
Capítulo 721
Advento das Três Calamidades
Tive a oportunidade perfeita de mentir para sair daquela situação.
Estava claro para nós dois que a votação tinha sido manipulada. Se eu dissesse que foi o irmão dela quem fez tudo aquilo, poderia parecer que eu tinha, de fato, votado nela.
Além disso, ela não teria como verificar se eu estava mentindo ou não.
No fim das contas, a situação se resolveria assim, e tudo voltaria ao normal novamente.
Eu entendi isso.
E mesmo assim...
"Eu não votei em você."
Ainda assim, decidi dizer a verdade.
Ao perceber a mudança em seu rosto e a tensão subir na sala, não me arrependi da minha decisão.
As palavras dela antes fizeram-me refletir mais sobre mim mesmo.
Eu era uma mentira.
Tudo em mim era uma mentira.
Ela não estava errada.
Eu... sabia que ela não estava errada.
Só que só consegui compreender completamente esse conceito depois que ela me falou isso.
Por que demorou tanto para eu entender?
Talvez fosse porque eu não queria admitir isso para mim mesmo.
...Ou talvez porque não ligava o suficiente para pensar nisso.
'Talvez nenhum dos dois esteja errado.'
No passado, eu era tão obstinado a fazer qualquer coisa para alcançar meu objetivo. Para ver Noel.
Para garantir que ele estivesse seguro.
Mas agora que o conheci, eu... não tinha mais o mesmo objetivo.
Na verdade, eu não tinha um objetivo concreto.
Havia muitas coisas que eu queria fazer, mas nenhum propósito real.
No entanto, só porque eu não tinha mais um objetivo, isso não significava que eu não precisasse seguir em frente. Não significava que não houvesse coisas que eu desejava.
Eu queria muitas coisas.
E de todas essas coisas, o que eu mais queria era parar de ser uma mentira.
Assenti silenciosamente.
"Sim, eu menti."
De certa forma, dizer essas palavras foi libertador.
Talvez eu ainda não estivesse pronto para contar tudo, mas, pelo meu próprio bem, e para evitar mal-entendidos futuros, era melhor eu ser honesto sobre certas coisas.
"...Eu era uma pessoa diferente na época. Não me importava muito com a forma como as pessoas me viam, nem com mentir. Eu era assim. Você, de todas as pessoas, deveria saber como eu era naquela época."
"....."
Aoife permaneceu em silêncio.
Não sabia o que ela pensava, mas tinha certeza de que ela estava refletindo sobre o passado.
"Você, mais do que ninguém, deveria estar ciente de que eu não sou mais a mesma pessoa de antes. Lamento ter mentido para você naquela época, mas era uma pessoa diferente. Mentia porque não me importava, e agora estou me abrindo porque me importo."
Olhei diretamente para ela.
Nossos olhares se cruzaram naquele momento.
Percebi que ela realmente estava me encarando.
"Deixe-me repetir. Eu não votei em você. De fato, fingi minha própria morte e... não sou o verdadeiro Julien. Eu sou uma mentira."
Parei por um momento, sentindo a respiração escapar por meus lábios.
Quando finalmente senti o ar retornar, engoli em seco antes de continuar.
"...Mas assim como sou uma mentira, também sou real."
Estendi ambos os braços.
"Tudo que passamos. Desde as vezes em que brinquei com você, até as vezes em que você brincou comigo, até os momentos em que agimos juntos. Nada disso foi fingimento. Aquilo foi verdadeiramente eu, e sei que você percebe isso. Eu... posso ser uma mentira, mas também parei de querer ser uma."
Sim, essas eram as palavras certas.
Minhas cabeça balançou involuntariamente.
"Você pediu a verdade, e eu a disse. Você precisa de alguém para desabafar sua raiva e ressentimento; aqui estou eu—"
Crash!
"...!?"
Na metade das minhas palavras, senti um punho bater contra o lado da minha face. Não foi forte, nem me machucou tanto, mas ao olhar para quem me deu a pancada, com a cabeça baixa e o cabelo vermelho cobrindo o rosto, permaneci firme no lugar.
"Mais...?"
"Bastante mais."
Ela levantou novamente a mão.
Meus lábios torceram.
"Na segunda—!"
Crash!
Outro soco contra meu rosto.
Ainda assim, não doeu.
"Vamos lá..."
Crash!
Ela me bateu de novo.
"Essa doeu. Para com isso—!"
Crash!
Mais um soco na minha face.
Não doeu nada.
"Tá bom, vamos apenas..."
Crash!
Ela bateu mais uma vez.
"Essa aí doeu. Para com—!"
Crash!
Outra pancada na minha cara.
Elas realmente não doíam nada. Eu sabia que ela não estava dando tudo de si.
Mas mesmo assim, finjei que estava machucado.
Porque... mesmo ela me batendo, dava para ver que ela sorria a cada golpe que dava.
Suspirei quieto, observando-a.
Senti uma culpa enorme ao pensar em quem era responsável pelas mortes do pai dela e do irmão dela. Queria confessar tudo nisso, mas não sabia como.
Pensei em contar para ela sobre o Céu Invertido e como o pai dela era apenas uma marionete controlada por eles.
...E por um momento, quase entreguei tudo.
Mas...
Crash!
Não consegui.
Não porque não confiasse nela ou achasse que ela não merecia a verdade.
Mas porque eu conhecia ela.
Esse era também o principal motivo pelo qual nunca tinha contado tudo antes.
Não era porque simplesmente não queria dizer, ou por querer ser secreto.
De jeito nenhum.
Eu sabia que...
Desde o momento em que contei a verdade, ela iria tentar fazer algo idiota na fúria dela. Seja confrontando-os diretamente, ou talvez até tentando se juntar a eles.
'Conheço ela há tempo suficiente para saber.'
Mesmo que eu estivesse lá para impedi-la, não poderia ficar com ela o tempo todo. Não podia estar ali para vigiar cada passo dela e garantir que ela não fizesse algo estúpido.
Ela ia fazer isso.
Eu sabia que ela ia.
Por isso, não podia contar tudo para ela.
Ela não estava pronta para saber toda a verdade.
Crash!
Outro soco bateu no meu rosto.
Desta vez, não falei nada. Ela provavelmente percebeu também, pois sua cabeça lentamente se levantou e nossos olhos se encontraram novamente. Os olhos dela estavam vermelhos, provavelmente por ter chorado pouco antes.
Olhei para ela e abri a boca.
'E se eu dissesse que seu pai fazia parte de um culto gigante e que ele era apenas uma marionete, que meu irmão matou? Como—'
Me interrompi.
Realmente não consegui encontrar forças para contar a verdade para ela.
No final, as únicas palavras que consegui dizer foram um mísero, "Você está se sentindo melhor?"
"Mhm."
Aoife assentiu, abaixando a cabeça enquanto sua mão também descia.
"...Melhor."
"Que bom."
Fingi massagear o rosto enquanto olhava para ela.
"Então, por hoje é isso. Sei que você tem muito com o que pensar. Mas, por favor, não demore demais."
Parei na porta, olhando ela mais uma vez.
"...Já recebi muitas ligações dos outros candidatos querendo que eu me junte a eles. Se você não se apressar, eles podem conseguir me convencer. Não sou uma pessoa tão difícil de agradar."
Esmaguei a mão em um sinal de dinheiro, levantando a outra ao mesmo tempo.
"Se você sabe que eu—"
"Vai embora. Vai."
"Tsc."
Ao vê-la me mandar embora, torci a língua e abri a porta.
"Não tava brincando. Sou bem fácil de conquistar. Com um pouco de grana, posso acabar dormindo com qualquer—"
"Vai!"
Levei a língua ao céu e saí do quarto.
E, enquanto fazia isso, não pude deixar de sorrir.
Embora ela tentasse esconder, aquele sorriso... ela não conseguiu esconder de mim.
Era bom saber que ela estava melhor.
Muito bom.
Mas...
O sorriso desapareceu rapidinho do meu rosto.
'Será que tomei a decisão certa? Deveria ter confiado mais nela?'
***
"Pftt."
Segurando a boca, Aoife tentou segurar seu riso.
No entanto, ao pensar no que tinha acontecido, ela não conseguiu segurar-se e acabou rindo.
Parecia que um peso enorme tinha sido tirado de seus ombros. Ela sabia que algo estava errado com a votação. Já tinha percebido há bastante tempo que havia algo errado.
Mas ao mesmo tempo...
Ela também sentia que a votação tinha bastante de verdade.
Sua atuação não era grande coisa.
Pelo menos, não comparada aos outros candidatos.
Ela só tinha conseguido chegar lá por nepotismo.
As vozes lhe diziam que ela não merecia um único voto. E também que ela tinha sorte de estar lá.
As vozes...
'Mentiroso! Mentiroso! Ele é um mentiroso! Não acredite em nada que ele diz! Ele é um mentiroso! Tá mentindo!'
A face de Aoife reagiu ao sussurro na cabeça novamente.
Ela rangeu os dentes e tentou afastar a voz.
"Pare! Pare...!"
Sua cabeça doía.
Sintindo os sussurros constantes dentro de sua mente, ela lutou para ficar de pé, sentada na cama e se segurando na cabeça.
'Ele está mentindo! Por que deixou ele ir? Matar antes que seja tarde! Matar antes que ele te engane de novo!'
"Não, para...!"
Aoife rangeu os dentes com força.
"...Sempre soube que ele era um mentiroso. Isso é algo que eu já sabia há muito tempo. Nunca me importei se ele mentia ou não. Eu só... queria desabafar. Precisava descontar minha raiva em alguém... Eu..."
Ela apertou os dentes ainda mais, a culpa de suas ações pesando profundo no peito.
"...Precisava ser egoísta."
Ao refletir, suas atitudes tinham sido extremamente egoístas.
De fato, ela nunca se importou com as mentiras de Julien. Sempre soube que ele era um mentiroso, e também sabia que havia algo errado com o sistema de votação.
Não eram as mentiras que a incomodavam.
Nunca foram.
O que a perturbava era o mundo.
Tudo.
Parecia que tudo e todos estavam contra ela. Sempre sentiu assim.
Seja jovem ou velho.
Para ela... o mundo simplesmente parecia estar contra ela.
Sintia como se cada olhar estivesse carregado de julgamento silencioso. Como se todos a enxergassem como incompetente, ingênua. Como uma fracassada envergonhada de seda real.
Ela conseguiu esconder seus pensamentos na mente.
Mas tudo desabou no instante em que as duas pessoas mais importantes de sua vida morreram.
Nesse momento, ela desesperadamente precisou de uma válvula de escape.
Porque... se não fizesse isso, tinha medo de enlouquecer.
E Julien acabou sendo o melhor escape.
Foi graças a ele que ela se sentiu melhor.
Agora era hora de ela deixar de se entregar ao luto. Pelo menos, era hora de ela parar de deixar o luto dominar completamente sua mente.
'Você vai se arrepender disso! Ouça-me! Ele é perigoso! Precisa ser eliminado! Está crescendo um câncer ao seu lado! Você—'
"Silêncio!"
Aoife berrou com toda força, e a voz em sua cabeça cessou.
No instante, tudo ao redor ficou silencioso. Aoife se levantou da cama e respirou fundo várias vezes.
Virou-se para o espelho no canto do quarto, olhou para si mesma, depois olhou de volta para a porta.
"Certo."
Ela assentiu.
"...Vai dar tudo certo."
Bateu as bochechas para despertar, e caminhou até a porta.