
Capítulo 736
Advento das Três Calamidades
Tic, tic—!
Verifiquei a hora: 14h22.
— Ugh—!
Encostada em uma árvore, segurava meu ombro enquanto esperava minha energia e meus ferimentos se recuperarem.
— Isso é bastante complicado.
Olhei ao redor e sabia que não estava segura. Ainda estava sendo vigiada por aquela habilidade estranha.
— Como eu vou me livrar dela...?
Era a primeira vez que enfrentava algo assim e, certamente, fiquei confusa. Mas o que realmente me incomodava não era a habilidade.
Não, o que me perturbava era algo completamente diferente.
— As informações que recebi estão erradas. O Madhound é muito mais forte do que eu imaginei inicialmente.
Ele transmitia uma sensação de sufocamento enorme. E aquilo era só ele.
Com a adição dos gêmeos, não tinha escolha senão recuar.
Mas esse não era o problema. O problema era que ele não estava mais sozinho. Eles estavam formando um grupo.
Não tinha como armar uma emboscada ou usar táticas de 'guerrilha' como antes.
— Será que exagerei?
Nunca confiei totalmente em enfrentar todos eles sozinha, mas também não achava impossível. Achava que tinha chances, que poderia usar isso para me impulsionar a avançar para o próximo nível.
Mas...
— Talvez eu realmente tenha me metido numa enrascada maior do que posso suportar.
Eles eram muito mais fortes do que eu tinha previsto e pesquisado. E não foi pouco.
— Preciso mesmo mandar embora quem me deu as informações sobre eles.
Empurrei-me para fora da árvore e olhei por cima do ombro. Ainda estava segura, por enquanto, mas sabia que era só uma questão de tempo até eles cercarem e cortarem todas as rotas de fuga.
Correr era uma opção, mas não resolveria o problema.
Minha movimentação estava sendo continuamente marcada. Toda tentativa de fuga só ganhava tempo para eles.
— Preciso vencer, não fugir.
— E, para vencer, tenho que entender o que há de errado com o Madhound. Como é possível que eu não consiga rastrear seus movimentos nem com [Sentido de Mana] nem com o Malanchony?
A principal razão pela qual eu tinha tanta dificuldade naquela ocasião foi porque não conseguia localizar o Madhound, nem com [Sentido de Mana], nem com o Malanchony.
— Agora que penso nisso, não mencionei o Malanchony ao Marquês. Espero que ele não reclame depois.
Não achava que ele reclamaria, pois já tinha explicado minha situação com Pebble.
No entanto, podia imaginar uma situação em que o Marquês pudesse reclamar. Por isso, fiz questão de esconder sua presença usando [ Véu do Engano ].
— Sem nem mesmo o Sentido de Mana, o Malanchony ou os fios captando sua presença, como posso encontrá-lo?
O Madhound era minha prioridade atual.
Assim que o encontrasse e resolvesse a situação, tinha certeza de que poderia virar o jogo a meu favor. Por isso, era crucial entender como ele conseguia escapar de todos os meus sentidos.
Mas o quê...?
Qual seria essa solução?
Barulho de folhas sendo movidas.
Quando as folhas farfalharam, um gato preto saiu das moitas. Já tinha percebido sua presença há algum tempo, então não fiquei surpresa. Parecia estar bem, embora sua forma estivesse um pouco mais transparente do que o normal.
— Concluí minha tarefa.
— Mhm. Boa trabalho.
Parei por um instante.
— Quantos você conseguiu pegar?
— Os dois mais fracos.
— Entendi.
Se dois foram eliminados, então restavam apenas seis pessoas.
— É um contra seis. Mesmo assim, melhor do que antes, mas ainda é complicado. Preciso—
—...!?
Cabelos eriçados, percebi que o perigo se aproximava pelas minhas costas.
Reagi instintivamente, torcendo o corpo, e senti algo atravessar meu abdômen. Foi só um arranhão, mas a dor foi aguda e imediata.
Tropecei e caí no chão, olhando ao redor. Meus olhos se fixaram numa figura distante, com o rosto oculto sob um capuz escuro. Ela permanecia imóvel, me encarando. Sob seu olhar, minha respiração ficou um pouco mais pesada.
— É agora...
Ela estava na minha alcance.
Se [Sentido de Mana], o Malanchony e os fios não funcionaram, restava apenas uma alternativa.
— O quinto nível de magia emocional.
Se usasse essa, poderia acompanhar os movimentos dele.
Foi o que fiz.
Ativei o quinto nível da magia emocional.
Assim que o fiz, o mundo ao meu redor mudou, e orbs coloridos piscavam ao meu redor vindo de todas as direções. Dentro deles, enxerguei figuras se aproximando.
— Era exatamente o que suspeitava. Eles estão tentando me cercar.
Minha visão se estreitou, escaneando a cena. Os orbs revelavam os movimentos de cada pessoa, deixando suas ações claras. Mas aquilo não importava. O que realmente importava era localizar o Madhound.
Redirecionei minha atenção para o local onde ele estava.
Ele ainda permanecia lá.
E—
— Encontrei!
Suas emoções. Eu podia enxergá-las.
O mais destacado era o orb vermelho, um pouco maior que as demais emoções, enquanto ele me observava.
— Parece que ele está chateado.
Sorri silenciosamente, meus músculos tensos, enquanto fixava o olhar nele. Talvez, percebendo minha atenção, ele me encarou com um olhar frio, avançando com a mão. Um arco apareceu diante dele, e uma energia poderosa se propagou pelo ar.
Uma flecha dourada se formou em seu arco, enquanto suas roupas tremulavam ao vento.
Parecia que o tempo parou enquanto ficávamos ali, nos encarando.
Deitei a língua nos lábios e espalhei os fios ao redor, pronto para atacar assim que ele se movesse. E, exatamente naquele momento de tensão máxima…
Swoosh!
Uma rajada de vento passou rápido, e sua figura desapareceu da vista.
— Huh?
Naquele instante, ele sumiu completamente do meu campo visual. Olhei freneticamente ao redor, mas ele tinha desaparecido. Mesmo seus orbs tinham sumido.
Era como se…
Ele tivesse desaparecido do mundo de repente.
— Como isso é possível?!
Minha cabeça fervilhava com todos os pensamentos possíveis, mas, nem um piscar de olhos depois de começar a pensar, bati o sinal de alerta. Algo passou correndo ao meu lado, quebrando a ilusão que eu tinha criado.
Logo depois, dois olhos fixaram-se na minha verdadeira localização.
—....!?
Girei rapidamente, meus olhos encontrando os do Madhound. Ele estava lá de novo, empoleirado em outra árvore, olhando silenciosamente para mim.
Minha respiração parou ao vê-lo.
— Aquilo...
Seu corpo. Não tinha nenhum orb sequer.
Nada. Não consegui ver nada dentro dele. Nem um orb.
— Como isso é possível?
Ele não tem emoções? Será por isso que não consigo ver nada...?
— Não, isso não é...
Minha mente rapidamente passou por todas as possibilidades, quando uma ideia surgiu.
— Não é que ele não tenha emoções, mas que ele simplesmente as esconde enquanto caça.
Esse não é um conceito absurdo.
Já tinha visto algo assim antes. Na verdade, até desenvolvi uma habilidade parecida para limpar minha mente de pensamentos distraídos.
Swoosh, swoosh—!
Mais rajadas de alguma direção vieram na minha direção.
Eu as consegui evitar por pouco, sentindo suor escorrer pelo rosto. Não dava mais pra continuar assim. Eu estava ficando completamente impotente. Estava indo na velocidade deles.
Porém, para virar o jogo, eu precisava descobrir a fraqueza do Madhound.
...Ou pelo menos, achá-lo.
— Talvez eu precise me preocupar mais com eles primeiro...
Olhei adiante.
Conta os oponentes que se aproximavam.
Um, dois, três, quatro…
— Hm?
De repente, pausei.
Quatro?
E o quinto?
Olhei ao redor freneticamente, mas, assim como o Madhound, eles haviam desaparecido. Ativei [Sentido de Mana] e… meu choque aumentou ainda mais. Não conseguia sentir também.
— Que diabos está acontecendo?!
Não era apenas um, eram dois...?
Algo não encaixava na situação.
Infelizmente, não tinha como avaliar o que estava acontecendo. A temperatura tinha subido vários graus, distorcendo o ar ao meu redor. Um som de crack surgiu enquanto o chão sob meus pés começava a congelar.
Domínio!
Tzzz—!
Vapor se ergueu no ar, tornando cada respiração mais pesada e difícil.
Minhas mãos se estreitaram, e meu foco veio para as quatro figuras visíveis. E, mesmo assim…
Algo neles parecia estranho.
Contando o mana que ainda permanecia no ar, junto com a pressão inicial da neve e do fogo, comecei a sentir um frio na espinha.
— Pebble. Fica aí por enquanto.
Enquanto comunicava comigo mesma, continuei em alerta.
Mesmo sem enxergar, ainda podia acompanhar eles usando [Sentido de Mana] e magia emocional, que agora tinha desativado.
— Ainda não...
Preciso avaliar melhor a situação.
Preciso de mais informações.
O ambiente estava silencioso demais.
Uma calma assustadora pairava ao meu redor, com vapor se enrolando preguiçosamente no ar. A temperatura seguia caindo, e meus movimentos começavam a ficar pesados. Algo sob meus pés começou a se espalhar, formando uma película escura.
Ao mesmo tempo, gotas de suor escorriam pelos lados do meu rosto, e meu cabelo grudava na pele enquanto vasculhava o local.
Aquietaram-se, pelo menos por um tempo.
Mas isso não duraria.
Swoosh—
O ar se distorceu!
Uma faísca dourada rasgou a névoa, cortando a fumaça enquanto voava em direção às minhas costas descobertas.
Girei para evitá-la, mas, no momento em que me movi, uma sombra enorme surgiu na minha frente.
— Haa—!
Era um machado gigante.
BANG!
Levantei a mão, fios disparando ao redor quando o ataque colidiu com os fios.
————!
Para meu horror, ao invés de atingir os fios, a arma passou completamente através deles.
Naquele instante, só consegui imaginar uma orb específica.
— Ukah!
Usti k, tropecei para trás, uma dor aguda atravessando meu corpo enquanto olhava para baixo e via uma ferida profunda, com sangue escorrendo lentamente.
Elevo o olhar e vejo quatro fios dourados.
Uma parede de fogo.
Gelo.
E—and...
O machado gigante.
BANG, BANG—
Intentei me defender, mas não consegui. Tudo foi rápido demais, aconteceu de repente, e eu não consegui acompanhar.
Foi tudo tão errado.
Não pude lutar de verdade.
Eles eram simplesmente muito mais fortes do que eu imaginei. E, não por pouco. Pareciam estar de um nível acima do que refletiam. Como isso era possível?!
— Tosse...!
Antes que eu percebesse, estava deitada no chão.
Tik, tik—
O tique-taque do relógio ainda ecoava na minha cabeça.
Senti o chão frio e úmido sob mim enquanto a névoa começava a dissipar. Algumas figuras surgiram na minha frente, todas olhando para baixo, com o Capitão Albas na linha de frente, franzindo a testa ao me observar.
— É isso? — perguntou, com expressão um pouco decepcionada. — Esperava muito mais de você. Estava se segurando? Onde está sua Magia Emocional? Pelo que sei, essa deveria ser sua maior habilidade. Por que não usou? Ou estava esperando por agora...? Isso não é tudo que consegue fazer, né? Achou que poderia nos derrotar só com isso?
Sua fala machucou um pouco.
Ele tinha razão em parte, mas, ao mesmo tempo...
— Na verdade, isso… pouco importa.
Fixei o olhar na distância.
Na direção de uma certa figura.
Sorridi então.
— Só fiz isso para obter alguma informação. Queria mais, mas por enquanto, isso basta.
— Hã? Como assim—
Minha visão começou a turvar, e o ambiente ao meu redor mudou.
Tik, tik—
— Ukh—!
Encostada na árvore, segurava meu ombro enquanto esperava minha energia e ferimentos se recuperarem.
Ao mesmo tempo, olhei para o relógio.
14h22.
— Eu sabia!
Algo estava realmente errado.
O poder deles não fazia sentido algum.