
Capítulo 620
Advento das Três Calamidades
Você ouviu falar da loja mais recente que abriu perto do Mercado?
…Qual loja? Você está falando daquela do Grupo de Comerciantes da Câmara Cinzenta?
Essa mesma!
Então, claro que eu ouvi falar! Quem que não ouviu?
Virith-Anash fervilhava de atividades, e naquele dia, um assunto dominava as conversas dos habitantes da cidade.
Era sobre uma loja que surgiu do nada, misteriosamente.
Uma que parecia oferecer coisas que quase ninguém tinha visto antes. Desde tecidos finos até roupas, relíquias, e até alimentos. Tinha de tudo que alguém poderia sonhar, tudo de altíssima qualidade.
Com isso, a notícia se espalhou, e uma fila enorme se formou diante da loja que parecia tão discreta.
"Fiquem na fila! Não empurrem! Se cutucarem, vocês serão imediatamente colocados na lista negra e terão o acesso à loja negado!"
Na entrada da loja estava um An'as cansado.
Embora ele tivesse esperado que a loja se tornasse popular assim que abrisse, não imaginava que fosse tão bombástica. Era algo além de tudo que poderia ter sonhado, e ao ver aquela fila interminável, seu estômago virou.
'Por que estou fazendo isso...?'
Ele estava caindo nas mãos daquele comerciante ao fazer isso.
Além disso, ele também não estava sendo pago!
E, no entanto, não podia simplesmente sair quando bem entendesse. An'as não tinha escolha a não ser ficar perto do comerciante. Tinha medo de acabar derrubando algo, o que arruinaria suas chances de se tornar um Luminarque algum dia.
Por isso, mesmo sem querer aceitar esse trabalho, ele não tinha alternativa.
"Não precisa ficar nervoso! Fiquem na fila corretamente! Há produtos suficientes para todos—"
No meio de seus gritos, An'as de repente notou várias figuras se aproximando ao longe, e seus lábios pararam.
Aquilo...
Ele não era o único a reagir, pois a longa fila de pessoas se abriu com elegância, dando passagem a um homem alto, porém um pouco corpulento, acompanhado por várias pessoas de aparência ameaçadora, andando de cabeça erguida com arrogância.
An'as sentiu seu corpo toda congelar ao ver aquelas pessoas na sua frente.
Era os Espectros Carmesins.
À frente deles, não havia outra pessoa senão o próprio comandante.
Sylas 'Véu Vermelho' Vane.
"Hm? É aqui mesmo?"
Parando perante a loja, sua voz profunda ressoou silenciosamente ao redor enquanto An'as sentia seu corpo inteiro se rigar.
'Ele é forte... muito forte.'
Apenas ficar ao lado dele já era sufocante.
"Deve ser o comandante. Veja a fila enorme."
"...Você está certo."
Com um aceno, o comandante entrou na loja, ignorando completamente An'as pálido de susto.
Clang!
A porta se abriu revelando uma loja de aparência impecável. Duas prateleiras altas corriam ao longo das paredes, cheias de diversos produtos cuidadosamente expostos. No centro, havia um balcão com uma caixa registradora, coberto por uma grande folha de papel.
No papel, uma lista de todos os itens oferecidos pela loja.
"...!?"
"Meu Deus!"
No instante em que os membros dos Espectros Carmesins entraram, os clientes dentro da loja entraram em pânico. Em menos de um segundo, eles soltaram o item que estavam segurando e correram para fora.
O comandante sorriu ao ver isso.
Isso iria facilitar as coisas para ele.
Ele calmamente se dirigiu à prateleira mais próxima, examinando os itens expostos. Estava apenas começando a olhar para o primeiro item quando suas sobrancelhas se levantaram.
"Isto é..."
Ele estendeu a mão e pegou a peça de tecido à sua frente. Com um único toque, sentiu a textura suave e delicada do tecido de cor vibrante diante de si. Não só isso, ao virar a cabeça, viu toda uma variedade de produtos que nunca tinha visto antes.
Também havia uma pequena bandeja com amostras para degustar. Quando o comandante provou um dos itens disponíveis, seus olhos não puderam deixar de brilhar com certos reflexos de entusiasmo.
'...Está delicioso.'
Ele não se deu ao trabalho de cerimônias e degustou todos os itens para experimentar.
"Uau, Capitão! Olha só isso! É incrível!"
"Meu Deus! Você consegue sentir a textura?! Nunca senti nada assim antes!"
Não foi só o comandante que ficou surpreso e encantado com os produtos; os outros piratas também demonstraram reações semelhantes, incapazes de esconder sua empolgação.
Observando-os, Sylas lentamente virou sua atenção para o balcão.
Ou, mais precisamente, para o homem sentado atrás do balcão, com a cabeça levemente abaixada, lendo calmamente um livro. Como se percebesse o olhar dele, o homem ajustou os óculos e virou sua atenção para Sylas, sorrindo.
Seus lábios se abriram, e uma voz encantadora saiu de seus lábios.
"Percebo que ficou satisfeito com os itens que oferecemos. Há algo que eu possa fazer para ajudar?"
"...Na verdade, sim."
Sylas se aproximou do comerciante e colocou a mão sobre o balcão. A atmosfera dentro do local ficou tensa no instante em que ele fez isso, e ao olhar ao redor, seu olhar voltou ao comerciante.
"Os itens aqui… de onde vocês os conseguiram?"
Embora parecesse uma simples pergunta, assim que saiu da boca dele, a atmosfera já tensa virou gelada.
Era o suficiente para fazer qualquer um congelar no ato.
E mesmo assim...
"Haha."
O comerciante riu.
Sim, ele riu.
Isso fez a atmosfera parar no ar. Será que ele realmente estava rindo...? Ou será que não tinha noção de quem exatamente estava diante dele?
"Ah, peço desculpas por isso."
Levando a mão ao rosto, o comerciante pediu desculpas antes de colocar seu livro de volta na mesa.
"Não quis rir de você. Foi apenas o jeito como você falou dos itens e agiu. Quase parecia que queria ficar com tudo pra si."
"....."
Os olhos de Sylas se estreitaram enquanto olhava para o comerciante. Em circunstâncias normais, se alguém falasse assim com ele, ele teria acabado com a vida da pessoa na hora.
Porém, havia algo na calma do olhar e na voz do comerciante que o deixou hesitante.
Mas não era só isso. Ele também percebeu que os itens presentes não eram comuns. Que eles vinham de longe. Talvez... de fora do território. Contudo, a distância entre o exterior e Virith-Anash era enorme.
Conseguir trazer tantos produtos assim...
Provavelmente não era uma tarefa que qualquer um pudesse fazer.
Esses pensamentos eram as únicas coisas que momentaneamente o mantinham sob controle. Ele não estava ali só pelos produtos. Queria aprender mais sobre esse comerciante misterioso.
Logo, um sorriso se desenhou no rosto de Sylas.
"Entendi. Acho que posso parecer assim pela minha aparência."
"Bem, você realmente parece bastante intimidador."
"Hahaha."
Com uma risada alta, Sylas olhou ao redor, pegou uma cadeira, colocou perto do balcão e sentou-se, olhando fixamente para o comerciante.
"Você ainda não respondeu à minha pergunta. De onde conseguiu esses itens? Posso perceber que não são comuns."
O comerciante apenas sorriu e sacudiu a cabeça.
"Esse é um segredo comercial."
"Segredo comercial...?'
Sylas prestes a fazer cara de fechamento, parou-se a si mesmo.
"Muito bem. Cada um tem seus segredos. Se não quiser me contar, tudo bem."
"...Agradeço sua compreensão."
"Não há de quê."
Sylas fez um gesto de despedida com a mão.
Então, olhando ao redor do lugar, perguntou:
"Qual o preço de tudo aqui?"
"Tudo mesmo?"
"Sim—"
"Trinta milhões de Solas, mais ou menos."
O corpo de Sylas se tencionou. Trinta milhões? Que número absurdo era esse? Considerando todos os itens oferecidos, embora valessem bastante, nenhum deles tinha utilidade real.
Ele apertou silenciosamente a mão, tentando manter um sorriso enquanto olhava para o comerciante.
"Você não consegue reduzir o preço?"
"...Não é possível."
"Entendo."
Gradualmente, Sylas se levantou, sua altura lançando uma sombra sobre o comerciante calmo. Apenas ficar de pé já exalava uma pressão extremamente violenta e poderosa. E ainda assim, o comerciante não reagiu.
Isso fez Sylas fechar os olhos e concordar com a cabeça.
"Muito bem então."
Girou um dedo no ar.
"...Vou levar tudo."
O sorriso do comerciante se alargou.
"Muito bem."
Ele se levantou, olhou ao redor da sala.
"Deseja pagar agora? ...Posso esperar no máximo um dia para o pagamento. Enquanto isso, quero uma garantia de pagamento adiantado, caso você não cumpra o combinado. Assim, não perco na locação."
A boca de Sylas torceu ao ouvir aquilo. Ele realmente era um comerciante de fato.
Disfarçadamente, finge concordar com tudo, estendendo a mão para o comerciante.
"Entendi. Comportar-me-ei conforme tudo que foi dito. Espero que tenhamos uma cooperação feliz."
O comerciante parou, abaixou a cabeça e encarou a mão de Sylas. Por um instante, o sorriso desapareceu de seu rosto. Mas só por um instante. Foi o bastante para fazer alguém duvidar se tinha visto ou não alguma coisa.
E Sylas também, que lambeu os lábios.
Será que ele percebeu algo...?
Franziu as sobrancelhas, prestes a falar, quando o comerciante avançou a mão e segurou a sua.
"Para uma cooperação feliz."
E assim, um acordo foi fechado: no dia seguinte, Sylas entregaria trinta milhões de Solas ao comerciante. Falhar nisso anulava o negócio e ele perdia o depósito de cem mil Solas.
Clang!
Saindo da loja sob o olhar de todos, Sylas lentamente se afastou.
Só quando esteve longe o suficiente que seus homens correram até ele.
"Capitão, por que aceitou o negócio?"
"Por que gastar tanto com essas mercadorias? Não é desperdício?"
"Capitão!"
Estavam claramente preocupados com a transação, e Sylas não podia culpá-los. Era muita grana, e normalmente eles pegavam dinheiro, nunca davam. Ele rapidamente levantou a mão para impedi-los de falar.
"Não se preocupem, não tenho interesse algum em comprar essa porcaria."
"Huh? Você não?"
"Então...?"
"Só queria conferir uma coisa."
Sylas abaixou a cabeça para olhar a sua mão, enquanto um sorriso lentamente se formava.
"Acho... que encontrei ele."
O último ingrediente para sua ascensão.