Advento das Três Calamidades

Capítulo 619

Advento das Três Calamidades

"....."

Delilah olhou para a embalagem que tinha na mão, com as sobrancelhas levemente franzidas. Lá, cuidadosamente escondido dentro da embalagem, estava sua barra de chocolate favorita.

Era algo que ela não conseguia ficar sem.

Seu vício. Sua obsessão.

E ainda assim...

"Não tem gosto."

Ao dar um pequeno pedaço, seus olhos profundos tornam-se vazios. Ela não conseguia sentir o sabor de nada. A explosão de doçura e sabor que antes apreciava desapareceu de repente.

Assim...

O pequeno prazer que ainda lhe restava desapareceu.

Tak!

A barra de шоколате caiu sobre a mesa, enquanto seu rosto ficava imperturbável. Nesse meio tempo, um pequeno corvo apareceu de trás dela, observando secretamente a barra de chocolate com cautela, olhando na direção de Delilah antes de se mover furtivamente em sua direção.

Seu bico estava prestes a alcançá-la quando...

Wham!

"Akh!"

O corvo foi súbita e inesperadamente arremessado para o outro lado da sala enquanto Delilah piscava, surpresa.

"...Ah."

Ela nem tinha intenção de fazer aquilo.

Foi reflexo mesmo.

Mas esse não era o problema. O problema era sua incapacidade repentina de saborear a segunda coisa que mais adorava. Ela nem precisou pensar muito para entender a razão dessa mudança súbita.

Delilah mordiscou os lábios, abaixando a cabeça para olhar para o pedaço de papel escondido na sua mesa.

[Expedição ao Espelho]

Era a versão final do documento que detalhava o teste de graduação para o terceiro ano.

O teste ocorreria exatamente em dois meses e, nesse período, os cadetes ficariam em uma zona de classificação vermelha por um a dois meses. O objetivo era sobreviver lá. Claro que, sob sua supervisão.

Eles eram cadetes preciosos. Com sua fama já problemática, eles não podiam dar o azar de algum deles morrer.

Especialmente levando em consideração que todos ocupavam posições muito importantes.

Não apenas no Império Nurs Ancifa, mas também em outros impérios.

....Os terceiros anos eram uma confusão diplomática.

O fato de toda essa expedição precisar da aprovação das Quatro Potências era prova disso.

Mas, mesmo assim, Delilah iria fazer acontecer.

Se ele realmente estivesse vivo, então...

'Eu o encontrarei.'

Normalmente, ela não poderia entrar sozinha na Dimensão do Espelho. Sua posição era bastante importante. Ela era uma arma viva. Qualquer ação dela deixaria qualquer Império apreensivo. Por isso, entrar na Dimensão do Espelho era uma tarefa difícil para ela, a menos que fosse estritamente autorizado pelo Centro e pelo Império.

Dessa vez, ela sentia que, se jogasse bem suas cartas, teria acesso à Dimensão do Espelho.

E ela iria garantir que isso acontecesse. Mesmo que precisasse usar força.

Precisava acontecer.

Delilah mordiscou os lábios novamente, voltando sua atenção para a barra de chocolate na mesa.

Seu braço lentamente se fechou em um punho enquanto ela pegava um livro verde de sua gaveta.

Ao abrir a primeira página, apareceu um título bem destacado.

[Diário da Maldição de Julien]

Já estava cheio de pontos e anotações.

Pensando em como ele havia sumido de repente e fingido estar morto, a mão de Delilah tremeu, e ela baixou a caneta.

Então começou a escrever sua maldição.

[Estúpido]

É claro que uma só palavra não era suficiente.

Ela escreveu outra.

[Maldito]

Não, muito leve.

[Trapaceiro]

Ele era mesmo.

Apesar de ser um mal-entendido, ele ainda era um trapaceiro.

[Maldito]

[Trapaceiro]

[Estúpido]

Delilah preencheu a página com todo tipo de maldição. Ficou assim por mais dez minutos, totalmente absorvida nessa nova paixão. Foi nessas horas que ela sentiu suas emoções retornarem. Que... ela se sentiu viva.

E, quando finalmente terminou, olhou para seu diário.

Após isso, seu rosto mudou sutilmente.

"Quando...?"

Porque ela percebeu algo.

No meio do texto, as maldições se transformaram em algo diferente.

E, ao olhar para o diário, só viu as mesmas três palavras.

[Sinto saudades dele]

Delilah largou a caneta e desviou o olhar, sua expressão vazia focando na janela do escritório.

Olhou para o céu azul acima, suas olhos obsidiana tremulando.

Se ele estivesse realmente vivo... Não, ele estava vivo.

Agora, tinha certeza disso. O anel era a prova máxima disso.

O punho de Delilah se fechou firmemente.

"....Só esperar mesmo."

***

Ao mesmo tempo, Virith-Anash.

Dentro de uma loja, uma voz calma ecoava enquanto várias pessoas movimentavam móveis pela loja.

"Sim, pode colocar ali. Mh, isso... "

Lazarus parou no meio da frase. Franziu a testa e olhou ao redor. Por alguma razão, começou a sentir calafrios repentinamente.

Alguém estaria atrás dele?

Lazarus olhou calmamente ao redor, mas não viu nada fora do comum.

No fim, deu de ombros e esqueceu o assunto. Não era a primeira vez que sentia algo assim na Dimensão do Espelho, onde vozes sussurravam no ar.

Até agora, ainda podia ouvi-las.

Mas Lazarus conseguiu ignorar as vozes sem problema algum. Aos poucos, estava se acostumando com elas.

No entanto, havia algo inquietante nas vozes.

Quanto mais interagia com elas, mais sentia que tentavam invadir sua mente. Era quase como se estivessem tentando assumir o controle.

Se não fosse pela sua alta resistência mental, Lazarus estaria em uma situação muito perigosa.

Clank!

De repente, a porta da loja se abriu, e uma figura bastante familiar entrou.

Lazarus sorriu ao ver An’as entrando na loja.

"Ah, parece que não teve dificuldades para achar o caminho. Bem-vindo."

Ele parecia feliz ao ver An’as, cumprimentando-o com um sorriso caloroso. Por outro lado, An’as não estava nada satisfeito.

Ele não queria vir.

Porém, pensando na conversa anterior, ficou paranoico. Sabia bem o quão rígido era o pessoal do templo.

Se ele realmente tivesse passado alguma informação para eles, seu sonho de ser um Luminarch poderia ruir antes mesmo de dar um passo rumo a isso.

Ele não podia deixar que isso acontecesse.

Precisava se tornar um Luminarch. Era algo que ele não podia abrir mão. Justamente por isso que ele vivia.

A Deusa era tudo o que tinha.

"Que bom que você veio. As coisas estavam bem agitadas. Aqui está."

Ao tirar An’as de seus pensamentos, Lazarus empurrou uma caixa nas mãos dele.

"Umpf."

Ela parecia pesada.

"Espere, por que—"

"Vou dar uma volta agora. Estou trabalhando desde cedo. Confio que você consegue cuidar das coisas enquanto estou fora."

"Hã?"

An’as ficou parado por um momento, com a cabeça perdida. Então, ao ver o comerciante que de repente virou-se e caminhou em direção à porta, ele reagiu e tentou chamá-lo.

"O que, espere...!"

Mas já era tarde.

Quando An’as se deu conta, Lazarus já tinha saído, sua figura se misturando às pessoas da cidade.

"Droga."

An’as resmungou, com a expressão contorcida.

Para piorar, assim que virou para olhar novamente para a loja, vários trabalhadores o encararam.

"Onde eu tiro isso?"

"...Pode deixar aqui?"

An’as quase arrancou os cabelos de tanta frustração. No entanto, após alguns segundos de calma, começou a dar ordens.

"Sim, pode deixar ali. Está ótimo."

Pensando bem, essa situação... não era tão ruim assim.

Agora que ele estava dentro da loja, sem o comerciante presente, podia aproveitar para examinar cuidadosamente as mercadorias e tentar achar pistas sobre o comerciante.

No entanto, poucos segundos após iniciar a investigação, sua expressão mudou.

'Isto é...'

Ao olhar para as inúmeras mercadorias dentro das caixas espalhadas pela loja, An’as sentiu um nó na garganta.

"Como... pode ser isso..."

De ossos que pareciam pertencer a monstros variados, passando por tecidos finamente tecidos, ingredientes raros e frescos, livros e relíquias... a visão das mercadorias em cada caixa fez sua mente ficar em branco.

Se tivesse que fazer uma estimativa do valor dentro de cada caixa, perceberia que nem mesmo o templo da cidade teria tanta riqueza.

An’as sentiu o corpo estremecer enquanto olhava ao redor, seus olhos se estreitando ao encararem os trabalhadores.

Se eles conseguiam ver os itens, então também poderiam querer levá-los...

"Hã...?"

Contudo, ao contrário de suas expectativas, os trabalhadores nem pareciam atraídos pelos objetos. Mais do que isso, pareciam não enxergá-los — como se nem pudessem vê-los.

Que situação era essa?

An’as cobriu a boca. Sentia que a situação era bem mais complicada do que imaginava inicialmente.

Olhou para as caixas e sentiu uma fisgada no corpo.

Ele tinha vontade de pegar tudo e fugir, mas era racional o suficiente para saber que isso só traria sua morte.

Ninguém comum conseguiria trazer coisas assim pra cá.

Apesar de sua origem, An’as era bastante inteligente. A única razão de ter conseguido sobreviver até aqui era essa. Não era sorte, força ou carisma.

Era sua mente.

Ele aprendia a ler padrões nas pessoas, a detectar mentiras como outros cheiram vinho. Era capaz de lembrar detalhes como uma máquina fotográfica.

E, neste momento, cada instinto na sua cabeça calculista dizia: Isso é perigoso.

Não de um jeito óbvio...

Não daquela forma com monstros ou assassinos prontos para cortar sua cabeça a qualquer instante. Não, era algo mais silencioso.

Como um tabuleiro de xadrez já configurado, e ele chegando no meio do jogo.

'É evidente que, assim que esses bens chegarem ao mercado, vão chamar a atenção de figuras importantes da cidade. Considerando que ele quer ir para o Remanescente do Sul, isso pode ser o objetivo dele?'

Será que ele quer usar toda a fama e atração que sua loja traria para convencer um dos sete senhores a acompanhá-lo até o Sul do Remanescente?

'Não, acho que é mais complicado...'

An’as tremeu ainda mais ao refletir sobre a situação.

Sente no osso de cada parte do corpo que alguma coisa grande estava para acontecer.

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