
Capítulo 716
Advento das Três Calamidades
Toren inteiro ficou calmo ao pronunciar as últimas palavras, seus olhos ficaram fixos, e as veias pretas que cobriam seu corpo lentamente começaram a diminuir. Mas mesmo assim... A loucura em seu olhar era clara demais.
O poder.
Já o havia consumido.
Porém, isso não era algo que Emmet não tivesse esperado, pois ele também fora consumido pela mesma força.
Observando Toren, seus lábios lentamente se separaram.
"Quando você acha que o inferno começa...?"
Emmet deu um passo à frente, e os olhos de Toren agitarem-se.
Ele gesticulou com a mão.
BUM!
Vários pilares desabaram, mas...
"...."
Emmet permaneceu de pé.
"Sou apenas uma miragem do que já fui. Já me tornei alguém diferente. Faça o que fizer, não conseguirá fazer nada contra mim."
Sua voz fria ecoou pelo espaço vazio enquanto ele dava outro passo em direção a ele.
Toren permaneceu onde estava.
Não podia se mover. Não podia permitir-se mover.
Retroceder significaria que tinha medo do homem diante dele.
Ele não temia ninguém.
Não havia quem pudesse fazê-lo sentir medo.
"Você ainda não me respondeu."
A voz gelada de Emmet ecoou pelo salão mais uma vez.
"Quando... você acha que o inferno começa?"
Era uma simples pergunta, mas ao ouvi-la, Toren não soube como responder.
Inferno...
Ele nem mesmo acreditava em inferno.
Mas mesmo assim, respondeu.
"Se existe um inferno, já estou vivendo nele."
"...Mh."
Emmet sorriu, seus olhos olhavam para Toren de cima, pareciam divertir-se com a resposta enquanto se aproximava dele.
"O que há de tão engraçado?"
"...Acho divertido você pensar que tudo que passou é inferno. Não acha que sua vida foi muito melhor que a de Noel? Se o inferno existisse, aposto que ele é quem passou por ele."
"Ele deveria agradecer por isso."
Toren balançou a cabeça.
"...Prefiro entrar no inferno do que carregar o peso de levantar aqueles que estão presos nele."
"É mesmo?"
Emmet parou.
Ficou bem na frente de Toren.
Os dois trocaram olhares.
A sala ficou tensa.
E então—
"O inferno começa no momento em que o mundo te dá a visão de tudo que você poderia ter feito, deveria ter feito, e teria feito, mas não conseguiu, não teve tempo ou teve que esperar muito para fazer."
A temperatura caiu, e os olhos de Emmet ficaram vazios enquanto ele encarava Toren.
"...Esse é o inferno que eu vivi."
Suas palavras suaves chegaram silenciosamente a Toren enquanto sua mão se levantava.
"Ver todas as possibilidades infinitas. Todas as formas possíveis de morrer. De Noel morrer. Do mundo acabar, de ver o sofrimento daqueles que amo gravado no futuro que não posso determinar ou que não sei como mudar... Isso é o verdadeiro inferno."
Toren tentou afastar a mão, mas sabia que era impossível.
Emmet não estava realmente ali.
Mas parecia que sim.
E logo—
Sua mão pressionou contra sua testa.
A voz suave de Emmet ecoou mais uma vez.
"Quer experimentar o que eu experienciei?"
Pela última vez.
"...Fique à vontade. Mas não se perca nisso."
Após isso, a escuridão tomou sua visão.
Os dias seguintes à morte do Imperador foram caóticos.
Começaram com agitação pública, seguidos pela mobilização repentina de várias casas nobres, que formaram alianças e apoiaram candidatos potenciais ao trono.
Os movimentos eram feitos secretamente, mas a mudança era perceptível.
Vários sucessores de destaque disputavam o trono, cada um tentando conquistar as casas nobres mais influentes que conseguissem. Aoife era uma dessas sucessoras, mas ela estava estranhamente silenciosa.
Não que isso importasse.
Até pelo menos o funeral do Imperador e do Príncipe, a luta pelo trono precisaria ficar pausada.
A batalha pela sucessão ainda não havia começado, mas o cheiro de pólvora já pairava no ar.
"Aposto que os outros impérios estão comemorando."
Olho o relatório na minha mão, desembarquei do carruão e estiquei o corpo. Observando a fazenda à frente e vendo várias carruagens estacionadas, entendi o que estava acontecendo, e por dentro, soltei um suspiro de frustração.
Porém, não demonstrei minha irritação enquanto caminhava calmamente em direção à fazenda.
"Pare aí mesmo."
Mas, claro, entrar na minha própria casa não ia ser fácil.
Antes mesmo de conseguir, várias pessoas me impediram.
Parecendo diante de vários cavaleiros com armaduras prateadas, havia um homem vestido com pompa, sua grossa barba que se curvava nas pontas era a sua principal característica.
Parei então.
"Quem é...?"
"Sou um enviado do Príncipe Julius Romolus Megrail. Vim fazer um convite formal—"
"Não estou interessado."
Clank! Clank—!
Vários espadas e armas foram apontadas para mim.
Eu parei e olhar para eles, captando um reflexo de mim mesmo no brilho polido das armas.
"Veja aqui."
O enviado falou, seus olhos se estreitaram e seu tom se tornou ainda mais arrogante.
"...Acho que você não está plenamente ciente da sua posição atual. Você é apenas um conde, enquanto o príncipe é da linhagem Megrail. Se ele requisitar você, então—"
"Como eu já disse, não estou interessado."
Quantas vezes teria que repetir para esse cara entender?
Não fazia ideia de quem fosse esse príncipe.
E, como não o conhecia, provavelmente era um filho bastardo.
"Se eu fosse fazer aliança com alguém, seria com a princesa, não com um filho bastardo. Agora, com licença—"
"Você—!"
Fechei os olhos e os abri novamente.
No instante, as expressões de todos mudaram.
"Huh?"
"....Quem é você?"
"O que está acontecendo?"
Sorri para eles.
"Olá, sou um atendente do castelo. Estou tentando entrar, se puderem me dar licença..."
Empurrei-os e segui em frente.
Nenhum reclamou. Todos ficaram surpresos e confusos.
Fingindo um sorriso silencioso para mim mesmo.
'Essa nova habilidade realmente é útil.'
Olho da Existência...
Como era esperado de um osso de Nível Primordial. A habilidade que recebi era boa.
"Haa."
Ao entrar na fazenda, respirei fundo. O interior era bem fresco, mas tudo ainda estava relativamente vazio. Olhando para o local, senti uma pontada no peito.
'Será que Noel está bem?'
Eu ainda não tinha notícias dele.
Contudo, sabia que as chances dele voltar eram mínimas.
O que mais queria era a segurança dele.
Juntei os dentes, olhei ao redor antes de finalmente seguir até seu escritório.
'Não tenho certeza do que devo fazer agora, mas se procurar no escritório do Noel, com certeza encontrarei alguma coisa.'
E foi exatamente isso que fiz.
Subi a longa escada até o segundo andar e fui até seu escritório. Parei em frente à grande porta de madeira no final do corredor, levantei a mão para bater, mas hesitei.
Ah, é verdade.
"....."
Ele não estava mais aqui.
Suspirei antes de pegar a maçaneta e abrir a porta.
Clank!
O escritório estava exatamente igual.
Estava limpo, tudo no lugar.
Olhei ao redor e minha atenção se concentrou na mesa dele. Lá, vi uma carta cuidadosamente escondida sob um dos livros, e não pude deixar de sorrir ao vê-la.
'Como eu esperava, ele deixou algo para trás após tudo.'
Seria muito mais fácil se ele tivesse me contado antes de partir, mas Noel sempre foi assim.
Estou acostumado ao jeito dele.
'Pensando bem, provavelmente foi ele quem tirou isso de mim.'
Chacoalei a cabeça enquanto pegava a carta e a abria.
Li a primeira frase.
E o sorriso desapareceu do meu rosto.
[Ao irmão que esqueceu como cair—]
Parei por um momento.
'O que é isso?'
Por algum motivo, não quis continuar a leitura.
Mas, apesar do que minha mente dizia, meus olhos seguiram as palavras iniciais.
[Desde a morte de nossos pais]
[Sei que você nunca foi autorizado a cair]
[Não, você nunca se permitiu cair]
[Foi forçado a amadurecer mais rápido]
[Carregou a culpa, mesmo quando não era sua]
[Você sempre soube para onde ir]
[Mesmo quando estava perdido]
Minhas mãos tremiam.
"...Que besteira é essa? Por que ele está escrevendo isso?"
Olhei atrás da carta, mas não havia mais nada escrito.
Segurei os lábios.
Realmente não queria ler mais.
E mesmo assim...
[Sei que você mudou]
Parecia que a voz de Noel sussurrava em meus ouvidos.
[Você não é mais o mesmo irmão que eu conhecia]
Era suave.
[Mas ainda assim, você é meu irmão]
Quente.
[Dizem que você é forte—]
...E reconfortante.
[Mas eu vejo a verdade]
[Você não tentava ser um herói]
[Você só tentava nos manter vivos]
[E ninguém sabe o preço que você pagou por isso]
[Você nunca chorou]
[Você nunca reclamou]
[Protegeu-me, independentemente do custo]
"H-ha."
Senti falta de ar.
Por que ele fazia isso? Por que agora?
[Em algum momento, seu silêncio se tornou sua força]
[Mas eu te vejo]
[Eu sempre vejo você]
[Vejo o cansaço por trás de sua resistência]
[Você dá e dá, sem pedir nada em troca]
[Você aparece—]
[Mesmo quando seu coração está a ponto de partir]
[Fica em silêncio—]
[Não porque não sinta]
[Mas porque sente demais]
As palavras pareciam se esforçar neste ponto.
Eu podia ver. Eu podia sentir.
A luta de Noel ao escrever isso.
Por quê?
Por que ele estava escrevendo algo assim?
Não, eu sabia por quê.
Essa carta...
Era uma carta de despedida.
Segurei a boca.
'Certo, certo... Não é como se eu não tivesse esperado por isso.'
Minha garganta começou a doer.
Mas continuei lendo. Mesmo com o coração apertado e os olhos começando a embaçar.
[Então escute isto—]
[Eu sei tudo sobre aquilo que você fez na Dimensão do Espelho]
[Sobre como você não ouviu meu pedido]
[Mas sabe o que é engraçado?]
[Nunca me irritei de verdade]
[Até os mais fortes merecem delicadeza]
[Você nem sempre precisa ser a âncora]
[Você... também pode ser acolhido]
[Não posso estar ao seu lado agora]
[Pelo menos por enquanto, talvez possamos nos reencontrar novamente]
[Não como Mortum e Oracleus]
[Não como Aldric e Julien]
[Mas, de verdade, como Emmet e Noel]
[Como irmão mais velho e irmão mais novo]
[Como...]
[Família]
A carta terminou ali.
"....."
Parei ali, em silêncio.
De certa forma, era irônico.
Antes, queria que a carta acabasse logo, rápido.
Queria que fosse breve.
E ainda assim, ao segurá-la nas mãos, não pude evitar relê-la várias vezes.
Era curta.
E essa carta...
Era demasiado curta.
Segurei a boca e sentei, algo cobrindo meus olhos.
Olhei pela janela.
Para o horizonte que Noel estava acostumado a olhar.
Respirei fundo, longo e profundo.
"Esquecer como cair, hein?"
...Se ao menos fosse verdade.