
Capítulo 605
Advento das Três Calamidades
"Julien...?"
A expressão de Leônidas mudou no instante em que percebeu que algo estava errado. No entanto, só ao abrir a porta e entrar foi que ele realmente se deu conta de quão grave era a situação.
— Droga!
Leônidas se apressou em direção a Julien, com o rosto caindo ao notar a gravidade dos ferimentos.
'O que diabos aconteceu?'
Ele escaneou o ambiente, mas não encontrou nada errado. Na verdade, tudo parecia completamente normal. Ao perceber a gravidade dos ferimentos de Julien, parecia que ele tinha acabado de sair de uma batalha árdua.
E, mesmo assim...
— Espera.
A face de Leônidas ficou pálida ao chegar perto de Julien.
Ao se ajoelhar, um horror tomou conta de seu rosto.
— Não, não, não...
O estado de Julien... era muito pior do que ele tinha imaginado inicialmente. Na verdade, ia além do que ele poderia esperar.
— Ele não está respirando.
Leônidas sentiu o corpo rígido ao perceber a realidade.
— Como assim...?'
Colocando a mão no pescoço, também não sentiu pulso. Checou novamente, mas o resultado foi o mesmo.
A mão de Leônidas começou a tremer.
A verdade ainda não havia sido totalmente assimilada por sua mente. Como poderia? Julien não poderia morrer assim, seria?
Como poderia morrer dessa forma?
— Isso não faz sentido...
O peito de Leônidas começou a tremer. Algo lhe perfurou o peito ao olhar para Julien. Por que aquilo doía tanto?
Não era para ser assim no começo.
Os dois eram apenas pessoas com circunstâncias diferentes tentando usar um ao outro para seus próprios objetivos. Era assim que as coisas deveriam ser desde o início, e ainda assim, antes que percebesse, eles acabaram ficando mais próximos.
Julien não era mais apenas um conhecido, mas...
Ele também era um amigo.
Talvez seu único amigo.
...Ele era alguém que Leônidas não tinha dificuldade em servir. Mesmo que geralmente brincassem um com o outro, eram apenas brincadeiras.
Leônidas aceitava porque achava divertido ver Julien sofrer.
Sim, era divertido.
Ele teve alguns dos momentos mais divertidos nos últimos anos, como nunca tinha tido na vida.
Então...
— ...Você ainda não pode morrer.
As mãos de Leônidas continuavam a tremer, mas ele conseguiu rapidamente recuperar a calma. Ainda não tinha acabado.
Ele ainda sentia que o corpo de Julien estava quente.
Isso significava que ele havia sido morto há pouco tempo. Nesse caso, ainda não era tarde demais.
— Hoo.
Leônidas respirou fundo e fechou os olhos logo em seguida.
Veias azuis começaram a surgir ao seu redor, enquanto um leve brilho azul emanava de seu peito.
A expressão de Leônidas começou a se contorcer ao experimentar uma dor intensa.
No entanto, ele resistiu à dor.
Concentrou toda sua atenção em seu interior. Para o cálice que repousava em seu coração, e à medida que seu corpo começava a tremer, ele começou a colocar a mão no peito, retirando lentamente o cálice de dentro de si.
— Uekh!
A dor era inconcevível.
Era como se seu coração estivesse sendo arrancado do corpo.
No entanto, ele suportou a dor.
Precisava suportar a dor!
— Akhhh—!
Ele agora era príncipe, mas ainda era seu cavaleiro.
Não tinha deixado o serviço ou sido dispensado.
Ele era inútil.
Sempre havia fracassado na sua função.
Na verdade, era sempre Julien quem fazia a maior parte do trabalho.
Que tipo de cavaleiro fracassado ele era?
— K-kh...
Leônidas olhou na direção de Julien, que jazia no chão, com sangue escorrendo do nariz.
Então, ele sorriu.
— V-você não... pode dizer que não fiz meu trabalho depois disso...
O rosto de Leônidas torceu-se ao dizer aquelas palavras, e aos poucos conseguiu puxar o cálice de dentro de seu corpo.
— Haa... Haa...
Ao se curvar, seu peito se moveu de forma desigual enquanto ele se sentia fraco por completo.
Mas ainda não tinha acabado.
Ele olhou para o cálice em suas mãos, uma expressão complexa marcando seu rosto.
Mas...
— É a única maneira.
Olhando para o líquido preto dentro do cálice, Leônidas abriu a boca de Julien e opour nele pela garganta.
Então, algo começou a acontecer.
— Está... funcionando!
Os ferimentos que marcavam o corpo de Julien começaram a cicatrizar rapidamente, recuperando-se como se nunca tivesse sido ferido.
A tez dele também começou a ficar rosada, retornando ao estado anterior.
Leônidas se aliviou ao ver isso.
Embora o líquido no interior do cálice fosse extremamente importante para seu crescimento e futuro, ele não hesitou em dar tudo a Julien.
Ele poderia conseguir mais depois.
Fazer mais.
...Mesmo que isso atrasasse seu crescimento em anos, ele não se arrependeu.
Afinal...
— É meu dever.
Seu dever como cavaleiro.
Clang, clang.
Depois que todo o líquido entrou no corpo de Julien, exausto e debilitado, Leônidas se deitou de costas, o cálice caindo ao chão enquanto engolia ar com força.
— Está... feito.
As feridas no corpo de Julien estavam todas curadas.
'Ele deve estar fora de perigo agora.'
Leônidas suspirou aliviado. Seu corpo estava fraco, e ele temia que ficaria nessa condição por pelo menos uma semana, mas não se arrependeu em nada de suas ações.
Com cuidado, levantou lentamente a cabeça e voltou suas atenções para Julien, que ainda tinha os olhos fechados.
À primeira vista, pareciam estar descansando.
Leônidas sentiu-se aliviado ao ver isso.
No entanto... essa sensação de alívio não durou muito.
— Julien...?
Com uma expressão de preocupação, Leônidas se forçou a se levantar e se aproximou de Julien. À primeira vista, parecia que não havia nada de errado. Seus esforços haviam curado Julien completamente.
Deveria estar tudo bem agora, logicamente.
E, no entanto...
— Por quê?
Leônidas colocou a mão no pescoço de Julien, seus olhos se arregalando.
— ...Por que... por que ele ainda não está respirando?
Leônidas respirou fundo para manter a compostura, permanecendo ao lado de Julien.
'Talvez precise de um pouco de tempo. Tenho certeza de que não fui tarde demais, pois o corpo dele ainda estava quente. Teoricamente, ele já deveria estar bem agora.'
Então, por que?
Por que o coração de Julien não batia?
— .....
Leônidas apertou a boca, olhou para Julien, e de repente uma sensação de pavor percorreu sua mente enquanto suas mãos começavam a tremer.
Não pode ser, né?
Leônidas olhou para Julien, sua expressão lentamente se destruindo.
Uma brincadeira?
Seria algum tipo de brincadeira doentia de Julien?
De fato, se fosse Julien, ele tentaria fazer uma piada tão tortuosa assim.
— Vou acabar entrando na brincadeira.
Leônidas fixou o olhar no corpo de Julien, suas mãos lentamente ficando vermelhas pelos olhos injetados de sangue.
Logo, você vai revelar que é uma brincadeira, né?
— Vamos... estou esperando...
Ao mesmo tempo, em outro local.
Após os eventos do primeiro dia do Congresso e a "mal-entendido" que se seguiu, a Igreja de Oracleus convidou todos os principais representantes presentes para um banquete, a fim de expressar suas mais sinceras desculpas e fazer reparações.
No comando do encontro, estava o Cardeal Ambrose, o principal delegado da Igreja de Oracleus.
— Antes de tudo, queremos expressar nossas mais profundas condolências a todos aqui presentes. Tenho certeza de que ninguém queria que o evento começasse assim.
O Cardeal segurava um copo enquanto falava.
Sua expressão era calma e serena ao se dirigir a todos.
— Apesar de sermos inocentes, é verdade que agimos com muita pressa. Tudo aconteceu tão rápido que não conseguimos avaliar cuidadosamente a situação. Espero que ninguém aqui tenha se ofendido com nossas ações.
As várias pessoas presentes balançaram a cabeça, fazendo seus brindes.
O Cardeal se embrenhou na atmosfera, com uma expressão tranquila. No entanto, sua calma exterior era apenas uma fachada.
Ele não estava calmo de jeito nenhum.
Como não estaria preocupado, se Jackal estivesse lá fora cumprindo uma missão tão importante? Mesmo com tudo planejado com antecedência, com ele organizando o evento especificamente para distrair os principais poderes e com Jackal podendo usar força suficiente para derrubar alguém do calibre de Julien, o Cardeal ainda se preocupava.
E se desse errado? E se Julien tivesse alguma carta na manga? Além disso...
Porém, suas preocupações duraram apenas alguns minutos.
Logo recebeu uma mensagem, e sua expressão relaxou completamente.
'Ele conseguiu...'
O Cardeal mal podia conter sua alegria.
Com Jackal tendo concluído sua missão, não demoraria muito para que a Igreja de Oracleus estivesse acima de todas as igrejas, inclusive da Mesa Redonda.
— Hahaha.
Ele de repente explodiu em risadas, olhando para todos com um sorriso sereno.
— Fico tão feliz em ver todos vocês nos perdoando assim. Agradeço de coração a cada um de vocês.
Suas palavras foram recebidas com vários comentários cordializados. Afinal, a Igreja de Oracleus era venerada. Não apenas tinha muita influência nos quatro impérios, como também era bastante forte.
Quem não gostaria de estar na sua boa graça?
Enquanto o evento prosseguia, Orson, junto de alguns delegados do Império Nurs Ancifa, apareceu no canto do local.
A atmosfera era descontraída.
Após a investigação da Saintess, eles entenderam que os representantes da Igreja de Oracleus eram inocentes e que os verdadeiros artífices do incidente eram outras pessoas.
Embora a investigação ainda estivesse em andamento, decidiram enviar alguns delegados ao banquete.
Por fim, eles tentaram salvar o Imperador.
— Está tudo bem?
No entanto, nem todos pareciam satisfeitos.
Sensível a algo, Orson voltou sua atenção para Délila, que estava sentada, com os olhos parecendo desconectados.
Ela segurava um copo, com os lábios rosados franzidos.
Embora parecesse igual de sempre, quem criou Délila desde pequena sabia que algo estava errado.
Para garantir, ele pegou um pedaço de chocolate e ofereceu a ela.
— Quer isso?
— ....
Ela nem sequer olhou.
Isso praticamente confirmou para ele que algo havia de errado.
Ele ia perguntar o que se passava na cabeça dela quando alguém de repente entrou correndo e sussurrou algo em seu ouvido.
Seu rosto imediatamente mudou de expressão.
— Essa informação é verdadeira?
— Sim, acabamos de saber.
— ...Entendo.
Orson fechou os olhos antes de direcionar sua atenção a Délila. Sentia-se compelido a contar-lhe, por ela estar relacionada diretamente às notícias.
— Délila.
Como se percebendo que algo estava errado, Délila virou o olhar para seu pai, com os olhos parecendo frios e desapaixonados.
Senti sua vontade, Orson não perdeu tempo: falou diretamente com ela.
— Um de seus cadetes foi atacado. Receio que tenha falecido.
Ao ouvir a notícia, as sobrancelhas de Délila franziu, mas as próximas palavras de Orson fizeram seu rosto mudar drasticamente.
— ...É o garoto da família Evenus.
Pum!
O copo em suas mãos se quebrou por completo.