
Capítulo 627
Advento das Três Calamidades
‘O que eles estão fazendo aqui?’
Os olhos de Lazarus se estreitaram ao ver as duas pessoas à sua frente. [Lamento das mentiras] ainda estava ativo e, por isso, as duas pessoas à frente ainda não percebiam que o que estavam vendo era falso.
…Ainda.
Lazarus podia perceber com clareza que as duas pessoas diante dele eram fortes o suficiente para enxergar através da ilusão se dessem um pouco mais de esforço.
Por isso, concentrou-se inteiramente em tornar a ilusão o mais convincente possível, lentamente fazendo a cabeça do 'monstro' desviar de ambos como um sinal de indiferença.
‘Espero que isso funcione.’
Ele queria interagir com eles, mas ao mesmo tempo, entendia que havia uma grande chance de que eles não estivessem do lado dele.
Precisava agir com cautela.
As duas pessoas à sua frente eram fortes demais para que ele arriscasse algo.
Felizmente, parecia que os dois acreditaram na sua ilusão e lentamente desviaram o olhar deles. Pode ser que a luz que ele segurava fosse real, ou que eles tivessem outras preocupações mais urgentes, mas ambos rapidamente se afastaram logo após.
Só então Lazarus sentiu seu corpo relaxar.
‘Foi mais perto do que eu esperava.’
Sabia que Sylas era forte. Mesmo assim, não tinha medo dele. Lazarus talvez não conseguisse vencê-lo, mas tinha maneiras de enfrentá-lo e fugir.
O problema era com a mulher.
Lazarus não tinha ideia de quem ela era.
‘Na verdade, acho que tenho uma ideia…’
Não era preciso ser um gênio para reconhecer sua identidade.
Uma das sete senhores, Anne “Olhos Esmeralda” O’Malley. Ele deduziu que fosse ela pelo tom de seus olhos.
Entre as sete senhores, só havia duas capitãs mulheres: ela e Madame Zheng Shih. Como a descrição da Madame mencionava cabelos negros longos e sedosos, foi fácil identificar quem estava diante dele.
Mas isso levantou uma questão.
‘Por que ela está aqui? …E com a capitã dos Espectros Rubros?’
Até onde Lazarus sabia, o relacionamento entre as sete senhores não era exatamente harmonioso. Todas disputavam espaço dentro do Mar Vermelho. Havia limites para o que podiam alcançar fora do alcance do grande primordial.
Quanto mais território cobriam, mais ricas ficavam.
Por isso, a relação entre elas não era das melhores. E isso tornava tudo mais suspeito.
‘Será que estão envolvidas neste episódio? Seriam responsáveis pela maré vermelha…?’
Sentindo uma espécie de puxão e observando a expressão de An’as, Lazarus teve a impressão de que ele também pensava assim.
Mas Lazarus balançou a cabeça.
Ainda era cedo para tirar conclusões. Elas poderiam estar aqui também, como ele, investigando a situação.
Não seria estranho alguém detectar a mesma anormalidade que eles.
Mas esse era mesmo o motivo de elas estarem ali?
Lazarus fechou os olhos e desviou o olhar.
Ele ainda não se moveu. Ativou [Sentido de Mana] e fixou o olhar nas silhuetas distantes. Só parou de canalizar sua mana para a lanterna quando elas estavam longe, deixando que a escuridão as engolisse.
Ao mesmo tempo, puxou An’as na direção dele, sinalizando que fosse se mover.
An’as seguiu obedientemente enquanto Lazarus aliviava a gravidade ao redor deles, e começaram a subir, lentamente na direção de onde as duas senhores tinham ido.
O silêncio ao redor parecia opressor, enquanto a escuridão era extremamente isoladora.
Navegando nas águas geladas sem ver luz alguma, Lazarus se sentia completamente só. E isso mesmo sabendo que An’as estava logo atrás dele.
Alguma coisa nas águas parecia extremamente sinistra.
Para se distrair desses pensamentos, manteve o foco nas duas figuras ao longe.
Tudo estava ocorrendo bem, mas isso não durou muito.
Flick!
“....!?”
Como se um interruptor tivesse sido acionado, uma luz vermelho pálido acendia-se repentinamente, lançando sombras longas e distorcidas enquanto a cidade começava a ganhar vida lentamente.
Lazarus imediatamente parou ao perceber as mudanças, seu corpo ficando tenso, assim como An’as também parou.
Os dois ficaram chocados ao ver os corais e algas que começaram a pulsar com um ritmo assustador, quase vivo. Tentáculos se estendiam, crescendo mais longos e grossos, enroscando-se como serpentes ao redor dos edifícios em ruínas.
A cada pulso, o aperto se intensificava, pedras rangiam sob a pressão. Fissuras se espalhavam pelos edifícios, e lá no fundo, uma luz vermelha tênue começava a pulsar.
Era como se a cidade quebrada e esquecida de repente tivesse tomado vida novamente.
Mas, como se isso não fosse suficiente, as estátuas adormecidas no leito do mar começaram a se mover, seus olhos piscando, corpos rangendo enquanto começavam a se mexer.
Lazarus olhava para a cena surpreso, a lâmpada em suas mãos tremendo levemente.
Então—
Lentamente, mas de forma inevitável, as estátuas voltaram suas cabeças na direção deles, olhos arregalados e bocas abertas, presas na posição de meio grito.
Uma, duas, três... Logo começou a perder a conta. Mas, naquele ponto, isso não importava mais.
Aumentar a quantidade de uma figura naquelas proporções já era ruim o bastante, pois a situação já era crítica.
Lazarus fechou os olhos e abriu novamente.
‘Isso não é bom…’
***
Ao mesmo tempo, não muito longe,
duas figuras atravessavam as águas com movimentos suaves e quase sem esforço. Apesar do escuro, que lentamente dava lugar a uma luz vermelha tênue, eles conseguiam enxergar sem dificuldades.
Além disso,
conseguiam respirar e falar tranquilamente debaixo d’água.
Essa era a habilidade mais básica para dois dos sete senhores do Mar Vermelho.
“Hur, hur… Como você acha que eles vão se sair?”
“Não faço ideia, e nem me interessa.”
Anne respondeu, parecendo completamente desinteressada. Ela tinha um único objetivo ao descer às profundezas: descobrir quem era responsável por agitar o grande primordial e causar a maré vermelha.
Ela não se importava com as pessoas lá em cima, mas era do seu interesse descobrir a origem do problema e resolvê-lo rapidamente.
Por isso, uniu-se a Sylas.
“...Você continua frio como sempre, mas tudo bem. Eu queria fazer algo por eles, mas não adianta. A cidade vai cuidar deles.”
Anne levantou uma sobrancelha, mas não respondeu.
Ela não tinha dificuldades em perceber a ilusão usada pelos dois anteriormente. Talvez ela tivesse dificuldades em terra, mas debaixo d’água, onde seus olhos podiam ver tudo, a ilusão era uma brincadeira de criança.
Ela também julgou que fossem investigadores do templo da Deusa da Luz.
Para ela, não fazia sentido eliminá-los.
…E mesmo que quisesse se livrar deles, a própria cidade faria isso por ela.
Como um relógio, a cidade despertava a cada doze horas. Com um timing assustador, algas, corais e criaturas marinhas estranhas emergiam das profundezas, rastejando pelas ruínas com um propósito… Consumo.
Qualquer coisa em seu caminho, desde pedras dispersas até carne viva, era devorada sem hesitação, os corpos lentamente se calcificando e transformando tudo em pedra.
As estátuas do fundo eram os restos das pessoas que não conseguiram escapar do medo que reinava na cidade submersa, outrora parte de Virith-Anash, mas engolida por uma maré vermelha há milhares de anos.
“Você disse que sentiu a presença onde exatamente?”
Parando, Anna examinou ao redor, sua visão vasculhando os edifícios destruídos.
Olhar para baixo, viu as estátuas lentamente girando suas cabeças em sua direção, olhos vazios e bocas abertas fixos nela.
Seu rosto permaneceu impassível ao ver isso, enquanto ela cutucava a água com o dedo, fazendo uma longa trilha, logo seguida da explosão do cabeça da estátua.
“Hm?”
Sylas percebeu suas ações e levantou uma sobrancelha.
Ele logo balançou a cabeça, rindo baixo.
“E eu achando que era o temperamental aqui.”
“Cala a boca.”
“Hahaha.”
Sylas soltou uma risada amarga, sem alegria, que ecoou na copa da escuridão, um som estranho numa atmosfera tão sufocante.
Seus olhos vasculharam a paisagem destruída com uma calma estranha até se fixarem numa certa formação.
“Ah, lá está...”
No horizonte, erguia-se uma colossal pirâmide, feita de pedra preta que parecia absorver a luz. Corais infestavam sua superfície, formando espinhos agudos, pouco naturais, que se projetavam como dentes de uma fera antiga.
Com pontas reluzentes, brilhavam com uma luz vermelha fraca… quase como um batimento cardíaco.
Os cantos dos olhos de Sylas se curvaram ao admirar a imensa pirâmide ao longe, enquanto inclinava a cabeça na direção de Anne.
“Você a vê?”
“…Agora vejo.”
Anne se inclinou para frente, dirigindo-se ao enorme monumento à distância, com uma expressão séria.
Por fim, parou diante dele, olhou para cima, com o rosto levemente tenso. Apesar de seu poder, o local lhe transmitia uma sensação inquietante.
Essa estrutura… Era o antigo templo dedicado à deusa da luz.
Depois da maré vermelha que devastou metade da cidade, o templo foi sendo esquecido, suas salas sagradas deixadas a apodrecer em silêncio. Com o tempo, passou a ser conhecido como Templo da Luz Moribunda, um nome que refletia a separação entre o santuário e a deusa que um dia veneraram.
“Você diz que está aqui?”
“…Sim.”
Sylas respondeu, sua visão fixa na entrada da estrutura.
Mesmo com seus olhos, era difícil enxergar além de poucos metros à frente, a escuridão do templo engolindo tudo o que entrava.
“Certo.”
Anne assentiu, deu um passo adiante e entrou no templo.
Ao penetrar, a água ao redor ficou gelada, e sua expressão ficou ainda mais séria. Em questão de instantes, a escuridão a envolveu, consumindo cada pedaço de seu ser até não sobrar nada além de sombras.
Sylas a observou com atenção antes de seguir logo atrás, com um sorriso ambíguo no rosto, lançando um olhar de volta.
A escuridão a engoliu também, no fim.