Advento das Três Calamidades

Capítulo 756

Advento das Três Calamidades

“Isso é bem complicado. Não tenho muito tempo até o anúncio. Talvez eu queira resolver isso logo, mas...”

Olhando para o velho e vendo o quão obstinado ele era em não querer fazer nada com o anel, de repente comecei a me afeiçoar àquela versão estranha de Caius.

“Talvez eu também devesse...”

Não, isso não era o mais importante.

Afastei esses pensamentos da cabeça e olhei para o anel no meu dedo. O velho tinha me alertado que algo estava errado com ele, mas, por mais que eu examinasse de perto, o anel parecia absolutamente comum.

Eu o tinha usado tantas vezes, e nem uma única vez senti algo de errado com ele.

Voltei minha atenção ao velho novamente. Ele parecia ter voltado a focar nos materiais mais uma vez.

“Você pode me dizer exatamente o que há de errado com esse anel? Você mencionou algo sobre ele estar contaminado por uma substância. Que tipo de substância é essa?”

Um determinado pensamento passou pela minha cabeça.

Não poderia ser—

“Eu não sei.”

Respondeu o velho, enquanto colocava uma das rochas de lado e pegava outra.

Franzi a testa.

“Mas você—”

“Só porque eu não sei não significa que não possa sentir. Tenho olhos bastante afiados. Consigo perceber na hora quando algo está errado com um objeto. Esse anel no seu dedo não é algo que um humano deveria ter. Deixe-me repetir: jogue fora antes que seja tarde demais.”

“.....”

Desde aquele momento, não soube como responder.

Gentilmente, voltei minha atenção para o anel e puxe a lábios. Jogar fora?

Como se pudesse realmente fazer isso...

Esse anel não era apenas útil, mas extremamente importante para mim. Se eu jogasse fora, não teria escolha senão procurar um bom túmulo para mim.

“Não posso fazer isso.”

“...Que pena.”

O velho não parecia nem um pouco surpreso com minha decisão. Parecia mais indiferente do que eu esperava.

“Se precisar de algo mais que precise ser consertado, pode trazer os itens para a recepção. Tenho certeza de que irão seguir suas ordens. Se for só isso, quero que todos vocês saiam.”

“.....”

Olhei por mais um tempo para as costas do velho antes de assentir. Era claro que tudo que eu dissesse simplesmente passaria de uma orelha à outra. Ele não tinha interesse em ouvir.

'Que pena. Acho que vou ter que pensar em outra solução.'

Na verdade, não planejava forçar a mão dele.

Virando-me para sair, estava prestes a ir embora quando Leon falou.

“Você falou que pessoas deste Império pediram pra você consertar dois artefatos malignos. Você por acaso tem problemas com eles?”

“.....”

O velho fez uma pausa nesse momento.

Olhei para ele e, embora não pudesse ver sua expressão, percebi que ela estava bastante sombria neste instante. Quase bati na minha própria perna ao me dar conta enquanto olhava para Leon e lhe dei um polegar secreto.

‘Certo, certo... Talvez...’

“De fato, estou preocupado com isso, mas não espere que eu ajude você mesmo que você me ajude. O máximo que farei será forjar uma relíquia nova pra você. Como já disse, não quero nada a ver com esse artefato, e...”

E...?

O velho nunca terminou a frase. Ele apenas fechou a boca e virou o rosto na direção de Leon.

“Só vim porque eles solicitaram. Prometeram uma boa recompensa por consertar alguns artefatos. Eu tinha acabado de sair do Império Verde e vim direto pra cá, sem saber o que me esperava. Mas, assim que vi quais artefatos eles queriam restaurar, tentei partir na hora... só para perceber que não podia.”

Um sorriso zombeteiro desfigurou as feições do velho.

“...Eles não exatamente me detiveram, mas também não me deixaram partir. Agora estou preso aqui, fazendo o que quero, mas sendo constantemente perturbado por aqueles bastardos.”

Com o olhar fixo em Leon, seus olhos abaixaram e pararam na sua espada.

“Se você me ajudar, esqueço uma boa espada pra você. Que acha? Posso garantir que será bem melhor do que a que você tem agora.”

“Fechado.”

Leon não hesitou em concordar.

Minha boca se abriu formando um “O” bem grande logo após isso. Quem ele achava que era—

“Ótimo. Me entregue sua espada. Vou dar uma olhada nela.”

Leon não demorou a lançar a espada ao velho, que a pegou com suas mãos grandes e a abriu. Depois de um tempo, ele assentiu, voltou ao seu posto de trabalho.

“Volte mais tarde. Vou analisar a espada e criar um molde que seja o mais adequado pra alguém como você.”

“...Obrigado.”

Satisfeito, Leon virou-se de novo sob meu olhar enquanto saía do local. Linus o seguiu obedientemente atrás dele, enquanto eu permanecia no mesmo lugar, sem saber ao certo como reagir.

Isso...

“Você tem um bom mestre.”

Meus olhos se arregalaram ao ouvir a voz do velho. Ele nem olhava pra mim.

“...Que pena que você não é um cavaleiro muito bom. Não deveria estar seguindo ele agora mesmo?”

Xinguei mentalmente—

*

O ar ficou muito mais fresco assim que saímos do lugar.

Não parecia mais tão insuportável.

“Sabe o que ele falou?”

“Não, nem estou interessado. Estou pensando em encontrar uma maneira de ajudar o velho. Talvez devesse falar com meus pais? Eles podem ajudar.”

“.....”

Observei enquanto Leon pegava um dispositivo de comunicação do bolso e começava a enviar uma mensagem para seus pais.

Isso...

Me soou como uma fraqueza.

“É óbvio que o velho não pretende ficar, nem ajudar eles. Se meus pais informarem ao Imperador que precisam do serviço dele, tenho certeza de que ele poderá partir. Ninguém arriscaria estragar a relação entre dois Impérios por causa de um ferreiro, por mais habilidoso que seja.”

Quanto mais ouvia Leon falar, mais meu cérebro rodava.

'Realmente parece uma trapaceada.'

“Ok, enviei. Devemos receber boas notícias em breve.”

Leon guardou o dispositivo de comunicação e me notou finalmente.

“O quê?”

Nem consegui falar nada.

Não sabia o que dizer.

“É óbvio que ele não vai ajudar você. Então, eu tomo a frente. Vou pegar uma espada melhor e o favor é bem fácil. Você não vai me culpar por aproveitar a oportunidade, né?”

Embora dissesse isso, seus olhos diziam algo diferente: ‘Você não vai ser insensível, né? Não vai ser um tirano, né? Claro que vai concordar, né?’

Fechei os olhos e suspirei.

“Não vou.”

Para nós dois, era evidente que o ferreiro não tinha planos de ajudar. Ele foi bem claro quanto a isso.

Como eu também não pretendia forçar a barra, Leon poderia aproveitar a oportunidade para conseguir uma espada melhor. Depois de ver o quão poderosa era a Loja de Aperfeiçoamento, e quanto mais difícil ela tornava minha vida, percebi que equipamento bom também era importante.

Quanto mais forte Leon fosse, melhor pra mim.

“Porém, ainda tenho uma dúvida.”

Olhei para outro lado, na direção onde Caius tinha saído anteriormente.

“O que Caius tá fazendo aqui? Algo nele está estranho, né?”

“...Sim.”

O rosto de Leon ficou sério enquanto olhava na mesma direção que eu.

“Deveríamos conferir só pra garantir? Também tenho curiosidade de saber quais outros artefatos o Império possui.”

“...Gosto dessa ideia.”

“Hã? O quê?”

Linus olhou alternadamente para nós dois.

“Espere, o que vocês acabaram de dizer? Vocês—”

“Vamos lá.”

“...Acho que é pra lá mesmo.”

Ignoramos ele e seguimos em frente.

***

“Ainda nada?”

Um homem coberto por um manto escuro sentado numa cadeira, bebendo lentamente um copo d'água. Sua voz era baixa, sem calor algum, enquanto uma figura ficava logo atrás dele, com o olhar oscilando ligeiramente.

Caius finalmente balançou a cabeça.

“Nada ainda. O velho não quer colaborar.”

Suas palavras foram recebidas por um breve momento de silêncio.

Colocando o copo na mesa, o homem de capuz lentamente puxou-o para trás, revelando dois olhos violeta afiados. Uma corrente de prata pendia ao redor do pescoço, com um grande orbe violeta no centro, que brilhava fracamente a cada pequeno movimento.

A joia era de uma beleza extrema, mas, se olhasse com atenção, notariam fissuras tênues dentro do orbe violeta.

“Ele disse por quê...?”

“Não. Ele apenas disse que não quer consertar itens que não consegue.”

Caius respondeu em tom monótono, enquanto seus olhos se moviam de um lado para o outro, sincronizados com a oscilação sutil do colar. Sem perceber, veias negras começaram a subir pela sua pele, estendendo-se desde a base do pescoço até sua cabeça.

“....?”

O movimento parou abruptamente quando Caius sentiu algo e seus olhos se arregalaram por um instante de clareza.

As veias desapareceram imediatamente. Quase como se tivessem se escondido.

“O que... o que eu estava dizendo? Não, o que está...?”

“Nada demais.”

O homem do outro lado colocou a mão no ombro de Caius e falou suavemente.

“Você estava falando do ferreiro e de como ele te rejeitou. Você parece cansado. Vou relatar a situação ao Imperador. Você pode descansar um pouco. Eu assumo daqui.”

“Ah, é... tudo bem…”

Caius não disse mais nada e apenas assentiu, virou-se e buscou uma cadeira para se sentar. Ele realmente se sentia bastante fraco por algum motivo estranho.

Seus olhos se fecharam quase imediatamente, enquanto a expressão fria do homem de capuz se substituía por uma fisionomia cortante e gelada.

Com um movimento de olhos, virou de costas para Caius e foi até uma mesa onde apareceria uma pequena caixa de madeira. Abriu lentamente, revelando um livro.

Olhando para o livro, o olhar do homem se desviou.

“...Não esperava que o artefato fosse danificado em algum evento de nobres estúpido. Isso torna tudo mais complicado. Também não esperava que o ferreiro nos rejeitasse assim. Torna as coisas mais difíceis pra gente. Por que complicar ainda mais?”

Fechando o livro, voltou sua atenção para a janela.

E foi ali que avistou alguns indivíduos.

Seus olhos se estreitaram ao vê-los. Porém, no instante seguinte, eles já tinham desaparecido.

Quase como se nunca tivessem existido da origem.

Sua expressão rapidamente mudou, mas já era tarde demais.

“Então é aqui?”

“Parece que sim.”

“....!?”

Comentários