
Capítulo 708
Advento das Três Calamidades
"Princesa, permito lembrá-la de exercer moderação em suas palavras. Uma linguagem dessas não condiz com seu nível e é bastante indigna de sua posição."
"...Ah, sim. Claro."
Aoife murmurou enquanto dava um gole em seu chá, claramente desconfortável na roupa apertada que tiveram que colocar nela para a aula de etiqueta. Desde que voltou da Academia, ela vinha sendo obrigada a participar dessas lições.
Ela, no entanto, não entendia muito bem.
...Não é como se ela fosse tão má assim. Ela chegou a xingar algumas vezes, mas geralmente eram durante os treinos.
Que problema tinha em xingar, afinal?
Aoife suspirou, tomando mais um gole de chá e olhando além do seu mordomo.
"Quando é que o irmão vai chegar? Devia estar aqui faz uns dez minutos."
"O príncipe está ocupado com assuntos importantes e chegará assim que suas obrigações permitirem. Por ora, peço que cuide da sua postura. Sua coluna está inclinada demais, de maneira nada elegante. E... minha nossa, Princesa! Por favor, desabra seuabança imediatamente. Esse comportamento é bastante inadequado!"
"Tá bom, tá bom."
Aoife desabriu as pernas, resistindo à vontade de revirar os olhos. Depois de tanto tempo na Academia e convivendo com Kiera e Evelyn, ela começava a perceber o quão absurdo eram muitas das coisas que havia sido obrigada a praticar.
Até a forma como seu mordomo falava...
Quem mesmo fala assim?
'Só aguente por enquanto. Quando tiver a chance de sair daqui, eu—'
BOUM!
Uma explosão repentina tremeu o palácio, fazendo o prédio inteiro estremecer. O tremor fez a xícara de chá escorrer do prato das mãos dela, enquanto vários objetos na mesa tilintaram e caíram no chão.
"O que foi isso!?"
Aoife levantou-se abruptamente, um sentimento crescente de apreensão crescendo no peito enquanto o barulho forte do metal de armaduras ecoava do lado de fora da porta, guardas passando apressados na direção da origem da explosão.
"Princesa! Por favor, fique aqui! Os guardas vão cuidar de tudo—Princesa!"
Como se ela fosse ouvir seu mordomo.
Ela saiu da mesa em direção à porta e a abriu rápidamente.
Clank!
Olhou rapidamente para esquerda e direita, e saiu correndo em direção ao barulho. Isso a levou direto até a entrada do palácio, e no momento em que chegou, seus passos vacilaram e sua respiração ficou presa na garganta.
"Q-que..."
Olhar para o buraco enorme na direção da entrada, junto com os guardas no chão, seu cérebro congelou por um instante.
O que aconteceu? O que está acontecendo?
"...Um ataque?"
"Parece que sim."
Justo então, uma voz acolhedora preencheu seus ouvidos, fazendo Aoife virar a cabeça. Foi aí que ela viu uma figura pálida, quase enfermiza, ao seu lado, com o olhar igualmente direcionado para a entrada.
"Irmão!"
Os olhos de Aoife brilharam ao ver o irmão.
No entanto, antes que pudesse se aproximar dele, ele a segurou.
"Paz, Aoife. Há questões mais urgentes a resolver. Você fica aqui, eu vou verificar o que aconteceu com o pai."
"Mas—"
"Só me escuta uma vez."
Ao ouvir as palavras do irmão, Aoife mordeu os lábios. No final, trocando olhares entre ele e ela mesma, abaixou a cabeça e assentiu.
"Entendo."
"Muito bem."
Gael finalmente sorriu enquanto dirigia o olhar para o caos ao redor.
Após isso, ele estalou os dedos.
"Vocês."
Apesar de sua estrutura frágil e doentia, ele transmitia uma autoridade indiscutível, uma força tão grande que fazia todos se endireitarem automaticamente.
Apontando para algumas figuras, fez um gesto com a cabeça antes de seguir mais adiante pelo palácio.
"Venham comigo. Vou precisar da ajuda de vocês."
As figuras o seguiram logo atrás, enquanto Aoife só podia ficar observando suas costas se afastarem, pondo os lábios em silêncio de decepção.
No final, ela respirou fundo, acalmando-se.
'Tá na hora de crescer, Aoife. Não dá pra ficar ignorando sempre o que os outros dizem...'
Ela sabia que todo mundo sempre dizia que ela era uma intrometida e que nunca ouvia. Se alguém mandasse ela fazer algo, ela geralmente fazia justamente o contrário.
Porém, desta vez, ela decidiu ouvir.
Ela não estava mais na Academia.
"Tá na hora de crescer." Ela murmurou, olhando para a figura some do irmão desaparecendo ao longe. "Tá na hora de crescer..."
A tensão era grande na sala central de reuniões, todos os olhares fixos na figura mais jovem sentada à mesa. Apesar do olhar penetrante, ele permanecia calmo, com postura ereta e expressão serena.
Vestia traje formal que realçava sua aparência marcante, com olhos cor de mel profundo.
Apesar de tão novo, não ficava atrás de muitos na sala em questão de presença.
Na verdade...
Para alguns, sua presença era quase esmagadora.
Algo em seu olhar. Aqueles olhos de mel escuro... havia algo escondido ali que gerava uma sensação de desconforto.
"...Isso não é uma guerra que começamos."
Suas palavras quebraram o silêncio na sala.
"Estamos apenas respondendo às forças que tentaram atacar e assassinar o cabeça da família. Na verdade, o motivo pelo qual ele não está presente hoje é exatamente por causa dessa tentativa. Ele está atualmente na casa, se recuperando dos ferimentos."
Pausing, Julien olhou ao redor, seus olhos franzindo um pouco enquanto seus olhares paravam em algumas pessoas.
"...Perdemos bastante—"
"Que balela!"
Bang!
Um punho bateu com força na mesa além de um homem grande, calvo, que se levantou, com as veias do topo da cabeça saltando, encarando Julien.
"Você realmente acredita que não percebemos? Foi tudo planejado! Vocês nos provocaram com suas supostas lutas! Como explicar a velocidade e a precisão da sua resposta? E o Visconde... ferido? Dou desculpas, mas isso é mentira! Não há como ele estar machucado. Vocês sabiam desde o começo que isso era—"
"E...?"
Foi a vez de Julien interromper as palavras do homem, com seus olhos de mel fixos nele, enquanto um sorriso fino surgia em seus lábios.
"Vamos dizer que nós o provocamos... E daí?"
"Vocês que atacaram. Nós nunca atacamos primeiro. Segundo as regras, no momento em que vocês atacam, temos todo o direito de reagir. E foi isso que fizemos."
"Só que isso..."
"Só que o quê?"
Julien inclinou a cabeça.
"Nós só queríamos ficar na maior puxada de saco possível. Da última vez que chamamos atenção, várias Barônias se voltaram contra nós. Desde então, optamos por crescer na tranquilidade, sem chamar atenção... Mas quem imaginaria que as Casas ao redor ficariam tão gananciosas por nosso território?"
O olhar de Julien percorreu toda a sala enquanto falava.
Havia um sentimento de desprezo em seus olhos enquanto ele olhava ao redor.
"Nos destacamos, e somos atacados. Não nos destacamos, e somos atacados. E agora...? Vocês estão me dizendo que tentar se esconder é uma forma de isca?"
Julien virou o olhar para Orson.
"O que devemos fazer? O chefe de família entrou na Central por todos os benefícios que ela ofereceria, mas até agora não recebemos nada de bom. Na verdade, só acumulamos prejuízos ao participar. Não só pagamos uma taxa mensal para manter a associação, como também fomos atacados por membros dela? E por quê? Por que mesmo deveríamos ficar?"
A tensão na sala atingiu o ápice naquele momento.
O que começou como uma investigação rapidamente se transformou. Agora, a questão que pairava no ar era esta: qual o motivo de a Casa Evenus ainda permanecer na Central?
Ao perceber a mudança repentina, uma certa pessoa na sala sorriu.
'Não só o pai, mas até o filho...'
Marquês Wilshire ajustou os óculos e virou sua atenção para Orson, que lentamente olhou na direção dele.
O Marquês apenas sorriu de leve e recostou-se na cadeira.
Por fim, batendo o dedo no tampo da mesa, ele abriu a boca.
"Pelo que parece, vocês foram injustiçados. Mas lembrem-se: a razão principal de as casas nobres aliadas não terem retaliado é que vocês fazem parte da Central. Ser membro da Central traz consigo certas proteções e privilégios indiretos."
"Sério mesmo...?"
Julien levantou as sobrancelhas, fixando o olhar no Marquês.
"Então você quer dizer que só os de Central vão atacar? Os de fora não porque isso colocaria toda a Central contra eles?"
O Marquês apenas sorriu.
Mas aquele sorriso dizia tudo.
"Entendi."
Julien sorriu de volta, seus olhos de mel escuro fixos no Marquis. Por um breve momento, toda a sala ficou em silêncio, todos os olhares presos nas duas figuras.
Orson observava à distância, com a expressão séria, seus pensamentos inaudíveis.
Mas então—
"Acho que acabou por aqui."
Julien olhou ao redor.
"Já que sou de Central, e só membros da Central podem entrar em conflito uns com os outros, as coisas devem estar resolvidas, não é? Eu apenas reagi a um ataque, e como quem revidou também é de Central, não há problema nenhum."
Julien apoiou as mãos na mesa, preparando-se para sair.
Mas, assim que fez, o Marquês falou de novo.
"Nem tanto."
"Hã?"
Julien parou, olhando fixamente para o Marquês.
"Aqui na Central, lidamos com conflitos de uma forma diferente. Quando surgem disputas entre Casas membros e não há como resolver por negociação, damos início ao que chamamos de Rite of Arms. É um duelo formal entre representantes escolhidos por cada lado."
De repente, murmúrios e cochichos preencheram o ambiente.
Fazia bastante tempo que o último 'Rite of Arms' não acontecia, e, por isso, era algo de grande importância.
"Cada lado aposta alguma coisa, e quem vencer fica com tudo. Isso ajuda a evitar sangrentas disputas desnecessárias, além de demonstrar a melhor habilidade de combate de cada Casa. Então..."
O Marquês fez uma pausa, seu sorriso ficando ainda maior.
"...O que vocês dizem?"
Naquele momento, o silêncio tomou conta do lugar, todos os olhos focados em Julien, que fechou os olhos lentamente.
'Então é isso que estavam querendo nesta reunião.'
Julien desconhecia esses detalhes. Também se surpreendeu com a falta de palavras de Orson durante toda a conversa.
Claramente, a culpa era deles.
Se iam fazer um Rite of Arms, deveriam ter feito antes da situação piorar assim. O fato de só terem apresentado agora dizia tudo que precisava saber.
Ao mesmo tempo, Julien compreendeu que as coisas não eram tão simples assim.
'Acredito que Orson tem condições de acabar com tudo isso, mas tenho a sensação de que há algo mais do que posso perceber. Será que existe algum conflito interno na Central? Será que Orson não controla tudo completamente, só parcialmente? Tenho certeza de que só Deilah já era suficiente para fazer qualquer um na sala se ajoelhar, mas não adianta se ele governa tudo pelo medo.'
Julien virou a cabeça e olhou para Orson.
Ele também o encarava, com a expressão neutra, sem demonstrar emoções.
Mas foi nesse momento que Julien entendeu.
'Ele está tentando me usar para colocar todos em seus lugares, assim ele não precisa fazer isso sozinho.'
Ele tinha bastante confiança em mim.
E, bem...
"Tudo bem."
Assim, assenti olhando para o Marquês.
"Aceito esse rito."
Não seria ruim fazer meu sogro me dever um favor.
"Não... A Casa Evenus aceita."