Advento das Três Calamidades

Capítulo 606

Advento das Três Calamidades

Sob a luz fraca, um corpo jazia sobre uma cama. Embora sua pele fosse rosada, não havia batimentos cardíacos, nem respiração.

Ele, em todos os sentidos, estava morto.

"Então...?"

Enquanto uma figura vestida de preto recuava, vários olhares ansiosos se voltaram na direção dele.

Com um silêncio que parecia durar para sempre, a figura eventualmente balançou a cabeça.

"Não sinto nenhum sopro, nem alma dentro do corpo. Receio que—"

"Ele não está morto. Tenho certeza de que não."*

Leon levantou abruptamente da cadeira, interrompendo o padre no meio da frase. Seus cabelos estavam um pouco desarrumados, e sombras sob os olhos denunciavam o cansaço, enquanto fixava seu olhar em Julien.

Ele, de todas as pessoas, sabia que não havia como Julien estar morto.

O sangue... deveria ter funcionado.

E, mesmo assim.

Mesmo assim...

"Entendo de onde você vem. Este caso... é a primeira vez que vejo algo assim."

O padre, sem se ofender nem um pouco pelas ações de Leon, balançou a cabeça. Na verdade, nem sabia exatamente por quê havia sido chamado inicialmente. Ele lidava com almas e assuntos relacionados, não era um médico.

Mesmo assim, ele obedeceu, considerando o status das pessoas que o convocaram.

"...Por alguma razão, o corpo parece manter suas funções básicas de autopreservação, evitando a decomposição. Mas, ao mesmo tempo, não há alma presente. Para usar uma expressão simples, é apenas uma casca vazia."

"Eu não..."

Leon ficou pálido, sacudindo a cabeça. Apesar de saber a resposta, ouvi-la do padre foi como uma punhalada no peito.

Ele cobriu a boca ao ver sua boca se mover sem produzir som. Quanto mais tentava falar, mais se sentia incapaz de encontrar palavras.

No final, ele desabou na cadeira, completamente sem rumo.

'Como é possível... Cheguei a tempo... Ele ainda deveria estar vivo... Isso não faz sentido algum.'

Seu rosto permanecia vazio, lutando para aceitar a situação.

...Ele não era o único na sala.

Havia outros presentes. Mais notavelmente, Atlas e vários outros altos funcionários do Império.

A notícia da morte de Julien ainda não tinha sido divulgada. Na verdade, apenas alguns poucos tinham conhecimento da situação.

"Quem fez isso?"

A voz de Atlas soou baixamente na sala.

Quando Leon levantou a cabeça, quase sentiu seu corpo estremecer, involuntariamente, enquanto o olhar de Atlas estava fixo em Julien.

Ele parecia nem estar bravo nem triste.

Sua expressão era apenas... neutra.

E, no entanto, era uma expressão tão neutra que fazia ahem toda a sua pele arrepiar.

"Ainda não sabemos."

Outra pessoa respondeu, balançando a cabeça antes de se virar para Leon. Parecia ser um dos delegados da família Megrail.

"Ele foi quem encontrou Julien nessesse estado. Talvez saiba de algo mais."

Atlas virou a cabeça, os olhos amarelos penetrando diretamente em Leon, enquanto balançava a cabeça.

"Eu... não sei. Realmente não sei."

Pensando em como Julien tinha acabado nessa situação, ele se sentia completamente perdido. O local onde encontrou Julien estava completamente limpo, sem sinais de luta. No entanto, ao lembrar das feridas no corpo de Julien, soube que ele havia passado por muito.

'Foi teleportado para outro lugar e trazido de volta?'

Essa era a única explicação que Leon conseguiu imaginar.

Ele não era o único que pensava assim.

Mas, ao mesmo tempo…

"Considerando o estado tão perfeito de sua condição atual, receio que ele tenha lidado com uma mag... altamente avançada—"

"Isso é impossível."

Leon cortou imediatamente, chamando atenção de todos na sala.

Ao perceber o que tinha feito, seu rosto ficou sério, mas ele cerrava os dentes com força.

Nesse momento, ele precisava descobrir quem era o responsável. A tristeza e o luto viriam depois. Inspirando profundamente, Leon tentou acalmar as emoções agitadas e ergueu a cabeça.

Depois, começou a relatar tudo que tinha acontecido e como encontrou Julien.

"...Quando encontrei Julien, ele estava cheio de ferimentos. O estado da roupa dele é prova disso."

As roupas estavam todas rasgadas e cheias de cortes. Isso era suficiente para mostrar que ele tinha participado de uma luta.

Outras pessoas também pareciam cientes disso, mas—

"Nós também notamos isso, mas o corpo dele está completamente ileso. Usei o exame do corpo e Julien às vezes não parece ter habilidades de cura experimental. Como você explica—"

"É possível que os responsáveis tenham curado ele para esconder qualquer vestígio de suas técnicas."

Leon interrompeu de repente.

Ele não revelou a eles que foi ele quem curou as feridas de Julien. Isso era por uma razão óbvia. E, mesmo que tivesse contado, não mudaria muita coisa.

Aqueles que fizeram isso foram extremamente cuidadosos.

"Isso é verdade..."

Atlas assentiu, com o olhar surpreendentemente calmo.

"Para que eles também o tenham feito de forma silenciosa e secreta. Não parecem ser um grupo comum..."

No entanto, mesmo dizendo isso, parecia ter uma pista de quem eram os responsáveis por tudo isso. Na verdade, não era o único.

'Quem fez isso?'

Os lábios de Leon tremiam, sentindo uma forte tentação de perguntar, mas se conteve ao notar a figura parada no canto da sala.

Ela esteve em silêncio o tempo todo, com o rosto neutro, aparentemente imune a tudo.

Porém, seu olhar... nunca saiu do corpo de Julien.

Estava lá, fixo, seus pensamentos desconhecidos.

Leon olhou para ela, franzindo as sobrancelhas. Observando, ela parecia completamente indiferente, e, mesmo assim…?

"Eh...?"

Ele piscou.

Ela tinha desaparecido.

Sumido. Como se nunca tivesse estado ali.

"Que..."

Ele não se preocupou em procurá-la.

Em vez disso, voltou seu olhar para o corpo de Julien — e sua expressão se quebrou. De repente, começou a recordar tudo que os dois tinham passado juntos, e seu peito voltou a ficar pesado.

Será que isso era realmente…?


"Como está a situação?"

Delilah entrou em uma sala de tamanho modesto, as paredes decoradas com pinturas silenciosas que pareciam observar em silêncio. Sofás confortáveis preencheram o espaço, e em um deles estava Orson, com expressão grave e olhar sério ao encontrá-la.

"Ele...?"

"Sim."

Delilah respondeu, com tom frio e equilibrado. Parecia quase imune à situação.

"Ele está morto. Não há respiração nele..."

"Entendo."

Orson fechou os olhos e recostou-se.

"Que pena. Era tão jovem e talentoso. Alguns até o comparavam a você em talento."

Orson balançou a cabeça, decepcionado. Pessoas talentosas como Delilah eram extremamente raras, e embora existissem algumas que tinham nascido antes, nenhuma chegou a amadurecer, morrendo antes de alcançar seu potencial.

Delilah era uma dessas talentos. Se não fosse por ele tê-la acolhido, ela talvez—

"Há alguma pista de quem possa ter feito isso?"

"...Não."

Delilah balançou a cabeça, e Orson fez uma pausa, observando-a. Ela parecia normal à primeira vista, mas algo nela parecia um pouco estranho.

Mesmo sabendo que a conhecia bastante bem, era a primeira vez que a via agir assim.

Ela... fria.

Tão fria que parecia que o ambiente ao redor ia congelar.

'Deve estar em choque.'

Pensando nisso, Julien era sua responsabilidade como Chanceler de Haven. Na cabeça de Orson, Delilah provavelmente se sentia culpada por não conseguir salvar ou perceber algo.

"Não se culpe tanto, Delilah. No final, ninguém percebeu nada. É—"

"Eu entendo."

Delilah apenas assentiu e foi em direção ao seu quarto.

Orson ficou apenas assistindo enquanto ela entrava, fechando a porta.

Clank—

Seu rosto ficou sério, tirou seu dispositivo de comunicação e rapidamente enviou mensagens para os demais.

Ele precisava entender toda a situação.

*

Por outro lado, silenciosamente, entrando em seu quarto, Delilah se viu envolta pela escuridão. Ela a abraçava por todos os lados.

Não se preocupou em acender a luz, apenas sentou-se, acceptando a sombra.

"…"

Sentada em silêncio, seu olhar perdeu o brilho e ficou frio.

Afronte a frieza persistente até que pegou seu dispositivo de comunicação. Apesar de sutil, sua mão tremia ao abri-lo pela primeira vez em dias.

Foi então que percebeu várias mensagens ausentes.

Todas de... ele.

"….."

O olhar de Delilah permaneceu frio, fixo nas mensagens. Abrindo os lábios, ela os fechou logo em seguida, pressionando-os contra as mensagens e lendo-as.

[Era brincadeira. Na verdade, não vou me casar.]

Essa foi a primeira mensagem que viu.

Sua expressão permaneceu indiferente enquanto descia para a próxima mensagem.

[…Não sei por que reagiu assim, mas era só brincadeira mesmo. Achei que ia entender, mas não fosse eu talvez tivesse sido óbvio demais?]

Havia várias mensagens.

Todos diziam a mesma coisa, mas, ao mesmo tempo, quanto mais ela descia a rolagem, mais as mensagens mudavam.

[…Você viu a mensagem?]

Ele era insistente.

Até demais.

[Acho que não.]

[Você ainda está bravo comigo?]

Sim, estou.

[Vou para a Câmara hoje. Tentarei esclarecer o mal entendido. Aposto que vai achar engraçado quando tudo acabar.]

[…Então, você está mesmo bravo, hein?]

Sim, pare de mandar mensagem.

[Desculpe.]

Para com isso...

[Eu—]

Clank!

O dispositivo de comunicação rolou pelo chão enquanto a mão de Delilah tremia, seu rosto marcado por uma mistura de indiferença e dor.

A frieza que antes dominava seus traços desapareceu, dando lugar a uma vibração constante que ela não conseguia esconder.

Lentamente, levou a mão ao peito, uma dor que nunca tinha sentido antes atravessou seu coração como uma faca.

Doía.

Era tão intenso.

Os lábios de Delilah continuaram a tremer enquanto seu olhar, por fim, caía sobre o pequeno diário vermelho em sua mesa.

Ao olhar para ele, a dor no peito se intensificou ainda mais. E, mesmo assim… ela se sentiu incapaz de resistir à tentação de alcançá-lo, folheando suas páginas.

Seu olhar pousou em todas as pequenas frases que tinha escrito.

Algumas até lhe arrancaram um sorriso—embora não fosse um sorriso feliz. Quanto mais sorria, mais fundo doía seu peito.

E, no final…

Ela chegou à última página.

"….."

Encara a última página, seu rosto ficou vazio. Ela tinha planejado preenchê-la mais. Todo o diário seria preenchido.

E, ainda assim…

Isso parecia impossíveis agora.

"A-ah."

Um som de esforço saiu de seus lábios enquanto sua mão tremia.

Por fim, pegando uma caneta, escreveu no diário.

O último ponto.

[● A pessoa que amo]

... E o mais doloroso de todos.

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