
Capítulo 678
Advento das Três Calamidades
[Posso fazer isso… para sempre?]
Xa'hurl momentaneamente parou ao ouvir as palavras do humano.
Mas então—
Estalo—!
O chão tremeu enquanto o olho sacudiu, seus tentáculos atacando Lazarus de todas as direções, enroscando-se nele e apertando com força.
Estalo—!
O som abafado ecoou novamente, com órgãos e pedaços de carne voando para todo lado. Era uma cena grotesca que faria os estômagos de qualquer um revirar ao olhar.
Mas…
Quando o olho piscou, a cena se repetiu, e Lazarus apareceu na sua frente. Assim como antes, seus lábios curvaram-se em um sorriso de deboche enquanto ele levantava a cabeça fraquamente para encarar o gigante olho diante dele.
"Como eu disse… posso fazer isso por—!"
CRACK!
Só que seu corpo foi despedaçado instantaneamente mais uma vez. Para reaparecer ileso poucos instantes depois.
O mesmo sorriso de Lazarus permanecia nos lábios enquanto olhava para Xa'hurl.
Ele se lembrava de tudo que havia acontecido.
Era como Xa'hurl. Preso nesse limbo de tempo, seu corpo sendo constantemente transformado em finas partículas de papel.
Lazarus compreendia profundamente que sua morte tinha sido brutal. Provavelmente morreu de uma maneira horrenda.
Mas…
Foi rápido.
A dor que sentiu foi quase insignificante.
[Como ele consegue fazer isso…?]
Xa'hurl tremeu mais uma vez, sua voz soando extremamente agitada.
[Como isso é possível? Como uma criatura como você consegue fazer algo assim?]
Como era possível??
Nada fazia sentido para ele!
Poderia ser a relíquia estranha? Sim, tinha que ser a relíquia.
Xa'hurl fixou seu olhar novamente no humano enquanto tentáculos saíam disparados, envolvendo seu corpo e esmagando-o como antes.
CRACK!
Um olho flutuava na água como antes, e ao sentir a energia contida nele, Xa'hurl tentou alcançá-lo, mas o mundo de repente mudou de forma abrupta, e uma figura familiar apareceu diante dele novamente.
[…..]
BANG!
Na sua fúria, o ser atacou para baixo, esmagando o humano com um único golpe, enquanto um som de estalo abafado ecoava mais uma vez pelo ar.
Cracka—
A areia explodiu no ar com o impacto, e ao lentamente se assentar, Xa'hurl viu uma silhueta fraca surgir mais uma vez, encarando-o com o mesmo sorriso perturbador de antes.
"Como eu disse…."
A voz do humano se espalhou na água mais uma vez, invadindo a mente da besta.
"…Posso fazer isso para sempre."
Bang—
Ele foi esmagado mais uma vez, seu corpo reduzido a uma pilha de carne.
[Você consegue continuar?]
Bang—! Bang!
Xa'hurl bateu no chão várias vezes, esmagando tudo ao redor enquanto descarregava sua raiva.
Bang—
[Eu também posso…]
Quando a areia finalmente se acalmou, Xa'hurl não esperou e continuou matando o humano incessantemente.
Experimentou diferentes formas de matá-lo.
De rasgar seu corpo, a queimar lentamente vivo no fundo da água, a destruir sua mente.
Testou várias técnicas, cada uma mais dolorosa que a anterior.
E ainda assim…
O humano não recuava nem um pouco.
[Como isso é possível...]
Assistindo ao humano aparecer mais uma vez, Xa'hurl parou pela primeira vez enquanto a criatura permanecia do lado oposto, com a face pálida, mas olhos claros.
"Você vai parar…?"
Lazarus escovou o cabelo, com um pequeno tremor nos lábios.
"...E eu achando que você dizia que podia ir até o fim. Isso era tudo um—!"
Tentáculos dispararam novamente, rasgando seu corpo ao meio. Desta vez, Xa'hurl fez questão de ser o mais lento possível ao dividir seu corpo. Queria que o humano sentisse a dor. Queria destruí-lo mentalmente.
Mas…
"Foi uma dor e tanto."
O humano parecia completamente ileso.
Mais uma vez, apareceu, tocou seu abdômen e murmurou coisas como, 'Então é assim que meus órgãos parecem. Não é uma visão muito bonita.'
Quase como se toda a provação tivesse deixado nenhuma cicatriz na sua mente.
Será que ele era imune à dor?
…Ou será que o humano só estava fingindo?
O olho de Xa'hurl tremeu novamente, mas desta vez rapidamente se acalmou antes de se fechar e desaparecer.
[…Talvez eu não consiga te matar, mas isso não significa que não poderei ir embora. Todo o mundo já esqueceu de você. Não faz sentido—!]
Xa'hurl se viu mais uma vez diante do humano.
Assistindo à cena, a criatura congelou, completamente incapaz de entender.
Mas então, ao ver o humano sorrindo na direção dele, a fúria de Xa'hurl foi reacendida enquanto a figura tocava calmamente seu pescoço.
"É uma pena mesmo você ter saído sem me matar. Me senti meio sozinho, então acabei me matando só para te ver—!"
[Humano!]
BANG!
Mais uma vez, Xa'hurl matou o humano enquanto uma grande tendência caía sobre ele, esmagando-o no ato.
Na sua raiva, esquecia de torturá-lo, achando seu corpo com um único movimento.
Mas…
"O que eu disse sobre mortes rápidas? Elas simplesmente não—!"
BANG!
Ele foi mais uma vez morto.
Xa'hurl não segurou nada; continuou a matar o humano sem parar. Não acreditava nem por um segundo que ele conseguiria suportar a tortura por muito tempo.
Ele iria desistir mais cedo ou mais tarde.
Xa'hurl planejava destruir completamente sua mente.
Se não fosse possível matá-lo fisicamente, iria fazê-lo mentalmente.
De uma forma ou de outra, Xa'hurl faria o humano sofrer até desejar somente a morte.
O humano pode achar que consegue continuar assim para sempre, mas Xa'hurl viveu por muito mais tempo do que ele jamais poderia imaginar.
Um ano...? Dois anos...? Uma década? Xa'hurl poderia aguentar tanto tempo assim.
Será que o humano conseguia?
Xa'hurl não achava. De uma forma ou de outra, ele destruiria o ciclo.
BANG—!
As águas tumultuaram enquanto torturas indescritíveis aconteciam sob as profundezas da Boca.
O que Lazarus suportou vai muito além do que qualquer humano normal conseguiria sem perder a cabeça.
Então…?
Como…?
Como Lazarus conseguiu permanecer tão calmo?
Como ele conseguiu ficar tão indiferente a todas as mortes?
Como ele—
"Surpreende-me que ainda não tentou me prender e sair. Se conseguir impedir que eu me mate, então talvez—!"
Xiu!
Desta vez, ele foi atravessado pelos tentáculos por todos os lados.
Sentindo a dor invadir cada parte de seu corpo, Lazarus encarou fixamente o olho na frente dele.
Perdeu a conta de quantas vezes morreu até agora.
Seu olho direito queimava com uma intensidade que só de manter aberto machucava mais do que tudo o que já tinha suportado da criatura primordial.
'Não posso resistir.'
'...Vai desistir em breve, né?'
'Quero que isso acabe.'
Vozes sussurraram na sua mente, aconselhando-o a parar.
Desistir.
Deixar essa tortura terminar.
Elas pareciam tentadoras na cabeça de Lazarus. Quase foi tentado a escutá-las.
Ele estava preso naquelas profundezas com uma das criaturas mais poderosas do mundo, incapaz de lutar.
A diferença entre os dois era como céu e terra.
O único que podia fazer era suportar sua tortura interminavelmente.
Isso, por si só, era uma forma de prisão.
Um modo de desespero.
Mas isso...
Lazarus tinha plena consciência de que já tinha passado por algo assim antes. Talvez não como Lazarus, mas como Julien, ele já tinha enfrentado todas as formas de desespero.
Suas memórias ainda permaneciam em sua mente.
Suas experiências ainda estavam vivas dentro dele.
Tudo…
Lazarus se lembrava de tudo.
Por isso, mesmo morrendo repetidas vezes, nunca perdeu quem era. Sua mente não quebrou, e ele conseguiu rapidamente afastar a dor.
BANG! BANG! BANG!
Ele persistia.
Poderia continuar assim para sempre.
Com as memórias de Julien, tinha certeza de que podia aguentar o tempo que quisesse.
Mas…
Será que isso era realmente o que ele queria?
Perseverar até que um dos lados desistisse de alcançar o que deseja?
'Não é.'
Julien tinha desistido de si mesmo para aprender mais sobre o quinto nível da magia emotiva.
Ele criou uma persona totalmente nova para isso.
Foi criado para atingir esse objetivo.
Lazarus era apenas um subproduto do que Julien queria conquistar.
No fim, ele não era uma pessoa de verdade.
Era apenas uma entidade.
Uma entidade criada para experimentar coisas que Julien não tinha vivido.
E assim…
Repetir o que Julien fez no passado ia contra tudo que ele tentava alcançar.
Seu objetivo era tocar e compreender de fato o quinto nível da magia emotiva.
Já tinha tocado nele, mas ainda não o tinha dominado completamente.
Precisava deixar ir.
Precisava abandonar as memórias de Julien e se tornar uma entidade completamente diferente.
Para poder experienciar tudo de novo.
Era assustador.
Tão fodidamente assustador.
O simples pensamento de passar por toda aquela dor sem nada para suportar aquele trauma o assustava até o âmago.
…Tudo nele não queria fazer isso, e apenas a ideia de imaginar aquilo fez suas mãos tremerem.
Lazarus compreendia as verdadeiras consequências de suas ações.
Sabia que poderia enlouquecer.
Sabia também que, ao conseguir, ele desapareceria, virando apenas alimento para Julien e seu crescimento.
Essa ideia de desaparecer e sumir assim o assustava demais.
Mas tinha que fazer isso.
'É isso que fui feito para. Sou apenas uma entidade errante criada com o único propósito de crescer…'
BANG—
Sentindo seu corpo sendo esmagado mais uma vez, Lazarus acordou e viu novamente o gigante olho à sua frente.
Encarrando-o, Lazarus sorriu tristemente.
Este seria o começo do fim para ele.
Mas mesmo com a missão quase acabando, ele planejava ir embora com um estouro.
Ele queria que sua existênciazinha tivesse algum significado.
"Vamos lá. Tô ficando entediado. Quando você vai me atacar de novo—!"
BANG!