Advento das Três Calamidades

Capítulo 607

Advento das Três Calamidades

Uma figura sentada imóvel na escuridão.

A escuridão não apenas o cercava — ela se curvava e se contorcia para dentro, dobrando como tecido puxado por fios invisíveis.

E então, Atlas apareceu diante da figura.

Ele imediatamente se ajoelhou de um joelho, sua expressão difícil de decifrar enquanto Sithrus lentamente abria os olhos para vê-lo.

"Ah, meu."

Tudo que Sithrus viu ao olhar para Atlas foi vermelho.

Seu corpo inteiro...

Era vermelho.

"É raro te ver tão bravo, Dawn. Estou um pouco curioso para saber o que aconteceu, mas antes..."

Sithrus levantou a mão e a abaixou.

Imediatamente, o vermelho que parecia querer escapar do corpo de Atlas começou a desaparecer, concentrando-se em uma bola espessa de vermelho que se focava dentro de seu abdômen.

Depois, com um gesto casual de pulso, a esfera disparou, inclinando-se diretamente na boca aberta de Sithrus.

Ele fechou os olhos ao entrar, um sorriso satisfeito se formando em seu rosto.

"Nada mal."

Ao abrir os olhos novamente, direcionou seu olhar a Atlas.

"Você se acalmou?"

"....Sim."

Atlas assentiu lentamente, a tensão em seu rosto desaparecendo.

Sua expressão agora estava mais calma, composta — como se uma tempestade tivesse passado por ele e deixado apenas silêncio em seu rastro.

"Bom. Então..."

Sithrus inclinou a cabeça curiosamente para Atlas.

"Por que veio aqui, e o que te deixou tão desencadeado?"

"....."

Atlas ficou ajoelhado em silêncio por alguns segundos antes de respirar fundo e falar.

"Julien faleceu."

"Julien...?"

Sithrus ergueu uma sobrancelha.

"Sim. Seu corpo foi recentemente encontrado em seu quarto, sua alma completamente desaparecida."

"Entendo."

O rosto de Sithrus não mudou muito ao ouvir a notícia. Pelo menos, não de imediato. Após alguns segundos, sua mão foi à boca, franzindo as sobrancelhas.

"Morto...? E eu tinha quase certeza de que ele ainda estava..."

Suas ideias fizeram uma pausa após alguns segundos, enquanto um sorriso logo manchava suas feições.

"Entendo. Talvez eu estivesse vendo as coisas do jeito errado. Talvez, desde o começo, ele fosse apenas uma distração..."

Ao ouvir a murmuração silenciosa de Sithrus, Atlas só pôde inclinar a cabeça com perplexidade. Mas, apesar da curiosidade, não se atreveu a perguntar uma explicação.

Ele não estava em posição de perscrutar "os" pensamentos dele.

"Você tem alguma pista de quem são os responsáveis por isso?"

"Sim."

Atlas assentiu, mantendo a postura ereta e os olhos afiados.

Ele tinha quase certeza do que era. Na verdade, não era difícil adivinhar.

Pensou na ação de Julien durante o dia do Congresso de Nurs Ancifa. Pensou em como ele tinha sido indiretamente responsável por deixá-los presos e humilhados na frente de todos.

Pensou em como todos tinham sido convidados por eles naquele dia tão específico.

Pensou em como o santo havia desaparecido nesse dia.

Atlas tinha uma forte suspeita de quem tinha feito isso com Julien, e ao olhar para Sithrus, seus lábios se separaram.

"Tenho razões para acreditar que são aqueles da Igreja de Oracleu—"

No meio de suas palavras, Atlas congelou, de repente percebendo a mudança na expressão de Sithrus — seu sorriso se alargando de forma artificial, numa expressão que flertava com o algo perturbador.

Foi suficiente para lhe causar calafrios.

Seus lábios se abriram, mas nenhuma palavra saiu. Até que Sithrus falou.

"Isso é muito interessante."

Ele parecia quase desfrutar da situação.

"...Imaginar que ele conseguiu me enganar assim. Como esperado, só ele é capaz de fazer algo assim."

Além da diversão, parecia haver algo mais na voz de Sithrus. Seria raiva? Surpresa?

Atlas não conseguiu saber, mas o estado atual de Sithrus era suficiente para lhe causar arrepios por todo o corpo.

Levantando-se lentamente, Sithrus massageou o pescoço enquanto olhava para Atlas.

"Se é o que estou pensando, seu discípulo não tem jeito de ser salvo."

Suas palavras eram calmas, mas suficientes para fazer as feições de Atlas mudarem.

"Ele não pode ser salvo? Espere, mas—"

"Emmet está prestes a despertar."

As palavras seguintes de Sithrus fizeram Atlas parar completamente, seus olhos se arregalando consideravelmente.

Ele, claro, sabia bem quem era Emmet.

Como poderia não saber?

"...Pensei anteriormente que Julien fosse o agente de Emmet. Desde o cheiro familiar do extrator até sua personalidade familiar. Esperei pacientemente. Mesmo enquanto ele conseguiu te envolver com seu charme. Esperei para ver o que ele planejava fazer. E ainda assim..."

Sithrus riu.

"Ele nunca foi o agente dele desde o início. Foi apenas uma vítima infeliz do plano de Emmet."

Ouvindo suas palavras, Atlas só pôde ficar boquiaberto. Agente de Emmet? Esperando para ver o que ele planejava...?

O que...

"Você não entendeu, não é?"

Atlas virou lentamente a cabeça em direção a Sithrus, cujo olhar parecia perfurar a escuridão, como se visse além do que estivesse na frente deles.

"...Está na hora de colocarmos em movimento tudo o que planejamos ao longo desses anos."

Virando-se, o sorriso de Sithrus lentamente desapareceu enquanto a escuridão começava a engoli-lo por completo.

"Oracleus está vindo."

***

Vários dias se passaram desde o incidente.

A morte de Julien não causou ondas no mundo. E isso era apenas porque a notícia ainda não se espalhara ou fosse divulgada. Esse silêncio era totalmente desejado por Visconde Evenus, que optou por mantê-la escondida.

Em respeito a ele, a Academia, junto à família Megrail, concordaram com seus termos. Isso também era o melhor para eles.

Uma notícia de alguém tão talentoso falecendo nunca foi bem recebida.

Todos tinham seus próprios interesses no coração.

Adric não era diferente. Para ele, a notícia da morte de Julien significava interromper muitos dos planos que já tinha colocado em prática.

Ele não podia permitir que isso acontecesse com ele.

Pelo menos, ainda não.

"Sentimos muito pela sua perda. Estamos investigando os arquitetos por trás do incidente e atualizaremos você assim que soubermos de novidades."

"...Entendo."

O rosto de Aldric ficou frio enquanto os delegados do império chegavam à sua casa, entregando-lhe o corpo sem fôlego de Julien.

"....."

Ele ficou em silêncio, olhando para o corpo do filho.

Seu silêncio deixou os delegados desconfortáveis, mas eles optaram por ficar calados. Afinal, sua única missão era entregar o corpo.

"Ele era um grande talento e é, de verdade—"

"Tudo bem."

Aldric interrompeu os delegados antes que continuassem.

"Não tenho interesse em discursos desnecessários. Podem ir."

"Sim."

Os delegados não ficaram muito tempo. Logo após entregarem o corpo de Julien ao Visconde, partiram rapidamente.

Quando já tinham ido embora, Aldric já havia levado o corpo para dentro do que era originalmente o quarto de Julien.

Nenhum dos criados ou pessoas na propriedade tinha conhecimento de suas ações ou da situação.

E mesmo que soubessem, fechariam os olhos para isso.

Era assim que as coisas funcionavam na Casa Evenus.

"....."

Depois de colocar o corpo de Julien na cama, Aldric ficou acima dele, sua expressão vazia de emoção. Seu rosto friu, os olhos distantes e vazios. Para quem olhasse, pareceria um estranho — desconectado, como se não tivesse ligação alguma com a figura sem vida à sua frente.

E, no entanto...

Ele era pai de Julien.

Colocando seu dedo sobre o pescoço de Julien, Aldric logo fechou os olhos.

"O corpo não apresenta sinais de decomposição — quase parece estar se preservando naturalmente. Isso é bastante bom."

Ao abrir os olhos novamente, retirou os dedos e sentou-se na cadeira próxima. Ao fazer isso, seu olhar voltou a repousar sobre o corpo de Julien.

Ficou em silêncio por alguns segundos até que as primeiras fissuras começaram a aparecer em seu rosto.

"...As coisas estão acontecendo conforme o esperado. Não sinto mais nada do sangue dele. Isso quer dizer que os de lá da Igreja o pegaram."

Por 'seu' sangue, ele queria dizer o sangue de Oracleus.

Pela primeira vez em muito tempo, a expressão de Aldric começou a mudar, e as rachaduras em seu rosto se expandiram. Seus lábios tremeram, e para escondê-lo, levou um punho cerrados à boca, recostando-se na cadeira na tentativa silenciosa de se recompor.

Porém, apesar de seus esforços, soltou um breve suspiro, enquanto seus lábios se curvavam num sorriso.

"Ha."

Seu peito tremeu ao perceber que não conseguia segurar o riso.

Remeteu-se ao começo do Congresso e à sequência de eventos que levaram a esse momento.

Tudo...

Havia ocorrido como planejado.

"Apesar de ser uma pena ter que me separar de um Espírito tão talentoso, no fim, tudo se encaixa."

Toda a sequência de eventos no Congresso não foi uma coincidência.

Desde o repórter até o fato de Julien ter sido enviado lá.

Tudo tinha sido planejado para esse exato momento.

"Agora, provavelmente ele acredita que Oracleus está à beira de despertar — e que Julien era apenas uma farsa o tempo todo. Isso nos dará um tempo valioso."

Sua expressão, embora tentasse se conter, não conseguiu esconder um sorriso que se expandia cada vez mais.

Mas como não sorrir?

Ele aguardou por esse momento por um longo, longo tempo.

Um tempo tão longo que poderia enlouquecer qualquer um.

Mas ele persistiu.

Ele persistiu porque foi orientado a persistir.

E tudo finalmente deu certo.

Olhando na direção de Julien, os lábios de Aldric se abriram lentamente enquanto o peito tremia, e a fachada fria que mantinha por tanto tempo começava a desmoronar.

"Fiz bem, não foi?"

Murmuros de Aldric, enquanto seu sorriso desaparecia, sendo substituído por uma emoção crua e incontrolada.

Os lábios de Aldric tremeram, mas ele conseguiu, com esforço, dizer algumas palavras, sua voz quase inaudível.

"...C-erto?"

E assim que as palavras saíram, os olhos de Julien se abriram lentamente.

O vaso vazio de antes voltou à vida enquanto Julien focava o olhar no teto do cômodo.

Ele piscou algumas vezes, sentando-se para encarar o olhar de Aldric. Sua expressão rapidamente ficou complicada, enquanto sua boca se abria e fechava várias vezes antes de, finalmente, conseguir proferir uma única palavra.

"Noel..."

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