é egoísta."

Parei, com dúvidas de como responder. Mas então, assenti.

"...Sou mesmo."

"Você é um mentiroso."

"Sou."

"Você—"

Seu corpo tremeu, seus braços se enrolaram nas minhas costas, apertando com força igual à minha. Repliquei seus gestos, aproximando mais seu corpo ao meu enquanto senti meu peito se apertar. Não de alegria, mas de dor.

Eu não queria partir.

Eu não queria deixar ela. Ainda mais agora, que tínhamos acabado de consolidar nosso vínculo.

Mas... era preciso.

Esse era o nosso momento de despedida.

Quando puxei minha cabeça para trás, nossos olhos se encontraram pela última vez, e, em instantes, nossos lábios se tocaram novamente.

Nos entregamos ao prazer mais uma última vez.

***

Clank—!

Delilah fechou a porta silenciosamente e permaneceu imóvel, sem se mexer. Sua face estava fria, sem emoção alguma, enquanto seus olhos piscavam com algo indecifrável.

Já fazia pouco tempo que Julien havia saído, mas a cada minuto que passava, ela sentia suas emoções se esvaindo, escuras, se transformando em uma frieza vazia. Seu corpo tremia, e ela compreendia exatamente o que estava acontecendo.

'Estou prestes a atingir o Pico.'

A barreira que bloqueava seu caminho há tanto tempo começou a se romper.

Fazendo alguns passos para dentro da sala, Delilah parou. Por um breve momento, seu coração apertou. Uma enxurrada de lembranças voltou, inundando sua mente e se instalando em seu peito enquanto ela tremia.

Na verdade, ela ainda tinha dificuldade em aceitar as palavras de Julien. Ela... não queria acreditar nelas. Como poderia ele ser Oracleus? Um estudante... alguém que ela via há anos. O homem que conseguiu conquistar seu coração.

Mas quanto mais pensava, mais a possibilidade parecia real. Pouco a pouco, os pontos iam se encaixando, esclarecendo tantas de suas ações passadas.

No último momento entre os dois, ele tentou explicar um pouco do seu passado, mas Delilah o interrompeu antes que pudesse continuar.

Ela ainda não estava pronta para ouvir. Ainda não.

No estado que estava, segurando o peito, com o rosto ficando cada vez mais pálido, ela não conseguiu segurar a dor. Cobriu a boca com a mão tremendo, tentando conter as lágrimas.

'Não, não é culpa dele. Ele não mentiu pra mim.'

Delilah murmurou para si mesma, tropeçando em direção à cama.

'...Mesmo que seja, está claro que não foi ele quem fez isso! Ele é um mentiroso, mas tinha boas razões para não contar.'

'Eu posso matar os outros. Não preciso matar ele.'

'Posso. Posso...'

"Eu..."

As mãos de Delilah tremiam intensamente, os olhos molhados. Uma dor esmagadora e sentimento de culpa encheram seu peito enquanto ela cambaleava em direção à cama, deixando lágrimas quentes escorrerem pelas bochechas.

"H-Há."

Seu peito tremia também.

Ela... também não foi completamente honesta.

Sua ódio pelos deuses não vinha apenas do fato de odeá-los pelo que fizeram com ela.

Não...

Na verdade, a morte deles significava sua sobrevivência.

Ela não podia viver se todos eles morressem. Por isso, eles precisavam morrer.

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