
Capítulo 666
Advento das Três Calamidades
Toc.
Uma figura graciosa apareceu perto do porto de uma cidade imensa, com os grandes cascos dos barcos projetando longas sombras sobre as águas carmesim. Ao lado dela estavam vários cadetes, todos segurando os estômagos.
"Uekh... tenho vontade de morrer."
"Você só acabou de sentir isso? Eu é que vou morrer."
"Deixa que eu ajudo com isso."
"Vai enfiar o pé na minha bunda."
A teleportação não era fácil para o corpo. Delilah tinha resistência por causa de sua força, mas os outros estavam longe de estar bem. Levou alguns minutos para se recuperarem completamente, até que finalmente avistaram a imensa cidade que se debruçava diante deles.
Leon olhou para o local com uma expressão complicada.
"Quem diria que uma cidade dessas existiria dentro da dimensão espelho?"
As construções eram altas, predominantemente brancas, formando um contraste perfeito com o sol branco enorme que pairava no ar.
Para completar, ao longe, ele via a enorme estrutura de uma catedral, imponente no coração da cidade.
Seja pela arquitetura ou pela organização do lugar…
Leon tinha muita dificuldade em compreender completamente o que via.
'Por que os Impérios nunca mencionaram algo assim? Parece que eles guardaram isso a sete chaves de propósito.'
Não era só ele quem pensava assim. Os outros também compartilhavam expressões e pensamentos similares.
Delilah era a única que simplesmente encarava a cena sem muito pensar.
O lugar era realmente impressionante, mas ela não se importava com isso. Ela tinha só um objetivo: descobrir mais sobre...
"....."
Delilah fez uma pausa, as sobrancelhas se unindo levemente.
Quem ela procurava? Qual era o motivo de estar ali...? Seus pensamentos se perderam, e sua mente começou a ficar em branco toda vez que tentava pensar nisso.
'O que está acontecendo?'
A situação parecia estranha e sinistra.
Delilah sabia que tinha chegado ali por um motivo. Estava procurando alguém. Algo.
...Mas assim que tentava pensar na figura ou objeto em questão, sua mente ficava vazia. Ela achava cada vez mais difícil se lembrar, e os lábios se fechavam firmemente.
'Alguém está mexendo com minha cabeça?'
Delilah sentia que essa era a explicação mais próxima da verdade, mas ao mesmo tempo, achava difícil aceitar essa possibilidade.
Havia alguém forte o suficiente para alterar suas memórias?
Ela sabia que existiam figuras mais poderosas do que ela neste mundo, mas não achava que alguém fosse capaz de mudar suas lembranças totalmente assim. A ideia de uma criatura ou pessoa conseguir fazer algo assim deixou seu rosto tenso levemente.
'Isso pode ser mais sério do que pensei.'
No entanto, com toda essa situação, ela tinha dificuldades em decidir o que fazer.
O que ela mais sabia era que procurava algo ou alguém. Isso era o que ela tinha de certeza, e isso, claramente, não ajudava em nada.
Ela—
".....!"
De repente, os pensamentos de Delilah pararam.
Sem nem pensar, sua cabeça virou impulsivamente para uma certa direção. Ela não foi a única a sentir o pulso repentino de energia vindo da distância.
Quase todos na cidade sentiram isso.
Os pelos de quase todas as pessoas se eriçaram ao sentir uma pressão antiga e aterrorizante que esmagava o mundo, fazendo com que a respiração de alguns acelerasse.
Haviam até alguns que desmaiaram no chão, os emissários da igreja saindo aos berros para as pessoas nas ruas.
"Todos, entrem de volta!"
"Voltem para dentro!"
Os navios começaram a balançar e, de repente, um vento forte percorreu o ar, formando ondas.
Sinos tocaram, e gritos ecoaram.
"Ahhh!"
"Corra pra dentro, rápido!"
"Entrar!"
Num piscar de olhos, a cidade calma virou um caos, e o pânico tomou conta.
Apesar dos apelos dos emissários, o desespero só aumentava, enquanto a pressão vinda da distância ficava mais intensa.
Até mesmo o rosto de Delilah ficou um pouco sério com aquela pressão.
'Então é essa fera...'
Ela reconhecia a presença. Era a mesma que a deixara tão cautelosa ao cruzar o mar.
'No final, o motivo de eu não conseguir te sentir é porque você está aqui?'
As mãos de Delilah começaram a coçar.
Ao invés de ficar amedrontada ou nervosa, ela se sentia cada vez mais inquieta. Queria testar o monstro. Queria ver o quão forte ele realmente era.
Quem era mais forte?
Claro, esses eram apenas pensamentos passageiros. Ela tinha responsabilidades, e, ao olhar para os cadetes ao lado, percebeu que não podia colocá-los em risco na distância.
Olhou ao redor e quase podia enviá-los embora, mas então Leon a encarou.
"Por favor."
Sua voz era séria, o olhar fixo na direção da distância. Ele olhava naquela direção com uma expressão complexa.
Retratando seu olhar e finalmente olhando para ela, Leon suavizou um pouco a voz.
"Tenho a sensação de que ambos estamos procurando pela mesma coisa."
"....."
Procurando pela mesma coisa?
Delilah não respondeu, mas manteve o olhar nele.
"Eu... não entendo o que está acontecendo, mas não consigo lembrar do que estava procurando. Acho que você é a mesma coisa, né?"
'Ele também está afetado?'
Os olhos de Delilah se estreitaram ainda mais.
Antes que pudesse falar algo, Leon olhou ao longe.
"Minha intuição está gritando neste exato momento."
A voz de Leon era suave, mas carregava uma certa segurança que fez Delilah pausar. Ela conhecia suas habilidades naturais. Depois de observá-lo por um tempo e perguntar diretamente, sabia exatamente do que se tratava.
Assim…
"Consigo senti-lo."
Leon murmurou, com a boca seca, enquanto olhava para a direção onde vinha aquela pressão imensa.
"...Se formos lá, encontramos o que estamos procurando."
O olho pairava imponente acima das águas rachadas, sua enorme estrutura refletida nas fissuras, como se mil olhos estivessem encarando Lazarus ao mesmo tempo.
Naquele momento, o tempo parecia parar.
Uma pressão sufocante dominava o mundo, e Lazarus se viu preso no lugar.
Suor escorria por seu rosto enquanto ele fixava o olhar naquela íris gigante.
'Não posso me mover, não consigo me mover...'
Lazarus não era de se desesperar facilmente. Mesmo na presença da deusa, conseguia manter a calma, mas diante daquele olho colossal, ele entrou em pânico.
Era completamente impotente.
Ele… se sentia impotente.
Por mais que tentasse se libertar das correntes do olho, nada acontecia. Não tinha controle algum sobre seu corpo, apenas sua mente ainda funcionava.
E então—
Toc!
Enquanto ondas se formavam na superfície da água fragmentada, uma figura apareceu não muito longe de Lazarus, sorrindo largo e com os olhos completamente brancos, sem pupilas.
"Até que enfim, nos encontramos."
"Até que enfim, nos encontramos."
"Até que enfim, nos encontramos."
Sua voz múltipla ecoou na escuridão, aumentando a sensação de mistério e deixando Lazarus ainda mais assustado.
"Hmm, espera um pouco."
"Hmm, espera um pouco."
"Hmm, espera um pouco."
Ele bateu no peito e tossiu algumas vezes.
Finalmente, abriu a boca novamente, falando com sua voz original.
"Ah, muito melhor."
Olhou diretamente para Lazarus, seu rosto se mostrando cada vez mais torto ao observá-lo.
"Você veio longe para chegar ao Remanescente do Sul. Aposto que sua jornada foi bem mais suave do que você imaginava, né?"
Sylas começou a rir.
Estava presente o tempo todo, observando Lazarus e os demais enquanto atravessavam o Mar Rubro em direção ao Remanescente do Sul. Ele era a principal razão pela qual o caminho deles foi tão livre.
Não poderia deixá-los morrer tão facilmente.
Principalmente quando ele… e os outros, eram tão importantes para ele.
Calmamente, aproximou-se de Lazarus e deu uma boa olhada nele.
"Sabe o quanto fiquei fascinado ao ver sua magia emotiva em ação? Você… heh."
Sylas colocou a mão na boca, segurando a risada. Ainda se lembrava claramente da cena em que Lazarus lutou contra o Luminarque, vencendo com só sua magia emotiva.
Calafrios.
Era isso que Sylas sentia naquele momento.
Calafrios.
"Desde o começo, percebi que você era um mago emotivo poderoso. Isso foi uma das razões pelas quais te escolhi."
Sylas deu uma volta ao redor de Lazarus congelado.
Apesar de parecer que ele estava desperdiçando tempo conversando com Lazarus, na verdade, ele apenas aguardava o momento em que o primordial iria apagar sua existência do mundo. Era um processo que levava alguns minutos.
Antes disso, Sylas não podia tocá-lo.
"Mas você…"
Sylas virou-se para Lazarus, parando para fixar o olhar nele.
"…Superou todas as minhas expectativas. Além de ser um mago emotivo extremamente poderoso, deve estar entre os melhores do mundo inteiro!"
Sylas de repente explodiu numa risada, seu rosto incapaz de esconder sua alegria.
Finalmente.
Finalmente, ele havia encontrado o ingrediente que faltava para sua ascensão.
Após o primordial absorver sua existência, Sylas planejava absorver seus poderes emotivos. Ele e Anne eram as peças que desejava. Quando suas forças se fundissem...
"Finalmente, seremos completos novamente."
"Finalmente, seremos completos novamente."
"Finalmente, seremos completos novamente."
"Finalmente, seremos completos novamente."
"Finalmente, seremos completos novamente."
De repente, Sylas se tapou a boca, com os olhos brancos piscando. Ele se recompôs e olhou para Lazarus.
"Desculpe, é que fico empolgado às vezes."
Sorrindo, Sylas olhou ao redor. Seus olhos se fixaram numa certa coisa na mão de Lazarus, e sua sobrancelha se levantou.
"Um espelho?"
Observando com atenção, o espelho tinha padrões intrincados que o tornavam visualmente atraente.
Porém, não parecia algo realmente especial.
"Por que você estava segurando um espelho? Acho difícil imaginar que estivesse se olhando aqui."
Sylas se abaixou para olhar melhor o espelho.
Embora não percebesse nada estranho, não era ingênuo ao ponto de pensar que era só um espelho comum.
'Deve ser algum tipo de relíquia.'
Pensando nisso, por que ele estaria ali?
Sylas lambeu os lábios, refletindo sobre a situação. A Boca da Escuridão era famosa por seus ossos, já que todas as criaturas lá dentro pareciam mágicamente conter ossos. Era um verdadeiro tesouro.
Ele estava ali pelos monstros?
'Não, duvido que seja pelos ossos. Já viu ele matar alguns monstros, mas parece que esse não é seu objetivo principal.'
Então...?
Qual seria seu objetivo?
Sylas pensou profundamente, até que se lembrou de algo que encontrou na visita à catedral da deusa, e seu rosto lentamente se curvou em um sorriso.
"Entendi."
De repente, começou a compreender, seu olhar fixando-se no espelho com ainda mais interesse, enquanto cuidadosamente o pegava.
Olhando para seu próprio reflexo, Sylas riu.
"Então isso vai me ajudar a encontrar a cetro da Deusa?"
Lembrou-se de seus lábios, voltando-se para Lazarus, que encarava o espelho na mão, com os olhos tremendo levemente.
Era isso que Sylas precisava ver antes de sorrir mais ainda.
"Acho que já tenho minha resposta."