Advento das Três Calamidades

Capítulo 621

Advento das Três Calamidades

An'as estava tenso da cabeça aos pés enquanto encarava aqueles olhos sem vida. Eram vazios, desprovidos de qualquer coisa que tornasse alguém humano, e ao olhá-los, An'as sentiu como se estivesse olhando diretamente para uma boneca.

Uma boneca sem vida, sem um pingo de vontade.

Porém, essa sensação logo desapareceu ao ver os olhos do comerciante piscarem e voltarem à vida.

"Hm?"

Ele olhou para An'as como se nada tivesse acontecido.

"Ah, você chegou."

Seu sorriso tranquilo quase parecia assustador.

"...Sim."

An'as respondeu nervoso. Por alguma razão, ao encarar o comerciante à sua frente, um suor frio começou a escorrer pela sua nuca.

Algo daquela imagem de antes permanecia preso em sua mente, deixando sua garganta seca.

Então, surgiu uma ideia.

Ele não podia ser um hollow, certo?

O pensamento fez seu estômago dar um vuelto. Contudo, ele sacudiu rapidamente a cabeça.

'Não, se fosse, o capitão certamente teria detectado facilmente...'

An'as respirou fundo, tentando acalmar a mente. A Dimensão do Espelho era um espaço extremamente cruel, repleto de perigos ocultos em cada canto. Hollow eram 'humanos' possuídos pelas vozes.

....Eram humanos em todos os sentidos, mas ao mesmo tempo, não eram.

Não passavam de corpos ambulantes capturados pelas vozes. Entidades perigosas que se alimentavam das pessoas, usando-as como meio para alimentar seu crescimento.

O comerciante à sua frente apresentava sintomas semelhantes aos de um hollow.

Mas será que ele era um?

An'as não conseguia distinguir. Cada pista sugeria uma coisa, mas ao mesmo tempo, ele sentia que não. Considerando as mercadorias que conseguiu trazer, não mentiu ao dizer que veio de longe. Mas de onde exatamente ele veio, e qual era seu objetivo?

"Podemos fechar a loja agora."

"Fechar?"

An'as saiu de seu devaneio, piscando rapidamente enquanto olhava para fora da loja, onde uma fila ainda se formava.

Eles todos tentavam espiar o interior, provavelmente curiosos sobre a situação agora que Sylas tinha saído.

"O que... por quê?"

"Porque já vendemos tudo."

"O quê?"

Os olhos de An'as se arregalaram.

Venderam? Quando...!?

'Aguarde.'

Foi nesse momento que An'as se lembrou de quem tinha acabado de entrar, e sua expressão se fechou.

Poderia ser...?

"Não se preocupe. Os bens foram vendidos. O gentil homem que passou aqui comprou tudo na loja."

"Aquilo..."

Os lábios de An'as tremeram. Homem gentil?

Sylas não tinha nada de gentil. Simplificando, ele era do tipo que pegava tudo que queria. O fato de a loja ainda estar de pé era uma surpresa por si só. Mas, de fato, ele estava atualmente sob a jurisdição do Templo.

Até ele precisa ser cauteloso com eles.

Se ele realmente fizesse algo assim, seria expulso permanentemente da cidade e de todas as áreas sob a proteção da Deusa da Luz.

Mesmo assim, An'as sentiu a necessidade de compartilhar a situação com o comerciante.

"Tenho certeza de que você já imaginou quem era essa pessoa. Você usa óculos, afinal. Resumindo... Ele não vai pagar. Provavelmente veio aqui para te avaliar... ou por algum motivo totalmente diferente."

"...Eu sei."

O comerciante respondeu com seu sorriso tranquilo habitual. Parecia não estar nem um pouco incomodado com a situação, o que fez An'as franzir a testa.

Ele realmente não entende esse homem.

"Então, por que..."

O comerciante riu, sentando-se na cadeira e pegando um livro, voltando sua atenção para uma página específica.

Enquanto fazia isso, ajustou os óculos.

"Gosto quando as pessoas levam dinheiro de mim."

"Ah?"

Gostar que as pessoas levem dinheiro... Essa... que tipo de lógica é essa? Mas então, como se de repente tivesse se lembrado de algo, An'as ficou rígido ao ver os lábios do comerciante se puxando para cima.

"Você bem sabe disso, não é?"

An'as engoliu em seco, a garganta apertando.

"... Eu me dou muito bem com aqueles que levam dinheiro de mim."

Ao ouvir essas palavras, An'as percebeu que seus lábios tremiam. Finalmente, entendeu a que o comerciante estava insinuando, e toda sua expressão se desmanchou.

'Ele é um completo lunático! Como ele pode...'

Não, isso era um caminho certo para o desastre!

Sylas não era alguém comum. Era um capitão de Nível 8 de verdade, com anos de experiência. Não era alguém com quem qualquer um pudesse simplesmente conversar. E mesmo assim, ele planejava trabalhar com alguém assim?

'Lunático!'

Ele era um completo lunático.

A pior parte de tudo isso era o fato de An'as, de alguma forma, já suspeitava do plano do comerciante. Era só que... ele esperava que usasse sua fama para fazer o capitão ajudá-lo a chegar ao Sul do Restante.

No entanto, parecia que ele tinha superestimado a ganância do comerciante.

An'as quis dizer algo, mas eventualmente se conteve. Entendia que qualquer coisa que dissesse seria ouvida em vão. Então, só pôde respirar fundo e balançar a cabeça.

Nesse momento, ele também avistou o livro na mão do comerciante.

[Xa'ruhl, o que descansa sob.]

Ele franziu o cenho ao ver aquilo.

Xa'ruhl era uma figura bastante famosa na região. Na verdade, era bem conhecido em toda a Dimensão do Espelho.

Afinal, era um dos poucos primordiais que existiam na Dimensão do Espelho inteira.

Senhor do Mar Carmesim, qualquer um que entrasse em contato com Xa'ruhl nunca conseguia recordar sua aparência. Era quase como se todas as informações sobre ele tivessem sido completamente apagadas de suas mentes.

Seu tamanho, sua aparência, seu ninho... tudo era um mistério.

No entanto, a única coisa que não era um mistério era sua força.

Como uma besta antiga, ele era o ápice da Dimensão do Espelho. Um movimento casual dele poderia dizimar toda a cidade de Virith-Anash.

Xa'ruhl também era uma das principais razões pelas quais os sete senhores conseguiam dominar o Mar Carmesim. Afinal, a água que eles flutuavam era a única parte onde Xa'ruhl não aparecia.

Apenas passando por esse caminho era possível chegar ao Sul do Restante.

An'as ergueu uma sobrancelha ao olhar para o comerciante. Será que essa era a razão pela qual ele estava olhando para o livro?

Ele—

Ba-dong! Ba-dong!

"....!?"

De repente, um som estrondoso ecoou no ar, e a cabeça de An'as se virou na direção do som. Seu rosto mudou drasticamente ao perceber que vinha diretamente do templo, e ao olhar para o comerciante com rapidez, ele se despediu apressadamente.

"Estou indo embora."

Ele não esperou o comerciante falar. Apenas virou-se rapidamente, saiu da loja às pressas, trocou de roupa, colocando o manto cinza de líder de equipe e colocando a máscara no rosto com rapidez.

Claro que ele fez questão de se disfarçar em uma área isolada, onde ninguém pudesse vê-lo.

Raramente o sino tocava.

Porém, quando tocava, era sinal de que algo grande estava por acontecer, e por isso, An'as se esforçava para mudar a tempo.

Quando chegou ao templo, viu que o lugar estava lotado.

Havia embaixadores, coletores, capitães e lideranças de várias equipes. Ele via todos olhando para o sino do templo com expressões preocupadas.

"O que aconteceu?"

"...Por que o sino tocou?"

"Alguma coisa deve ter ocorrido dentro do templo? Alguém morreu?"

"Será que um dos sete senhores finalmente ultrapassou seus limites?"

Conversa e murmúrios variados preenchiam o ar enquanto eles entravam no templo, cujos vastos corredores de pedra escura e mármore ecoavam com vozes, enquanto um tênue brilho vermelho vindo das janelas de mosaico acima iluminava a multidão reunida.

O barulho continuou por vários minutos até que um passo ressoou em todo o templo.

Era apenas um passo, mas... parecia ecoar acima de todos os comentários e ruídos internos.

Toda a atenção se voltou para a figura que emergia do sanctum interno, com suas vestes brancas impecáveis e máscara dourada reluzente, que contrapunham-se ao mar de seguidores.

An'as sentiu sua respiração acelerar ao ver a figura central, seu sangue pulsando enquanto silenciosamente apertava o peito.

Isso...

Era um Luminarch.

"Sejam todos bem-vindos."

Uma voz suave transmitida tranquilamente à mente de todos ali presentes. Era calma e trazia uma sensação de paz em meio ao pânico que se alastrara por toda a sala.

"....Sei que todos estão preocupados com a situação. Entretanto, a situação ainda está sob controle. Reunimos vocês aqui antecipadamente para evitar que evolua para o pior cenário possível."

O Luminarch olhou ao redor, suas mãos escaneando toda a sala.

Finalmente, falando novamente, sua voz ficou um pouco mais sombria.

"Detectamos uma possível maré vermelha."

"...?!"

O rosto de muitos mudou, incluindo o de An'as. Ele sabia exatamente o que era a maré vermelha. Era uma das piores coisas que poderiam acontecer à cidade.

Desde a súbita elevação das ondas, que atingiriam dezenas de metros, até os monstros que surgiriam com ela.

Um desastre colossal que ameaçava abalar os alicerces da cidade a cada ocorrência, geralmente a cada cem anos.

'Espere...'

An'as franziu a testa, reorganizando todas as informações em sua mente. Finalmente, sentiu o ar sair dos pulmões ao lembrar que a última maré havia acontecido há apenas vinte anos.

Para que outra ocorresse tão em breve...

"De fato, essa maré vermelha não é algo natural. É um evento planejado, o qual estamos atualmente investigando."

As palavras do Luminarch fizeram toda a sala congelar.

Evento premeditado?

Considerando o perigo do evento e sua grande escala, todos lutaram para entender como tal poderia ser criado artificialmente.

Pelo menos, a maioria tinha dificuldade nisso.

Já An'as tinha conhecimentos suficientes para formar uma ideia, e sua expressão mudou drasticamente.

'Xa'ruhl...'

"Xa'ruhl."

O olhar do Luminarch percorreu toda a sala, sua presença irradiando umaterrível aura sombria.

"... Alguém está tentando provocar O Primordial, Xa'ruhl."

Todo o corpo de An'as tremeu diante das palavras, sua mente retornando ao momento anterior. Ao tempo em que esteve na loja e espiou o livro do comerciante.

"N-não."

Com certeza...

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