
Capítulo 767
Advento das Três Calamidades
O local começava a encher.
Podia ver várias caras conhecidas entrando no lugar. Seja de dentro deste Império ou de outros Impérios.
Ninguém parecia querer perder esse momento da notícia.
"H-hoo."
Eu me recostei na cadeira, sentindo a dor persistente na nuca.
Não estava fazendo isso porque quisesse.
Esse passo era algo que eu precisava dar. Era imprescindível.
"...Deve estar bom o suficiente para ficar de pé."
Com um movimento da mão, coloquei tudo no lugar e levantei-me, cambaleando alguns passos até me estabilizar. Virei-me para o espelho mais próximo e olhei minha própria imagem, fazendo uma pausa.
'Caramba, estou uma droga.'
Com o cabelo grudado na testa e a pele visivelmente pálida, eu parecia horrível.
Parecia que tinha acabado de sair de uma febre alta.
Cheirei a mim mesmo.
'Graças a Deus, não cheiro mal.'
Era importante que eu não estivesse fedendo nesse momento. Não me importava tanto com a aparência, pois sabia que ficaria bem rapidinho, mas definitivamente não podia ter mau cheiro.
"Humano..." Nesse instante, várias figuras apareceram na varanda do cômodo. Ao virar a cabeça, vi um gato, uma coruja e um caranguejo.
O sorriso surgiu ao ver aquilo.
Que combinação.
"Vocês estão aqui."
Tinha passado um tempo desde a última vez que os vi todos juntos. O Coruja-Poderosa e Wobbles estavam fazendo suas próprias coisas ultimamente. Especialmente Wobbles, que tinha saído por todo o Império explorando o mundo.
Como era forte, não me preocupava com sua segurança.
"...Vocês nos chamaram? Aconteceu alguma coisa?"
"Não, nada demais. Só queria ver vocês três."
"....?"
"??"
"O humano está bem?"
Pude perceber a confusão estampada na face deles ao me olharem. Era uma cena bastante divertida.
Empurrei os cabelos para trás e caminhei até a varanda, apoiando-me na pedra de mármore fria. A brisa noturna passou por mim enquanto observava as pessoas se aglomerando lá embaixo, entrando no local.
"Já faz um tempo que conheço vocês três. Talvez não tanto com Wobbles, mas com o Coruja-Poderosa e Pebbles, faz tempo que não nos encontramos."
Recordei do passado. Do Dragão que um dia aterrorizou a pequena cidade de Ellnor e depois quase corrompeu minha mente toda, dos três que criaram uma ilusão e quase me devoraram junto com todos que estavam ali dentro.
Pensando em como conheci os dois, não pude deixar de tremer levemente.
"Vocês quase me mataram..."
"....."
"....."
Um silêncio constrangedor se instaurou, rompido apenas por uma risada silenciosa minha e meu olhar fixo na lua distante.
Por alguma razão, me senti em paz naquele momento.
Não estava nervoso com o que viria ou com o grande anúncio. Apenas sentia tranquilidade.
"Preciso que vocês três me façam um favor."
Os três ficaram quietos, mas eu percebi na silência deles que tinham captado algo na minha linguagem corporal.
De certo modo, era minha despedida deles.
"...Provavelmente estarei fora por um bom tempo."
Antes que algum deles pudesse dizer alguma coisa, continuei.
"Não sei exatamente por quanto tempo, mas ficarei ausente por um tempo. Enquanto isso, quero pedir um favor de vocês."
Desviando o olhar da lua, finalmente olhei para os três.
"Quero que vocês entrem na Dimensão do Espelho e fiquem o mais longe possível do mundo principal. Não sei por quanto tempo, mas aviso quando for seguro vocês voltarem. Este lugar..." pausei, meu peito apertando, "...vai mudar bastante. É melhor que não estejam aqui quando isso acontecer. Focam em fortalecer-se. Se puderem, auxiliem a An'as ou a Anne. Tenho certeza de que elas vão receber vocês bem. Quando chegar a hora, encontrarei cada um de vocês. Prometo."
Achava até engraçada a forma que estava falando. Parecia que eu ia morrer e não voltaria mais. E a verdade era bem ao contrário. Eu não ia morrer, nem ia desaparecer de verdade.
Na verdade, tudo provavelmente se resolveria em poucos minutos para mim.
Mas aí é que está o problema...
Isso valia só para mim.
Segurando a grade e inclinando-me para trás, fechei os olhos suavemente. Aproveitei o silêncio e a brisa até abrir novamente.
"Tem mais uma coisa."
Abri os lábios, entregando minha última ordem a eles.
"...A não ser que saibam que sou eu, nem pensem em falar comigo."
***
"Que surpresa te ver aqui, Princesa."
Assim que Aoife entrou no local, com candelabros iluminando o piso de mármore polido, ela foi imediatamente cercada pelos nobres. Mordomos e damas de companhia circulavam ao fundo, servindo bebidas e petiscos aos convidados.
"É uma grande honra estar na sua presença, Princesa."
"...É um prazer vê-la, Princesa."
Aoife sentiu um sentimento de náusea ao notar os sorrisos dos nobres ao redor. Pareciam tanto falsos quanto desagradáveis.
E, mesmo assim, ela não demonstrou seu desgosto.
Ao contrário, sorriu para cada um, interagindo individualmente. Se fosse a antiga ela, provavelmente os teria desprezado com um risquinho frio, mas agora ela era diferente.
Ao contrário do passado, não podia dismissar ninguém.
Não era só uma questão de aparência; cada nobre, por mais insignificante que parecesse, carregava um potencial benefício na batalha épica pela coroa.
Ela simplesmente não podia desprezar ninguém. E, por isso, se encontrava numa situação bastante delicada.
Felizmente, em momentos de necessidade, havia algumas pessoas que podiam ajudá-la.
"Droga!"
Quando foi ver, vinho derramado no chão.
"Hiak!"
Mais vinho espirrou, molhando os vestidos de vários nobres presentes. Imediatamente, todos voltaram a olhar para a garota de cabelo branco, que ficou congelada no lugar, com os olhos fixos numa nobre cujo vestido tinha ficado encharcado de vinho.
"Eu..."
Kiera se desculpou rapidamente.
"...Desculpe, achei que você estava tentando tocar minha bunda. Foi um reflexo."
Aoife se segurou para não rir com as palavras da garota, aproveitando a oportunidade para se afastar discretamente. No final, encontrou um canto mais reservado, onde uma mecha de cabelo roxo apareceu na visão dela.
"Vocês duas me salvaram aí..."
"Hã?"
Evelyn piscou e olhou para Aoife, dando uma mordida lenta no petisco na mão. Então, ao notar Kiera lutando para ajudar uma nobre a ficar de pé, ela percebeu a situação, assentiu e falou com a boca cheia:
"Oba. Sem problema."
"...."
Então ela não ajudou...
Aoife sentiu uma vontade enorme de dar um tapa na Evelyn, segurando-se ao máximo para não perder a paciência enquanto olhava ao redor. Seus olhos terminaram fixos em uma figura conhecida, e, como se também sentisse a presença dali, Leon começou a se aproximar deles.
O rosto dele não parecia estar muito bom, mas, ao chegar perto, conseguiu forçar um sorriso.
"Como você tem estado?"
"...No melhor que posso. As coisas melhoraram um pouco depois que Julien venceu o Rito, mas também fiquei mais ocupado."
O Rito deu uma chance para ela. Uma pequena brecha que ela poderia usar para ganhar terreno na batalha pela sucessão. Era só isso.
Não avançava ela, só criava a possibilidade de avanço.
Se ela não aproveitasse, a vantagem desapareceria.
Por isso ela tinha se ocupado tanto. Passava todo o tempo aproveitando a oportunidade que tinha. Essa também foi a principal razão de o Império estar tão quieto no último mês ou mais. Era por causa das batalhas secretas entre ela e o irmão dela.
"Graças a Deus, consegui aproveitar a oportunidade que tive. Ainda tenho muito a fazer, mas não posso perder essa chance."
Aoife ficou extremamente séria ao falar.
"Esse momento pode mudar o futuro. Preciso estar alerta e tentar convencer o noivo. Se conseguir colocar a Casa Rosemberg ao meu lado, a batalha pela sucessão praticamente acaba."
Seus punhos cerraram enquanto falava, o coração batendo forte sob a pressão do momento.
Ela não podia deixar essa chance passar.
Era um ponto crucial para o desfecho da disputa.
Vendo ela daquele jeito, os lábios de Leon se torceram. Se ela soubesse...
"Agora que penso nisso, alguém sabe quem é a misteriosa noiva?" Aoife perguntou, e Evelyn comentou, enquanto Leon cerrava ainda mais os lábios.
Aoife balançou a cabeça.
"Não, ainda não saiu nada. Tentei descobrir, mas não obtive sucesso. Parece que o Duque quer manter tudo em segredo. Quem quer que seja, deve ser forte, poderosa, e talvez na mesma idade dela ou mais velha. Chequei vários nomes, e alguns se destacaram. Já entrei em contato com eles para fazer ligações. Prefiro prevenir do que remediar."
O rosto de Leon se contorceu algumas vezes, percebendo o que eles não sabiam...
"De qualquer forma, seja quem for, ele é alguém que precisamos ter do nosso lado a qualquer custo."
Os três continuaram conversando, até que Kiera entrou na roda, mantendo o diálogo ativo. Aoife e os demais também perguntaram sobre Julien, mas Leon apenas deu de ombros: "Provavelmente está doente."
Na verdade, ele também não sabia ao certo.
Estava tão curioso quanto eles, mas ao lembrar da conversa recente, seu coração ficou pesado.
Seus instintos ainda gritavam por atenção, mas, tendo prometido a Julien agir como se nada tivesse acontecido, só podia seguir em frente.
Mesmo que isso estivesse corroendo sua mente a cada segundo.
E então—
"Sejam todos bem-vindos."
Uma voz se ergueu pelo local, capturando toda atenção. De repente, um homem apareceu no centro, com um cabelo branco marcante e traços ágeis e simpáticos, dominando a cena.
Com um sorriso que parecia nem gentil, nem de preocupação excessiva, a mirada de Orson percorreu o ambiente.
Uma quietude pesada e sufocante tomou conta.
Naquele instante, todos prenderam a respiração ao olhar para o Duque.
Seu presença sinalizava o início do anúncio.
O motivo de estarem ali, e o poder de abalar as fundações do Império.
Sentindo o peso do momento, Orson sorriu.
'...Eu quero ver a cara que eles vão fazer ao descobrir quem é.'
Já conseguia imaginar, enquanto os lábios dele se curvavam ainda mais. Por alguma razão, ele começava a gostar do que via.