
Capítulo 697
Advento das Três Calamidades
'Não devo demorar para sair daqui. Já ultrapassei a minha welcome.'
Ao sair do dormitório, olhei para a paisagem tão familiar à minha frente. Fazia um tempo que não a via, e já tinha começado a sentir saudade dela. Pelo menos, o ar aqui era muito melhor do que o ar seco e árido da Dimensão Espelho.
'...É, não quero fazer outra viagem tão longa como essa na Dimensão Espelho de novo. Ainda bem que entendo por que as pessoas perdem a cabeça quando ficam lá por muito tempo.'
O lugar simplesmente não era feito para os seres humanos viverem.
Enquanto algumas cidades prosperavam, as condições de vida na maioria das regiões eram ruins.
Eu não conseguiria suportar isso por mais de um ano. O fato de An'as e Anne ainda conseguirem viver lá era impressionante. Mas também tinha seu preço.
"Enfim, chega de papo."
Depois de pegar tudo o que precisava no dormitório, era hora de partir.
Destino seguinte: a casa dos Evenus, onde meu irmão morava.
'Como será que ele tá?'
Precisávamos conversar bastante.
Aquele idiota...
Como ele podia ser tão vago?
Balancei a cabeça, dando um passo adiante, quando senti uma sensação de tremor vindo da minha manga. Olhando para baixo, um pequeno caranguejo saiu de lá.
"Oscila..."
Ao olhar para o caranguejo, não sabia exatamente como me sentir.
"Esse lugar é estranho. Não tomei a decisão errada."
Para contemplar o sol distante, Oscila fechou os olhos e começou a se banhar nele.
'Sério, estou surpreso que o Oscila decidiu vir comigo.'
Mas, por outro lado, isso se devia principalmente ao puxa-saco do Bico-Luminoso e ao Pedregulho, que meteram ideias estranhas na cabecinha do pobre caranguejo. Não sabia o que tinham dito, mas no momento em que eu estava prestes a partir com Delilah e as outras, o caranguejo insistiu em me seguir.
Obviamente, não ia rejeitar uma oferta assim e concordei.
'Agora não só tenho o Bico-Luminoso, como também o Oscila, apoiando como uma Arma de Destruidor.'
A presença deles também foi a principal razão pela qual tive que sair.
Embora a maioria das pessoas não conseguisse detectá-los, se alguém fosse forte o suficiente, perceberia quase imediatamente.
"Hoo."
Respirando fundo e sentindo o calor escaldante vindo de cima, olhei ao redor e, antes que percebesse, estava de pé na entrada da Academia.
Gente entrando e saindo, provavelmente tentando espiar os alunos do terceiro ano.
Era uma cena caótica e barulhenta.
Porém...
Havia um certo charme nisso que me fazia sorrir involuntariamente.
Olhei na direção do portão da academia pela última vez, dei meia-volta e parti.
Adeus, Refúgio.
*
"Ugh!"
Gemendo, ajeitei as costas enquanto tentava manter minha postura.
TRRR!
Mas isso era mais fácil falar do que fazer. Sentindo a carruagem balançar ainda mais forte do que antes, abri a janela e espiei para fora.
"Quanto tempo até chegar? E... Você consegue dirigir um pouco mais devagar?"
"Estamos quase lá. Paciência, só mais um pouquinho!"
Ao ouvir o cocheiro, quase soltei um palavrão. Essa foi a décima vez que ele repete a mesma coisa.
A viagem até a casa dos Evenus não foi fácil.
Primeiro, precisei pegar um trem até Lens, trocar de linha e depois seguir de carruagem até o casarão principal.
Era uma viagem que levava pelo menos alguns dias.
Já sentia minha coluna chorando por socorro.
"Droga. Da próxima vez, vou mandar alguém me teletransportar aqui. Isso é demais. Esquece o mo—"
"Chegamos!"
Seguindo a voz do cocheiro, a carruagem parou. Não perdi tempo e abri a porta, jogando uma sacola de moedas para o cocheiro antes de olhar para a propriedade ao longe.
"Hã...?"
Esperava que a propriedade estivesse ainda mais imponente do que antes, mas, em vez disso, fiquei paralisado ao ver o estado de decadência em que se encontrava. A fonte na entrada parou de jorrar há tempos, sua bacia estava rachada e seca. As plantas que antes estavam vibrantes estavam murchas, sem cor alguma.
Não só isso, os mordomos e guardas, que antes mantinham o local impecável, já não estavam lá.
Ao olhar ao redor, o lugar parecia abandonado, silencioso de forma assustadora e vazio.
"Que diabos...?"
"Você parece confuso."
Foi a voz do cocheiro que me tirou do choque. Lentamente, virei a cabeça e o vi suspirar enquanto olhava para a propriedade.
"O lugar era bem diferente no passado. Não há muito tempo — quase meio ano — essa casa prosperava. Com o surgimento dos Gêmeos—"
"Ehm!"
Tossi e olhei de volta para o cocheiro, que me olhava de um jeito estranho.
"Como eu dizia, com o surgimento dos Gêmeos—"
"Ehm! Ehm!"
"Você tá bem?"
"Eu... tô... bem. Só cansado da viagem."
Tossindo novamente, perguntei.
"Sei que a casa já foi próspera, mas por que está assim? Aconteceu alguma coisa?"
"Hmm, parece que você realmente não sabe."
O cocheiro suspirou e balançou a cabeça.
"...Muitas más decisões financeiras, pressão de nobres externos querendo uma fatia do bolo, e a revelação repentina sobre o Príncipe Leon."
"O—oh."
Meu estômago já roncava feito um leão faminto.
Príncipe Leon?
Só de pensar, me deu vontade de vomitar.
"Eu... entendo."
"A Casa dos Evenus cresceu rápido demais e ficou paranoica. No final, só dá para culpar o cabeça da família por eles estarem nesse estado."
O cocheiro balançou a cabeça novamente, puxou as rédeas do cavalo e começou a dar ré lentamente, virando a carruagem.
"Jovem, não sei qual é o seu negócio com a Casa dos Evenus, mas aconselho que se mantenha bem longe deles. É uma embarcação afundando."
E assim, com essas palavras, a carruagem começou a se afastar, desaparecendo ao longe enquanto eu permanecia na mesma posição por um bom tempo.
Embarcação afundando?
Sorrindo, balancei a cabeça lembrando de uma certa conversa que tive com 'Aldric'.
"Muito pelo contrário."
Segui em frente e entrei na mansão. Como não havia ninguém lá dentro, nem me preocupei em esconder minha presença e simplesmente entrei.
'Como esperado, está vazio.'
Olhei ao redor, subi ao segundo andar e parei em frente a um escritório em particular.
Estava prestes a levantar a mão para bater quando uma voz suave veio de trás.
"Entre."
Clank!
Sem cerimônia, abri a porta.
Esperando por mim no escritório, de costas para mim, com o olhar direcionado à grande janela que mostrava a paisagem externa, Noel lentamente girou a cabeça e um sorriso tênue se abriu em seus lábios enquanto me observava.
"...Demorou um pouco."
Abri a boca, mas a fechei logo depois, ao encontrar um sofá e me sentei.
"Sim, demorou. E quem você acha que é o culpado?"
Noel apenas sorriu e se sentou, apoiando ambos os cotovelos na mesa, com o queixo pousado nos dedos entrelaçados.
"...Não sei."
Ele fingiu ignorar por um momento, mas então...
"Provavelmente, devia perguntar ao meu irmão. Aprendi com ele. Ainda não sei exatamente o que ele está planejando."
Minha expressão congelou, sem conseguir responder.
'Droga. Ele me pegou na curva.'
O fato de eu também não saber só tornava tudo pior.
Felizmente, agora que recolhi todas as relíquias, podia começar o processo de relembrar tudo, pelo menos, foi o que Noel me disse.
'Não, espera... Ainda preciso pegar o Cálice com o Leon.'
Isso ia ser um pouco complicado de conseguir.
"Ah, é verdade."
Ao lembrar do estado em que a propriedade se encontrava, olhei para Noel.
"Suponho que você vai começar logo?"
Noel sorriu.
"...Mhm, vou. Você chegou na hora certa."
Deitando-se de costas na cadeira, os olhos de Noel brilharam com uma frieza que parecia completamente diferente do rosto quente que tinha exibido alguns instantes antes. Isso fez eu endireitar as costas por um momento.
"Os movimentos ao redor da casa começaram a ficar mais intensos. Não deve demorar para que outras casas nobres tentem tomar o terreno. Estou gradualmente fazendo os guardas e funcionários da propriedade fugir, para parecer que estamos passando por um momento difícil."
"Certo."
Isso já tinha sido me contado antes por ele.
A Casa dos Evenus não era pobre. Após o acordo comercial com os Kasha, éramos extremamente ricos. Contudo, para executar seu plano, Noel fez a família Verlice assumir diretamente o lado do comércio dele.
Muitos lucros que eles obtinham eram secretamente repassados para nós, para que Noel pudesse criar uma força forte o suficiente para tomar de vez as várias casas nobres que planejavam se impor.
"Reuni riqueza e poder suficientes para engolir tudo ao redor sem precisar aumentar nossa propriedade."
A voz de Noel ecoou silenciosa pelo escritório enquanto ele se levantava lentamente, apoiando a mão na mesa.
"Vamos agir rapidamente. Tão rápido que nem vão perceber. Quando engolirmos tudo, já será tarde para o Império reagir. Teremos terras suficientes para rivalizar com os Ducados e ameaçar o Império o bastante para que eles tenham que fazer algo."
Ao ouvir isso, franzi o cenho.
"...Não seria isso ruim? Concordo que tomar alguns nobres é uma coisa, mas enfrentar diretamente a família Megrail? Quais são seus planos?"
Olhou para mim e sorriu.
"Emmet... irmão."
Noel retirou a mão da mesa, olhando para o pátio externo da propriedade.
"Você realmente acha que não sei disso?"
"...Ah, sim."
Sabia que Noel não era tolo a ponto de não perceber isso.
Estava só tentando entender o que ele pensava. Mas, toda vez que o via, ficava mais difícil de lê-lo, como se ele estivesse se escondendo atrás de uma parede invisível que eu não conseguia atravessar.
"Toren vai tentar absorver seu sangue em breve."
Vasculhei os lábios.
"Eu se—"
"Ele vai fracassar."
"Hã?"
Pisquei lentamente, olhando para Noel, cujo rosto ficou tão escuro que quase parecia outra pessoa.
"É aí que entra a minha hora."
Ele respirou fundo lentamente.
"...Vou matar o Imperador."