Advento das Três Calamidades

Capítulo 720

Advento das Três Calamidades

Ao ouvir as palavras de Leon, sorri de lado.

Ele não precisou dizer nada mais para que eu entendesse.

Eu só consegui sentir.

"Obrigado a todos por estarem aqui hoje. O Imperador e o Príncipe serão agora laid to rest dentro do palácio. Será observado um período de luto de cinco dias, durante o qual o público poderá vir homenagear."

Quando foi feito o anúncio, a confusão começou a se formar atrás, junto com as pessoas presentes no jardim.

Logo depois, todos os delegados e membros da família Megrail voltaram ao palácio.

Todos acompanharam seus movimentos até entrarem finalmente.

O barulho voltou a acontecer depois disso.

"...Parece que finalmente acabou."

Leon falou, sua voz já não mais um sussurro enquanto eu me virava para olhar para ele.

Assenti.

"Sim, parece que sim."

Todo o evento provavelmente tinha durado mais de quatro horas. Começava a me incomodar de verdade.

'Se eu acabar morrendo algum dia e fizer um funeral, vou garantir que seja mais longo.'

Só o pensamento de incomodar as pessoas até na morte parecia bem divertido.

Os olhos de Leon se estreitaram.

Eu levantei as sobrancelhas.

"O quê?"

"...Se você acabar morrendo de verdade, desta vez mesmo, eu não fico mais de dez minutos."

"O quê? Isso..."

"Isso é sendo generoso da minha parte."

Leon me interrompeu.

Franzi o cenho.

"Então—"

"Aliás, a graça é toda sua, porque eu não quero você no meu funeral."

"....."

Como assim ele sabia o que eu ia dizer?

'Não, isso não é estranho. Ele sempre foi assim.'

Passei a mão pelos cabelos e balancei a cabeça.

Olhei ao redor, fingindo estar todo sério.

"Provavelmente não devemos fazer piada num momento tão tenso e triste."

"Você deve estar certo."

"...."

"...."

Sim, quem estávamos enganando?

Nenhum de nós se importava. Estávamos aqui só por causa da Aoife, e como ela não estava, não importava. Todo mundo provavelmente também não tava ligando. Na verdade, olhando ao redor e vendo várias pessoas rindo, aquilo ficou bem claro.

'Duas caras. Todo mundo aqui é duas caras.'

Era como se eu estivesse numa toca de cobras.

Eu estava quase a ponto de apontar isso para o Leon quando senti um toque repentino no meu ombro.

"Hã?"

Curiosa, me virei para ver um homem vestido com uniforme de mordomo preto, parado atrás de mim.

"Posso ajudar...?"

Era a primeira vez que via aquele homem, então fiquei um pouco surpresa.

Porém, ao ver ele sorrir gentilmente na minha direção logo depois, me recuperei rapidamente.

"Nada de grave. Disseram para eu te acompanhar dentro do palácio. A jovem princesa gostaria de falar contigo."

"Aoife?"

"...Sim."

O mordomo sorriu, e olhei para o Leon.

"Só eu?"

"Exatamente."

Mais uma vez, fiquei surpresa.

Porém, mesmo assim, decidi aceitar a solicitação.

"...Entendo."

Não achava que algo ruim fosse acontecer se recusasse. Mas, como tinha vindo até aqui para verificar ela, isso também era uma boa oportunidade.

"Por favor, me acompanhe."

O mordomo começou a me conduzir para dentro do palácio.

Dei mais uma olhada em Leon antes de segui-lo. Leon não teve muita reação; ele só murmurou algo como "Me conte depois como ela está", antes de sair e ir para onde estavam aqueles do seu Império.

'Se tivesse que advinhar por que ela está me convidando para dentro do palácio, deve ser porque ela quer falar sobre a batalha de sucessão. Probablemente ela queira que eu entre no grupo dela.'

Essa parecia ser a razão mais lógica para ela me chamar.

Por isso, também não fiquei nervosa ao entrar no palácio e ser levada ao segundo andar, até uma sala específica.

O mordomo e eu paramos diante de uma porta de madeira gigante.

Ele se virou para mim e sorriu.

"A princesa está te esperando lá dentro."

"...Entendido."

Eu coloquei a mão na maçaneta e empurrei a grande porta de madeira, revelando o interior de uma sala ampla, afavelmente decorada. No centro, havia uma cama imensa com cortinas que caíam em ondulações, cercada por uma variedade de quadros, plantas vibrantes e ornamentos elaborados, que davam ao espaço uma atmosfera régia, quase sagrada.

Apesar de toda a decoração, o que realmente chamou minha atenção foram as janelas enormes, deixando entrar uma luz radiante enquanto as cortinas balançavam suavemente com a brisa.

E naquele brilho dourado, uma figura lentamente apareceu no meu campo de visão.

Ela estava perto da janela, com as mãos atrás das costas, olhando distraidamente para o lado de fora.

Seu rosto ainda escondido sob o capuz escuro que cobria sua face.

"Este é um lugar bonito."

Tentei puxar uma conversa bobinha enquanto a porta atrás de mim se fechava.

Porém...

"...."

Silêncio.

Aoife não falou.

Pelo contrário, ela lentamente virou a cabeça na minha direção.

Senti uma sensação estranha de desconforto ao olhar ao redor, tentando manter a calma.

"Eu... ouvi dizer que você me chamou. É porque quer que eu entre no seu grupo pra batalha da sucessão? Se for isso—"

"Por quê?"

A voz de Aoife cortou a minha, fazendo eu parar por um momento.

Ao direcionar completamente minha atenção para ela, parei. Algo... na voz dela não parecia normal. Estava fria, diferente da Aoife que eu costumava conhecer.

"Algo há de errado?"

"Por quê?"

Aoife repetiu, e eu senti um déjà vu repentino.

"Por que o quê? Você—"

"Por que você mentiu pra mim?"

"O quê...?"

Fiquei confusa, olhando para Aoife. Mentir? Ela—

Tak!

De repente, Aoife jogou algo na minha direção, seu olhar ainda distante, e eu olhei para baixo para ver que era um pedaço de papel.

Embora estivesse perplexa, devagar peguei o papel e olhei para ele.

No exato momento, meu rosto congelou.

"...Você nunca votou em mim, não foi? Foi tudo uma mentira desde o começo. Isso não é a primeira vez que você mente. Mentiu sobre estar vivo, apesar de todos acharem que você tava morto. Mentiu sobre muitas coisas... A minha atuação foi realmente tão ruim pra você? Quanto de tudo isso não foi mentira? Na verdade, você é só uma mentira mesmo?"

"O quê... Isso é ridículo—"

"Será mesmo?"

Aoife me interrompeu novamente. Ela não deixava eu falar uma palavra sequer.

"Será que eu estou mesmo errada...?"

Abri a boca, mas não consegui dizer nada.

Pensei nas palavras dela e percebi...

Ela... não estava errada.

Nem uma palavra dela era errada.

Eu era uma mentirosa. Quase tudo em mim era uma mentira.

Eu...

"Viu?"

Aoife sorriu por baixo do véu. Era suficiente pra eu perceber, enquanto ela lentamente voltava sua atenção para mim.

"Até você sabe que eu estou certa. Você... tudo que faz é mentir. Você mente na votação. Você mente sobre sua morte. E... mente sobre o fato de ser o Julien."

"....!"

Neste momento, senti o ar sair do meu corpo.

Isso...!

"O quê? Você achou que eu não ia saber?"

Aoife lentamente puxou o véu do rosto, finalmente me olhando. Assim que eu a vi, meu corpo e rosto ficaram tensos.

Algo nela não parecia bem.

Seu rosto. Sua expressão.

Tudo...

Senti meu corpo começar a arder enquanto a encarava.

"Sempre soube. Tenho certeza que os outros também sabem. Talvez o Leon soubesse desde o começo. A Evelyn com certeza sabe... Eu também sabia. Só mantive silêncio. Não porque você votou em mim, mas porque confiei em você. Eu... confiei no que vi."

A voz de Aoife ficou mais fria enquanto me olhava.

Seus olhos começaram a mudar. Pareciam mais gelados. Pareciam... mais alheios.

"Mas a palavra-chave aqui é 'confiança'." Aoife fez uma pausa, sua respiração ficando mais suave.

"...Eu não confio mais em você. Como confiar quando tudo que você é, é uma mentira?"

Fiquei em silêncio.

Não tinha muito o que dizer.

Ela tinha razão. Eu realmente tinha mentido para ela. Sobre várias coisas. Na verdade, ainda estava mentindo para ela.

Nada... sobre quem eu realmente era e o que representava era a "verdade".

Eu não passava de uma mentira ambulante.

E ainda assim...

Olhando para o papel à minha frente, consegui encontrar minhas palavras de novo.

"Você é realmente ingênua, não é?"

"....?"

Aoife fez uma pause, seu olhar se tornando perigoso.

Ignorei e apenas olhei o papel antes de voltar a ela.

"Sempre soube que você era ingênua, mas não imaginei que fosse tão ingênua assim."

A temperatura do cômodo aumentou.

Mas novamente, ignorei. Independentemente do que estivesse acontecendo com a Aoife, ela ainda era a Aoife que eu conhecia. Uma princesa ingênua, mas que se esforçava.

Admiro ela por sempre tentar tanto em coisas que ela não era muito talentosa.

Admiro ela por sempre dar o seu melhor em tudo que tenta.

Admiro ela por ser tão ingênua assim.

"...Você realmente acha que um voto faz sentido pra você?"

Olhei para ela.

Suas sobrancelhas se mexeram. Ela provavelmente sabia, mas preferiu ignorar.

Aponto para o papel.

"Um voto. Dentre todos... os possíveis votos que você poderia ter recebido, você só recebeu um."

Voltei a apontar para o papel e olhei para ela.

"Você. A princesa de um Império, admirada por muitos, elogiada por sua beleza, alguém que consegue mesmerizar uma multidão inteira... e você só recebeu um voto?"

Então ri.

As sobrancelhas de Aoife se franziram mais ainda, e a frieza em seus olhos recuou sutilmente. Percebi que ela começava a entender.

Porém, não parei.

"Quer saber o que realmente aconteceu?"

Aoife permaneceu em silêncio.

Entretanto, dava para perceber por sua expressão que ela já sabia a resposta.

"...Seu irmão fez com que a votação fosse manipulada. Ele fez parecer que só ele votou em você. Ele... quis ser o único a votar em você. Provavelmente já sabia há muito tempo que você não ia—"

"PARE."

A voz de Aoife cortou a minha.

Estava tremendo levemente. Não tinha mais a frieza de antes.

O que quer que tivesse tomando conta dela antes começava a desaparecer.

Mas eu ainda não tinha terminado.

"Nunca me importei em falar disso antes, principalmente porque eu estava satisfeita com meu próprio prêmio. Mas a verdade é que, você ter recebido apenas um voto, nunca fez sentido. E eu sei que você sabia disso também. Ainda assim, você ficava repetindo pra si mesmo, insistindo que era só um voto. Você... você é sempre assim. Mesmo parecendo tão confiante por fora, não tem nenhuma autoconfiança—"

"Que pare!"

O voz de Aoife subiu, quase gritando enquanto olhava para mim.

"Você está certa! Você está certa!"

Ela levou o punho à boca e mordeu.

"...Você está certa. Eu só estou descontando tudo em você, tudo bem? Desde o começo eu senti que algo estava errado. Eu só... eu j—"

"Não."

Interrompi Aoife antes que ela terminasse de falar.

Sentindo ela perder o foco e me olhar novamente, fechei os olhos e suspirei.

"...Você não esteve equivocada ao se irritar comigo."

"Hã?"

Abri os olhos novamente e olhei nos dela.

"Eu... nunca votei em você. De fato, eu menti para você naquela época."

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