
Capítulo 770
Advento das Três Calamidades
Todo o salão ficou em silêncio.
Todos os olhares estavam fixos no casal que se encontrava no centro.
Embora nem o casal nem o Duque tenham dado uma confirmação oficial, a cena diante deles era mais do que suficiente para revelar quem era o verdadeiro noivo.
Era ninguém menos que Julien Dacre Evenus, da Família Evenus.
Simples filho de um Conde.
A notícia foi explosiva, mas ninguém teve coragem de se mover sequer um músculo naquele momento. A tensão manteve o ambiente imóvel até que o casal em questão finalmente se retirou. Só depois que eles saíram é que o lugar realmente explodiu.
— O quê?!
— ...Como assim?!
— O filho de um Conde?!
— Eu...
Primeiro veio o impacto.
Todos esperavam que o noivo fosse alguém de alta nobreza. Alguém mais próximo da idade dela, com uma reputação que pudesse competir com a dela, e—
— Agora que penso nisso... faz sentido.
— Ele pode ser filho de um Conde, mas a Família Evenus é uma das mais prósperas.
— Não só isso, mas ele também é incrivelmente forte e ainda bastante jovem. Ganhou o Summít e provavelmente é o mais forte de toda a sua faixa de idade.
— E a aparência dele também...?
De repente, todos perceberam que as qualificações de Julien realmente o tornavam um parceiro digno para ela. Ele não era apenas extremamente bonito, mas também excepcionalmente poderoso. Como um mago de nível 7, ele se classificava entre os mais fortes do mundo.
E ainda estar na casa dos vinte anos...?
Mais do que sorte dele, o que provavelmente aconteceu foi que o próprio Duque tinha tido sorte.
Embora houvesse uma diferença de idade entre eles, isso pouco importava considerando as expectativa de vida das pessoas no nível de poder deles. Poderiam facilmente viver duzentos, talvez até trezentos anos.
Uma diferença de oito anos quase não fazia diferença.
— Agora que penso nisso, provavelmente ele é mais forte do que a Delilah era na idade dele. Será que ele poderia...?
— Isso não é muito relevante. O que importa não é a velocidade, mas o quanto se consegue subir.
— Isso mesmo. Muitos ficam presos na mesma etapa por anos, nunca chegando à próxima.
— Sim, mas isso não é o que mais me preocupa...
De repente, uma tensão sufocante espalhou-se pelo ambiente. Dezena de olhares convergiram para uma única figura, cuja cabeça estava baixa, mandíbula tão cerrada que parecia que seus dentes iam se partir sob a pressão.
O burburinho morreu rapidamente ao olharem para o Príncipe.
Foi nesse momento que muitos perceberam a essência da situação.
Julien...
Ele era bastante conhecido por fazer parte do acampamento de Aoife. Tinha lutado no Rito contra o Príncipe, essa informação era de domínio público. Mas, se Julien, que agora havia sido revelado como noivo de Delilah, permanecia no campo de Aoife, então…
'O equilíbrio de poder virou a favor da princesa!'
Todos os olhares logo se voltaram para Aoife.
E, mesmo sob o peso de todos esses olhares, Aoife não reagiu. Ela não conseguia. O choque era grande demais, deixando-a completamente paralisada, incapaz de responder.
Ela não era a única.
Kiera e Evelyn também estavam do mesmo jeito.
As três permaneciam com expressões de espanto, seus olhares fixos no mesmo lugar onde Julien estivera momentos antes.
O único que parecia surpreso era Leon, que segurava a lateral da mesa onde estava a comida, com uma mão no pescoço.
— Ugh...! Gahk!
Ele fazia sons estranhos de engasgo.
Seu rosto estava extremamente vermelho.
— Meus olhos... — murmurou, tossindo várias vezes.
Ninguém deu muita atenção a ele, focando principalmente na Princesa. Felizmente, ela conseguiu sair do choque rapidamente ao perceber seu entorno.
De imediato, ela adotou uma expressão profissional, absorvendo os olhares, mas antes que alguém pudesse se aproximar, a voz do Duque ecoou por todo o ambiente.
— Parece que ninguém conseguiu convencer minha filha a mudar de ideia. No fim, acabamos ficando com o noivo original. É uma pena, mas é o melhor para todos. Estou bastante satisfeito com meu atual genro.
O ambiente voltou ao silêncio, mas por um motivo diferente. Se a cena anterior já tinha sugerido a identidade do noivo, no momento em que o Duque proferiu a palavra “genro”, todas as dúvidas desapareceram.
Por outro lado, dúvidas também surgiram na cabeça de todos que estavam presentes.
Se ele tinha tanta certeza sobre seu genro, por que criar uma cena dessas? Por que dar a chance de todos ali presentes tocarem a mão dela?
Foi algo feito simplesmente por diversão...? Ou havia uma razão mais profunda por trás da ação?
Todos olhavam desconfiados para o Duque. E, no entanto, o homem em questão parecia completamente indiferente, começando a conversar com as demais pessoas, como se nada tivesse acontecido.
No final, apesar da curiosidade de todos, ninguém conseguiu descobrir a verdade.
A festa continuou assim.
***
Tudo parecia uma massa de fumaça na minha cabeça.
Eu não sabia o que aconteceu comigo... Não, eu sabia exatamente o que tinha feito. Estava consciente disso, e fiz tudo direitinho.
O que veio depois é que parecia tudo embaçado.
Antes que percebesse, estava em um lugar completamente diferente.
A brisa fresca que soprava no ar me tirou do torpor. Olhei ao redor e percebi que estava numa varanda espaçosa, iluminada pela luz da lua acima. Dentro do brilho da lua, um fio de cabelo preto flutuava ao ar enquanto eu direcionava minha atenção à figura que se iluminava sob a luz prateada.
Não tinha prestado atenção direito nela por tudo que aconteceu, mas, agora, ao observá-la, não pude deixar de ficar em estado de êxtase novamente.
Desde os cabelos sedosos até o sorriso suave, e a forma como seus fios negros, como obsidiana, enquadravam seu rosto enquanto ela contemplava a distância, sob a luz da lua...
Tudo nela... Eu simplesmente fiquei obcecado.
— Não posso acreditar que alguém como ela é minha noiva.
Jamais pensei que conseguiria ter uma namorada na minha vida, quanto mais uma noiva. Sentia-me ao mesmo tempo feliz e triste.
Feliz por algo assim ser possível, e triste pelo... que ainda viria.
Nem uma palavra que eu tinha dito anteriormente era mentira.
Gostar de alguém como eu não era fácil.
O mesmo valia para ela. Gostar de nós dois não era algo simples. Carregávamos nossas próprias cargas, e, ao pensar no que ela passou recentemente, um peso pesado caiu sobre meu coração.
— O que você está pensando?
Como se percebesse minha agitação interior, a voz suave de Delilah soou no ar. Eu me virei para ela, coçando o rosto enquanto me apoiava na grade de mármore, olhando para a lua de forma distraída.
— Muitas coisas...
— Como quê?
— Sobre que chocolate comprar. Por que minha noiva é tão bonita. Quão sortudo sou por estar com ela, e—!?
Antes que pudesse terminar de falar, duas mãos tamparam minha boca. Surpreso, olhei para ela, que pressionava as mãos contra meu rosto, com a cabeça levemente virada. Levantei as sobrancelhas confuso, mas só percebi o quão vermelho estavam suas orelhas ao notar o sorriso tímido dela.
Essa garota...
Recolhi as mãos.
— Você que sempre dizia para eu chamá-la de linda, não é?
— ......
— Eu estou chamando de linda. Muito linda. Por que você ficou tão envergonhada de repente?
— .....
Sorrindo, percebi.
— Isso...
Ao ver ela virar mais e mais a cabeça longe de mim, não resisti e me aproximei, sussurrando bobagens como: ‘Você é realmente muito bonita, sabe? Muito bonita. A mais linda no mundo—!’
Minhas palavras foram silenciadas novamente quando Delilah pressionou a mão contra minha boca.
Sorrindo, achei que ela estava fazendo isso por timidez. Mas...
Soco!
De repente, ela segurou firmemente o queixo, inclinando-o na minha direção com força.
— ...!?
Meus olhos se arregalaram, mas antes que pudesse pensar em algo, seus olhos frios me encararam, piscando de forma intensa.
— Não estou envergonhada.
Foi o que ela disse, mas suas orelhas estavam vermelhas.
— O...k.
— Não estou.
— Sei disso.
Os olhos de Delilah brilharam mais uma vez. Senti a temperatura diminuir, uma baqueada gelada subiu pela minha coluna. Finalmente, os lábios dela se curvaram em um sorriso enquanto ela aproximava sua cabeça ainda mais de mim.
Bat... Bum! Bat... Bum!
Ouvi os batimentos acelerados do meu coração dentro de mim enquanto ela se aproximava, com o rosto a poucos centímetros do meu.
— ...Estou só me segurando pra não perder o controle.
— —!?
Puft!
Meus pensamentos se dispersaram, uma sensação de formigamento tomou meu rosto. Fiquei imóvel, completamente atordoado, enquanto Delilah me observava, seu expressão passando de um sorriso divertido para uma curva lentamente sedutora nos lábios.
E então—
— Minha vez.
Ela inclinou a cabeça para frente, e senti um toque suave nos meus lábios.
Fiquei congelado por um momento, depois respirei fundo, fechando os olhos ao sentir seu calor. A proximidade do corpo dela e o toque delicado de suas mãos me fizeram arrepiar. Antes que percebesse, estávamos nos segurando, perdidos na intensidade silenciosa daquele momento.
Senti uma euforia que nunca tinha experimentado antes, desejando mais e mais essa sensação enquanto nos perdíamos nela.
Não sabia quanto tempo ficamos assim, mas, quando ambos recuamos, nossas respirações estavam pesadas e os olhos de Delilah, ainda com aquele brilho obsidiano, tinham uma névoa que fazia meu sangue ferver.
Queria tanto puxá-la para dentro comigo, mas segurei isso.
Olhei para ela e estendi minha mão enquanto ela se inclinava mais perto, e as nossas mãos e olhares se fixaram na lua distante.
Silêncio tranquilo, porém cheio de paz, persistiu no ar enquanto ficamos assim por vários minutos.
Quando finalmente nos acalmamos e percebemos o que tinha acontecido, pelo menos dez minutos tinham passado, e eu me peguei sorrindo.
— Não foi pouco.
— ...Nem um beijo rápido.
Delilah respondeu, com a calma voltando ao rosto. Eu a atraí para perto de mim, sentindo o calor do corpo dela e guardando isso na memória.
Enquanto fazia isso, o sorriso e a felicidade que senti momentos atrás começaram a desaparecer.
Ao invés disso, um peso pesado se instalou sobre mim ao olhar para Delilah. Percebendo a mudança no meu jeito, ela me olhou nos olhos enquanto eu fechava os meus, tentando me segurar.
Depois de abrir novamente os olhos, olhei para ela.
Apesar de meus esforços, não consegui esconder. A tristeza que tentei manter trancada enquanto meu peito tremia.
— E se eu te dissesse... —
Parei, mordendo os lábios.
Provavelmente, foi a coisa mais prejudicial que poderia ter dito naquele momento. Depois de tudo que passamos, o que eu estava prestes a fazer poderia destruir para sempre a conexão que começávamos a construir.
Mas—
Precisava ser feito.
— O quê? Como assim—?
— E se eu te dissesse que sou Oracleus? Você ainda tentaria me matar?