
Capítulo 616
Advento das Três Calamidades
Uma alta torre negra erguia-se no coração de Virith-Anash.
Ela se destacava entre os demais edifícios, sendo a mais alta e dominando a cidade que tocava o Mar Carmesim.
Era o Templo da Deusa da Luz.
Todas as noites, os emisários da Igreja saíam para arrecadar os pagamentos dos comerciantes da região.
Cada área da cidade tinha uma cota obrigatória a ser cumprida para manter tudo em funcionamento. Em um lugar tão perigoso e implacável, garantir a segurança era difícil. Ainda mais porque as ameaças que tentavam invadir a cidade não vinham apenas de monstros.
Dentro do grande salão do Templo, vários grupos já se reuniram.
Eram os emisários, todos retornando do período de coleta diário.
Entre esses grupos, os líderes de equipe avançaram, todos marcados por suas roupas cinza. Cada um entregou o pagamento coletivo recebido dos comerciantes lá fora.
"31.305 Solas? Isso quase te coloca em primeiro lugar."
Um dos coletores levantou uma sobrancelha, suas túnicas marrons balançando ligeiramente, surpresa cruzando suas feições pálidas.
O olhar dele se dirigiu ao líder da equipe, e um sorriso brando surgiu nos lábios dele.
"Nada mal, continue assim."
"...Obrigado."
An'as humildemente aceitou o elogio antes de recuar silenciosamente.
De fato, aquele tinha sido um dos dias de arrecadação mais positivos de sua carreira como líder de equipe. E tudo graças, em parte, àquele estranho comerciante de antes.
Com os quinze por cento adicionais que conseguiu obter dele, conseguiu ficar no topo da classificação por pouco.
Isso era uma grande conquista dentro do templo. Apenas líderes de equipe que conseguiam ficar no topo uma vez tinham chance de serem promovidos a coletores. Quando isso acontecesse, ele não precisaria mais fazer esse tipo de trabalho sujo.
An'as tinha um sonho.
Ele queria ascender como Luminarca, uma das posições mais altas dentro do templo, e reivindicar um lugar na Cadeira de Solas. Seu objetivo era espalhar a Doutrina da Deusa por todas as terras banhadas por sua luz.
Para ele, a Deusa era tudo.
Ela foi quem o escolheu e lhe deu uma razão de existir neste mundo sem cor.
Ele queria ser tudo para ela.
"O período de arrecadação acabou. Para as equipes com pior desempenho, vocês serão marcadas por enquanto. Se não cumprirem a cota novamente, o líder será dispensado e substituído."
Quando a voz do chefe dos coletores ecoou, as expressões de alguns mudaram sob as máscaras, enquanto a tensão no ar aumentava.
An'as sorriu ao ver aquilo, virando-se lentamente e caminhando para longe do templo.
Quando fez isso, despindo suas roupas e máscara, revelou o rosto de um jovem pálido com cabelo castanho curto e bochechas oca.
Todos os emisários tinham sua identidade ocultada. Ninguém sabia como eles realmente eram, e essa medida era mantida especialmente para os de níveis mais baixos. Foi uma escolha intencional para impedir que espiões de outras igrejas infiltrassem o templo por meio de seus membros.
Havia consequências severas para quem tivesse sua identidade descoberta.
An'as se misturou perfeitamente às pessoas da cidade, seus passos lentos e firmes enquanto se dirigia ao porto. Assim era a vida dos emisários. Eles não eram diferentes dos cidadãos comuns fora do trabalho, e ao sair na sua aparência normal, An'as parou no porto.
Splash!
O Mar Carmesim rugiu enquanto suas ondas furiosas batiam contra as docas, espalhando ondas de água vermelha como sangue sobre a borda.
An'as ficou à margem, apenas longe o suficiente para a água não alcançar seus sapatos, enquanto observava o horizonte.
Gradualmente, suas sobrancelhas se franziam e seu maxilar clicou com força.
"...Eles chegaram."
Uma grande sombra apareceu no horizonte. Logo, a sombra se tornou mais nítida, revelando um navio gigantesco.
Quando o navio apareceu, a atmosfera ao redor do porto mudou.
Todos ficaram tensos, e ao olharem para o navio distante, An'as manteve a expressão neutra, suas roupas balançando silenciosamente.
Logo, o navio atracou, sua imensa estrutura projetando uma sombra enorme abaixo enquanto figuras apareciam a bordo, com sorrisos bem claros em seus rostos.
"Oi!"
"Huaa!"
Vários saltaram do convés, suas risadas bêbadas e vozes animadas ecoando pelo ar.
"Finalmente chegamos à terra firme!"
"....Faz um tempo, hahaha!"
Suas aparências eram selvagens, e seus olhos afiados. Com um simples olhar, dava para perceber que eram poderosos, mas mesmo assim eles perdiam de vista o homem que descia a rampa com passos lentos e firmes. Sua estatura imponente e físico robusto transmitiam uma presença avassaladora.
Com um ventre protuberante e cachos longos até os ombros grudados ao rosto, ele atraía todos os olhares no porto, aumentando a tensão. Mais perceptível era a tatuagem no pescoço, uma máscara vermelha, rasgada, pendurada sobre um crânio.
Ninguém olhava para ele com boas intenções.
An'as também se sentiu tenso, tentando ao máximo evitar sua atenção. Estava quase recuando quando, de repente, trombou em alguém.
"O quê—Hum?"
Ele virou a cabeça e viu uma figura familiar atrás dele, com uma expressão calma que mais uma vez se destacava.
An'as ficou em silêncio, sem revelar sua identidade.
"Olá."
O comerciante sorriu, com um olhar caloroso ao olhar para An'as.
"...Desculpe por isso. Não fui cuidadoso."
"Ah, sim..."
An'as fez que sim com a cabeça e estava prestes a se afastar quando o comerciante inclinou o rosto na direção do grupo ao longe.
"Se puder saciar minha curiosidade, quem são exatamente eles?"
"...Você não conhece?"
An'as ficou inicialmente chocado, mas, ao lembrar de como aquele comerciante se apresentou, compreendeu.
Mesmo sem querer interagir com ele, decidiu contar algumas coisas. Afinal, ele também ajudou indiretamente a garantir o primeiro lugar hoje.
"Aqueles são os Espectros Carmesim, um dos Sete Senhores do Mar Carmesim."
"Sete Senhores do Mar Carmesim?"
"...Sim. São os Sete Senhores que dominam o Mar Carmesim. Se quiser atravessar para o Remanescente do Sul, terá que passar por eles. Apenas alguns navios selecionados têm permissão para cruzar o Mar Carmesim."
An'as olhou na direção do homem musculoso.
"Aquele ali é o Sylas 'Véu Vermelho' Vane, capitão dos Espectros Carmesim. Não se deixe enganar pelo aspecto dele. Pode parecer assim, mas ele é um Tier 8 e é bastante conhecido por sua velocidade e técnicas de assassinato mortais. Também é ilusionista, o que significa que nada do que você vê nele pode ser confiável. O mesmo vale para sua tripulação. Eles são famosos por suas mortes brutais, porém precisas. Você nunca deve cruzar com eles."
"....Isso é interessante."
Ao invés de ficar assustado ou nervoso, uma expressão de interesse apareceu no rosto do comerciante, fazendo An'as franzir o cenho.
"Você, tem certeza que é um comerciante?"
"Hm?"
Lázaro virou-se para An'as com um sorriso, inclinando a cabeça um pouco.
"...E o que faz você achar que eu não sou?"
"Tudo sobre você."
An'as olhou para Lázaro de cima a baixo.
"Você parece e age como algum nobre do mundo exterior. Além disso, não demonstra nenhuma reação ao que acontece ao seu redor."
An'as estreitou os olhos, estudando-o atentamente.
"Você quer saber porque acho que você não é um comerciante. Essa é a minha razão."
"....."
Lázaro olhou para An'as com uma expressão um pouco surpresa. Mas logo, seu rosto se transformou em uma expressão de diversão, com os lábios puxados para cima, e ele se inclinou mais perto, sussurrando no ouvido do outro:
"...Acho que isso nos torna semelhantes, Sr. Emissário."
"Qué—!?"
Assim que o comerciante falou, An'as virou a cabeça de repente, os olhos bem abertos de choque. Como ele poderia saber? Toda sua postura mudou, a tensão crescendo nele, mas antes que pudesse reagir, o comerciante deu um passo para trás e colocou o dedo nos lábios.
"...Você não quer fazer isso aqui."
Ele apontou na direção dos piratas ao longe, e o rosto de An'as escureceu.
Todo seu corpo ardia com o desejo de agarrar o comerciante, de arrancar a verdade de seus lábios a qualquer custo. Mas, com os olhos de companhia perigosa ao redor, ele cerrando a mandíbula e se segurando, deixou a vontade passar.
"Parece que você tem algum controle próprio."
O comerciante sorriu, encontrando uma caixa e se sentando enquanto olhava para o grupo de piratas ao longe.
Mesmo assim, ele continuava tranquilo.
"Então você está dizendo que, para eu chegar ao Remanescente do Sul, tenho que encontrar um navio que esses sete senhores aprovem?"
"....."
An'as não respondeu.
Senti que, se falasse, estaria caindo exatamente no jogo dele.
'—Só esperar eles saírem do porto, aí eu...'
"Parece que você está pensando em coisas inúteis."
O comerciante lentamente voltou sua atenção para An'as. E foi nesse momento que ele sentiu uma certa pressão, maior do que qualquer outra antes, vindo dele, com os olhos piscando levemente.
Porém, aquele relâmpago de atenção durou apenas um instante, antes de seu sorriso se tornar caloroso.
An'as permaneceu tenso, incerto sobre a situação. Por alguma razão, naquela fração de segundo em que seus olhos piscaram, ele sentiu uma pontada na nuca.
Como alguém que viveu à beira da morte desde jovem, ele entendeu o que havia acabado de acontecer.
Ele...
Estava a poucos centímetros de morrer.
'Esse cara não é normal!'
An'as ficou rapidamente preocupado, as palmas das mãos suando.
'...Preciso relatar isso ao templo! Alguém tão perigoso quanto ele se disfarçando de comerciante. Deve ter motivos ocultos!'
Mas, como se seus pensamentos fossem lidos, o comerciante riu, levantando-se lentamente enquanto direcionava o olhar às figuras distantes dos piratas entrando na cidade.
Colocou a mão no ombro do jovem líder de equipe, dando duas palmadas nele.
"Não adianta pensar em besteiras. Eu tenho observado você há algum tempo. Sei bastante sobre você."
"O quê...?"
"Você trabalha para o Templo da Deusa da Luz como líder de equipe. Foi promovido recentemente, e agora tem a ambição de alcançar a posição de Luminarca. Você é órfão, sem família, e a Igreja te acolheu quando era jovem."
As pupilas de An'as se dilataram ao ouvir suas palavras.
Como ele sabia? A maior parte das informações não era algo que qualquer um pudesse descobrir facilmente.
Como era possível?
O comerciante riu novamente, batendo no ombro de An'as.
"Você preenche todos os requisitos. Cuidadoso. Astuto e bem informado."
Ele assentiu satisfeito, olhando para An'as.
"A hora que você pegou meu dinheiro foi quando começou a trabalhar pra mim."
"Hã?"
"Sim..."
O comerciante deu mais uma palmada em An'as, com um tom de voz caloroso.
"...Agora você é meu assistente!"