
Capítulo 622
Advento das Três Calamidades
Um som de batidas suaves ecoou dentro da loja vazia enquanto uma coruja surgiu do nada, empoleirando-se no balcão de madeira.
Percebendo a presença da coruja, Lazarus colocou o livro que segurava na bancada e sorriu.
"Você notou alguma coisa estranha?"
"...Sim."
A coruja-Majestade franziu um pouco a testa ao responder. Ainda tinha dificuldades em se acostumar com a mudança repentina de Julien.
Da maneira como ele se comportava e falava... Começava a parecer uma pessoa completamente diferente.
Porém, a coruja-Majestade entendia o motivo das ações de Julien.
Se isso fosse para ajudá-lo a crescer e se tornar mais forte, então estava disposto a ajudar e apoiar Julien.
Assim como tinha feito por ela.
"Percebi uma mudança repentina nas marés. O nível do mar subiu e dá sinais de que vai subir ainda mais. Os monstros próximos também ficaram mais agitados. Algo grande está vindo."
"Hum."
Lazarus levou a mão à boca e começou a ponderar. Nos últimos meses, tinha lido muitos livros, e por isso, sabia bastante sobre várias coisas que estavam acontecendo.
Ao ouvir os detalhes da coruja, uma hipótese passou pela mente de Lazarus.
"Maré vermelha..."
Somente um evento assim parecia se encaixar em todas as descrições fornecidas pela coruja-Majestade. E, se fosse esse o caso, a situação parecia bem mais séria do que parecia.
Não só a maré vermelha era extremamente perigosa, como também não deveria ocorrer por várias décadas.
Alguma coisa claramente estava fora do normal na situação.
Mas qual seria exatamente a causa?
Mergulhado em pensamentos, Lazarus estava prestes a pegar outro livro que poderia conter informações sobre o assunto, quando a porta da loja se abriu de repente.
A figura da coruja-Majestade desapareceu do local.
Clique!
Entra na loja com pressa, seus gestos tensos.
"Você...!"
Ele levantou a mão e apontou para Lazarus.
"Foi você quem fez isso, não foi? Você que criou toda essa confusão. Eu vi. Eu vi tudo!"
"Hum...?"
Em vez de ficar chocado ou surpreso com a ação repentina de An'as, Lazarus permaneceu calmo. Ele apenas se recostou casualmente na cadeira enquanto observava seu assistente.
Antes que pudesse dizer alguma coisa, An'as mudou seu foco para o livro que estava lendo anteriormente.
"Aquele ali."
Ele indicou o livro.
"...Você acha que eu não me lembraria disso?"
"Este livro?"
Lazarus dirigiu seu olhar ao livro sobre o balcão.
[Xa'ruhl, o que descansa sob a terra.]
Logo uma expressão de compreensão surgiu em seu rosto.
"Ah, aquele..."
O corpo de An'as ficou tenso. A energia mana em seu corpo circulou rapidamente enquanto ele se preparava para atacar a qualquer momento. Não podia permitir que alguém prejudicasse as terras da Deusa. Estava disposto a usar seu corpo para acabar com tudo rapidamente.
No entanto, ao invés da reação que esperava do comerciante, tudo o que recebeu foi uma risada sutil.
"Hah..."
Isso fez An'as franzir a testa.
"Por que você está rindo?"
Em vez de responder de imediato, Lazarus cobriu a boca e balançou a cabeça. Havia um tom sutil de decepção na sua voz ao falar.
"Eu tinha escolhido você porque achava que era inteligente, mas começo a pensar que tomei a decisão errada."
"O que—"
"Você veio aqui acusando-me de estar por trás de um grande plano secreto envolvendo o Grande Primordial — só para prejudicar a cidade e o templo?"
An'as lambeu os lábios, com a boca seca.
"Não, eu... você pode ter outros motivos."
"Como quais...?"
"Eu... eu..."
Lazarus levantou a mão para impedir An'as de falar.
"Tudo bem, vamos supor que você esteja certo e que eu seja o cérebro por trás de tudo isso. Mas o que exatamente acha que vai alcançar vindo aqui sozinho só para me dizer que descobriu? Nunca pensou em ficar quieto, espionar discretamente, descobrir o que planejo? Ou, sei lá — trazer reforços em vez de aparecer aqui sozinho?"
Quanto mais Lazarus falava, mais An'as sentia a respiração ficando pesada.
Tudo o que ele dizia era verdade. Eram todas as coisas que deveria ter feito, mas falhou.
Pelo contrário, foi tão ingênuo a ponto de correr de volta ao comerciante e revelar tudo.
An'as sentiu o coração afundar. Isso... Essa era sua maior fraqueza e a razão de suas chances de se tornar um Luminarque serem baixas.
Era por causa da impulsividade e da devoção cega à Deusa da Luz.
Para ele, ela era tudo. Sua salvação nos piores momentos da vida. A que o aceitava, apesar do sangue sujo que corria em suas veias.
Ela significava tudo para ele.
E por isso, sempre que algo ameaçava a Deusa e seu poder, ele perdia completamente a razão.
"Você tem muita sorte."
O comerciante se levantou silenciosamente, caminhando até An'as e parando bem na sua frente.
Só agora, ao verem-se face a face, An'as notou a diferença de altura. O comerciante... quase um palmo mais alto que ele, enquanto ele era magro em comparação.
Mas isso não era algo que pudesse controlar. Sua má alimentação e a dieta restrita tinham prejudicado seu crescimento.
E, mesmo assim, ele era melhor do que a maioria das pessoas nesta cidade.
"...Se fosse outra pessoa, provavelmente teria tido a cabeça cortada. Felizmente, sou bem tolerante. Vou te dar mais uma chance."
Lazarus colocou a mão no ombro de An'as, com os olhos semicerrados enquanto uma frieza percorria seu corpo. Era como se toda sua essência tivesse sido mergulhada nas profundezas do oceano frio.
Por sorte, a sensação não durou muito, pois Lazarus retirou a mão logo em seguida.
E foi só então que An'as sentiu a respiração voltar, com um suor frio escorrendo pelas costas enquanto respirava fundo, devagar.
"Haaa... Haa..."
Sem olhar para ele, o comerciante caminhou em direção às janelas da loja e olhou para as ruas.
"Uma maré vermelha virá em breve, e, dado o que você me contou, parece que algum tipo de organização ou pessoa está tentando provocar problemas com o Grande Primordial para causar confusão neste território."
Lazarus acariciou o queixo, com os olhos perdidos em pensamentos.
Por outro lado, An'as lentamente conseguiu recuperar a respiração, encarando as costas do comerciante com uma expressão complexa.
Naquele momento, quase sentiu o toque da morte.
Ele... realmente esteve perto de morrer. E isso fez o comerciante à sua frente parecer ainda mais enigmático aos seus olhos.
Se já não estivesse claro antes, agora tinha certeza: ele não era um comerciante comum.
Ele certamente escondia algo.
Porém, An'as achava impossível descobrir o que era. Por enquanto, só podia aceitar em silêncio, tentando entender melhor a situação.
Sua única lealdade era à Deusa.
Nunca mais ninguém poderia tomá-la dele.
"...Provocar o Grande Primordial... Esses aqui são realmente ambiciosos."
Lazarus deu um sorriso ao pensar nisso.
Pel'as que tinha lido, Xa'ruhl era uma criatura que até mesmo os sete senhores do mar evitavam a todo custo. Provavelmente, uma figura contra a qual a mulher da Academia teria dificuldades em lutar.
Monstros sempre tendem a ser um pouco mais fortes do que humanos quando estão no mesmo nível.
O mesmo vale para um monarca contra um primordial.
'Essa é uma situação bem interessante.'
Lazarus voltou sua atenção para seu assistente, que começava a se recuperar lentamente.
"Você está se sentindo melhor?"
"...Um pouco."
"Ótimo então."
Lazarus foi até a porta da loja, abriu lentamente, deixando o ar seco da cidade entrar.
"Já que a aparição da maré vermelha deve ser problemático para mim e meus planos, que tal sairmos para verificar a situação?"
"Huh? Ver a situação?"
An'as piscou desconcertado, sem entender bem.
Levou alguns segundos até perceber o que Lazarus pretendia dizer, e seus olhos se arregalaram.
"Espera, você está dizendo que devemos investigar quem está por trás disso?"
"...Sim, por que não?"
"Mas essa é tarefa do templo. Pode interferir no trabalho deles, e podemos ser confundidos—"
"Não quero te ouvir mais."
Lazarus levantou a mão e impediu An'as de falar.
Olhou ao redor, deu um passo à frente e seguiu pela rua. An'as só pôde observar as costas dele por um curto instante, depois rangeu os dentes e foi atrás.
"Investigar a situação pode ser muito perigoso. Podemos perder nossas vidas. Você não acha que uma decisão dessas deveria ser tomada com mais cautela? Além disso, é melhor trabalhar junto com o templo. Se for eles—"
Lazarus parou, sua expressão fixa em An'as, que de repente se calou.
Aquela silêncio perdurou até que o comerciante sorriu.
".....Huu."
An'as mordeu os lábios e abaixou a cabeça em resignação.
Percebeu que qualquer outra coisa que dissesse sobre a situação só iria aumentar a sua irritação. O único que podia fazer era seguir em silêncio atrás dele.
Até que se lembrou de uma coisa.
"Sobre aquele livro de antes..."
"O do Grande Primordial, Xa'ruhl?"
"Sim."
An'as assentiu.
"Por que você estava lendo aquilo?"
An'as sentia muita curiosidade. O momento parecia um pouco estranho para ele. Quais eram as chances de tal coincidência ocorrer?
"Sobre isso... Não é nada importante. Só tinha curiosidade sobre as habilidades dele e seu osso. Que tipo de poder ele me daria se eu o pegasse?"
"Eh...?"
De repente, An'as parou, fixando seu olhar no comerciante que caminhava, cobrindo a boca com as mãos, o coração apertado na garganta.
Isso...
Não podia ser, certo?
Como se previsse sua mudança repentina, Lazarus olhou para trás, encontrou An'as e sorriu.
"Por que esse rosto de quem viu um fantasma? Era só uma brincadeira. Conheço meus limites. Não tenho como conseguir um osso de rank primordial."
Ele balançou a cabeça, murmurando coisas como "Se eu tivesse, venderia logo. Deve dar pra comprar uma cidade, hahaha".
Ouvindo isso, parecia mesmo que ele estava brincando.
No entanto... An'as sentiu algo profundo no seu estômago.
Por alguma razão, ele realmente tinha dificuldade em acreditar nele.