
Capítulo 677
Advento das Três Calamidades
Alguns momentos antes.
"…."
Uma calma inquietante se instaurou ao redor no instante em que os tentáculos avançaram e envolveram Delilah.
Ninguém sabia como reagir.
Como poderiam reagir se quase ninguém conseguia sequer olhar para a criatura imensa que se erguia ao longe?
Nem mesmo tinham certeza do que tinha acontecido.
Tudo que sabiam era que estava em silêncio.
Um silêncio tão absoluto que parecia que todo o barulho tinha sido arrancado do mundo.
"Será que acabou…?"
"Ela conseguiu derrotar aquele monstro?"
"Será que… podemos…?"
"Não olhem!"
Uma voz alta rompeu o silêncio, seguida por outras, enquanto todos começavam a questionar a situação, abaixando as cabeças rapidamente, enquanto o Santo observava com cautela a criatura gigantesca que aparecia ao longe, flutuando no ar sem fazer qualquer movimento.
O rosto do Santo ficou extremamente sério.
Ele era a única pessoa que tinha conseguido ver o que realmente aconteceu.
Por isso… ele também era o único ciente da derrota daquela mulher estranha.
Seu semblante se fechou enquanto revia a sequência dos acontecimentos em sua mente.
Tudo aconteceu muito rápido, mas pelo que conseguiu entender, a mulher teve uma reação ao sangue da fera, e, como resultado, enfraqueceu — o que Xa'hurl aproveitou e absorveu ela.
O que aconteceu com ela, o Santo não tinha certeza, mas ao sentir a pressão emanando da criatura distante, ele se tensionou.
Isto…
Isto era extremamente ruim, não era?
O Santo podia sentir uma energia aterrorizante começando a ferver profundo no corpo da besta. Se ela conseguisse absorver tudo, então—
"Saiam! Rápido, deixem este lugar! Abram a vela!"
Ele começou a ordenar rapidamente enquanto olhava para todos a bordo.
"Soltem a âncora e não olhem para a fera! Temos que partir agora!"
Seus comandos foram recebidos por um breve silêncio, mas então—
Clamores!
Todos se levantaram rapidamente, colocando-se a trabalhar enquanto seguiam suas ordens sem olhar na direção da criatura ao longe.
"Precisamos partir agora! Esta é nossa única—"
"Espere!"
De repente, uma voz interrompeu o Santo. Quando virou a cabeça, seus olhos caíram sobre uma figura que ele não conseguia exatamente lembrar.
'Ah, ele está com aqueles dois estranhos que desapareceram. An'as…?'
Ele só se lembrou por causa do diário que tinha no bolso.
"O que foi…?"
"Isso…" An'as fez uma pausa, olhando para a água enquanto olhava de volta para o Santo.
"Ainda há duas pessoas na água. Devíamos—"
"Não."
O Santo interrompeu An'as, entendendo exatamente o que ele tentava dizer.
"Entendo o que você quer, mas não é possível. Diante da nossa situação atual, tenho a responsabilidade de trazer todos aqui em segurança. Não posso esperar por eles. Mesmo que vá contra a vontade da Deusa…" Pausou, balançando a cabeça. "Não, esta é a vontade da Deusa. Não podemos sacrificar nossos seguidores assim."
"Não, mas—"
"Não há 'mas'. Se você não gosta do que estou fazendo, está completamente livre para deixar o barco. Só não atrapalhe."
"Ah…"
An'as quis argumentar, mas ao ver a expressão do Santo, percebeu que não haveria diálogo; ele realmente planejava partir sem eles.
'Oh, não… o que eu faço? Ah! Certo! Tem o barco de emergência que a Anne preparou! Se eu puder—hm…'
An'as de repente parou, olhando para o Santo que estava ali perto.
"Qual sua decisão? Você vai ficar ou vai embora?"
An'as mordeu os lábios, pensando na situação. Em qualquer outra circunstância, ele teria ouvido o Santo sem questionar, mas… agora, ele hesitava na frente da própria figura que um dia venerou.
O que estava acontecendo?
Como ele podia estar assim?
Por que se importava com pessoas que conheceu há pouco tempo e que o colocaram nessa situação?
Normalmente, qualquer pessoa normal submetida a uma situação dessas nutriria ressentimento profundo. Desejaria até a morte delas.
E, ainda assim…
An'as não conseguiu sentir ódio por elas.
Por quê?
Por que isso…?
'Cresça.'
Uma voz de repente sussurrou na sua cabeça. An'as olhou apressadamente ao redor, mas não viu ninguém falando.
'Você precisa crescer. Pare de se agarrar às coisas que te prendem.'
A voz ecoou novamente, e desta vez, ele percebeu que não era real.
Era dentro de sua mente…
O que é...
Antes que An'as pudesse entender, a voz repetiu-se em curtos intervalos. Era familiar, mas ele não conseguia identificar a quem pertencia.
E, no entanto, algo dentro do seu peito se movia.
Ele não sabia por quê, mas, sem pensar, seu corpo se moveu e então—
Ele pulou na água.
'Não tenho mais utilidade para alguém que está preso por pesos que ele próprio não consegue suportar.'
'Chegou a hora de soltá-los e crescer.'
SPLASH!
Voz de Xa'hurl sussurrou na mente de Lazarus como um sussurro, suave a princípio, mas profundo. Ela o deixou ali, imóvel, incapaz de respirar ou pensar.
[…Você está mais do que pronto para eu absorver.]
Um único sussurro foi suficiente para causar uma forte enxaqueca na cabeça de Lazarus. Enquanto seu olho tremia, parecendo mudar de forma e se transformar em outra coisa, a dor se intensificou, e ele lutou para entender o que estava vendo.
Era um olho?
Um… vazio negro? Um…
Não, isso não importava. Lazarus nem conseguia pensar nisso enquanto se lembrava das palavras anteriores de Xa'hurl e sua mente se desmoronava completamente.
A mulher do império tinha perdido?
Como…?
Fazia total sentido pra ele. Ele sabia quão poderosa ela era. Em sua cabeça, não deveria haver ninguém abaixo do Pico que fosse capaz de derrotá-la.
Nem mesmo acha que a própria Em seria capaz de tamanha façanha.
Então…
Como ela tinha perdido?
Xa'hurl era realmente tão poderosa?
Lazarus sentiu seu raciocínio desabar sob o peso dessas ideias. Seu olhar se voltou para a criatura, sua cabeça doendo ainda mais enquanto lutava para compreender aquele ser à sua frente, que parecia se transformar continuamente em diferentes formas, mas se havia uma coisa que ele tinha certeza, era o calor lento e perturbador que começava a se acender lá dentro.
Ele não estava bravo com a aparente derrota da mulher.
Ele se recusava a acreditar que ela tinha sido vencida.
Ele também não achava que Xa'hurl fosse capaz de absorvê-la tão rapidamente. Ela ainda estava viva, com certeza.
Além disso, não tinha medo da situação atual.
Era mais como se ele não conseguisse pensar em mais nada além da dor no olho direito.
Ela tinha ficado cada vez mais intensa, quase parecendo querer sair do seu globo ocular.
".....!"
Não, ela realmente tentava escapar do seu olho!
'Não…!'
Percebendo a gravidade da situação, Lazarus rangeu os dentes rapidamente, a face ficando vermelha enquanto tentava ao máximo segurar o olho e impedir que ele saísse.
Porém, essa era uma tarefa quase impossível. Era como se o olho estivesse tentando acessar algo — um poder específico que seu corpo mal podia conter.
'Não, merda!'
Compreendendo o quanto o olho era vital para ele, Lazarus tentou resistir com todas as forças, e essa luta não passou despercebida pelo ser primordial, que o observava com curiosidade.
[Que coisa estranha…]
Podia sentir a energia estranha escapando do olho de Lazarus. Também percebia a luta e a dor que ele estava vivendo.
Com um simples olhar, Xa'hurl podia perceber que o humano estava à beira de explodir de dor.
A energia ameaçava escapar de seu corpo a qualquer momento, espalhando-se ao redor.
Até Xa'hurl se tornou cauteloso com essa energia. Não era algo que pudesse levar na brincadeira.
Na verdade, ela podia sentir a ameaça vindo dela e não hesitou mais.
[…Que pena.]
O olho pulsou com luz, e num instante, tentáculos surgiram do chão, se estendendo em direção a Lazarus. Eles se enrolaram ao redor dele, apertando com força brutal. O som de ossos se quebrando ecoou ao redor enquanto sangue jorrava, manchando tudo ao seu redor.
CRAC—!
O som foi tão alto que nem a água conseguiu silenciá-lo.
A energia desapareceu no momento em que os tentáculos se contraíram. Quando finalmente soltaram, não sobraram mais do que entranhas dilaceradas e uma poça de sangue se espalhando por todos os cantos do local.
Um olho também permaneceu na água, enquanto o olho de Xa'hurl o encarava por um breve momento antes que os tentáculos se eredissem e absorvessem tudo que ainda havia na água.
Em segundos, tudo desapareceu, e as│rastas de Lazarus sumiram.
Assim, ele morreu.
O olho de Xa'hurl lentamente se fechou antes de começar a se esvair do local.
Quando se abriu novamente, uma figura apareceu diante dele, lutando enquanto segurava seu olho direito.
[Que coisa estranha…]
Olhar para o humano, sentindo a energia peculiar saindo do seu olho, Xa'hurl ficou um pouco cautelosa. Até ela sentiu uma ameaça vindo daquela energia.
O olho brilhou, e vários tentáculos brotaram do chão, todos em direção a Lazarus, envolvendo seu corpo e apertando com força.
Porém, no momento em que envolveram o humano, eles congelaram, enquanto o grande olho de Xa'hurl piscar com confusão.
[O que está acontecendo? Não foi…?]
Ela apenas ficou confusa por alguns segundos antes de pressionar firmemente contra o humano, e um som de rachadura abafado ecoou na água.
CRACK—!
Sangue jorrou enquanto pedaços de entranhas e órgãos flutuavam na água.
Xa'hurl ergueu seus tentáculos e absorveu tudo antes de fechar o olho.
Precisa rapidamente assimilar o poder da mulher humana que ainda luta lá dentro.
Ao abrir novamente seu olho, Xa'hurl olhou para a humana que lutava, diante dele.
[Como pec—Huh? O que está acontecendo…?]
Surpresa, o olho se moveu de volta enquanto observava o humano e depois seu entorno.
Desta vez, ele podia sentir que algo estava errado.
Já tinha vivenciado isso antes
Como podia—?
"Ken…"
Uma voz profunda e rouca ecoou na água enquanto Lazarus lentamente levantava a cabeça, segurando os olhos, que agora ardiam com uma intensidade insuportável.
Com a boca trêmula, conseguiu forçar algumas palavras:
"Você percebeu, não…? Eu… consigo fazer isso pra sempre."