Advento das Três Calamidades

Capítulo 598

Advento das Três Calamidades

O quarto dia do Congresso passou rapidamente.

Eu não consegui dormir sequer uma hora.

Meus pensamentos ficavam sempre voltando aos acontecimentos do dia anterior, e cada vez que isso acontecia, uma inquietação aumentava dentro de mim.

'Por que ela reagiu assim...? Quer dizer, ela estava presente. Quanto ela ouviu? Eu estava claramente brincando. Não achei que ela fosse reagir daquela forma.'

Meus pensamentos continuaram a girar a cada segundo que passava.

"....."

Levantei-me e olhei para o meu próprio reflexo no espelho.

Estava acabado. Uma das poucas vezes que me vi assim.

"Não posso ir assim."

Além disso, considerando que o evento começaria em uma hora, tinha que me arrumar rapidamente.

Mas era só isso...

Realmente não tinha vontade de ir. Todo meu corpo estava exausto, e só conseguia pensar em tentar encontrar uma maneira de esclarecer qualquer mal-entendido que tivesse acontecido.

Já perdi a conta de quantas vezes simulei o cenário na minha cabeça.

Cada vez... eu me via explicando claramente e com detalhes que a única razão pela qual mencionei estar tentado era por causa dos problemas que tinha com algumas pessoas da Igreja de Oráculo. Que eu realmente não tinha interesse.

....Não tinha.

'Sim, preciso deixar isso bem claro.'

"Aff."

Desarrumei meu cabelo antes de me inclinar mais perto do espelho do lavabo, encarando meu próprio reflexo.

"Por que estou pensando tanto? Isso devia ser fácil."

Estava agindo como um idiota à toa.

Respirei fundo e me acalmei. A falta de sono realmente estava começando a afetar meu raciocínio.

"Não há necessidade de pensar demais."

Delilah estaria no local do Congresso. Antes do início do evento, só precisava caminhar até ela e explicar as coisas.

No fim das contas, ela ainda era a Reitora da minha academia. Mesmo se eu fosse até ela, ninguém ia dar muita atenção.

"Sim, esse é o plano."

Olhei para o lavabo e lavei meu rosto.

Depois, dei uma beliscada nas bochechas e saí do meu quarto.

*

'Tá sempre lotado mesmo.'

Ao chegar ao Palácio Branquíssimo do Congresso, fui recebido por uma fila enorme de pessoas, todas esperando sua vez de entrar no local.

Considerando a quebra na segurança ocorrida, eles reforçaram ainda mais os procedimentos. Por isso, entrar demorou bem mais do que de costume.

'Ah, talvez eu devesse ter pedido ajuda ao Leon...'

Ele era príncipe, afinal.

Espera, Aofie também...

'Mas ela é meio inútil.'

"Próximo."

Por sorte, a fila andava rápido, e logo chegou minha vez. Fiz umas voltas enquanto verificavam meu corpo todo na revista, até finalmente me deixarem passar.

Fui recebido pelo mesmo salão familiar, e rapidamente examinei o ambiente em busca de Delilah.

'Ela deve estar por aqui em algum lugar.'

Por mais que olhasse, não conseguia achá-la. Dada a quantidade de gente, não era de estranhar, mas ela costumava se destacar tanto que quase parecia impossível não vê-la.

Na verdade, sua presença geralmente provocava uma reação tão forte quanto a da Saintess no primeiro dia em que apareceu.

'Será que ela ainda não chegou, ou está mais dentro do palácio?'

Olhei ao redor antes de avançar mais fundo, em direção ao salão principal, onde já havia várias pessoas.

"Ah."

E logo, a encontrei.

De pé na frente do pai, parecia estar conversando com alguns outros presentes.

Sorri aliviado ao vê-la.

Pelo menos, olhando para ela, parecia normal — como se o que aconteceu no dia anterior nunca tivesse acontecido.

Estava prestes a me aproximar quando uma voz conhecida chegou até meus ouvidos por trás.

"Ora, ora..."

Era uma voz irritante. Um quebrou minha expressão de desgosto quando me virei para ver um par de olhos cinzentos ao longe.

Parei no ato em que percebi quem era.

'Que diabos...?'

Leon caminhou em minha direção, vestido com um traje preto extremamente luxuoso, decorado com detalhes dourados complexos que, provavelmente, custaram uma pequena fortuna. Cada passo seu parecia chamar atenção de todos ao redor; ao parar diante de mim, cobre minha boca com as mãos.

"Meu Deus."

"Impressionante, né? Essas roupas—"

"E eu aqui pensando que você não podia ficar mais idiota. Caramba, agora nem sei se você é simplesmente burro ou se realmente é um idiota."

"....."

Leon olhava para mim com um olhar de puro ódio, como se fosse um assassino.

"Você vai me perdoar—"

"Não vem com esse papo furado. Os dois sabemos que você não pode me executar. Seria uma confusão diplomática."

"....."

De assassino a serial killer.

Os olhos dele mudaram demais.

Olhei para ele de cima a baixo.

"Bem, pelo menos parece que estão te tratando bem."

"Haa."

Leon suspirou, coçando a nuca. Parecia preocupado.

"...Não apenas um pouco. Está a ponto de ser desconfortável."

"Posso imaginar."

O Imperador e a Imperatriz provavelmente estão se esforçando ao máximo para compensar os anos que passaram sem Leon.

Nem dava para culpá-los.

Mas isso já não importava.

Virei-me e olhei na direção de Delilah, que ainda conversava com as mesmas pessoas de antes.

"Acho que nunca vou me acostumar com essa vida. Quando acabar, vou voltar com você disfarçado. Foi essa a sugestão, especialmente com o caos no Império agora que fui anunciado publicamente."

"....Ah, claro."

Minha atenção, porém, permanecia totalmente focada nela. Tentava encontrar o momento certo para me aproximar e conversar.

"A única questão é que provavelmente não serei mais seu cavaleiro."

"Parece ótimo. Apoio você."

"Sério...?"

Leon quase parecia emocionado. Mas, ao mesmo tempo, parecia perceber que algo estava errado.

"Espera aí, você não está bem? Aconteceu algo enquanto eu não estava?"

"Isso é ótimo. Sempre soube que você conseguiria."

"....."

"Legal, bem legal."

"....Ontem a academia explodiu. O que você acha disso?"

"Isso é totalmente absurdo."

"Todos na academia morreram, inclusive seu irmão."

"Minhas condolências."

"...Minha cara não parece—"

"Sim, completamente."

"Você—"

"Desculpe, tenho que ir."

Ao ver as pessoas se afastando de Delilah, aproveitei para me distanciar de Leon e seguir em direção a ela.

"Hoo."

Respirei fundo enquanto avançava na direção de Delilah.

'Não é grande coisa. Só preciso esclarecer o mal-entendido. É isso.'

Não era um mal-entendido difícil de resolver. Tudo que tinha que fazer era dizer que estava brincando e que não ia me casar.

Quando cheguei perto dela, meti a mão no bolso, os dedos tocando na barra do chocolate que guardara para ela.

Em pouco tempo, alcancei seu lado, e, com as costas voltadas para mim, hesitei. Foi nesse instante de pausa que uma cabeça se virou e me percebeu.

"Ah, você é familiar."

Meu estômago virou ao ver o chefe do Centro me cumprimentar, seu cabelo branco, bem penteado, preso em um rabo de cavalo, enquanto Delilah, finalmente, voltou o rosto e percebeu minha presença.

Nossos olhos se cruzaram por um instante enquanto eu abria a boca para falar, mas ela foi interrompida por seu pai.

"Você causou uma grande confusão ontem. Surpreendo que tenham até te deixado entrar hoje."

"...Tive sorte, acho."

Respondi educadamente, dirigindo-me a Orson. Ele era não só chefe do Centro, como também duque. Não tinha escolha senão ser cortês.

"Sorte...? "

Orson me olhou com um brilho estranho nos olhos.

"Talvez, mas você parece ter ligações bastante intrigantes. Lembra-me seu pai."

"De verdade?"

Reflito sobre o chefe da família e quase balanço a cabeça.

Eu não sou nada parecido com aquele homem.

"Falando em seu pai, percebo que ele não está aqui. Aconteceu alguma coisa? Ouvi dizer que a situação aí está bem complicada. E quanto a..."

O duque era especialmente tagarela. Mudava de assunto o tempo todo, tornando quase impossível eu conseguir conversar com Delilah, que permanecia ao lado com uma expressão que não consegui interpretar.

Olhei para o relógio e vi que o congresso logo começaria. Percebendo que meu tempo estava se esgotando, me preparava para falar quando Orson de repente mencionou um acontecimento passado.

"Ah, é verdade."

Orson sorriu e olhou para Delilah.

"....Não te contei sobre aquele incidente antes? Sobre como quem queria se casar com você?"

O duque riu de repente, olhando para mim.

"Sei que era só uma desculpa pra fugir de qualquer compromisso, mas ainda dou risada toda vez que lembro de como você mencionou a Delilah—totalmente sem saber quem eu realmente era."

"Ah, sim..."

Ele parecia se divertir bastante com a situação, virou-se para Delilah e deu uma risadinha brincando.

"E aí, o que acha dele? Você rejeitou todos os seus pretendentes até agora. Consideraria ele como seu noivo?"

Embora tenha dito na brincadeira, meu coração acelerou ao virar para ela — que finalmente virou a atenção para mim.

O que ela ia dizer? Esqueceu o que aconteceu ontem? E—

"....."

Todas as ideias sumiram da minha cabeça no instante em que nossos olhos se encontraram.

Nesse momento, percebi o olhar que ela me lançou.

Era... o mesmo que ela dava a todos os outros com quem tinha interagido antes.

Afastamento.

E como se isso não fosse o bastante, seus lábios lentamente se abriram, e uma voz suave sussurrou ao vento.

"...Isso é impossível."

E aquilo...

Doía muito mais do que eu imaginava.

Especialmente por me fazer perceber... o quanto eu tinha me apaixonado por ela.

Comentários