
Capítulo 710
Advento das Três Calamidades
Ele havia perdido a noção de quanto tempo tinha vivido.
Milhares de anos? Dez milhões...?
A certa altura, tudo virou apenas um número. Sem sentido. Ele deixou de se importar há muito tempo, porque nenhum dia passou naqueles anos em que não quiséssemos morrer. Desde ser torturado apenas para que pudessem extrair seu sangue até a cruel ironia de não poder morrer com tudo aquilo.
Foi nesses anos que Noel esqueceu o que significava ser humano.
...Foi nessas épocas que ele se tornou o que é hoje.
Embora escondesse bem de seu irmão, sua verdadeira natureza havia mudado. Ele não sentia nada. Nenhuma emoção, nenhum apego. Como se o mundo ao redor tivesse perdido todo significado.
Ele simplesmente...
Estava lá...
"....."
De pé em silêncio, Noel virou sua atenção para a marionete de Toren.
Esqueceu-se de qual era o nome verdadeiro daquele cara.
Ficava parado diante dele, seu cabelo dourado balançando levemente enquanto suas pupilas douradas brilhavam intensamente no cômodo.
Era como se fosse o próprio sol.
'Ah, agora lembro...'
Foi a presença dele que lhe trouxe a lembrança.
Alvorada...
'Esse é o seu título.'
"Você sabe que, com sua força atual, é impossível me vencer, certo?"
A voz de Alvorada ecoou suavemente por todo o cômodo. Calmíssima, como se tudo estivesse sob seu controle.
"Eu bloqueei todo o espaço. Não importa o que tente, escapar é impossível. Cada passo seu foi previsto por Sua Excelência. Ele antecipou seu plano muito antes de você agir e me ordenou a criar as condições. Tudo isso foi pensado para te puxar de volta para a Dimensão Espelho... e te devolver ao seu coração."
Noel permaneceu de pé, imóvel, enquanto Alvorada falava.
Ficou em silêncio. Sem se mover, sem nada.
Simplesmente... estava lá.
"Cada segundo que você passar fora da Dimensão Espelho deve ser uma tortura para você. Este mundo... rejeita existências como a nossa. Os verdadeiros humanos deste planeta. Para você continuar de pé, é principalmente por causa das suas habilidades. Mas mesmo assim, essas habilidades não podem esconder a dor."
A Dimensão Espelho era uma prisão.
Servia para impedir que todos dentro da Dimensão escapassem.
No entanto, não era impossível sair. Mas, assim que o fizessem, seus corpos começariam a pegar fogo, independente de quão fortes fossem. Na verdade, a rejeição só aumenta com o poder.
Por isso, a maioria optava por clones para conseguir sair.
Mas mesmo assim...
Clones eram apenas clones. Não eram reais.
Não era o mesmo que realmente sair da Dimensão Espelho com seus corpos verdadeiros.
Por isso, alguns estavam desesperados para escapar.
Mas, no caso de Noel...
Ele poderia sair.
Ele era o único deus capaz de deixar a Dimensão Espelho. Não por causa de sua força, mas simplesmente por causa de sua imortalidade.
Por mais queimar, ele só se curava.
Isso que o destacava dos demais.
Mas até suas habilidades tinham limites...
A dor. A agonia. O sofrimento que tinha que suportar só para estar neste mundo. Provavelmente, era muito pior do que tudo que já tinha experimentado antes.
"O fato de você ainda estar aqui, e ser capaz de se mover, é admirável. Muitos na sua posição já teriam perdido a cabeça de tanta dor."
Alvorada murmurou silenciosamente enquanto examinava ao redor. Não falava à toa; esperava tudo estar preparado antes de agir. Tinha que garantir que tudo fosse perfeito antes de capturá-lo.
Só assim, Sithrus ficaria satisfeito.
Felizmente, Alvorada não precisou esperar muito. Poucos segundos após suas palavras, o ar ao seu redor se modificou, e através da janela do escritório, um enorme domo se materializou, envolvendo a paisagem do lado de fora.
Ele sorriu suavemente.
'Está feito.'
Voltou sua atenção para Noel novamente.
Porém, assim que fez isso, o sorriso desapareceu de seu rosto ao ver Noel dar um passo à frente.
Franziu a testa, e com um estalo de dedos, Alvorada fez Noel parar de se mover.
Não era muito forte. Era fácil para Alvorada detê-lo com um simples estalo de dedos, mas...
Seria realmente tão simples assim?
Com um olhar que só poderia ser chamado de destacado, Noel lentamente virou a cabeça em direção a Alvorada. Embora seu corpo estivesse completamente amarrado e imóvel, não havia a menor traça de medo ou luta em sua expressão.
Apenas uma calma, perturbadora indiferença, como se nada realmente o concernesse.
Ba... Bate! Ba... Bate!
Ele ouviu o batimento repentino de um coração em sua cabeça.
Era o ritmo do seu próprio coração.
Apesar de estar tão longe, ainda podia ouvi-lo na sua mente.
Devagar, fechou os olhos e —
Ba Bate! Ba— Bate!
Seu coração acelerou. Pulsava ruidosamente em sua mente. Tão alto que todo o barulho ao redor parecia desaparecer; e, quando abriu os olhos novamente, as expressões de todas as pessoas no cômodo, além de Alvorada, tinham ficado pálidas.
Ba Bate! Ba— Bate! Ba—— Bate!
O sangue deles agitou-se, e sua mana começou a oscilar descontroladamente.
"Q-que que está acontecendo...?"
"O que diabos é isso?"
Ao ver aquilo, a expressão normalmente calma de Alvorada mudou.
No entanto, Noel não se importava.
Enquanto ouvia o batimento forte em sua cabeça, também sentia força começar a pulsar por seu corpo. Grande parte de seu poder vinha diretamente de seu coração.
Quando ele perdia seu coração, perdia a maior parte de seus poderes.
Mas Noel não era qualquer um.
Ele era alguém reverenciado como um 'deus'.
...Alguém que havia acessado a Fonte.
Embora tivesse um preço alto, Noel podia acessar o poder que seu coração guardava, independentemente de onde estivesse.
Instantaneamente, sua mana aumentou, e sons de rachaduras suaves ecoaram por toda parte.
As correntes que o prendiam ao lugar se quebraram, e a expressão de Alvorada ficou extremamente séria ao varrer a mão na horizontal, partindo Noel ao meio.
Tum!
Mas não adiantou de nada.
Mesmo com seu corpo partido, as pernas de Noel continuaram avançando, seus tentáculos criando uma nova forma de corpo.
A expressão de Alvorada se escureceu. Ele pressionou as mãos, forçando o corpo de Noel a colapsar para dentro, desintegrando-se das extremidades como cinza seca. Mas era inútil. Noel continuava se regenerando. Não importava o que Alvorada jogasse contra ele, ele ia continuar a se regenerar e avançar.
Mesmo quando tentou prendê-lo no lugar, percebeu que não conseguia mais fazê-lo.
Em pouco tempo, Noel havia dado vários passos e Alvorada fechou os olhos, respirando fundo.
Na verdade, ele vinha segurando um pouco.
Se liberasse toda a sua habilidade, destruiria todo o palácio. Isso geraria uma situação problemática, mas parecia que a situação tinha escalado a ponto de não haver mais escolhas senão atacar com tudo.
De repente, o ambiente começou a se agitar.
Seus fios dourados balançavam suavemente no ar, enquanto suas pupilas brilhavam ainda mais intensamente.
Uma pressão aterrorizante surgiu de sua forma, diferente de tudo que tinha vindo antes. Ela se espalhou, envolvendo o espaço, pressionando tudo com uma força sufocante.
Acima de tudo, ela colidiu com Noel, que finalmente parou, seu corpo congelado sob o peso esmagador.
Desta vez...
Ele não conseguiu se libertar.
RUGE! RUGE!
O palácio trepidou, e rachaduras começaram a se formar por toda parte.
Um único olhar foi suficiente para perceber.
O palácio estava à beira de desmoronar, suas paredes gemendo sob a pressão imensa emitida por Alvorada.
Estava claro: a estrutura não aguentaria muito mais.
E ainda assim...
Apesar de toda a mudança repentina na situação, Noel não parecia particularmente incomodado.
Nesse momento, levantando a cabeça e fixando o olhar em Alvorada, ele abriu a boca.
" Faça."
Hã?
Alvorada hesitou, sua mente incapaz de compreender as palavras de Noel.
Mas então—
Jato!
Uma fonte de sangue jorrou repentinamente ao redor, enquanto uma cabeça rolava no chão, e Alvorada ficou petrificado, sem conseguir entender a situação.
Devagar… sua cabeça se voltou, e então ele viu.
".....!"
Uma figura esquelética deitada atrás do cadáver do Imperador, com uma espada perfeitamente onde antes ficava sua cabeça.
Sua mão e seus olhos tremiam enquanto encarava a espada na mão.
Porém, logo seu rosto virou-se novamente.
Focaram em Noel.
"Eu... consegui."
Sua voz saiu rouca, quase tremente.
Todos podiam ver claramente a expressão de desespero em seu rosto ao olhar para Noel.
"A... coisa que você prometeu. A co-isa que você me deu. Você vai... fazer isso, certo? Vai... me consertar, certo? Eu..."
Gael largou a espada, recuando alguns passos enquanto ela rangia no chão e fixava suas mãos trêmulas.
"Não posso mais viver assim. D-ói demais... Eu preciso que você me conserte. Esperei por esse dia, como pediu, então..."
Olhando fraca para Noel, Gael perguntou:
"Me conserte. Por favor, me conserte."
No exato momento, o rosto indiferente de Noel começou a mudar.
Um sorriso surge em seus lábios enquanto seus olhos mortos fixam-se em Gael.
"Claro que sim."
Snap!
Ele estalou os dedos, e o rosto de Gael congelou na expressão, seus olhos arregalados de choque enquanto espinhos vermelhos irregulares surgiam por dentro dele, perfurando em todas as direções.
Tum—!
Seu corpo caiu no chão logo após, convulsando antes de parar completamente.
E assim morreu.
Noel não demonstrou nenhuma emoção enquanto olhava para o cadáver diante de si. Já tinha perdido há muito tempo a capacidade de sentir empatia por qualquer um que não fosse seu irmão.
Tudo isso tinha sido planejado há bastante tempo.
Era só uma questão de um pouco do seu sangue para viciar nele.
Para... fazê-lo viciado na sensação de não sofrer dor constante, graças à decisão que seu pai tomou.
'É engraçado o que algumas pessoas fariam para parar de sofrer.'
Noel conhecia bem a sensação de desesperança que vem com a dor sem sentido.
...E aproveitou-se disso ao máximo.
Como um viciado em drogas, ficou grudado no seu sangue. Tanto que não conseguia viver sem ele.
O sangue... era a única fonte que fazia parar sua dor constante. O tormento incessante de sua punição.
E isso...
Este era o resultado final.
"....."
Lentamente, Noel virou seu olhar para o Alvorada estupefato.
O sorriso nunca saiu de seus lábios enquanto o ambiente ficava silenciosamente quieto.
"Toren pode até prever meus passos. Isso... eu consigo entender. Sempre foi inteligente, mas..."
Noel balançou lentamente a cabeça.
"Não importa o que tentem, um humano não pode vencer um Vidente."
Uma risada baixa escapou de seus lábios.
"…E, surpreendentemente, tenho um irmão que é exatamente isso."
O sorriso logo desapareceu dos lábios de Noel enquanto seu olhar vazio focava em Alvorada.
"Meu irmão não enlouqueceu por desejo de poder. Meu irmão enlouqueceu por causa do que viu."
Noel fez uma pausa, pressionando lentamente o dedo na testa.
"...Tudo."