
Capítulo 759
Advento das Três Calamidades
Tudo estava congelado.
Desde o homem corpulento até a fogueira que crepitava ao fundo.
Tudo... exceto a escuridão de névoa diante de mim. A névoa escura que assumia o contorno de um humano, mas não tinha rosto.
Era sem face.
Era uma visão que já havia visto no passado e, ao lembrar desses momentos, percebi o quanto eu tinha evoluído desde então. Eu estava muito mais forte e não era mais tão completamente ingênuo sobre a verdade do mundo. E, ainda assim, a sensação primal de medo que senti naquela época, vindo daquela figura sem face e também de quem estava diante de mim, permanecia igual.
Quão grande será a diferença entre nós?
'Hm?'
Senti algo mudar dentro de mim.
A gaiola que me aprisionava começou a se desfazer, e eu pude sentir meu corpo se mover outra vez.
De repente, não estava mais confinado dentro do círculo. O mundo ao meu redor se tornou mais nítido, assim como a imagem do homem à minha frente; desde as linhas finas marcadas em seu rosto até o vermelhão que tingia seus cabelos grossos.
Tudo ficou muito mais claro para mim.
Mas, apesar disso, não consegui focar totalmente no ambiente ao meu redor.
Toda a minha atenção foi direcionada à névoa escura à minha frente.
Ela não fazia nada, mas só de estar ali, diante de mim, eu sentia uma pressão intangível — quase aterrorizante — sobre mim.
"...Vendo você reviver essa memória, presumo que tenha conseguido colocar as mãos no anel e começado a investigar seu passado."
Sithrus caminhou calmamente pelo aposento.
Tudo ficou congelado naquele instante. As chamas. O relógio. O velho. Era tudo o que eu precisava para entender que aquilo era um ponto além da visão.
Por fim, a névoa parou diante do anel na mão do homem.
"Sete. É assim que chamamos os relicários que conseguimos revestir com o sangue remanescente dos Seres de Fora." Ele falou calmamente enquanto estendia a mão para pegar o anel, mas esta passou através dele como se fosse invisível.
Ele sorriu divertidamente ao ver aquilo.
"Parece que realmente não estamos no passado."
O quê...?
Fiquei observando Sithrus, confuso.
Porém, agora que ele tinha mencionado, dava para perceber que havia algo estranho nesta situação atual. Normalmente, quando eu usava a Terceira Folha, eu era enviado para o passado, ao menos até certo ponto.
E mesmo assim—
"Parece que minha interferência repentina causou essa mudança. Que pena."
Ele não parecia nem um pouco arrependido.
Sithrus retirou a mão do anel e olhou de volta para mim.
Seu olhar atravessou meu corpo, e, naquele instante fugaz, senti como se tivesse sido lançado no fundo do oceano, afundando impotente enquanto uma pressão esmagadora fechava-se sobre o meu peito.
Aquele momento durou apenas um segundo.
"Ainda não..."
Ele murmurou, voltando sua atenção para o anel.
"O objetivo inicial deste experimento era criar artefatos capazes de lutar contra os Seres de Fora. O sangue deles não é comum. Tenho certeza de que você já percebeu isso. Assim como o nosso sangue. Ele também não é normal."
O olhar de Sithrus permaneceu fixo no anel.
"Para quem encontra a fonte, quanto mais se compreende, mais o corpo muda. Os Seres de Fora entendem a fonte melhor do que nós, por isso são mais fortes. Mas, o que exatamente são eles? Protetores, ou parasitas como nós?"
Foi a primeira vez que vi Sithrus sério.
Isso me desconcertou um pouco, mas sabia que essas informações eram importantes. Não tinha certeza do porquê dele me contar tudo isso, mas não planejava deixar a informação ser desperdiçada. Queria ouvir toda a história.
"...O experimento falhou."
O olhar de Sithrus desviou do anel e voltou para mim.
Foi nesse momento que seu semblante retornou à sua expressão habitual, enquanto o homem sem face sorriava.
"Com o tempo, os relicários começaram a corromper quem os usava. No começo, o efeito era quase imperceptível, mas quanto mais alguém dependia dos artefatos, mais a corrupção se aprofundava. Por mais que tentasse mudar esse resultado, ficou claro que era impossível. A corrupção era imparável."
Imparável...?
Por algum motivo, abaixei a cabeça para olhar para minha mão. Mas, naquele instante, percebi algo.
Meu corpo...
Também era uma névoa escura.
"Claro que há exceções à corrupção. Já que você possui o anel, presumo que esteja usando-o. Provavelmente está se perguntando por que ele ainda não te corrompeu, mas tenho certeza de que você já entende o motivo, certo?"
Sangue...
O meu sangue.
"Exatamente. Nosso sangue é diferente. Podemos suprimir a corrupção que vem do sangue deles. O mesmo não se aplica aos humanos normais. Por isso os artefatos foram considerados um fracasso. Como..."
Sithrus parou por ali, mas o significado de suas últimas palavras era claro.
Naquele momento, senti algo dentro de mim começando a crescer.
Eu concientemente o controlei ao máximo.
"Ainda assim, estou bastante surpreso por você ter conseguido colocar as mãos no anel. Faz tempo que não vejo ele."
Faz tempo...?
Pensando bem, alguma coisa não encaixava.
Embora os artefatos fossem, tecnicamente, considerados fracassos, isso valia apenas para pessoas normais. Mas e os deuses?
'Certamente eles achariam útil.'
Voltei minha mente para o Anel do Nada e para o Livro de Aprimoramento. Ambos eram incrivelmente poderosos por si só. Só de imaginar, dava para pensar no que os outros cinco artefatos poderiam fazer.
'...Não, na verdade, já sei mais ou menos.'
Estudei-os depois de conseguir o anel.
Sabia que eram todos extremamente poderosos. Mas não apenas poderosos, como também úteis. Como poderia achar que os 'Deuses' simplesmente descartariam esses relicários por causa de sua influência nas mentes dos humanos comuns?
E, como se estivesse lendo meus pensamentos, o homem sem face de repente começou a rir.
"Então você não sabe..."
Olhei para ele, incapaz de esconder minha confusão.
Saber o quê?
"Acho que faz sentido. Você ainda está numa fase de recuperação lenta das memórias. Então, vou te dar uma ideia do que aconteceu."
Pausando, Sithrus voltou-se para o anel.
"Os Sete Relicários... Todos foram roubados."
Uma sorriso deformou o rosto do homem sem face.
"Tivemos um traidor entre nós."
"——!"
De repente, lembrei-me das palavras que Noel havia escrito para mim, e uma compreensão rápida surgiu.
"Não sei os motivos, nem quem roubou os relicários, mas uma coisa eu sei: eles roubaram todos os relicários e os liberaram para o mundo exterior. Ainda estou tentando entender quem é esse traidor, e..."
Gradualmente, Sithrus virou seu olhar para mim.
Sua expressão tornou-se zombeteira.
"...Tenho um suspeito número um bem na minha frente. Claro que, na sua condição atual, talvez você não lembre, mas se há uma pessoa que eu desconfiaria, seria você ou a Noel."
"....."
Permaneci em silêncio nesse momento.
Queria argumentar, mas não consegui. Conhecia bem a mim mesmo para entender que havia uma base na acusação dele. No passado, quando Noel mencionou algo sobre um traidor, também suspeitei de mim mesmo.
Com certeza, era algo que eu faria.
Além disso, sabia que não tinha nada a dever para esses 'Deuses'.
Chamar isso de traição...
"Mas já não tenho tanta certeza."
Erguendo a mão para tocar o queixo, Sithrus olhou serenamente na minha direção.
"Costumava achar que você tinha roubado todos os relicários e os disseminado pelo mundo, mas agora estou começando a duvidar disso. Também estou em dúvida quanto à Noel. Na época, aquilo não parecia algo que ele pudesse fazer. Então, provavelmente..." Sithrus fez uma pausa, mas o significado de sua hesitação era claro.
Um dos outros Deuses deve ter sido o responsável.
Mas quem…?
Quem seria o traidor, e por quê?
"Ainda estou tentando entender o motivo por trás do roubo. Embora os relicários sejam realmente poderosos, não são algo particularmente extraordinário para pessoas como nós. Deve haver alguma meta específica..."
Sithrus falou com tom sério.
E, ainda assim—
'Ele está sorrindo.'
Consegui ver seus lábios se abrindo em um sorriso na face sem rosto. Dava para perceber que ele estava aproveitando a situação, e um calafrio percorreu minha espinha ao vê-lo assim.
"Bem, por ora, isso são apenas especulações."
Sithrus voltou seu olhar para mim.
*Passo*
Ele deu um passo à frente, aproximando-se de mim.
Senti uma pressão invisível, como uma força que me sufocava completamente.
Tentei permanecer indiferente, mas era difícil.
A pressão...
Não era algo que eu pudesse suportar.
Felizmente, ele não parecia ter planos de fazer mais do que isso, parando bem diante de mim.
"Não há motivo para temer." Ele falou suavemente.
"Mesmo que quisesse, não posso fazer nada aqui com você. Nenhum de nós está em forma física. Seria apenas um desperdício de energia."
"...."
Não respondi, mas me senti muito mais aliviado ao saber disso.
"Só queria conversar um pouco para saber como você está, já que faz tempo que não nos vemos nem interagimos."
Ele falou como se tivéssemos conversado muitas vezes, quando, na verdade, poucas vezes tinha cruzado com ele.
Até onde eu sabia, mal tinha tido contato com ele.
"Sinto falta dos tempos em que conversávamos sem você me temer."
Huh...?
O que ele—
'...!?'
Os lábios de Sithrus se puxaram de um jeito que pareciam tocar sua testa.
"Exatamente. Antes, conversávamos bastante. Você só não sabe disso."
Uma risada baixa escapou dos lábios de Sithrus, enquanto minha mente mergulhava numa escuridão profunda e sufocante.
"Pois bem, então..."
Ele virou-se e bateu as mãos.
"Por agora, isso é suficiente. Consegui o que queria. Aposto que também foi uma conversa proveitosa para você."
Estrondeu!
O mundo escureceu.
Quando exterioizei-me daquele estado, me vi de pé na viela familiar, com Leon e Linus me olhando.
"Julien...?"
Sentindo meu corpo voltar ao controle, olhei para Leon e depois para Linus.
Ambos tinham expressões estranhas no rosto.
"Aconteceu algo? Sua face ficou pálida de repente. Você—"
"Estou bem."
Cortei Leon, respirei fundo e olhei ao longe.
"Acabei de descobrir a razão de o ferreiro estar se recusando a consertar meu anel. É o mesmo para os do Império."
Porém, essa não foi a maior descoberta.
A maior descoberta foi...
'O Império Aetheria. É bastante provável que esteja ligado ao traidor de Noel e Sithrus com quem eles conversaram.'