
Capítulo 617
Advento das Três Calamidades
"Assistente? Trabalhando pra você..?"
An'as olhou para o comerciante, surpreso, com uma expressão de confusão e espanto. Então, ao realmente entender a situação, seu rosto mudou, e sua voz se elevou.
"Que absurdo!? Que tipo de bobagem você está dizendo?"
O desprezo no rosto de An'as ficou claríssimo.
Como ele não ficaria pasmo? Algum mercador aleatório, do qual não sabia de nada, apareceu do nada e afirmou que ele era seu assistente. Como se isso fizesse algum sentido.
Esse cara...
Ele era totalmente louco!
"Eu não consigo avaliar sua força, mas acho que você não chega nem perto dos sete senhores. E nem se compara ao Templo. Por que eu trabalharia pra alguém como você? O que você consegue me oferecer? Eu posso facilitar—"
"Na velocidade que você está evoluindo, vai ficar preso na sua patente por muito tempo."
Lazarus de repente interrompeu An'as, sua voz calma ecoando suavemente enquanto ele afastava a mão do ombro de An'as e se sentava de volta na caixa de madeira perto do cais.
O comerciante olhou casualmente para o mar.
"Como eu disse antes, sei bastante sobre você. Tenho observado você de perto há algum tempo e consegui informações suficientes para saber sua posição atual."
"Que tipo de—!"
"Você foi promovido recentemente a líder de equipe. O tempo médio que alguém fica preso nessa patente é cerca de cinco anos. Se você for excepcional, pode ser promovido em dois."
"...Ah."
An'as ficou sem fala. Não conseguia encontrar palavras para responder. Não, mas, mais importante, como ele sabia tanta coisa?
Essa informação não era algo que qualquer um pudesse saber facilmente.
"E o que acontece depois que você é promovido? Você se torna colecionador. Quanto tempo acha que levará até subir de patente para se tornar um Luminarque?"
An'as sentiu os lábios secarem.
As patentes do templo eram assim: Acólito, Emissário, Líder de Equipe, Colecionador, Clérigo, Alto-Clérigo, Luminarque, Solarque e Hierofante Radiante, ou mais conhecido como o Santo vivo.
"Para subir de Colecionador para Clérigo não basta mérito. Você precisa demonstrar habilidades compatíveis com essa patente."
Com um olhar casual na direção de An'as, o comerciante balançou a cabeça.
"No seu nível atual, de Tier 4, não há como passar para a patente de Clérigo. Você precisaria desenvolver um domínio, pelo menos."
"Espera, como você...?"
Os olhos de An'as se arregalaram ao ver o comerciante perceber sua força com um simples olhar. Mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Lazarus ergueu a mão e o interrompeu.
"Tanto faz como eu sei. O que você precisa saber é que posso ajudar você."
"...O quê?"
Ajuda...? Os lábios de An'as abriram-se e fecharam-se, tentando encontrar as palavras certas. Como alguém como ele...
Vendo sua luta, o comerciante de longe sorriu.
"Não disse antes? Sou um comerciante que vem de muito longe. Tenho algumas coisas que podem ser úteis pra você. Quem sabe..."
Ele encolheu os ombros, olhando de perto para An'as.
"...Até posso ajudar você a desenvolver um domínio."
"Hmm."
An'as deu uma respiração fria ao ouvir as palavras do comerciante. Desenvolver um domínio? Como se isso fosse fácil! Especialmente neste lugar traiçoeiro, onde todo mundo pensa apenas no próprio benefício.
Durante anos, An'as ficou preso na mesma patente, incapaz de desenvolver um domínio.
Isso era algo com que quase todo mundo lutava para conquistar. Na verdade, quase noventa por cento das pessoas permaneciam presas no quarto nível, sem conseguir desenvolver um domínio. Para a maioria, o quinto nível era a barreira que separava as pessoas comuns dos talentosos.
Se realmente existisse um item que pudesse ajudar a desenvolver um domínio, não haveria tantas pessoas presas nesse nível.
An'as não acreditou em suas palavras.
Mas...
E se?
Sempre havia aquele 'e se' que permanecia na sua mente.
"Hoo."
An'as respirou fundo, acalmando seus pensamentos.
Embora estivesse tentado a aceitar a oferta, ainda queria entender quais eram as verdadeiras intenções do comerciante. Não existe almoço grátis.
"O que exatamente você precisa de mim?"
O comerciante sorriu diante da pergunta.
"Parece que consegui te convencer um pouco."
"...Fale. Não perca meu tempo."
"Bem, não é nada demais."
O comerciante cruzou as pernas enquanto olhava para o mar carmesim à sua frente e apontava ao longe.
An'as inclinou a cabeça, confuso.
"Ah?"
Ele queria o mar?
"Remanescente Sul—"
"Isso é impossível!"
An'as interrompeu Lazarus imediatamente antes que ele pudesse terminar sua frase. Não precisava ouvir sua voz para entender qual era o objetivo dele.
Ele queria ir para o Remanescente Sul.
Para a terra onde fica a Boca Escurecida!
"Se seu objetivo é ir para o Remanescente Sul, sugiro que desista dessa ideia. Como eu disse antes, o Mar Carmesim é fortemente monitorado pelos Sete Senhores. Passar por eles exige embarcações especiais, e essas embarcações só aparecem a cada alguns meses. A última saiu recentemente. E mesmo que estivesse aqui, conseguir um lugar na embarcação é impossível!"
O Remanescente Sul era um lugar extremamente perigoso. Era onde ficava a Boca Escurecida, repleto de todo tipo de monstros. Contudo, tão perigoso quanto era o lugar, também era uma fonte de oportunidades.
Lá tinha recursos de todo tipo, e é por isso que os Sete Senhores impedem a passagem.
Querem monopolizar os recursos para si.
"Cada um dos Senhores é um monstro de nível oito, com centenas, talvez milhares de tripulantes ao seu lado. Tentar chegar ao Remanescente Sul sem a aprovação deles é como pedir pra ser morto!"
Mas esse não era o aspecto mais assustador.
"Mesmo que você seja forte. Digamos, Tier 9, você ainda provavelmente perderia! Não é só a quantidade de tripulantes ajudando os Senhores que importa, mas também o ambiente! Você não vai lutar na terra. Vai estar em desvantagem imediatamente."
Há uma razão pela qual ninguém conseguiu derrubar os Sete Senhores. Eles eram poderosos, e mesmo quem fosse mais forte, se fosse lutar na água, quase invariavelmente perderia.
Houveram várias tentativas de Tier 9 de enfrentar um dos Sete Senhores, mas todas acabaram em derrotas humilhantes.
São eventos como esses que fizeram todos desistirem da ideia de enfrentá-los.
"Se seu plano é—"
"Não se preocupe com isso."
Apesar dos avisos de An'as, o comerciante manteve a calma, com um sorriso caloroso nos lábios, olhando em direção ao distante Mar Carmesim.
"Desde o começo eu já sabia das circunstâncias."
"Então!"
"...Então, nada."
Ele lentamente voltou sua atenção a An'as.
"Vou seguir meu plano, e você vai comigo."
"Eu? O quê—"
"Como já disse antes, no momento em que você aceitou dinheiro de mim, virou meu assistente. Vou garantir que você trabalhe do seu jeito."
"Você é louco!"
A voz de An'as aumentou, mas o comerciante ignorou e se levantou, ajeitando suavemente as roupas antes de se virar para o bazar e seguir seu caminho.
"Espera, pra onde você vai...? Eu já falei que não—"
"Você falou a mesma coisa na última vez. Não se preocupe, eu te encontro quando for a hora, meu assistente."
"Hã?"
Na última vez? Quando foi que ele...?
"...Ah, e nem pense em me denunciar pro templo. Essa nossa conversa... Não é exatamente a primeira."
"O quê...? Espere, o que você quer dizer?!"
O dedo do comerciante pressionou casualmente sua testa, de costas para An'as, enquanto ele começava a caminhar, sua figura lentamente desaparecendo na multidão.
Mesmo desaparecendo, sua voz ainda pairava nos ouvidos de An'as, aguda e desconcertante.
"Sou capaz de fazer muito mais do que você imagina. Eu também sei muita coisa. Coisas que você nem faz ideia, haha. Melhor você guardar sua boca fechada, a menos que queira ver todo seu esforço em vão."
Essas foram as últimas palavras que An'as ouviu antes que ele desaparecesse completamente.
An'as ficou parado ali, com o rosto congelado e a boca abrindo e fechando sem saber o que dizer.
"O que...?"
"Huerk!"
Eu parei numa viela deserta dentro da cidade, pressionando a mão contra a parede ao lado enquanto meu estômago revirava. Uma corda prateada escorreu da minha boca enquanto meu corpo todo tremia.
"A-ah, droga."
Olhei para meu braço tremendo, minha boca apertada de nervoso.
'Isso está me afetando mais do que eu esperava.'
Sibilo~
Um som súbito de movimentos veio no meio da minha aflição. Olhando para cima, uma coruja preta apareceu não muito longe de mim.
"Você está bem, humano?"
"...Eu...eu consigo me virar."
Respondi me esforçando para ficar ereto e manter a aparência. Mas, assim que fiz, meu estômago virou de novo.
Isso não podia ser evitado...
...Era uma reação direta da minha mente.
Ela rejeitava o que eu tentava fazer.
Mas eu tinha que fazer, seja qual fosse o custo.
Essa era a única maneira de atingir o quinto nível da magia emotiva.
'Sim, é tudo por isso...'
Eu não era mais a mesma pessoa de antes.
Não tinha mais a capacidade de spammar a primeira ou a segunda folha para melhorar minha magia emotiva. E mesmo que pudesse, sabia que isso não era suficiente para atingir o quinto nível.
O quinto nível era fundamentalmente diferente.
...O crescimento lento se tornava dolorosamente evidente para mim.
E foi aí que percebi...
Para alcançar o quinto nível, precisaria fazer algo diferente.
Preciso ser diferente.
Não podia mais ser Julien ou Emmet. Já tinha passado por tudo que podia com eles.
Para chegar ao quinto nível... Eu precisava me tornar alguém novo.
Para experimentar as coisas de uma perspectiva diferente.
E assim, eu me tornei Lazarus.
Um comerciante elegante de longe.
Mas...
"Kh... quem diria que as coisas seriam tão problemáticas?"
Para experimentar as coisas de outra pessoa, tinha que me tornar ela. Precisava me imergir completamente na persona, fazendo-me esquecer tudo que um dia fui.
Era difícil, e meu corpo rejeitava isso.
Mas, mesmo assim...
'Tenho que fazer isso.'
Para melhorar minha magia emotiva, era obrigatório. Então, fechando os olhos, respirando fundo, penteei o cabelo para trás e acalmei minha mente.
Não era a primeira vez que fazia algo assim.
Talvez, todo esse acting do passado fosse uma antecipação do que viria a seguir.
Ao abrir os olhos novamente, meus lábios se curvaram lentamente.
Imergi-me mais uma vez.