
Capítulo 717
Advento das Três Calamidades
Não sei quanto tempo permaneci sentado.
Apenas deixei o silêncio dominar meus pensamentos e meu entorno. Aproveitando-o ao máximo, por quanto tempo pudesse.
Silêncio sempre teve significados diferentes para mim.
Em alguns momentos, o silêncio representava solidão.
Significava a ausência de vozes ao meu redor.
Mas, depois de certo tempo, o silêncio virou outra coisa para mim.
Passou a ser um sinal de paz.
Com todo o caos e tudo que vinha acontecendo ao meu redor, os raros momentos de silêncio se tornaram também momentos de calma.
Mas...
"Fico me perguntando o que estou sentindo agora..."
Será que esse silêncio era solidão?
...Ou era paz?
Não consegui distinguir.
No entanto, parecia uma mistura de ambos.
Fechei os olhos e deixei a escuridão tomar minha visão, respirando fundo várias vezes para me acalmar antes de abrir os olhos novamente e olhar para a carta em minhas mãos.
'Não tenho ideia do que você planejou, mas sei que provavelmente estará longe por muito tempo.'
Não foi como se eu não tivesse previsto isso.
Estava preparado para isso.
...Mas a carta me pegou de surpresa.
Foi como se tivesse recebido um soco do nada.
"Que irritação."
Por fim, um sorriso surgiu disfarçado no meu rosto.
Cuidadosamente, dobrei a carta e a coloquei no meu anel.
Depois, planejava enquadrá-la mais tarde.
"Gnah."
Limpei meu rosto algumas vezes antes de olhar ao redor.
Agora que Noel tinha desaparecido, precisava pensar em uma forma de justificar sua ausência. O mais lógico seria fingir que ele tinha saído em uma longa viagem. Porém, isso dificilmente convenceria, dado o atual clima envolvendo a família Evenus.
Nesse caso...
"Ou ele morreu ou foi ferido."
Franzi o rosto ao pensar na tentativa de assassinato anterior.
"...Pode funcionar."
O pretexto de ele estar ferido por causa da tentativa de assassinato poderia ser válido.
Pelo menos por enquanto.
Sei que não conseguiria manter essa desculpa por muito tempo.
Não que isso importasse.
Há tantas coisas com as quais preciso me preocupar no momento.
'Agora que minha identidade foi exposta, não seria estranho que os do Céu Invertido me procurassem. E eles não vão simplesmente enviar pessoas no meu nível. Atlas... Ele pode ser alguém que venha diretamente atrás de mim. E, mesmo que não seja ele, podem ser os outros membros de maior destaque.'
Essa parte me preocupava.
Embora eu fosse forte, ainda não tinha força suficiente para não me preocupar com eles.
Se realmente viessem, não teria nada que pudesse fazer.
A menos...
'Noel já sabia disso com antecedência e preparou algo para essa situação.'
Isso parecia uma hipótese plausível.
Não tinha como Noel não imaginar que algo assim pudesse acontecer.
"Deixo isso para depois. Embora seja importante, ainda há outras questões mais urgentes que preciso resolver."
Olhei ao redor da escrivaninha de Noel e peguei um calendário.
Com a caneta-tinteiro que ficava próxima, risquei duas datas.
"Fúnebre do Imperador e Rito das Armadas."
Em dois dias, os funerais do Imperador e do Príncipe iriam acontecer. Aqueles dias seriam extremamente importantes.
...Não só marcarão o início da luta sucessória, mas também o último dia de paz dentro do Império Nurs Ancifa.
Tenho quase certeza de que os outros Impérios vão ajudar secretamente os candidatos ao trono.
Vai ser uma guerra longa e sangrenta.
Uma guerra que preciso ser extremamente cuidadoso.
"O Rito deve acontecer em uma semana, mas pode ser adiado por alguns dias. Ainda preciso encontrar mais pessoas para ajudar. Até agora, tenho algumas em mente."
Estava um pouco preocupado com o Rito.
No entanto, confiava bastante na minha capacidade de vencê-lo.
Só preciso tomar cuidado, pois há uma alta chance de forças externas tentarem interferir.
Principalmente os outros Impérios.
Essa parte me preocupava de verdade.
"Mas não é como se fosse enviar um Monarca para a luta. Isso seria exagero. Acho que eles podem mandar alguém quase lá, um quase-monarca, alguém à beira de se tornar um Monarca. Essa será a carta na manga deles. Tenho que pensar numa forma de lidar com isso."
Além disso, também preciso estudar cuidadosamente as forças de Evenus. Agora, todos sabem que o que a Casa Evenus mostra não é sua força real.
Nosso poder financeiro é impressionante, assim como o nosso exército.
Mas...
Não sei tudo o que eles realmente têm.
Por isso, planejo descobrir agora.
"Mas onde exatamente ele deixou esses arquivos?"
Furtei as pilhas de papéis, virando várias dezenas de documentos empilhados em cada lado da escrivaninha. Eram muitos, e só de olhar já tinha uma dor de cabeça enorme.
"Não, espera."
Parei por um momento e refleti.
Na verdade, não tinha como Noel deixar arquivos tão sensíveis à vista de qualquer um.
Devem estar guardados em um lugar seguro.
Passeei o dedo pela mesa, depois olhei para a grande estante atrás de mim.
"Pode ser...?"
Sei bem uma coisa sobre Noel: ele sempre adorou filmes de espionagem quando era mais novo.
Ele, especialmente, amava coisas como salas secretas e semelhantes.
E, se minhas suposições estiverem corretas—
Clique!
Ao puxar um dos livros, um leve som de clique ecoou, e a estante se abriu, revelando uma pequena porta, aparentemente protegida por senha.
"...."
Nem precisei dizer nada.
Simplesmente...
"Mesmo depois de tantos anos, ele realmente não mudou."
Senti-me tanto feliz quanto triste.
De todas as coisas que não mudaram...
"Deixa pra lá."
Olhei para a senha e pausei. Conhecendo meu irmão bem, inseri um código na fechadura feita de runas, que logo se abriu após alguns segundos.
"...Minha data de nascimento. Como esperado."
Noel realmente era previsível nesse aspecto.
Ao abrir a porta, uma pequena escadaria se revelou, e ao olhar para baixo, as luzes nas extremidades do corredor se acenderam e uma sala apareceu diante de mim.
Assim que atravessei o portal, pausei.
"...."
Não há palavras que capturem totalmente o local.
Não era enorme, mas certamente era grande—aproximadamente o tamanho de duas quadras de tênis ao lado.
As paredes de pedra cercavam o espaço, e pilares de madeira altos surgiam em intervalos, sustentando o teto acima. Mesas dispostas com precisão, todas carregando arquivos e documentos organizados de forma meticulosa.
Estantes enormes nas laterais das paredes ao fundo, repletas de livros e papéis que pareciam levar uma eternidade para serem lidos.
O ar parecia bastante fresco, e, além do cheiro de pedra que predominava, o lugar não tinha um cheiro ruim.
"...Ele realmente não economizou na construção desse lugar."
Apreciando a vista por alguns segundos, finalmente me dirigi às mesas. Havia cinco no total, cada uma com uma etiqueta.
Pareceu um pouco estranho, mas logo percebi algo.
'Provavelmente, ele deixou tudo isso para mim.'
A primeira mesa dizia:
[Histórico]
A segunda mesa dizia:
[Família Evenus. Território e valor.]
A terceira dizia:
[Impérios e sua organização.]
A quarta dizia:
[As Quatro Organizações. Estrutura, assentos e raízes.]
...E a quinta dizia:
[Tudo que sei sobre os Seres Externos.]
"....."
Ao olhar para a pilha de arquivos e papéis em cada mesa, e depois para os rótulos, meu coração pulou uma batida.
Isso...
Era enorme.
***
"...."
Já faz alguns dias desde a morte do pai e do irmão dela.
No entanto... parecia que tudo tinha acontecido há poucos minutos.
As imagens assombradas permaneciam em sua mente, impedindo-a de dormir. Sempre que fechava os olhos, elas retornavam. Ela as abrira com força, o coração acelerado, como se aquilo pudesse mantê-las afastadas.
O olhar de Aoife estava vazio.
Seus passos eram lentos.
Antes que percebesse, encontrou-se em frente a uma certa sala.
Era o quarto do irmão dela.
"...."
Seu olhar vagou pelo cômodo antes de ela se aproximar e abrir a porta.
Rangeu!
A porta fez um som de rangido ao se abrir, revelando o ambiente dele.
Era bem decorado. Não muito diferente do quarto dela, a não ser pela grande mesa perto da janela. Nela, várias garrafas de remédio, organizadas com cuidado ao lado de molduras com fotos dela... e dele.
Seu coração apertou ao se aproximar da mesa.
Era a primeira vez que ela ia até a escrivaninha dele.
Sentada na cadeira, ela sentiu seu cheiro familiar. Aquele de lavanda.
Seus lábios tremeram, mas nenhuma lágrima caiu.
Seus lágrimas...
Já tinham secado.
Mas só as lágrimas.
A dor não.
Na verdade, ela só aumentava a cada segundo naquele cômodo, como se fosse tentar despedaçar seu peito.
Era a dor mais forte que ela já sentiu ao mesmo tempo.
Fez com que todo o resto parecesse num estado de entorpecimento.
E, ainda assim...
Apesar de saber que era pior, ela não conseguiu evitar.
Ela olhou nas gavetas do irmão e vasculhou tudo o que podia.
Quanto mais explorava suas coisas, mais a dor se intensificava. Especialmente ao encontrar as garrafas de remédio vazias. Tantas… sangue seco escondido ao redor das bordas dos arquivos. Papéis amassados espalhados pela mesa… Cada um, uma lembrança silenciosa de quanto ele sofria todos os dias.
Sua dor aumentou ao perceber isso, e ao abrir outra gaveta, retirar mais um papel, Aoife parou.
Seu olhar vazio e dormente titubeou ao pousar na folha, uma leve centelha de algo se quebrando através daquele vazio.
———
[Prêmio Jovinc]
Voto: Aoife K. Megrail
———
"Q... o quê?"