Advento das Três Calamidades

Capítulo 754

Advento das Três Calamidades

"...Eu consigo enxergar o pico."

Depois do que parecia horas, finalmente nos aproximávamos do topo das escadas. Não era como se todos pudêssemos ter subido correndo usando nossas habilidades, mas aparentemente isso era proibido para o local para onde íamos. Pelo menos, era o que eu tinha ouvido das pessoas lá embaixo.

Não havia chance de entrar no lugar a não ser que subíssemos as escadas sem usar nossos poderes.

'Que regra chata da porra.'

Se não fosse pelo fato de estar desesperado, eu nunca teria feito isso.

Minhas pernas já começavam a queimar.

E então—

"F-finalmente."

Por fim, cheguei ao pico.

Assim que o alcancei, sentei no chão erespirei fundo e pesadamente. Minha espalda estava encharcada de suor, e meu cabelo quase grudava na testa. Olhando para o sol acima de mim, por um momento, quase me senti de volta à Dimensão Espelho.

"Para de exagerar."

Leon, por outro lado, parecia totalmente bem.

Ele parecia um pouco incomodado com o calor, mas sua respiração estava normal.

Linus...

Ele também estava indo melhor do que eu. Contudo, dava para ver que também tinha dificuldades. Principalmente com sua enorme mochila.

"Heh."

Minha situação com o anel tinha sido bem mais fácil.

Ele estava quebrado, mas ainda utilizável. Teria oferecido ajuda a eles, mas, pelo estado atual, era melhor não arriscar.

Que pena...

"Será que é aqui?"

Leon falou casualmente enquanto olhava na direção à frente. Eu torci a cabeça e segui seu olhar. Uma pequena cidade com muros altos nos recebeu. No centro dela, uma estrutura enorme, parecida com um castelo.

Saffier.

Esse era o nome da fortaleza.

Virando os olhos, Leon largou a mochila no chão.

"Essa deve ser a fortaleza que eles comentaram lá embaixo."

"...Deve ser."

De acordo com as informações que recebi, o ferreiro estava morando na própria fortaleza. Supostamente era temporário, já que anteriormente tinha sido visto no Império Verde.

'Na verdade, seria bem mais fácil se ele ainda estivesse lá.'

Considerando que Leon era príncipe do Império, seria muito simples. Por outro lado, minha relação com o Império Aetheria não era das melhores. Não era ruim, mas também não era excelente.

A única pessoa que eu conhecia de lá era Caius.

'Pensando bem, mandei mensagem pra ele. Será que ele não respondeu ainda? Acho que deve estar ocupado.'

"C... Podemos acelerar? Não aguento mais esse calor."

Olhando para as palavras de Linus, pensei por um momento e concordei. Realmente, esse calor era bem irritante.

Quando Leon pegou as bolsas do chão, todos seguimos em direção à fortaleza, onde uma enorme porta apareceu diante de nós. Sob a porta, havia alguns guardas. Eu esperava que eles dificultassem nossa entrada, mas, ao contrário do que imaginei, deixaram a gente passar bem rápido.

Só precisávamos pagar a taxa de entrada e pronto.

Ao passarmos pela porta, nos deparamos com um agregado de construções pequenas, cada uma parecendo ter sido feita manualmente, escavada diretamente na pedra da montanha. As superfícies delas eram ásperas, com marcas de ferramentas, não de máquinas, e suas formas seguiam as linhas naturais do rochedo.

Ao olharmos para o castelo lá em cima, parecia não ser diferente; suas paredes e torres surgiam da montanha como se fossem esculpidas na mesma pedra, integrando-se às falésias ao fundo.

Um caminho estreito levava direto para dentro da montanha, iluminado por tochas ao longo do percurso.

"Bom..."

Olhei para os lados. Tanto Leon quanto Linus pareciam impressionados com a vista. De certa forma, eu também estava.

Mas—

'Sim, eu realmente não tenho muito tempo. Tenho que arrumar esse anel.'

Peguei um mapa do meu anel e o abri. Tinha um desenho simples, mas detalhado, da pequena cidade.

'...Pelo que entendi, o ferreiro deve estar em algum lugar do centro. Não sei exatamente onde, mas não deve ser difícil encontrá-lo. Um ferreiro tão famoso assim deve ser fácil de achar.'

O principal problema era convencê-los a trabalhar comigo.

"Bom, tanto faz. Vou pensar nisso melhor depois."

"Hm? Você disse alguma coisa?"

"Não, vamos acelerar."

Corri em direção ao túnel, as tochas nas paredes projetando luzes tremeluzentes na pedra enquanto avançávamos. Durante alguns minutos, caminhamos em silêncio, o ar ficando mais frio e o caminho mais estreito à medida que penetrávamos mais fundo.

O túnel se estendia suave e serpenteante, até que, finalmente, uma luz fraca apareceu ao longe, rompendo a escuridão à nossa frente.

"Chegamos."

Saindo do túnel, emergimos em um espaço amplo, com uma grande abertura acima. Luz do sol peneirava-se de cima, lançando feixes intensos sobre o piso de pedra e os edifícios abaixo.

O local parecia tanto abafado quanto... bem, o oposto, cercado por altas paredes rochosas, mas aberto ao mundo através da abertura acima.

"Ehm..."

Olhei para cima com uma expressão estranha.

"Então o castelo é falso?"

Só agora percebi que o castelo que víamos à distância era uma fachada.

"Não só o castelo. Provavelmente todas as construções de fora também são falsas."

Leon parecia tão confuso quanto eu, mas a rápida mudança de foco da nossa atenção foi para o que vinha adiante.

Para onde ficava a cidade principal.

Ao contrário das construções rústicas e esculpidas à mão que havíamos visto fora, esse lugar tinha uma aparência muito mais refinada.

As casas eram bem cuidadas, as paredes lisas e limpas, e as ruas de calçamento cuidadosamente pavimentadas e livres de entulho. Árvores alinhadas formavam fileiras ordenadas, e pedaços de vegetação haviam sido deixados crescer de propósito, dando vida ao espaço.

De um lado, até parecia haver um parque.

O lugar não era grande, mas tinha um visual impressionante.

"...Nossa, esse lugar é ainda melhor que nosso território." Linus murmurou distraído. Eu pausei para olhar para ele. Como se percebesse o que tinha dito, Linus levou o punho à boca e tossiu discretamente.

"Ehm... É bonito."

Ajoelhei a cabeça.

Ele não estava totalmente errado, de fato. Mas esse lugar também era bem menor que nosso território. Não dava para fazer uma avaliação justa só por isso.

Dirigindo meu olhar para outro lado, olhei novamente o mapa.

A disposição geral da cidade era simples. Não tinha segredo: tinha uma área central, e tudo o mais girava em torno dela. Até algumas igrejas estavam lá.

Porém, isso não era prioridade agora.

O que precisava fazer era—

BOOOM!

".....!?"

"!?"

Uma explosão repentina me tirou dos meus pensamentos, fazendo com que olhasse corajosamente na direção do barulho. Quase que imediatamente, o entorno começou a tremer enquanto me virava para olhar para Leon e Linus. Ambos estavam chocados.

"Está acontecendo de novo?"

"...Quantas vezes foi isso?"

"Provavelmente umas dezenas."

Ao contrário do que eu pensava antes, as pessoas pareciam extremamente calmas, mesmo com a explosão. Empurrando-me pela multidão, finalmente conseguimos ver exatamente o que estava acontecendo.

E ao vislumbrar aquilo, meus olhos se arregalaram involuntariamente.

"Você está dizendo que não consegue consertar?"

"...Consigo, sim."

"Então?"

"Só que eu simplesmente não quero consertar."

Duais figuras se encaravam. Um era um homem enorme, de ombros largos e barba cinza, o outro era...

"Caius...?"

Leon murmurou atrás de mim, com uma expressão tão confusa quanto a minha.

A pessoa de frente para o brutamontes era ninguém menos que Caius. Mas... algo nele parecia estranho. Ele parecia um pouco diferente do Caius que eu conhecia. Seus olhos estavam meio nublados, e havia uma indiferença em seu tom e expressão que me deixava desconfortável.

De olho no chão, notei equipamentos espalhados por todo lado, alguns quebrados ou rachados. Sob Caius, o chão tinha uma marca de crateras, com bordas rachadas e irregulares.

Foi ali que percebi a origem do barulho.

"Você entende que o Imperador está lhe fazendo uma enorme gentileza ao ajudá-lo? Seria imprudente de sua parte recusar um favor assim."

"Não sei se concordo com isso."

O homem corpulento respondeu com facilidade, passando a mão pela barba enquanto olhava para Caius, completamente indiferente à presença dele.

De repente, uma pressão tomou conta do lugar.

Mas, eventualmente, ela se dissipou, antes de desaparecer completamente.

"Esta será a última advertência. Espero uma resposta mais favorável na próxima."

Caius se virou pouco tempo depois.

Porém, mesmo após sua partida, o silêncio tomou conta do ambiente. Foi então que comecei a ouvir os murmúrios das pessoas.

"Quantas vezes essa história já aconteceu?"

"...Há quase três semanas que isso vem acontecendo."

"Não entendo porque ele não ajuda de jeito nenhum. Praticamente o aprisionaram aqui."

"Ele só está sendo teimoso, mas espero que responda logo. Está ficando insustentável aqui."

Ao ouvir suas conversas, franzi o rosto. Essa situação...

"Vocês três vão ficar aí escondidos pra sempre?"

"Eh?"

"....?"

"Hm?"

De repente, ao olhar para o homem corpulento que se abaixava para pegar suas coisas, percebi que ele virou o rosto em nossa direção. Meu coração acelerou com a surpresa.

"Prefiro que vocês parem de se esconder. Não gosto de falar ou interagir com quem nem consegue aparecer na minha frente."

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