
Capítulo 713
Advento das Três Calamidades
Desde o momento em que Delilah me pediu para segui-la, já tinha uma ideia do que ela planejava fazer.
Foi por isso que fiquei nervoso.
Mas mesmo assim, não cheguei a ficar muito nervoso. Já vivenciei coisas muito mais assustadoras e consegui escapar da morte várias vezes.
Estava preparado para o que fosse acontecer.
Pronto para levar uma bronca. Para ser gritado.
Mas...
Nada disso me preparou para o que aconteceu a seguir.
"....!?"
Senti a mão de Delilah puxar meu queixo enquanto ela virava minha cabeça, e antes que eu tivesse tempo de entender a situação, algo macio bateu contra meus lábios.
Foi como se uma descarga de eletricidade percorresse minha coluna.
Meus pensamentos ficaram em branco naquele momento, e além da sensação confortável, quente e... um pouco úmida, parecia que minha cabeça tinha explodido.
Perdi a noção de tudo, só me deixando levar pela sensação.
Porém, ela não durou muito tempo.
Assim que ela abaixou a cabeça, levantou de novo.
"...Isso é prova suficiente?"
Ela acabou soltando meu queixo, e enquanto eu lentamente tentava entender o que tinha acontecido, minha cabeça se esclarecendo, ao invés de entusiasmo, senti...
'Foi curto. Muito curto.'
Não só isso, mas pareceu bastante abrupto.
Não que eu não esperasse que algo assim fosse acabar acontecendo um dia.
Mas...
'Não, não desse jeito.'
Era só um beijinho bem leve, pouco mais que uma carícia.
Eu não fiquei satisfeito em nada.
Porém, não tinha como pensar nisso por muito tempo, pois logo meu olhar se voltou para meu sogro, que alternava o olhar entre nós dois com uma expressão que parecia bem longe do seu usual semblante calmo.
Ele parecia...
Completamente em choque.
Sua boca estava aberta, e o rosto pálido.
Eu via sua boca abrir e fechar repetidamente enquanto tentava dizer algo, mas como se o ar tivesse saído de seus pulmões, ele não conseguiu dizer nada.
Ficou ali, parado, só olhando para nós sem palavras.
Um silêncio estranho tomou conta do ambiente.
Mas não durou muito, pois Delilah falou novamente. Desta vez, soando um pouco irritada.
"Não foi suficiente?"
Ela olhou de volta para mim, e meu coração deu um pulo.
Não me diga que...
"Nah, foi suficiente!"
As palavras do Orson saíram logo em seguida. Sua voz quase soava um pouco alta demais, como se tivesse forçado a falar. Eu também fiquei um pouco aliviado, porém, ao mesmo tempo, desapontado.
Grato por não precisar passar por outro beijo, e ao mesmo tempo frustrado por não ter passado por outro beijo...
'Isso nem faz sentido.'
Fiquei massageando as têmporas, mas logo Orson falou de novo.
"Você realmente não está fazendo nada, né? Se você quer mesmo que ele seja seu noivo, tudo bem... só não achei que vocês—"
"Só pode ser ele."
Respondeu Delilah minutos depois, interrompendo o sogro, mantendo a expressão séria.
A expressão do Orson congelou ao ouvir suas palavras, e logo seu olhar se voltou para mim.
Senti uma pressão invisível me dominar assim que ele olhou para mim, mas mantive meu rosto sério, encarando-o de volta.
Meu coração deu uma acelerada, como se estivesse me preparando mentalmente para a bronca que ele poderia me dar.
Mas...
"...E você?"
Ele fez uma pergunta inesperada.
"O que você acha dessa proposta de noivado? Está tudo bem para você? Ela não te forçou a aceitar, né?"
"Me forçar...?"
Pensei por um momento e quase acenei positivamente. Agora, pensando bem, ela realmente me obrigou de certa forma — de repente ela me puxou de lado e me disse que estava noiva.
Depois, descobri que eu era o noivo dela.
"——!"
De repente, a temperatura na sala parecia cair, e ao sentir a nuca lentamente arrepiando, imediatamente balancei a cabeça, dizendo que não.
"Não, não foi forçado. Foi de comum acordo."
"...Entendi?"
Os olhos do Orson se estreitaram um pouco enquanto ele nos observava.
Ele realmente parecia estar duvidando da situação.
No final, suspirei.
"Sim."
Olhei para Delilah.
"...Eu realmente não estou sendo forçado a esse noivado. Quero mesmo estar noivado com ela."
Não estava mentindo.
Já tinha percebido meus sentimentos há algum tempo.
Além disso, a ideia dela se envolver com outra pessoa me dava vontade de vomitar. Só podia ser comigo.
Embora fosse um pouco cedo, não importava.
Já tinha tomado minha decisão.
"Sério?"
"Sério."
Concordando mais uma vez, e como se percebesse o quão decidido eu era, o Orson finalmente suspirou e se reclinou na cadeira, cobrindo o rosto com as mãos.
"Sinceramente, isso eu não esperava. Não sei se vocês estão mentindo pra mim ou não. Mas, de qualquer forma, esse noivado é meio problemático no momento."
"Hã?"
Nos olhamos, ambos atentos ao seu comentário.
Problemático? Em que sentido?
Porém, logo compreendi o motivo.
"Considerando que a Cerimônia de Armamentos está ocorrendo, e que eu devo me manter neutro, o fato de vocês dois estarem noivos pode dar a impressão de que não sou uma parte neutra. Na verdade, pode até parecer que vocês são meus peões. E isso certamente será contestado pelas outras Casas, sem falar no Marques."
Batendo na mesa, o duque nos olhou com atenção.
"Sobre o seu noivado... Não é que eu não possa controlá-lo. Se a Delilah realmente quiser ficar noiva de você, posso autorizar. Mas não posso anunciar nada oficialmente ainda. Vai ser um pouco depois que a Cerimônia de Armamentos terminar e a votação para o próximo chefe for anunciada. Está tudo bem pra vocês?"
"Tudo bem pra mim."
Não via problema nesta proposta.
Fazia sentido até certo ponto, e não me incomodava esperar. Afinal, o noivado já foi um pouco apressado.
"...Del?"
Mas parecia que só eu estava satisfeito com tudo.
Depois que o duque chamou seu nome, Delilah não respondeu imediatamente. Sua sobrancelha estava levemente franzida, e seus olhos estavam direcionados ao chão.
Por fim, ela assentiu.
"Ok."
Foi só aí que um sorriso finalmente surgiu no rosto do duque, ao olhar entre nós dois.
"Perfeito. Nesse caso, enviarei os papéis de noivado para a Casa Evenus mais tarde, para que vocês possam oficializar. Assim que tudo estiver resolvido, faremos o anúncio oficial, juntamente com uma possível data para o casamento."
Ele se levantou novamente, e seu rosto assumiu uma expressão um pouco complicada ao olhar para Delilah, depois para mim.
"...Espero que vocês não estejam apressando essa decisão de se engajar. Se quiserem cancelar, terão até o dia em que o noivado for oficialmente confirmado. Após essa data, não poderão mais cancelar. Está entendido?"
"Sim."
Assenti, assim como Delilah.
"Então está decidido. Podem sair. Tenho algumas coisas a resolver em preparação para a próxima Cerimônia."
"...Entendido."
E, com isso, Delilah e eu deixamos silenciosamente o escritório.
Quando fechamos a porta lá fora, não começamos imediatamente a caminhar. Eu parei por um momento para olhar para Delilah.
Ela me encarou sem dizer uma palavra, mas dava para entender pelo rosto o que ela queria dizer.
Antes que ela pudesse falar alguma coisa, a interrompi.
"Não, eu não gostei disso."
"....!?"
Os olhos de Delilah se arregalaram.
Ela parecia quase estupefata.
No entanto, eu não mentia.
"Foi curto demais, abrupto. Foi só um beijo."
Chame-me de pão duro, mas para mim, aquilo foi pouco.
Pouco e rápido demais.
Olhei ao redor antes de focar na direção do corredor principal. Então, olhando de volta para a Delilah ainda chocada, esbocei um sorriso sutil e segui na direção do salão principal.
"Só pra você saber, essa nem conto."
Gostaria de fazer de novo, mas naquele momento não dava, já que estávamos do lado de fora do escritório do duque.
O clima também não estava muito bom.
'Sim, não conto essa.'
***
"....."
Delilah ficou ali, em silêncio, observando as costas de Julien se afastando.
Ela ficou parada, atônita, incapaz de processar bem a situação, enquanto pensava nas palavras dele anteriormente.
'Não, eu não gostei.'
'Foi curto demais, abrupto. Foi só um beijo.'
'Só pra você saber, essa nem conto.'
As palavras de Julien ecoaram na cabeça dela várias vezes.
Curto demais? Rápido demais? Só um beijo?
Sua mente estava em um estado de confusão.
Na verdade, quase teve um ataque cardíaco, achando que ele não tinha gostado.
Mas depois que ele explicou, ela entendeu o que ele quis dizer.
'Foi curto demais?'
Ela não tinha pensado muito nisso. Só tentava provar para o pai que não mentia, mas ao recordar a sensação anterior — seus lábios macios e quentinhos, e a tontura que a invadiu — Delilah sentiu algo dentro de si se agitar ao pressionar a mão contra o lábio.
Era algo que ela nunca tinha sentido antes, e por um breve momento, desejou que aquele momento durasse mais.
Porém, ela sabia que não era hora para isso, e rapidamente se afastou.
Mesmo assim.
Só de pensar nisso, ela percebeu algo.
'Ele está certo...'
Percebeu também que foi curto demais.
Mas o motivo de ser curto era a presença do pai dela. Se ele não estivesse lá...
"...."
Devagar, afastando a mão dos lábios, Delilah olhou mais uma vez na direção de Julien, e depois virou-se de lado.
'...Também não vou contar isso.'